EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

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Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço

admin Artigos 10 março 2024
Por Patrícia de Pádua Castro -  Em 1904 [1905] com o artigo O método psicanalítico Freudiano, Freud faz sua primeira exposição sobre a técnica psicanalítica e suas especificidades. Outros três artigos, Sobre psicoterapia (1905 [1904]), Sobre psicanálise selvagem (1910) e Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912), trazem mais esclarecimentos, indicações, contraindicações e recomendações técnicas para exercício do método psicanalítico, além de abordar as diferenças entre a psicanálise Freudiana e as técnicas de sugestão hipnótica de Charcot e método catártico de Breuer. O desenvolvimento da técnica psicanalítica originou-se a partir de observações empíricas em modificações sucessivas feitas aos métodos de Charcot e Breuer. O método de sugestão hipnótica de Charcot foi comparado por Freud como a técnica artística da pintura, onde a deposição da tinta sobre a tela é análoga aos acréscimos no inconsciente do paciente por sugestão médica. Se a sugestão for forte o suficiente será capaz de prevalecer sobre a manifestação patogênica, impedindo-a. Porém este método apresenta as limitações de só ser aplicável a um número restrito de pacientes – aqueles capazes de serem hipnotizáveis e de aceitarem a sugestão –, e no fato da sugestão ser incapaz de ser mantida por tempo indeterminando, retornando a doença ou criando-se um substituto a ela. Neste método não há preocupação em buscar a origem, força e importância dos sintomas. Posteriormente, com o método catártico, Breuer abandona a técnica de sugestão e com o paciente sob hipnose busca-se alcançar uma expansão da consciência, onde a fala do paciente - sob a condução do médico - o leva a uma “viagem” a seu passado e os sintomas são afastados por regressão até a primeira lembrança do trauma, oportunizando a ab-reação dos afetos e suspensão destes. O método esbarra no problema de não haver uma única impressão traumática, mas uma série dessas ocorrências que culminam na formação do sintoma. Este método diferencia do proposto por Charcot pelo fato da suspensão dos sintomas encontrarem uma nova rota psíquica de escoamento energético, diferentemente da proibição sugestiva pelo médico aplicada anteriormente. Embora seja aplicável a um número maior de pacientes, pois elimina a necessidade dos pacientes aceitarem a sugestão, ainda é necessária a condição de o paciente ser hipnotizável. Após ter acompanhado os trabalhos de Charcot em Salpetriére e trabalhar juntamente com Breuer, Freud vai modificando gradualmente a sua prática e abdica da hipnose, adotando, no método psicanalítico, a postura do paciente deitado no divã de maneira relaxada, e o analista na posição de observador, assentado em uma cadeira atrás do paciente, e nestas posturas estabelece-se então uma conversa entre duas pessoas igualmente despertas. Com essa nova técnica a escuta do sofrimento até o trauma primário é substituído pelo livre falar do paciente que permite acesso ao inconsciente por meio das ocorrências involuntárias, interpretação de sonhos, por atos falhos e não planejados, denunciados pela fala, ação e semelhantes.  Este procedimento apresenta a vantagem de poder ser aplicável em um número ilimitado de pacientes (embora Freud descreva algumas restrições ao método devido a determinadas características dos pacientes a serem atendidos), além do mais com essa técnica é possível reconhecer as resistências e superá-las – o que não ocorria com a hipnose, uma vez que estas eram apenas contornadas –, e isso é um dos fundamentos de sua teoria, o que possibilita a compreensão do comportamento do paciente em sua vida, sendo o ambiente terapêutico, o lugar e o momento, onde é possível diferenciar o discurso do paciente da sua prática. Com o tratamento psicanalítico pretende-se suspender as amnésias, reverter os recalques, tornar o inconsciente acessível ao consciente buscando reestabelecer no paciente “a capacidade de realizar e gozar” ou “trabalhar e amar”. Para isso, exige-se apenas do paciente que cumpra a “regra psicanalítica fundamental” falar aquilo que lhe ocorrer na mente, sem julgamento, sem selecionar pensamentos por mais que possam parecer vergonhosos e embaraçosos. Em