Por Ale Esclapes - Donald Meltzer definiu de uma forma muito particular a perversão na psicanálise, e John Steiner seguindo seus passos fez uma excelente contribuição à psicanálise ao se inspirar em Bion. Esses três autores nos legaram uma nova interpretação do mito de Édipo – este mito seria menos sobre desejos que sobre verdades. Todos na peça sabiam da profecia, todos a viram serem cumprida, mas até que a situação estivesse em uma situação insuportável, todos agiam “como se” ela não existisse. Será que Jocasta não sabia que estava destinada a casar com um homem mais novo que seria seu filho? Édipo não sabia que mataria seu pai? Sim, todos sabiam, o que não impediu o destino de se cumprir. Mas todos agiram “como se” não soubessem. E essa seria para esses autores, a forma básica do pensar perverso – agir “como se” a verdade não existisse. E o que vemos hoje em relação às mortes com as chuvas é pura perversão. O governo age como se não fosse sua responsabilidade fazer cumprir a lei de ocupação de solo. Como se não fosse sua obrigação retirar as famílias que invadem áreas de risco, não importando sua classe social. Como se não tivesse feito promessas na inundação do ano passado, e do outro, do outro, etc ... A população age como se não soubesse que construir casas ao lado de córregos e rios não fosse perigoso. Se espantam quando rios transbordam, porém jogam lixo indiscriminadamente em qualquer local, como se esse lixo não retornasse na forma de inundações e doenças para os mesmos. Constroem casas constantemente em locais de risco como se isso não fosse de sua responsabilidade. E no final de tudo termina como no mito de Édipo. O governo nega tudo até não ter mais alternativa, a população se coloca no papel de vítima como o povo em Tebas. Por fim todos somos devorados pela Esfinge. E daqui algum tempo, tocaremos nossas vidas como se nada disso tivesse acontecido e não fosse acontecer novamente.
Por Andreia Rodrigues dos Santos - Por volta dos 03, 04 anos a criança já teve experiências de perder objetos que achava vitais em sua vida, ou seja, a criança edipiana é perfeitamente capaz de se representar à perda de um objeto que lhe era importante e temer que isso se repita. Nessa fase o prazer do menino já é voltado para o pênis. Representante do desejo o pênis é então dito falo. Falo não é o pênis enquanto órgão – falo é um pênis fantasiado, idealizado, símbolo da onipotência e de seu avesso, à vulnerabilidade. - Os três desejos incestuosos: Quando o menino se vê excitado sexualmente e orgulhoso de seu poder, esse menino de 4 anos se vê desejoso de ir de em direção ao Outro, em direção aos seus pais (ou tutores). Sexual, quer dizer mais que genital, sexual quer dizer: ‘Deixa-me olhar teu corpo nu! Arranca-lo, senti-lo, beija-lo, devora-lo e ate mesmo destruí-lo. A criança deseja os corpos daqueles que ama: o pai, a mãe, o adulto tutelar; numa tentativa infantil de realizar em desejo incestuoso irrealizável, cujo objetivo não é o prazer em si, mas o gozo – o gozo nesse termo seria a fusão total. No desejo incestuoso mítico no menino (desejo de possuir o outro, desejo de ser possuído pelo outro e desejo de suprimir) o menino cria fantasias que lhe dão prazer ou angustia, mas que satisfazem imaginariamente seus loucos desejos. A fantasia tem como função substituir uma ação ideal que tenta proporcionar um gozo não humano por uma fantasia que baixa a tensão do desejo e suscita prazer, angustia ou ainda outros sentimentos penosos. A queda da tensão psíquica também pode se traduzir por um sofrimento consciente. As sensações despertam o desejo, o desejo remete à fantasia e a fantasia se atualiza através de um sentimento, um comportamento ou uma fala: dai entra a análise. Vamos as fantasias: fantasia de possuir o outro: fantasia de possessão, Ex: apoderar-se da mãe e tê-la só para si; fantasia de ser possuído pelo outro: criança tornar-se objeto (criança imagina-se possuído – a criança seduz para ser seduzida e na fantasia se isso prevalece causa uma histeria masculina difícil de ser tratada chamada de pedra de castração; fantasia de suprimir o outro: tomo pra mim. - As três fantasias de angustia de castração: as fantasias de prazer também desencadeiam profundas angustia – o menino tem ser punido – seu maior medo é perder o falo que ele tem- essa angustia é inconsciente, ela nunca deixa de ser inconsciente. A angustia é o avesso do prazer, apesar de indissociáveis. A castração é tudo aquilo que me tira o prazer, é a frustação. O Édipo mal resolvido suscita as neuroses adultas, a evitação da castração causa neuroses, tiques, manias, perversões. A angustia de castração e o seu retorno como recalcado na vida a adulta é a medula espinhal da neurose masculina. O prazer e o medo de ser punido esta na base dessa neurose, logo o Édipo é uma neurose. O menino ao ver o corpo nu de uma menina percebe que ela não tem um pênis, com isso o menino acha que a menina fez algo e perdeu seu pênis, desde então o menino deve com medo de perder o seu também, logo ao inverso da fantasia de prazer, tem-se as três fantasias de angustia: se a angustia é possuir a mãe= o pai pode castrar (pai repressor); se a angustia de prazer é de sedução (de ser possuído pelo outro) – pai sedutor castra. O pai é um amante que o menino deseja – o castrar aqui significa perder a virilidade, tornando-se mulher objeto do pai; se a angustia de prazer é uma fantasia de afastar o pai rival – a ameaça incide novamente no pênis-falo (pai odiado). A resolução do complexo de Édipo no menino: a dessexualização dos pais: angustiada, a criança se esquiva dos pais para manter seu pênis-falo. É o pênis que ele protege e é a mãe que ele abandona. Ao renunciar a mãe, dessexualiza globalmente os dois pais, e recalca os desejos, fantasias e angustias. Aliviado, pode agora abrir-se á outros objetos de desejo, mais legítimos e adaptados as suas possibilidades reais. Para o homem, o sexo, a virilidade e a força são coisas a serem defendidas a todo custo, e quando esse complexo mal resolvido retorna como neurose, a culpa e o medo colocam o homem numa posição onde as possibilidades permeiam ao pai castrador, ao pai rival e ao pai odiado. Os frutos do Édipo: o supereu e a identidade sexual: o supereu é instituído graças a um gesto do psiquismo: o menino abandona os pais como objetos sexuais e os mantem como objetos de identificação. Na impossibilidade de tê-los promete ser como eles, e os sentimentos que exprimem são pudor, senso de intimidade, vergonha e delicadeza moral.