contrapartida o analista deve ouvir sem crítica ou seleção, sem expectativas e inclinações, para que um “inconsciente possa ir de encontro ao outro”. Embora não fosse pretensão de Freud estabelecer recomendações como regras inflexíveis, ele faz uma série de esclarecimentos e orientações a respeito da execução da técnica psicanalítica. Primeiramente para evitar a prática da “psicanálise selvagem” uma vez que a técnica não é autoexplicativa e não há possibilidade de aprendê-la apenas por meio de livros; demanda empenho de tempo e esforço do médico, sendo possível aprendê-la somente com quem já as domina, e como o médico irá trabalhar com as resistências dos pacientes é necessário que ele supere as suas próprias resistências, eliminando “pontos cegos” em sua percepção analítica, para isso aquele que pretende exercer tal prática deve submeter-se primeiramente à análise junto com um especialista. Com isso, desenha-se o tripé analítico da formação em psicanálise: teoria, prática (supervisão) e análise pessoal. Para elucidar mais algumas dessas orientações práticas para condução da técnica psicanalítica tomemos o “Caso Dora (1905 [1901])” como exemplo, no qual Freud narra os cuidados que tomou para conservar o sigilo do tratamento, preservando a identidade da paciente por meio de alterações de nomes e aguardando um período após o término do tratamento para a publicação em revista especializada. A lembrança da história clínica foi redigida após o fim do tratamento e por isso não é um relato fiel, mas confiável, o que vai de encontro com duas de suas recomendações técnicas: não fazer anotações de grandes extensões nas sessões, e não abordar um caso cientificamente enquanto o tratamento não estiver concluído. Ambas as recomendações convergem no objetivo de se manter uma escuta equiflutuante sem selecionar algo no meio do material ou fixar a atenção em algum ponto. Porém, ainda no prefácio Freud deixa claro o seu desejo de mostrar como a interpretação dos sonhos da paciente favoreceu “desvendar” a história clínica, citando que não foi sem motivo que publicou sua obra sobre sonhos em 1900, o que contraria uma das recomendações que é ouvir sem expectativas e inclinações. Em dois momentos neste texto introdutório Freud diz estar convicto de algo, primeiramente quando menciona estar convicto da importância dos sonhos nos casos de histeria e em outro ao referir-se à vontade de validar a etiologia psicossexual da histeria. Essas convicções faz com que Freud selecione ao meio do material apresentado pela paciente aquilo que ele busca e segundo as suas palavras “[...] se na seleção seguimos as nossas expectativas, corremos o risco de nunca encontrarmos algo diferente daquilo que já sabemos [...]” [1]. Ainda no relato do caso, Freud diz que a paciente aceitou o tratamento por insistência (autoridade) do pai, que foi quem o procurou inicialmente, o que contrapõe ao fato de que a psicanálise [...] não pode ser aplicada em pessoas que não se sintam impelidas à terapia por si próprias através de seu sofrimento, mas que se submetem a ela apenas por uma imposição de seus parentes”[2]. Outro ponto a ser destacado é de que no decorrer da exposição do caso Freud, ao descrever algumas características e comportamentos da Dora, ele não aparenta ter muita empatia e interesse pela a pessoa dela, o que é um obstáculo em um tratamento analítico uma vez que “não se deve esquecer o valor de uma pessoa”2. A dedicação de Freud à própria teoria somada ao baixo interesse pela pessoa da paciente faz com que ele não dê a devida atenção à transferência – embora a tenha percebido e reconheça a sua importância no tratamento psicanalítico –, postergando os momentos oportunos de trabalhá-la nas sessões, o que culminou em “uma análise fragmentária”. Por fim, com esses recortes do “Caso Dora” é possível perceber a importância da sistematização da técnica, e que embora não seja um conjunto de regras inflexíveis, serve como uma orientação de como proceder na relação analista e paciente. A postura de Freud apresentada neste caso, considerando o baixo grau de aderência às suas próprias recomendações, ilustra o jargão psicanalítico “Freud não lia Freud” ou, no dito popular, “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. [1] Recomendações ao médico para o tratamento psicoanalítico (1912)[2] Sobre psicoterapia (1905[1904])

A sexualidade como etiologia da histeria na Teoria da Sedução - SQN Freud

admin Artigos 09 março 2024
Por Fernando Alencastro -  SQN são as inicias de "Só Que Não", uma expressão comum na internet, principalmente como hashtag em algumas redes sociais (#SQN). O usuário usa o #sqn para negar totalmente o que acabou de afirmar na sua publicação. Inicialmente, a hashtag #SQN começou a se popularizar no Twitter, sinalizando o tom irônico do tweet. Como dito, o objetivo é justamente dizer o contrário daquilo que o usuário verdadeiramente pensa. O “só que não” pode ser aplicado à premissa de Freud em relação à histeria, posto que sua  famosa Teoria da Sedução se consiste na afirmativa de que pacientes histéricos sempre teriam como causa desse histerismo  a sexualidade. Foi à época uma teoria inovadora, que diferia das demais porque apresenta como novidade a sexualidade como causa exclusiva e única, portanto a própria etiologia da histeria. Freud baseou sua teoria a partir de reportes de pacientes histéricas que teriam lhe feito relatos identificando como causa de sua histeria algum acontecimento relacionado à sexualidade. A comunidade cientifica e intelectual recebeu de forma muito duvidosa referida teoria. Portanto, a base da teoria de Freud era de que os pacientes histéricos foram abusados sexualmente em sua infância. SQN Freud, pois o próprio reconheceu que a sexualidade de forma exclusiva não era a causa da histeria. O próprio autor da teoria reconheceu seu equivoco anos depois de lançada se dizendo “enganado pelas histéricas”. O episodio da me faz inferir que Freud ao evoluir da hipnose para sugestão e depois livre associação e depois afirmar que os pacientes histéricos foram abusados em sua infância e depois se afirma enganado pelas histéricas, tudo isso aconteceu por teimosia de Freud em olhar a sua hipótese de fora pra dentro e não de dentro pra fora. Freud teve algumas diretrizes e provavelmente generalizou hipóteses de pesquisa que lhe remeteram para uma proporcionalidade por amostragem suficiente para afirmar a etiologia única da histeria sendo a sexualidade. SQN de novo Freud. Percebe-se o elemento teimosia na personalidade de Freud principalmente pelo largo período que leva para reconhecer o equivoco de sua teoria. Credito também a teimosia como fundamento do equivoco. Freud teimou em afirmar a sua teoria (olhou de fora pra dentro) ao querer afirmar. A teoria partiu de sua mente para o mundo e não pontualmente da observação à constatação. Na minha percepção, Freud se desviou da observação e quis constatar sua teoria, daí dizer que ele olhou de fora (sua teoria) para dentro (a observação), o que provavelmente lhe levou ao equívoco, pois teimou em querer comprovar sua tese. A teimosia é uma das características do signo solar astrológico de Freud, Touro.  A partir do reconhecimento pelo próprio Freud de seu equívoco, ainda que tardiamente, o episódio do equívoco da teoria da Sedução possibilita que o estudante de psicanálise possa fazer as leituras de Freud de forma isenta e justa, ou seja, sem considerá-lo um mito, ou uma pessoa que acertou sempre em suas teorias e tratados. A importância de se ler Freud sem as amarras do compromisso com sua verdade absoluta (coragem adquirida a partir do equivoco da TS) liberta  seu leitor e estudioso, possibilitando percepções distintas da do Mestre em conclusões sobre a que teve no caso Dora, por exemplo, quando diversos leitores discordam da paixão dela identificada por ele ao senhor K. Vida que segue. Freud avança para a fantasia histérica a partir de acontecimentos da infância e seus traumas. A reconstrução do passado de cada pessoa é algo bem complexo. Uma recordação com afeto pode ser muito eficaz principalmente se o paciente retrata o evento de forma detalhada. Freud propõe então a teoria da Fantasia histérica, a partir da qual depois do recalcamento ocorre a instalação dos sintomas e então a criação das fantasias, que vem a ser uma ficção do que aconteceu ao paciente na sua infância. A partir de agora, para Freud, existe uma ficção. E aqui o nobre mestre evoluiu em relação ao conceito anterior de que o conteúdo do que fora dito pelo paciente era a mais pura das verdades. As ideias que se tornam patógenas preservam todo o seu frescor e força afetiva porque foi negado a elas o desgaste normal pela ab-reação e pela reprodução em estados de associação sem inibição.  Os estados hipnoides são graus diversos de organização psíquica e condição da histeria e disse também Freud que a hipnose é uma histeria artificial. A relação do analista e do paciente passa a ser uma procura insistente do elemento patogênico x a expressão espontânea do paciente mediante o método da psicoterapia analítica que ocorre com o fenômeno da transferência. A descoberta do mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos leva a uma ação curativa pelo método psicoterapêutico. A questão foi muito bem elucidada quando da afirmativa de que “o trauma psíquico age à maneira de um corpo estranho expulso para fora do espaço da consciência”. Este artigo apresenta uma versão com título em linguagem de WhatsApp, de forma singela e despretensiosa, a partir da Teoria da Sedução e sua etiologia da sexualidade - SQN Freud e se trata de um exercício de aprendizado (ou não) deste aluno sobre o tema proposto.