Por Paula Carosio Araújo Saldanha - Venho elucidar o que aprendi com o tema “Édipo do Menino” estudado no livro de J.D. Násio- Édipo o Complexo do qual nenhuma criança escapa”, e mais, como devemos aplicar esse conhecimento na prática clínica. Com a leitura da primeira parte do livro o qual trata-se especificamente do menino, vi o quanto é importante o entendimento de todo o Complexo de Édipo vivido por uma criança para que possamos analisar nossos pacientes na vida adulta. O édipo portanto, sendo essa chama de sexualidade vivida por uma criança em relação aos seus pais, a matriz da identidade sexual que será definida na crise edipiana; a base da neurose infantil e modelo para todas as neuroses adultas, é essencial para toda organização dos conceitos psicanalíticos, é o conceito soberano. Sabe-se que para os meninos o pênis, por volta de seus três a quatro anos, é seu objeto mais amado e precioso, motivo pelo qual também representa seu órgão mais frágil e temido. Todo esse poder, vulnerabilidade e fraqueza, denomina-se o nome de “Falo”. Se desde a infância o menino teme a perda desse objeto/Falo essencial para ele, Násio irá traz nesse livro, portanto que a capacidade da criança de entender a perda de algo tão importante, de entender a falta são indispensáveis para a compreensão de como se formam a fantasia de angústia de castração no menino e como ele sairá do Édipo. Quando se pensa em alguns casos clínicos verifica-se que o Édipo está presente em 90% dos casos. Em participações a grupo de estudos e grupos de discussões de casos clínicos sobre as neuroses adultas vemos a importância que se faz do Falo para o paciente masculino. Toda a relação de poder, seja no trabalho, seja para com a mulher e filhos ou até em relacionamento com amigos, o homem tem a necessidade, um desejo operante em suas vidas. Esse desejo Násio classificou em desejo de possuir, ser possuído ou suprimir o Outro. E o descreve como os três desejos incestuosos: “O desejo virtual, nunca saciado, cujo objeto é um dos pais e cujo objetivo seria alcançar não o prazer físico, mas o gozo.” Posteriormente aos desejos, Násio descreve as fantasias de prazer como uma ação que baixa a tensão do desejo que suscita prazer ou angústia. Essas fantasias se tornam uma proteção, nem sempre prazerosa, porém com uma função de descarga para que outro mal pior não apareça. Observa-se que essas fantasias ocorrem diariamente na vida dos pacientes e nós, analistas, temos que reconstruir as cenas fantasiadas. Sendo que cada desejo incestuoso irá corresponder a uma fantasia de prazer específica. A fantasia de possessão corresponde ao desejo de possuir o outro; a fantasia de ser possuído que obviamente corresponde ao desejo de ser possuído pelo outro, é uma fantasia de sedução, inclusive causa de histeria masculina; e por fim a fantasia de suprimir o Outro, o sujeito fantasia com a destruição do outro provocando grande prazer sexual. Chegamos agora na angústia de castração, mais frequente e mais visivelmente observada em consultório. Todas as fantasias citadas acima causam grande prazer, porém podem desencadear uma grande angústia. A angústia de ser punido com a mutilação do Falo inconsciente é manifestado na criança através de medos e pesadelos. Essa angústia de castração Násio diz ser a medula espinhal do psiquismo do homem. Essa angústia é o avesso do prazer, portanto todo homem vive um conflito entre prazer e medo de punição. Esses sentimentos são base de todas as neuroses. As três fantasias de angústia de castração consequência aos desejos e fantasias são: o pai é um repressor temido; o pai é um tarado temido; o pai é um rival temido. Essa angústia será recalcada na infância e veremos que a neurose na idade adulta é o retorno da angústia de castração mal recalcada na infância. Nas sessões analíticas foi observada que de uma maneira geral que os homens vivem esse conflito com perda do poder que julga possuir. Quando os pacientes trazem problemas de trabalho, relacionamentos é visível essa disputa e medo de perda do Falo. E quando ficam preocupados com essa disputa ou perda, acabam negligenciando outras coisas mais importantes e necessárias em suas vidas. Existe duas consequências de todo esse processo vivido no Complexo de Édipo pelo menino; a formação do supereu e a confirmação de uma identidade sexual. O supereu é formado no momento em que o menino percebe que não pode ter os pais escolhe ser como eles, em seus ideais, fraquezas e ambições. Na fase adulta do homem observamos sua moral, intimidades e todos os seus sentimentos refletidos desde a formação do seu supereu. A identidade sexual é forjada ao mesmo tempo descobrirá a masculinidade e a feminilidade que não necessariamente correspondem à realidade fisiológica e anatômica de um homem e de uma mulher. Concluo dizendo novamente a importância do entendimento do Complexo de Édipo no menino para entendermos o adulto e suas neuroses, angústias, frustrações. Como é vivido a angustia de castração e seu recalcamento em cada paciente é essencial para uma analise eficaz de um psicanalista.