Os três porquinhos e a realidade da criança

admin Artigos 08 março 2024
Por Priscilla M. S. Honorato -  Quem nunca ouviu aquela velha historinha dos três pequenos e travessos porquinhos, em que dois deles desejavam apenas brincar, sem se preocupar com as adversidades da vida?  Esse conto, fez e faz parte de nossas vidas. Traz-nos a magia de viver uma grande e prazerosa brincadeira, a compreensão sobre a necessidade de se cumprir as obrigações exigidas pela vida e um amadurecimento saudável. E o que dizer sobre o lobo? Será que ele deveria ser bonzinho? Crianças tem medo de lobo? Será que posso contar, com segurança, sobre um Lobo Mau que devora porquinhos indefesos?  Muitas questões estão presentes numa simples história. Pois bem, vamos compreender mais um pedacinho do mundo fantástico dos contos de fadas. Os Três Porquinhos, conto original dos Irmãos Grimm, através de sua magia, vem envolver a criança em um mundo que para ela é real, levando-a a refletir sobre as vantagens de se vencer a preguiça, pois, se assim não for, perecerá. Percebe-se que no decorrer da trama, dois dos porquinhos desaparecem, mas tal fato não é visto pela criança como traumático, visto que esta percebe tal situação como um desprendimento das formas anteriores de sua existência, mudando seu estágio de vida e amadurecendo. Tais personagens representam a própria criança, que, espelhando-se neles, assemelhando-se às suas atitudes. À medida que a criança evolui, ela se identifica com o terceiro e mais velho porquinho, que, apresenta maior destreza em realizar suas atividades e maior capacidade de suportar o desejo incontrolável de brincar, em prol de um benefício vindouro. A criança é capaz de perceber uma evolução psíquica na medida em que sua identificação vai caminhando de porquinho para porquinho, de modo que ela venha a suportar a sedução do Lobo, que os tenta oferecendo nabos e maçãs. Para compreendermos de forma clara o conceito de Freud sobre os princípios do funcionamento psíquico, Laplanche (2001) sintetizou dizendo que o princípio do Prazer está para o aumento das quantidades de excitação mediante o desejo de evitar o desprazer, que reduzir-se-á por meio do prazer. E, o Princípio da Realidade que trabalha na busca da felicidade não utilizando-se de caminhos curtos, adiando seu resultado em função das condições impostas pelo mundo exterior. O indivíduo, ao se encontrar em maior nível de amadurecimento, é capaz de suportar esta necessidade imediata de prazer, prolongando esse tempo de recompensa, suportando assim, as adversidades da vida. No conto dos Três Porquinhos a criança é levada a tomar a decisão por conta própria, qual seja o caminho ela deseja seguir. Deste modo, ela consegue auxílio para solucionar suas questões sobre o que fazer com seu desejo de prazer imediato. Onde se enquadra a maldade do lobo, e qual sua importância na história? Vemos que depois de esforços infrutíferos, travados pelo Lobo, é que ele parte para a matança. Segundo a ilustração de Bettelheim ( 2014 p.64), “O lobo, ao contrário, é obviamente um animal ruim, pois deseja destruir. A ruindade do lobo é algo que a criança reconhece dentro de si: desejo de devorar e sua consequência. Assim, o lobo é uma exteriorização, uma projeção da maldade da criança- e a história mostra como se pode lidar com isso construtivamente.” Não obstante, torna-se claro a diferenciação que a história faz entre o comer (uma busca inteligente por comida) e o devorar (tudo o que se fizer presente), i.e., demonstrar à criança a necessidade de escolher seus atos, fazendo-a compreender que a reação instantânea do lobo não terá uma recompensa muito agradável. A vitória do porquinho mais velho leva a criança a reflexão da importância de crescer e tomar decisões pautadas nas consequências que elas oferecem. O final é feliz e o lobo recebe o que merece, reforçando à criança a necessidade de agir com boas maneiras. Este processo permite que a criança extraia suas próprias conclusões, provendo um amadurecimento satisfatório e verdadeiro. Pois, dizer a ela como realizar este amadurecimento é substituir o seu cativeiro de imaturidade por um cativeiro de obediência.