Afinal, como se forma um psicanalista? Quais são os critérios? O que é um psicanalista? Qual a diferença entre psicanálise, psicologia e psiquiatria? Esse evento foi para você que não tem nenhuma informação sobre essa área, ou que já fez uma pesquisa e não entende as razões de uma Formação em Psicanálise ser oferecida por instituições com investimento total que pode superar R$ 500 mil e ter duração de 10 anos, e outras com valores que chegam a ser oferecidos em até 12x de R$99,00 com duração de seis meses. Nesse encontro vamos abordar esses e outros temas ligados a formação do analista. Data/horário: 20/02/2024 (terça-feira) 20hs Convidados: Lilian R. Afonso e Débora Matzenbacher - São psicanalistas, membros efetivos da EPP-Escola Paulista de Psicanálise e do Instituto Ékatus. Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas. Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Ale Esclapes; Adriane Watanabe; Fernanda Hisaba; Giuliana Sagulo; Lilian Afonso e Mauro Costa. Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento. _______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
O conceito mais básico de objeto é de representação de coisas – Consiste num investimento, se não de imagens mnésicas mas afastadas, derivados dela. Deriva da coisa essencialmente visual, percebida pelo inconsciente. (Laplanche e Pontalis – Dicionário da Psicanálise). A representação de coisas pode ser exemplificada como um ator, enquanto a phantasia uma peça de teatro. Como mecanismo de defesa, a cisão vem separar objetos bons e maus. O neurótico e borderline apresentam uma dissociação, sendo esta na verdade uma cisão que evoluiu atingindo o valor simbólico. Agora, os objetos já simbolizados podem ser separados. Exemplo: Seio bom/ Seio mau. Nessa fase, somente existe o “ou”. Exemplo: O pai é bom ou mau. Ainda não ocorreu a evolução para o “e’, onde o mesmo objeto torna-se bom e mau. No processo de cisão, ocorre um processo de integração entre psique, soma e meio ambiente. A cisão ajuda a organizar o que antes estava desorganizado, separando o bom do mau, e mais adiante vai evoluir para a ambivalência, passando então a existir o “e”, aplicando-se ao mesmo objeto: Seio bom e mau. A phantasia tem força de realidade. Klein aponta para os objetos reais e imagos irreais vivendo lado a lado na criança pequena. “Esses objetos reais e irreais são vivenciados ao mesmo tempo; são excessivamente objetos bons ou maus, mas num plano diferente”.(Melanie Klein – Psicanálise de Criança- Cap. IX - pg171). Os objetos maus serão sentidos como ameaçador e perseguidor. Na cisão, o ego divide os objetos e assim modifica o medo que sentia do superego, modificando-o, projetando-o para um objeto externo. “Certas pessoas assumem o objeto ameaçador; a mãe assume o papel de objeto protetor”. (Melanie Klein – Cap. IX - pg173– Psicanálise de Criança). Existe uma relação entre o conceito de neurose e introjeção e identificação. Na introjeção, eu tenho a representação de coisas como objeto. Diante deles, o ego tentara suprimir (destruir, projetar) ou possuir estes objetos onipotentemente, em uma tentativa de conservar seu narcisismo primário. Entendemos por introjeção uma incorporação. O bebê vai introjetar tudo aquilo que é bom e projetar no meio tudo o que é mau. Uma boa mãe introjetada ajudara na formação de um objeto bom, enquanto seus medos e ansiedades podem ser expelidos para objetos externos, como por exemplo as fobias. Logo, objetos externos podem se tornar perseguidores e maus. Nesta fase, se as imagos boas protetoras (objetos bons) não forem suficientes para contrabalançar esta relação entre imagos boas e más, a criança sofrerá uma perseguição paranoica. Klein define fobia como medo de sua própria pulsão destrutiva e dos seus pais introjetados, e a ansiedade fóbica surge quando seu objeto é percebido. Em relação às imagos introjetadas, em sua phantasia o bebê ataca o corpo de sua mãe e posteriormente vai ter medo da retaliação contra seu corpo por parte dessa mãe má interna. Essas ansiedades são sentidas dentro do corpo, logo, é em seu interior que as restituições devem ser feitas. Porém, não se pode ter certeza quanto às destruições causadas e as reparações feitas ao corpo da mãe. Estas duvidas dão origem as necessidades compulsivas de arrumar aquilo que foi desarrumado, criando para isto regras e manias compulsivas. É essencial que se arrume aquilo que foi estragado. “No neurótico obsessivo, a coerção infligida contra outras pessoas é o resultado de uma projeção multiforme: Tenta se livrar da compulsão intolerável que esta sofrendo – trata seu objeto como se fosse o id ou seu superego e deslocando a coerção para fora; Assim, satisfaz seu sadismo – atormenta e subjuga seu objeto; Esta pondo para fora em seus objetos externos, seu medo de ser destruído por seus objetos introjetados. Esse medo despertou nele uma compulsão de controlar e governar suas imagos” – (Melanie Klein – Cap. IX – pg186- Psicanálise de Criança). Se tudo deu errado e o objeto causador de ansiedade continua muito presente, a criança então vai se identificar com ele – tornar-se igual a ele, buscando assim não ser destruído por este objeto. O problema nessa identificação é que a criança se torna então igual a sua mãe, porém ela não é sua mãe. No entanto, nasce um registro que dita “você tem que ser igual a sua mãe”. Assim, esse registro é o que entendemos por superego. Logo, ao final de toda identificação, nasce o superego.Este registro que aponta e diz para o ser que ele tem que ser igual a sua mãe, entendemos como ideal do ego (aquilo que esperam que eu seja). Toda identificação possui um superego embutido. A criança não é a mãe, mas "tem que” ser. Todo ser humano introjeta (psicose) e depois se identifica (neurose) com seus objetos. “A neurose obsessiva é um meio de modificar situações de ansiedade arcaicas e que o superego severo da neurose obsessiva não é outro senão o superego aterrorizador não modificado”. (Melanie Klein – Cap. IX – pág. 184– Psicanálise de Criança). A repressão começa na primeira identificação (antes da fala); Aqui começa o processo simbólico. No entanto, a mãe não resolverá o problema do bebê. A plenitude não será alcançada através da mãe. Um terceiro elemento surge como promessa de alcançar a plenitude – O falo (tudo aquilo que não é minha mãe, mas esta possui); Ao final da posição depressiva, o bebê deve ter um registro do seio, ideal do ego e do falo. Como herdeiro do narcisismo do bebê, o falo agora é aquele que resolverá todos os seus problemas, e o lançara em direção à plenitude, tendência da pulsão de morte. Inicia-se o processo de simbolização com palavras. Primeiramente, o bebê nomeia o falo como leite, depois coco, depois chocalho até finalmente chegar no pênis. Os mesmos desejos anteriores de suprimir, possuir e identificar, surgirão novamente agora em relação ao falo. A relação antes vivida a dois, passa agora a ser formada pelo triangulo – bebê / mãe / falo. Como o bebê já passou anteriormente pelo processo de suprimir, agora ele vai diretamente para o “possuir”. Logo, em sua phantasia, ele possuiu o falo. Sente-se potente internamente, detentor do seu próprio herdeiro do narcisismo. Do ponto de vista corporal, começam a surgir estímulos das zonas erógenas, ganhando primeiro plano os genitais. O que antes era objeto de amor, agora é ressignificado, tornando-se objeto sexual – epifania sexual. Os pais tornam-se objetos sexuais. Logo, a partir do seu desejo sexual, o bebê deduz que seus pais também sentem este desejos e prazeres, começando a entender que o mundo é feito de objetos sexuais. Os pais tornam-se “seus” objetos sexuais. Surgem duas mães distintas: aquela que alimenta, dá o leite, carinho, ou seja, uma mãe assexuada, e uma mãe aquela que é objeto sexual. Um fator importante acontece para tornar este novo cenário confuso. As crianças descobrem as diferenças sexuais. A partir de agora, não é mais um ser único. O cenário enlouquece. Inicia-se o édipo e a castração. No menino, tal processo se dá da seguinte forma: suas sensações erógenas do pênis apontam para sua mãe. No entanto, esta pertence ao pai, que também possui um pênis. A confusão se dá pelo fato da mãe seduzir a criança a deixar a masturbação e de certa forma se oferecer como objeto de desejo. Porém, a figura do pai aparece e impede a realização desse desejo. Assim, a criança fica em um estado confusional. Não pode se masturbar, e não pode desejar a mãe. Logo, a pedra de toque da neurose está exatamente neste ponto, onde uma espécie de promessa é formulada da seguinte maneira: “Se você (bebê) esperar uns dez anos para se resolver, eu vou te amar”. Assim, se o bebê fizer esse sacrifício, será amado pelos pais. A mãe se coloca diante do bebê como se dissesse: não me tome como objeto de desejo, mas sim de amor. em relação ao pai, a criança pode suprimir, possuir ou identificar-se com este opositor. Sua identificação poderá ser de duas formas: coito ativa/passiva e tornar-se igual. O menino também entra em uma simbiose com o pai, desejando devora-lo e ser devorado, dar e comer, e este desejo gera a principal angustia do Édipo – desejar o pai... O genitor do mesmo sexo torna-se o maior problema do édipo. Ao final do Édipo, os pais serão dessexualizados, porém a angustia não cessará, mas será adiada. O menino tem o falo, identificou-se com o pai. Prefere o falo (aquele que lhe dará a esperança de retornar à plenitude) à sua mãe. Sua grande angustia de castração é perder este falo (perder o narcisismo), a perda da autoestima.
Por Janete Vilella - A Psicanálise é um termo que serve para se referir a uma teoria, a um método de investigação e a uma prática profissional (clínica). No desenvolvimento da Psicanálise, Freud produziu tudo isso ao mesmo tempo. Porém, ela é, antes de tudo, um método, um instrumento de pesquisa, sendo que a obra mais importante e decisiva na sua historia, é a “Interpretação de Sonhos”, exatamente por estar voltada para o estudo de problemas clínicos. A grande originalidade de Freud foi valorizar os sonhos como possibilidade de conhecimento do inconsciente. Freud tinha como objetivo demonstrar que os sonhos podiam ser interpretados ou seja, que os sonhos tinham um “sentido”. Para Freud, os sonhos, juntamente com os atos sintomáticos, os esquecimentos, os lapsos, os chistes, são fenômenos dotados de “sentido”; não ocorrem ao acaso e são ótimos meios de se chegar aos processos inconscientes. Sabia que estava contra a corrente da ciência do seu tempo, que acreditava que os sonhos não eram um ato mental e sim um processo somático, ou seja, o sonho acontecia motivado por indicações registradas no aparelho mental. Freud sabia que fora da ciência acreditava-se que havia no sonho um sentido oculto e que esse interesse popular pelo sonho e por sua interpretação vinha desde o mais remoto tempo, sendo que para interpretá-los dois métodos eram usados: 01-Simbólico: em que o sonho é analisado em seu aspecto geral, sendo o conteúdo confesso mudado para um outro de igual teor, inteligível. 02-Decifração: em que o sonho é analisado, não em seu aspecto geral, mas em cada um de seus componentes, ou seja, cada parcela do conteúdo dos sonhos. Quanto mais Freud se empenhava em estudar seus casos clínicos, mais profundamente observava a influencia que os processos inconscientes tinham na vida das pessoas. Percebeu que seus pacientes ao falar sobre seus problemas, contavam também os seus sonhos. Esses relatos lhe mostravam que, ao rastrear a trilha que levaria ao sintoma, podia-se seguir uma ideia patológica e o sonho fazia parte dessa cadeia psíquica. O sonho poderia ser tratado como um sintoma, portanto, poder-se-ia aplicar ao sonho o mesmo método de interpretação criado para os sintomas. Ficou claro para Freud que os sonhos realmente tem um sentido e que é possível ter-se um método científico para interpreta-los. Acabara de encontrar a chave para chegar aos conteúdos mais reprimidos do indivíduo. Percebeu o mestre que, ao narrar seus sonhos o paciente deixava de ter uma atitude crítica sobre o que falava ou pensava. Assim, duas mudanças muito importantes aconteciam durante a narração do sonho: Havia um aumento da atenção que o paciente dispensava as suas próprias percepções psíquicas e, a eliminação da crítica pela qual ele filtrava os pensamentos que lhe ocorriam. Dessa atitude do paciente, percebeu Freud, dependeria o êxito do tratamento psicanalítico. O método de interpretação de sonhos de Freud era diferente do método simbólico e, embora se aproximasse do método da decifração tem sobre ele diferenças profundas. Embora analise os sonhos em suas várias partes, como um conjunto de informações psíquicas, não tem, como na decifração , um código fixo para cada parte do sonho. Pelo contrário, Freud constatou que cada parcela de conteúdo variava para cada pessoa e cada contexto. Seu método, portanto, era interpretativo / associativo. Associativo por que se formava uma cadeia associando as representações verbais. Mas, foi ao analisar seu próprio sonho, no qual aparecia Irma, sua paciente, que Freud percebeu que os sonhos são a realização de desejos e que todo desejo é representado por uma forma verbal. No sonho, os desejos não são descarregados na ação e sim satisfeitos de forma alucinatória. Freud chamou a esses sonhos sem conflitos, de sonhos infantis. A partir dessa constatação, Freud começa a desenvolver a noção de censura, de repressão, recalcamento, considerando essa última como um dos pilares da Psicanálise.