Abuso sexual: um perigo próximo

admin Artigos 07 março 2024
Por Joseval Campos dos Santos -  Nosso modelo atual de sociedade com relações mais abertas, onde os diálogos são mais possíveis vem aos poucos trazendo à tona a ponta do iceberg já conhecido em sua superfície e que agora começa a se aprofundar – abuso sexual de crianças e adolescentes. As relações familiares menos autoritárias, assim como os mecanismos de proteção legal e os centros de acolhimento, são instrumentos que de alguma forma encorajam os atores desse drama psíquico. Mesmo sabendo que esses casos são apenas um simulacro da amplitude do problema, já tem servido para fomentar discussões, definir políticas e abrir canais de discussões na sociedade. O abuso sexual vai muito além do conceito socialmente visível, pois todo ato invasivo não autorizado, seja objetivo ou subjetivo pode ser considerado como abuso, especialmente por personagens mais maduros e com maior poder físico e psicológico. Geralmente protegemos e alertamos crianças e adolescentes sobre a representação de perigo dos estranhos. Mas “baixamos a guarda” com pessoas do convívio familiar que supostamente mantém relações de segurança e proteção. Justamente ai configura-se o lugar do perigo, pois o abusador precisa de proximidade, confiança, tempo e oportunidade para agir livremente. Esses ingredientes dificultam a descoberta espontânea, a denúncia do abusado e a crença por partes de pais e responsáveis. A dinâmica traumática do abuso, em virtude do poder do agressor, invasivo e ameaçador, termina por vezes desenvolvendo na criança um importante déficit de poder, ou uma visão distorcida do mesmo. O poder ameaçador de figuras que deveriam oferecer proteção e afeto termina formatando personalidades difusas que flertam corriqueiramente com a patologia. Em virtude da imaturidade, o psiquismo quase sempre transborda para caminhos devastadores, dada a incapacidade em lidar adequadamente com esse contingente sexual, invadido de forma inadequada e antecipada. É relevante frisar, que o abuso sexual firma-se como um dos acontecimentos mais horrendos para o psiquismo infanto-juvenil em virtude de envolver figuras de proximidade e muitas vezes de vínculos afetivos. A criança ou adolescente abusado, vale-se das mais variadas estratégias de defesa, buscando minimizar as dores psíquicas, esses mecanismos num primeiro momento em que o psiquismo ainda encontra-se imaturo ou fragilizado possuem um papel importante na manutenção de “áreas sadias” que futuramente podem servir de suporte para vencer os traumas. No entanto, se os traumas não forem analisados adequadamente, o mecanismo de defesa improvisado para proteger o psiquismo pode criar raízes permanentes, indo de uma fantasia protetora provisória para o campo da realidade. A fantasia, portanto,  exerce um papel fundamental nos traumas, especialmente de abuso sexual, pois protege o psiquismo de forma que ele não transborde, o que levaria o indivíduo à psicose. Contudo, quando as fantasias se instalam além do tempo necessário, invadindo a realidade e passando a ser confundida com ela podem também suprimir do indivíduo a capacidade de distinção entre o real e o imaginário. Bergeret (1998) A psicanálise mostra-se como ferramenta eficiente na interpretação desses fenômenos psíquicos, podendo servir como suporte para que o indivíduo abusado sexualmente possa elaborar adequadamente esses conteúdos, abrindo a possibilidade de ressignificação dos acontecimentos traumáticos, ou seja, uma simbolização tardia, mas que permite tocar a vida com certo equilíbrio. Para Guiter (2000) a experiência traumática do abuso sexual associa-se, portanto, a dificuldades graves nas relações primárias ou vinculares, às experiências concretas de vivências altamente ansiogênicas, ao estabelecimento de um funcionamento psíquico desorganizado, resultando em falhas estruturais importantes. Estudos psicanalíticos das mais variadas linhas, apontam que o abuso sexual agride à autoestima da criança e do adolescente, provocando rebaixamento da visão de si mesma e de suas capacidades, aprofundando, no caso das meninas, a dor da castração e ampliando a angústia de castração no caso dos meninos, que podem no lugar da dor do abuso, preencher com a fantasia de que são “efetivamente” castrados, assumindo uma posição passiva frente à sexualidade, em virtude da forma inadequada como foram introduzidos na vida sexual. No caso das meninas podem construir uma imagem de pênis mal, que agride e causa dor. Dentro dessa dinâmica o indivíduo pode desenvolver diversas estratégias psíquicas de defesa, visando minimizar as dores do abuso. As possibilidades são diversas e variadas, quase sempre marcadas por forte baixa estima, submissão, exercício de poder exagerado ou negação da sexualidade, promiscuidade em busca do prazer/dor original, personalidade diversa, afeminada no caso dos meninos e masculinizada no caso das meninas, sem que signifique uma homossexualidade em primeiro plano. O abuso em todas as suas formas é um encontro perverso entre um psiquismo maduro e um psiquismo frágil ainda em formação, ou seja, uma experiência dramática e injusta. Nesse sentido, a criança ou adolescente ainda não possui maturidade para entender os acontecimentos, não possui recurso para simbolizar os fatos, provocando um turbilhão de sensações, que transitam entre a culpa e o prazer. O abusado experimenta ao longo da vida uma miscelânea de sentimentos contraditórios e por isso, marcado por muitas ansiedades. Sua vida afetiva dificilmente será tranquila e “linear”, pois as ansiedades despertadas pelo trauma provocam forte instabilidade de sentimentos. O abuso sexual provoca uma fratura no psiquismo do abusado em função da incapacidade do ego de organizar a experiência traumática. O psiquismo fraturado fica instável, numa sensação constante de incompletude crônica. A dualidade entre dor e prazer na cena do abuso, deixa uma tatuagem no psiquismo da vítima, despertando no indivíduo uma tempestade de sentimentos contraditórios que transitam entre o certo e errado, bem ou mal, prazer e desprazer. Essas emoções são perturbadores do psiquismo imaturo e se não forem bem equacionadas na análise deixarão o abusado num limbo de dor e sofrimento.   É muito importante que se tenha em mente que o abusador não possui cara, uma roupa específica, um jeito peculiar, são figuras de psiquismo obscuro que gravitam na órbita de “segurança” das famílias numa relação de vínculo e confiança. Eles agem no intervalo da falsa proteção e alongam o abuso mediante o uso do poder e da ameaça, mantendo a vítima numa condição de cárcere psicológico e sequestro emocional, dificultando ou impossibilidade a saída do cativeiro. Devemos ampliar o espaço da escuta, pois um grito silencioso pode está à nossa volta buscando um ouvido sensível e um olhar de compreensão. Bibliografia: Guiter, J. B. (2000). Traumas precoces. Abuso sexual, daño en la constitución del psiquismo infantil. Revista de Psicoanálisis, 57, 405- 432.Bergeret, J. (1998). A personalidade normal e patológica. 3ª ed. Porto Alegre: ArTmed.