Por Ale Esclapes - Freud nos ensina que o amor paterno/materno é baseado no que ele chamou de “forma narcisista de amar” o que significa que os pais amam os seus filhos a partir do que eles são, foram ou gostariam de ser. Em outras palavras é um amor egoísta, sendo uma visão bem menos romântica que o conceito de "Família Doriana". E o que acontece quando os filhos não correspondem a essa expectativa egoísta dos pais? O que é realmente aquilo que costumamos chamar de “amor materno/paterno”? Em um livro corajoso e emocionante Andrew Solomon nos traz um retrato de famílias onde o filho é um fruto que caiu muito Longe de sua Árvore. Nele, o autor investiga famílias cujos filhos são surdos, autistas, anões, gays, etc... e propõem essa discussão em um patamar realista, mostrando as dificuldades tanto do lado dos filhos quanto da família. O primeiro capítulo faz uma investigação teórica sobre o que envolve esse contexto, mas ao mesmo tempo mostra toda a discussão para o aspecto cotidiano a partir da experiência do próprio autor, que é judeu e gay. Nos demais capítulos traz depoimentos de diversas famílias que lidam diariamente com seus filhos. Um livro que vai além dos aspectos técnicos, tanto psicológicos quanto políticos, recolocando a discussão no que tem de mais humano – os desafios e cotidianos dessas famílias e nos mostra uma real dimensão do que a palavra “diversidade” significa.___________Autor: Andrew SalomonEditora: Companhia Das Letras
Por Ale Esclapes - Inveja é um sentimento que nos impede de ter acesso às coisas boas da vida. Ela é prima do orgulho. Juntos nos isolam das pessoas queridas, nos jogando em uma solidão muitas vezes insuportável. O invejoso não consegue reconhecer as coisas boas que outra pessoa pode dar, e muitas vezes responde com agressividade e destruição com aqueles que podem ajudá-lo, ou possuem algo que lhes dá admiração. No fundo da inveja existe uma profunda baixa estima, encouraçada por um orgulho que visa a fornecer uma ilusão de onipotência. Essas pessoas se consideram as melhores, o que fazem geralmente é espetacular, e acreditam que tudo o que tocam viram ouro. São pessoas normalmente classificadas como orgulhosas, arrogantes, onipotentes, e ... solitárias. Inveja é diferente de cobiça. Na inveja, por exemplo, deseja-se aquilo que o outro tem e que eu admiro, mas de uma maneira muito particular: se eu tenho uma roseira bonita, o invejoso deseja a MINHA roseira, ou deseja que a roseira MORRA, para ninguém tê-la. Aquele que cobiça, deseja ter UMA roseira, mas não a minha. De uma forma geral: o invejoso deseja aquilo que eu tenho de bom, ou destruir o que eu tenho de bom. Aquele que cobiça deseja algo igual ao que possuo, mas não exatamente o que possuo. A gratidão, ao contrário da inveja, é um sentimento que permite que se tenha acesso às coisas boas do outro. Aquele que é grato reconhece no outro algo que falta em si, e nem por isso tem uma baixa estima. Muito pelo contrário. Feliz aquele que sabe suas faltas e sabe buscar isso no outro, mas não de uma forma destrutiva, mas como resultado das trocas normais de um relacionamento. Quando nos relacionamos em sociedade, no trabalho, num namoro ou casamento buscamos que os outros nos complemente em nossas faltas básicas. Podemos nesse sentido entregar para o outro o fruto de nossos dons que podem cobrir a falta do outro, e o outro, da mesma forma conosco, tornando a vida mais feliz. Um exemplo simples seria um casal em que um é desorganizado e decidido, e o outro, organizado e indeciso. Juntando tudo, temos um bom casal, desde que haja respeito mútuo em relação às diferenças. Nesse caso pode aparecer a gratidão. O invejoso não consegue isso, pois no caso do casal acima, não poderia haver troca. Caso o desorganizado seja o invejoso, esse procurará usufruir da organização do outro sem nada entregar em troca. E em uma ocasião muito comum, ele procurará exigir mais do que o outro pode dar. A partir daí ele pode anular tudo o que o outro tem de bom. Essas relações desagregam. O mundo é um farto banquete a nossa disposição. Quando não conseguimos usufruir dessas coisas boas, a inveja muitas vezes é a vilã dessa situação.
Por Alê Esclapes - Em psicanálise o conceito de inconsciente esta intrinsecamente ligado ao conceito de memória. A repressão é o que acaba por organizar essa ligação. Em um dos mais importantes artigos sobre técnica já escritos, Freud trabalha bem esse tema em Recordar, Repetir e Elaborar, de 1914. Mas a memória não é composta apenas de material reprimido. No “projeto para uma psicologia científica” de 1895 Freud nos dá uma ideia de memória como armazenamento – a informação estaria guardada a espera de ser reutilizada pelo aparelho psíquico, e daí surgiram conceitos como facilitação e barreira de contato. Bion seguindo Freud vai nos dizer que a memória é o desejo olhando para trás. Quando lembramos de algo, fazemos uma seleção de dados afim de construir o que chamamos de memória. Daí sua recomendação técnica – que o analista trabalhe sem memória e sem desejo – o tecnicamente seria a mesma coisa. Mas vamos para um exemplo mais simples. Sabe aquela praça enorme que você brincava quando era criança? Lembra daquele amigo que não vê faz 20 anos? E que quando você volta aquela praça e revê seu amigo toma um susto – no caso da praça era nem é tão grande assim, e seu amigo agora é careca e barrigudo? O que será que acontece nesses casos? Será que somos traídos pela memória? Talvez não, talvez precisamos ver que a memória precise de atualização. É um conceito muito parecido com o de recordar no artigo já citado de Freud, mas de uma forma muito mais ampla. Nossa memória simplesmente não se atualiza sem estímulos esternos. Nossas lembranças ficam congeladas, imóveis, guardadinhas, independente de princípios de prazer, repressões, etc ... Qual seria a utilidade disso? Do ponto de vista técnico ampliar a discussão sobre o recordar, e quem sabe universalizar esse conceito para outras idades do desenvolvimento humano que não apenas a primeira infância, sem claro desmerecer a importância dessa fase. Do ponto de vista pessoal, é saber que sem cultivar nossos relacionamentos eles podem estar sendo condenados a um congelamento, e que em caso de descongelamento, não sobrevivam a essa criogenia.
Por Ale Esclapes - Foi um psicanalista francês. Formado em Medicina, passou da neurologia à Psiquiatria, tendo sido aluno de Gatian de Clérambault. Teve contato com a psicanálise através do surrealismo e, a partir de 1951, afirmando que os pós-freudianos haviam se desviado do sentido da obra freudiana, propõe um retorno a Freud. Para isso, utiliza-se da linguística de Saussure (e posteriormente de Jakobson e Benveniste) e da antropologia estrutural de Lévi-Strauss, tornando-se importante figura do Estruturalismo. Posteriormente encaminha-se para a Lógica e para a Topologia. Seu ensino é primordialmente oral, dando-se através de seminários e conferências. Em 1966 foi publicada uma coletânea de 34 artigos e conferências, os Écrits (Escritos). A partir de 1973 inicia-se a publicação de seus 26 seminários, sob o título Le Séminaire (O Seminário). Cronologia: - 1901: Nasce em Paris, no dia 13 de abril, Jacques-Marie Émile Lacan, primeiro filho de uma próspera família católica. - 1907: Nascimento de seu irmão, Marc-Marie, que mais tarde entrará para a ordem dos beneditinos como o nome de Marc-François. - 1919: Matricula-se na faculdade de medicina. Paralelamente estuda literatura e filosofia, aproximando-se dos surrealistas. - 1928: Trabalha como interno da Enfermaria Especial para alienados da Chefatura de Polícia, dirigida por Gaëtan Gatian Clérambault, que mais tarde reconhecerá como seu único mestre na psiquiatria. - 1931: Após examinar Marguerite Pantaine, que havia tentado assassinar a atriz Huguette Duflos, escreve sobre o episódio (conhecido como "Caso Aimée") uma monografia que está na gênese de sua tese de doutorado. - 1932: Inicia sua análise com Rudolf Loewenstein. Defende a sua tese de doutorado, Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade. - 1934: Casa-se com Marie-Louise Blondin, com quem terá três filhos. Caroline (1937), Thibault (1939) e Sybille (1940). - 1936: Sua comunicação sobre o estádio do espelho, durante congresso da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) em Marienbad, é interrompida no meio por Ernest Jones, discípulo e biógrafo de Freud. - 1938: Inicia relações com Sylvia Bataille, ex-mulher do escritor e filósofo Georges Bataille. Torna-se membro da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP). - 1941: Separa-se de Marie-Louise. Nasce Judith Sophie, filha de Lacan com Sylvia. 1951: Sua técnica de sessões curtas gera controvérsias na SPP. Dá início aos Seminários, uma série de apresentações orais que constituirão o núcleo de seu trabalho teórico. - 1953: Em meio à crise na SPP, faz conferências fundamentais como "O mito individual do neurótico" (em que utiliza pela primeira vez a expressão Nome do Pai), "O real, o simbólico e o imaginário" (que coloca suas teorias sob o signo do "retorno a Freud") e "Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise" (pronunciada em Roma). Deixa a SPP junto com Daniel Lagache, Françoise Dolto e outros 40 analistas. Funda a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP). Realiza o seminário Os escritos técnicos de Freud, primeiro a ser registrado por estenotipista, possibilitando posterior publicação. - 1963: A IPA admite a filiação da SFP. - 1964: Lacan funda a Escola Freudiana de Paris (EFP) com antigos alunos como Françoise Dolto, Maud e Octave Mannoni, Serge Leclaire, Moustapha Safouan e François Perrier. - 1966: Publicação de Escritos e criação da coleção Campo Freudiano, dirigida por Lacan. - 1967: Propõe a criação do "passe", dispositivo regulador da formação do analista. - 1968: Lançamento da revista Scilicet, do Campo Freudiano. - 1973: Publicação da transcrição do Seminário XI, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, realizado em 1964. A partir daí, os seminários passam a ser editados segundo esse procedimento. Caroline morre num acidente de automóvel. 1975: Lançamento de Ornicar?, boletim do Campo Freudiano. - 1980: Anuncia a dissolução da EFP e funda em outubro a Escola da Causa Freudiana. - 1981: Morre em Paris no dia 09 de Setembro. Pensamento: Sua primeira intervenção na Psicanálise é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do Estádio do Espelho. O Eu é situado no registro do Imaginário, juntamente com fenômenos como amor, ódio, agressividade. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma, então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da Psicanálise. Esse registro é o do Simbólico, é o campo da linguagem, do significante. Lévi-Strauss afirmava que "os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no que é seguido por Lacan. Marca-se aqui a autonomia da função simbólica. Este é o Grande Outro que antecede o sujeito, que só se constitui através deste - "o inconsciente é o discurso do Outro", "o desejo é o desejo do Outro". O campo de ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e do relato dos sonhos, enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como "formações do inconsciente". A isto se refere o aforismo lacaniano "o inconsciente é estruturado como uma linguagem". O Simbólico é o registro em que se marca a ligação do Desejo com a Lei e a Falta, através do Complexo de Castração, operador do Complexo de Édipo. Para Lacan, "a lei e o desejo recalcado são uma só e a mesma coisa". Lacan pensa a lei a partir de Lévi-Strauss, ou seja, da interdição do incesto que possibilita a circulação do maior dos bens simbólicos, as mulheres. O desejo é uma falta-a-ser metaforizada na interdição edipiana, a falta possibilitando a deriva do desejo, desejo enquanto metonímia. Lacan articula neste processo dois grandes conceitos, o Nome-do-Pai e o Falo. Para operar com este campo, cria seus Matemas. É na década de 1970 que Lacan dará cada vez mais prioridade ao registro do Real. Em sua tópica de três registros, Real, Simbólico e Imaginário, RSI, ao Real cabe aquilo que resiste a simbolização, "o real é o impossível", "não cessa de não se inscrever". Seu pensamento sobre o Real deriva primeiramente de três fontes: a ciência do real, de Meyerson, da Heterologia, de Bataille, e do conceito de realidade psíquica, de Freud. O Real toca naquilo que no sujeito é o "improdutivo", resto inassimilável, sua "parte maldita", o gozo, já que é "aquilo que não serve para nada". Na tentativa de fazer a psicanálise operar com este registro, Lacan envereda pela Topologia, pelo Nó Borromeano, revalorizando a escrita, constrói uma Lógica da Sexualização ("não há relação sexual", "A Mulher não existe"). Se grande parte de sua obra foi marcada pelo signo de um retorno a Freud, Lacan considera o Real, junto com o Objeto a ("objeto ausente"), suas criações.