A teoria da sedução e seu equívoco

admin Artigos 06 março 2024
Por Ivana Ferigolo Melo -  No texto comunicação preliminar, Freud, partindo das teorias de Breuer e de Janet, relata suas primeiras constatações teóricas sobre as causas (etiologia) da histeria e expõe algumas técnicas de tratamento que utilizou para tratar essa enfermidade. Discordando de Janet, para quem a histeria se constitui a partir de uma divisão da consciência oriunda de uma deficiência natural, inata, ele se fundamenta na concepção teórica de Breuer, quem sustenta que a histeria constitui-se a partir da conformação psíquica de estados de consciência com baixa capacidade de associação, os quais ele chama de estados hipnoides (consciência paralela de pouca capacidade associativa). Diferentemente de Janet, Breuer, médico com quem Freud trabalha em conjunto no início de sua carreira, afirma que estes estados hipnoides, os quais delimitam uma divisão da consciência, não são inatos, mas adquiridos, desenvolvidos, e se registram, porque as ideias que os conformam são representações excluídas da consciência a partir de diferentes mecanismos de defesa. Dessa forma, na perspectiva de Freud, a histeria, doença de sintomas somáticos, mas de origem psíquica, constitui-se a partir da conversão de excitação psíquica em inervações somáticas, caracterizando-se, por tanto, por dores corporais. A conversão da excitação de ordem psíquica para inervações somáticas, mecanismo constitutivo da histeria, dá-se, na ótica de Freud, pelo fato de o indivíduo não tolerar certas representações, ideias ou experiências vividas e via defesa, artifício consciente que consiste em expulsar, afastar, da consciência o que é insuportável, recalca-las, reprimi-las. A repressão ocorre, para Freud, mediante a dissociação do afeto atrelado a representação insuportável, o que torna a ideia fraca, um traço mnêmico frágil. No entanto, a excitação dissociada da representação, não se anula, necessitando ser extravasada por algum outro canal. No caso da histeria, o extravasamento, a descarga da excitação, ocorre, como se disse, mediante uma conversão da excitação para inervações somáticas, manifestando-se por meio de sintomas físicos, dores musculares, enrijecimento de partes do corpo, cegueira, etc. Na perspectiva de Freud, expressa na Comunicação preliminar, as causas específicas, a etiologia específica (aquilo que é recalcado porque não é suportável) da histeria é sexual, ou seja, são experiências sexuais passivas ocorridas realmente na tenra infância e que eclodem na puberdade quando teria início a atividade sexual dos indivíduos. Essa tese de Freud conforma o que se chama de teoria da sedução, uma teoria que sustenta serem experiências sexuais reais, vividas pelos sujeitos, a causa desencadeadora da histeria. Por esse viés teórico, todo o paciente histérico teria sido seduzido na tenra infância, passando por experiências sexuais que logo seriam recalcadas e participariam da conformação do sintoma e do adoecimento do indivíduo após a puberdade. Posteriormente, a partir da continuação de seu trabalho de acompanhamento e tratamento de pacientes histéricos e de uma mudança que foi registrando na forma de tratar a histeria, mudança que consistiu em ir deixando, aos poucos, o método da hipnose e ir adotando o da livre associação, Freud dar-se-ia conta de que muitas coisas que os pacientes relatavam eram fantasias, ficções, imaginações, representações construídas sobre o período infantil e não fatos realmente vivenciados. Foi constatando, então, que muitos dos acontecimentos envolvendo sexualidade, sedução, que as pacientes relatavam não haviam ocorrido de verdade, mas eram invenções por elas realizadas muito ligadas a desejos. Assim, a teoria da sedução foi perdendo consistência diante da descoberta do fator da fantasia como grande determinante da histeria. O surgimento desse novo elemento, a fantasia, converte, obviamente, a teoria da sedução em um equívoco, e, é possível pensar, que o equívoco que levou Freud a desenvolver a teoria da sedução estava relacionado ao método que ele, seguindo Breuer e Charcot, por exemplo, utilizava para tratar a histeria: o método da hipnose. Freud, assim como seus antecessores, acreditava totalmente que, a partir, da hipnose chegava-se a verdade absoluta sobre o indivíduo, alcançar-se-ia a verdade recalcada, enviada para fora da consciência. Provavelmente, o equívoco de Freud materializado na teoria da sedução, que ele mesmo corrige posteriormente a partir da descoberta do fator da fantasia como elemento etiológico da histeria, deu-se em função de uma tentativa, que é recorrente, quando se estuda e se tenta teorizar sobre uma enfermidade: a tentativa de descobrir e afirmar as verdadeiras e universais causas de uma doença. Tal tentativa, em geral, conduz a descobertas e a constatações, as quais podem ser questionadas diante do surgimento de um elemento novo, que, geralmente, aparece quando os estudos não param no tempo. Penso, assim, que o equívoco de Freud materializado na teoria da sedução emparenta-se a outros equívocos cometidos na historia da histeria pelo fato de os estudos sobre essa enfermidade serem muito antigos e terem passado, portanto, por muitas mudanças, constituindo-se continuamente de forma provisória, já que nunca se estacaram, fecharam-se, mas trataram de, em cada época, afirmar o descoberto como uma verdade.