Por Ale Esclapes - Paira no ar uma insustentável obrigação de sermos felizes, o tempo todo. Ela nos intoxica como um gás que faz sofrer lentamente, e tem como o corolário da falta de ar a depressão. O sentimento de depressão, tão comumente associado a uma doença, faz parte sim do repertório de emoções de todo e qualquer ser humano. O sentimento de depressão é o sentimento que temos quando alguma ilusão que acreditamos ser verdade morre. Quando descobrimos que o mundo existia antes de nós, que não somos o centro da casa, e que aqueles que chamamos de nosso, na verdade não nos pertence, nos deprimimos. Quando descobrimos que não somos autossuficientes, que somos seres dependentes e desamparados, que precisamos dos outros para as suprir nossas condições mais básicas, nos deprimimos. Quando acreditamos que aquele emprego vai nos levar ao topo, que aquele vestido mais nos fazer desejáveis, que aquele carrão vai fazer que eu seja mais potente, e nada disso se concretiza, nos deprimimos. Quando aquele casamento que acreditamos que vai nos curar dos males do mundo, que vai nos dar aquilo que nossos pais nos negaram, e nos devolver ao nirvana da simbiose, acaba, simplesmente termina, nos deprimimos. Quando temos que escolher um amor, um rumo na vida, uma única profissão, seguir um único sonho, ter uma única esperança, acreditar em algo, nos deprimimos por não podermos ter todas as outras profissões, sentidos, sonhos, e tudo mais que precisou ser descartado. Escolher é um ato por si só, depressivo. Quando nos descobrimo-nos, a uma certa altura da vida, que nosso rumo talvez não esteja na rota correta, que temos que mudar o leme, levantar as velas e partir para novos mares, nos deprimimos pelo tempo perdido, tempo que não volta mais. Quando abandonamos essas falsas promessas de felicidade, essas ilusões passageiras, adquirimos sabedoria. Não existe sábio que não tenha passado pela dor da depressão, do choro, do lamento. Quando nos tornamos sábios da vida com suas reais possibilidades, deixamos de ser deprimidos. Mas se a sociedade nos obriga a sermos felizes como uma realização instantânea e não uma aquisição emocional, só nos resta uma sociedade depressiva e seus antidepressivos.
Por Francine Brandão - A primeira palestra O Holocausto e a Subjetivação do Outro trata de uma visão sobre o holocausto a partir de Hanna Arendt, uma sobrevivente da segunda guerra que se refugiou nos EUA e se dedicou a compreender os regimes totalitários, o nazismo e as consequências desses eventos para a humanidade. Destaca as formas com que um regime totalitário priva o ser humano de sua individualidade, de seu próprio ser, através de uma destruição simultânea de seu ambiente, casas, negócios, centros religiosos, ou seja, tudo aquilo que tem um significado para o indivíduo. Suas armas são a mentira, a fabricação de uma realidade imposta perversamente, o biopoder- poder sobre a vida onde se torna possível a criação de corpos dóceis que lhes são necessários, usado inclusive para a implantação do capitalismo-, a privação de um sonhar, onde já não se tem esperança e a morte passa a ser desejada. Os inocentes morriam como coisas e sem alma, com uma crueldade que escapa à compreensão humana. É a produção de um inferno na terra. Destaca também a importância de tal relato e estudo para que o que se deu não aconteça mais, e deixa a reflexão sobre nossa realidade contemporânea onde o sentido de se viver em cidades deveria ser o bem comum, mas vive-se como se estivéssemos em campos de concentração onde o biopoder é aplicado até hoje. Acontece um paradoxo: um poder que deve ser usado para proteger a vida é o mesmo que autoriza o holocausto. A palestra Sobrevivendo à Desumanização nos traz questionamentos sobre a capacidade de escuta analítica: qual o limite da escuta analítica? Como escutar toda experiência humana? Será que nós, analistas, temos teorias para tanto, ou seria pura arrogância? Como não soar arrogante diante do sofrimento de cada ser humano? Precisamos ter cuidado para não reduzir o sofrimento do outro a simples teorias. Para as experiências dos campos de concentração não há vocabulário para interpretação analítica porque são da ordem do indizível. Aponta para os métodos de desumanização utilizados nos campos, a saber: uma sociedade que divida as pessoas em grupos - quem tem e quem não tem privilégios; solidariedade substituída pelo egoísmo( como única possibilidade de salvação) ; quem tem privilégios oprime os que não têm; submissão a atos amorais- que a própria pessoa considera imoral, mas que é a única possibilidade de sobrevivência; que os condenados nunca saibam porque foram condenados; nada era feito de graça; a quem tem, será dado e a quem não tem será retirado; redução do social para o individual e a partir daí operar a desumanização; nada deve fazer sentido- ausência de sentido ( o ser humano precisa de um sentido para se constituir como sujeito; se se retira isto, dá-se um passo a mais na desumanização); transformação em animais; redução aos seus instintos mais baixos, já não se pode pensar ( significava criar o inferno: tem água mas não se pode beber, tem banco mas não se pode assentar ,ou seja, o indivíduo se reduz a suas necessidades básicas, destituído de uma alma, de um passado e de um depois. Qual era a organização social? Era reduzir os seres humanos a animais e retirar deles a compaixão, empatia e solidariedade, e desqualificar esses valores como sendo valores de pessoas fracassadas e vencidas. Como sobreviver a isto? Nos campos não havia regra e só se podia contar com a sorte. O palestrante conclui: - Quando se atem ao título do artigo imagina-se que se apegando a valores morais maiores como o bem, o sonho, a esperança ... esses seriam fatores de sobrevivência... mas aqui não é bem isto e isto espanta! Aquele que melhor se adaptasse teria mais chance de sobrevivência. Esses métodos podem estar mais perto de nós do que se imagina. A próxima palestra, O Mal Estar na Cultura, é um recorte da obra freudiana ( 1929-1930) que enfoca o ser humano em sua busca de felicidade e satisfação de seus desejos e também de suas necessidades básicas de autopreservação, que é condição de sua realização. O ser humano é um ser de desejos e não de instintos, o que o diferencia do animal, e para a realização de tais desejos há necessidade de esforço por parte do indivíduo porque, tanto a realidade interna (limitações pessoais) quanto o meio externo ( natureza) colocam obstáculos, o que traz também sofrimentos. Uma das alternativas que os seres humanos encontraram para facilitar essas conquistas foi viver em grupos(família, sociedade), mas isto tem um custo: controle da agressividade, sacrifício parcial da liberdade, atraso ou não da realização de certos desejos, etc. Há uma cota de agressividade inata no indivíduo que quando provocado reage e precisamos dar conta desta agressividade. Aqui entra o superego como uma instância na qual o ser humano traz para dentro de si as regras de seu próprio processo civilizatório fazendo com que o indivíduo possa lidar com suas próprias questões: haverá uma tensão entre ego e superego que gera a culpa. Esta tem duas origens: uma interna advinda do superego e outra externa advinda de uma autoridade externa. A má consciência seria uma consciência frouxa, sem rigor, onde o superego busca uma oportunidade para que um castigo aconteça no real, colocando a agressividade para fora. Fica, então, a grande questão: se o superego é uma continuidade e carrega uma severidade de uma autoridade externa, quer dizer que em sua formação e no surgimento da consciência fatores constitucionais inatos e influenciados do meio ambiente atuam de forma combinada. O que estamos fazendo com nossa agressividade? Em A Violência Invisível a palestrante começa com uma questão importante: se queremos cultivar uma cultura de não violência, precisamos conhecer com intimidade nossa mente e nosso corpo, coisas íntimas de nós mesmos. Praticamos violência contra nós mesmos, contra nossa mente quando não a estimulo, quando a impregno de sombras e fantasmas e contra nosso corpo desrespeitando-o de várias formas. Violentamo-nos porque não nos conhecemos. É preciso se observar e esquecer-se de si mesmo, daquele eu menor, do nosso egoísmo, do eu em primeiro lugar, é a transcendência do corpo e da mente. Isto é iluminar-se, é ir além. A violência silenciosa é quando vivemos a dualidade, a separação do eu e do outro que considero estranho a mim e não um outro semelhante a mim. Quanto de discriminação trazemos em nós e que negamos? Deve-se abrir o olhar de compaixão do não-outro que é o mesmo do não-eu: enquanto existe um eu violento, agressivo, existe o outro que se opõe a mim. Mas, quando transcendo o eu, crio a paz ao meu redor. É preciso viver o hoje, deixar o ontem e o depois. Um meio para a não-violência são as práticas meditativas que nos dá uma percepção clara da essência do eu, que é o não-eu, que é a transcendência do eu e do outro. E violência é não permitir o crescimento ou o desenvolvimento do potencial de uma pessoa, é não reconhecer as necessidades básicas do outro, é impor nossas próprias necessidades. É deixar de questionar. O olhar para si, a percepção das próprias emoções faz com que se possa controlar essas emoções e não reagir de acordo com elas. Não é negar as emoções, mas aprender a lidar com elas. Isto é não-violência e compaixão. A não-violência seria o abandono do eu para o nós, uma percepção do coletivo e não do individual. Em A Parte Obscura de Nós Mesmos trata sobre o tema da perversão e da sociedade perversa. O que seria perversão? Será que não seria utopia acabar com as perversões? Será que a busca de perfeição não poderia transformar a própria sociedade em perversa sendo isto a causa de tantos sofrimentos atuais? Será que o caminho não seria de aceitação do mal? Mas o que é considerado perversão? Hoje, na psicanálise, perversão está relacionada à crueldade, ao sadismo, ao comportamento anti-social (que não é timidez, nem reserva). É ter prazer em destruir. Há de se perceber que existe um grau de agressividade inata do ser humano que precisa ser aceito dentro de cada um; o mal faz parte de mim e pode ser uma violência silenciosa (imposição de nossos desejos, bulling, etc). O perverso usa o outro como objeto e é uma defesa contra a psicose e está ligada ao abalo das relações de segurança e confiança na maternagem. As defesas se levantam frente ao vazio, á sensação de aniquilamento, ao desconhecido. O desafio do tratamento então seria levar o indivíduo a se relacionar com o mundo sem se sentir ameaçado. Trabalhando com a Violência trouxe o relato de um delegado de polícia com seus desafios diários de se trabalhar em uma sociedade capitalista, violenta, onde acontecem desde estelionatos à crimes bárbaros. Coloca a questão da lei penal que considera boa no Brasil, porém, falha na sua execução e também o papel dos meios de comunicação e redes sociais na propagação do mal e da violência. Educação e Violência mostra as dificuldades que se tem de recuperar um menor infrator que não é vítima apenas de sua própria demência mas de uma cultura de violência muitas vezes gerada pela pobreza numa sociedade altamente consumista. Como desconstruir o que foi construído? Eis o grande desafio. Aponta a espiritualidade como porta de saída. Por fim, Violência como Sintoma Contemporâneo traz a reflexão sobre o sonho da modernidade que morria juntamente com os judeus em Auschwitz, pois com toda tecnologia existente ali, o que se produziu foi uma transformação de homens em não homens, uma fábrica que visava destruir. Ficam as perguntas: O que fazemos com nossa própria destrutividade? A sociedade educa ou corrompe o indivíduo? Importante é focar em que somos seres bons e maus e para isto não há desculpas. Frente a este fato cabe à própria pessoa se responsabilizar pelo seu psiquismo, seu inconsciente, sua questão com a dependência, seu lado perverso. Em minha opinião, o mundo capitalista tem oprimido o ser humano que responde a este fato de duas maneiras: ou sobrevivendo como vítima de um sistema que traz, em algum grau, as características do sistema imposto em Auschwitz que descaracteriza o ser humano em suas bases mais rudimentares, fazendo com que viva como “seres anestesiados” e completamente submissos; ou, o ser humano pode assumir uma postura de “senhor de sua própria história” trilhando um caminho de percepção de si mesmo, de seus sofrimentos, de suas mazelas, de seu narcisismo, egoísmo, perversões, preconceitos, percepção de seu próprio ser donde emana o bem e o mal, ou seja, assumindo a responsabilidade por sua própria vida, tendo-a em suas mãos independentemente do que a vida lhe trouxe ou trará. Seria optar pela segunda alternativa e trabalhar para que mais pessoas tenham condições de fazer esta escolha. Tarefa difícil? Sim. Todas as pessoas terão condições de fazer esta escolha? Talvez não. No entanto, é como passarinhos apagando o fogo de uma grande floresta com pequenas gotinhas trazidas em seu bico. Isto tem um nome: esperança! E isto pode dar um sentido para nossa vida. No entanto é necessário assumirmos que somos seres interdependentes e que todos têm algo a contribuir. Aprendemos uns com os outros e amadurecemos a partir do enfrentamento de desafios. Neste ponto a psicanálise pode dar a sua contribuição na medida em que faz com que voltemos o olhar para o nosso interior e que, a partir daí, paremos de negar a agressividade ou violência latente que existe em cada um de nós. Se hoje percebemos em nossa sociedade a banalização do mal talvez seja porque perdemos a capacidade de contato com aquele que nos é mais próximo: nós mesmos. Já não podemos ter compaixão por nós mesmos. Como, então, estender esta compaixão ao próximo? O “conheça-te a ti mesmo” é o caminho para reconhecermos nossa impotência e é ponte para a transcendência que, a meu ver, é a grande porta de saída para o ser humano, porém, estreita demais e onde poucos adentram.