O complexo de Édipo revisitado: uma leitura de Násio

admin Artigos 05 março 2024
Por Terezinha Cavalcante Feitosa - Este paper faz uma análise do Complexo de Édipo no menino de acordo com a concepção de Násio  (2007 p. 19-44).  As afirmações de autor (op.cit) sobre o Édipo no menino leva-nos a refletir tanto sobre nós quanto sobre aqueles que escutamos.  A reflexão sobre o tema instiga, durante a escuta do analisado, verificar como se deu o “afastamento” dos pais, ou seja, o processo de castração, posto que, se esse processo  for mal conduzido o sujeito poderá desenvolve determinado sintomas, e/ou dificuldades relacional tanto no que diz respeito ao aspecto afetivo quanto social, que na maioria das vezes os persegue durante toda a vida. Nesse sentido, verifica-se que a relação das crianças com os pais, nessa fase, entre três quatro anos, é na verdade uma relação imaginária. O que ocorre na maioria das vezes é uma relação homossexual, isto é, a relação da criança consigo mesma, por meio da masturbação, que mesmo inconsciente descarrega suas aflições edipianas. Diante dessas circunstâncias torna-se necessário, ao escutar, ficar atento aos detalhes de uma narrativa, pois nela pode está contido o objeto cristalizado no inconsciente que passou pelo processo de sublimação! Como diz Násio “a experiência vivida do terremoto edipiano fica registrada no inconsciente da criança e perdura até o fim da vida como uma fantasia que definirá a identidade sexual do sujeito, determinará diversos traços de sua personalidade e fixará sua aptidão a gerir os conflitos afetivos. No caso de a criança ter experimentado, por ocasião da crise edipiana, um prazer precoce demais, intenso demais e inesperado demais, isto é, no caso de a experiência de um prazer excessivo ser traumática, a fantasia daí resultante seria a causa certa de uma futura neurose”. Assim, pode-se imaginar uma criança desnuda cuja finalidade é exibir seu pênis, ou seja, mostrar que está com desejo de possuir a mãe bem como de ser possuído por ela.  Alguém de forma bastante grosseira pede para que a mesma ponha roupa, caso contrário, o cachorro pode comer, ele pode voar, e ainda pode ser decepado pela mãe ou pelo “homem do saco”.  Partindo dessa premissa podem-se compreender determinados comportamentos masculinos em relação aos relacionamentos seja ele afetivo ou social. A leitura nos conduz ainda a reflexão do comportamento, ou seja, as atitudes adotadas pelos meninos em relação às mães, ou até mesmo amigas, namoradas dos pais quando estes são pais solteiros.   Recordo-me de um menino de quatro anos filho de pai solteiro. O pai, tinha uma namorada e contava orgulhoso o assedio do filho  a qual a criança chamava de tia. Quando este ia dormir na casa do pai, uma das primeiras coisas que o menino perguntava era se o pai ia buscar a titia.  Notava-se na fala do pai que a criança disputava a atenção da moça.  Por vezes, em forma de chantagem tais como: só vou comer quando a titia chegar, conta o pai entusiasmado. Quando a titia chegava, a criança costumava se esconder para que esta o encontrasse. Ao encontrá-lo “escondido” ele imediatamente pegava a mão da moça e convidava para sentar perto dele e assistir desenhos! Acariciava os cabelos e às vezes chegava a morder e correria sorrindo como se tivesse feito algo grandioso. Ao deitar, só dormia se a titia deitasse com ele, ou seja, no seu mundo de fantasia era como se fossem enamorados. Nesse caso, presume-se que a namorada do pai substitui a mãe. O desejo do menino se manifesta nas atitudes em relação à moça que assume o papel de mãe nos dias em que este fica com o pai. É provável que ao pedir para que a moça assista desenhos infantis, acariciar os cabelos e até dar-lhe um beijo demorado na face seja um jogo de sedução para conquistá-lo, em outras palavras, ele está dizendo: eu desejo você e você pode me possuir. Além desse fato, recordo-me de duas crianças da pré-escola entre 4 e 5 anos que se masturbavam durante as aulas, ao ponto da professora presenciar eles ejaculando. Em  principio a professora sentia-se constrangida, pois não sabia como lidar com a situação, ao mesmo tempo tinha receio de comunicar aos pais, uma vez que não sabia como abordar o tema. Sua atitude era do senso comum, isto é, de pensar que as crianças estivessem envolvidas com pornografias e/ou que os pais fossem pessoas com baixo valor moral. Como se sabe nenhuma das hipóteses são verdadeiras, mas apenas uma manifestação normal para crianças daquela idade. Durante minhas escutas com homens analisados, pude perceber em um deles que o complexo de Édipo foi dolorido e muito mal resolvido. Pode-se visualizar a dor da castração tanto na fala quanto no olhar provocando comportamentos neuróticos ao ponto de sujeito ter ódio de se mesmo.  Diante disso, pode-se perceber a complexidade do comportamento sexual das pessoas, não seria insensato dizer que cada analisado é um mapa que deve ser decifrado em suas minúcias. Bibliografia: NÁSIO, J. D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, 156p.

Escuta do Ofício com o médico Wagner Hisaba - 04/03/2024

admin Aconteceu! 04 março 2024
Convidado: Wagner Jou Hisaba - Médico formado pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, com residência médica, mestrado e doutorado pela mesma instituição. Especialista em Medicina Fetal. Membro da equipe de ultrassonografia e Medicina Fetal do complexo hospitalar Santa Joana/Pró-Marta Paulista/ Santa Maria em São Paulo e da Clínica Alus em Itapetininga. Data/horário: 04/03/2024 (segunda-feira) 20hs  Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.  Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Ale Esclapes; Adriane Watanabe; Fernanda Hisaba; Giuliana Sagulo; Lilian Afonso e Mauro Costa. Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento._______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.

Quando "as histéricas me enganaram"

admin Artigos 04 março 2024
Por Fernanda Borges Hisaba -  Neurologista de formação, durante os anos de 1880, Freud inicia sua prática de hipnotismo; tendo conhecido e acompanhado os trabalhos de Charcot em Salpetriére, começa a tratar pacientes com diagnóstico de histeria, utilizando o método de sugestão sob hipnose. Porém, logo se angustia com os parcos resultados obtidos com essa prática, as frequentes recidivas dos sintomas histéricos, e a impossibilidade de estabelecer um vínculo causal satisfatório que pudesse saciar seu espírito investigativo e alcançar o sucesso terapêutico almejado. Já com ideias mais próximas à Psicologia, suspeitando de um fator causal relacionado a possíveis traumas emocionais, começa então a inquirir seus pacientes a respeito do motivo de sua dor. Juntamente com Breuer, discutindo os casos clínicos atendidos por ambos, escreve e publica, em 1893, o artigo “Comunicação Preliminar”, que fará parte do livro Estudos sobre Histeria (1895), tido por muitos como a obra que inaugura a Psicanálise. Neste artigo, os autores observam, inicialmente, que não é possível chegar ao fato determinante do sintoma através da simples e direita inquirição do paciente, pois este, habitualmente, não tem conhecimento de tal acontecimento em sua vida consciente. Através da hipnose, nota-se uma “ampliação” dessa consciência, de tal forma que o doente passa a ter um mais livre acesso aos acontecimentos de seu passado, a seus processos mnêmicos.  A conclusão a que chegavam, invariavelmente, era que o surgimento do sintoma remontava a algum trauma real oculto no passado do paciente. A este trauma, na ocasião de sua ocorrência, o paciente não teria podido, por um ou por outro motivo, reagir de forma adequada. Então, a energia que acompanha o trauma que não pôde ser ab-reagido, era deslocada para uma segunda “consciência” (reprimida), e reaparecia, posteriormente, na forma de um sintoma histérico. Nesse sentido, o sintoma seria uma “lembrança” do trauma, o que leva os autores a dizer que “o histérico sofre de reminiscências”. A essa “segunda consciência”, na realidade não consciente, não pertencente ao tempo presente, os autores (notadamente Breuer), denominam estado hipnoide, que pode ser disposicional ou adquirido em função de um trauma.   Denotando uma ingenuidade crédula na capacidade de acessar a memória através da hipnose (e, posteriormente, da livre associação de ideias), ignorando possíveis fatores de confusão, como a representação de traumas imaginados, fantasias, e ainda, a necessidade do paciente de agradar ao médico e a característica capacidade de “clonar” sintomas de que a histeria se constitui, Freud comete seu primeiro equívoco: ele aceita como verdade incontestável (embora impossível de ser comprovada) a narrativa do paciente (ideia já aventada por Mesmer no século XVIII). Sob esta égide, ele irá construir a Teoria da Sedução. Freud sempre suspeitou do componente sexual como fator etiológico no desenvolvimento das neuroses. E esta não é, em absoluto, uma novidade. Os primeiros estudos sobre a histeria remontam à Antiguidade, e Hipócrates, em sua “sufocação da Matriz”, já trazia a ideia de um útero não alimentado migrando pelo corpo, atingindo os pulmões e sufocando a paciente, motivo pelo qual a patologia seria mais frequente em mulheres solteiras e viúvas, e uma das terapias mais populares, o casamento. Analisando suas pacientes, Freud acaba por concluir que a única etiologia da histeria seria de cunho sexual. “A terminologia “trauma”, em medicina, admite vários significados, todos eles ligados a acontecimentos não previstos e indesejáveis que, de forma mais ou menos violenta, atingem indivíduos neles envolvidos, produzindo-lhes alguma forma de lesão ou dano” 2. Logo, a etiologia da histeria, para Freud, seria um trauma sexual e causado por outrem, real e pertencente ao passado, ocorrido antes da maturidade sexual. Está elaborada a Teoria da Sedução. A apresentação desta teoria para o público médico da época foi um fracasso. Freud foi desacreditado e chocou a todos com a ideia de que todos os doentes sofrendo de histeria teriam sofrido um abuso sexual na infância, praticado por alguém mais velho e próximo a eles, pai, irmãos mais velhos, primos, babás.  Uma das mais contundentes críticas que Freud recebeu por seu trabalho dizia respeito à generalização do fato, que presumia uma espécie de “epidemia” de crimes sexuais, à qual, alguns anos depois, Freud justifica: “as histéricas me enganaram”. Percebe que seria possível que a recordação das pacientes, o recalcado, se referisse a uma fantasia de um abuso sexual que na realidade não ocorrera, mas cuja ideia seria igualmente intolerável.  E como escapar à essa manipulação? Como comprovar em consultório as narrativas enganosas de suas clientes? A solução estava diante de seus olhos, e foi ouvindo Breuer que, a princípio, ele a percebeu. A transferência. Durante o relato de Breuer a Freud sobre o tratamento de Bertha Pappenheim (Anna O., o primeiro dos casos clínicos descritos em Estudos sobre Histeria), Freud observa a relação de afeto que se forma entre Breuer e sua paciente. A profunda dedicação do médico, sua disponibilidade diária para escutá-la, e o claro envolvimento amoroso da parte de Anna O., que solicitava com frequência seu médico e se queixava de seus atrasos; a crise histérica descrita por Breuer, na qual Anna se contorcia em dores abdominais e dizia que o “filho do Dr. B.” estava a caminho... Não havia como comprovar a veracidade da narrativa dos pacientes, sob hipnose ou através da livre associação de ideias, considerando que o suposto fato se encontrava no passado e teria ocorrido fora ambiente terapêutico. Porém, o sofrimento psíquico e o afeto deslocado do passado para o presente e projetado na figura do psicanalista, observado durante a sessão, era facilmente comprovado. Este sim,inconteste, vivido pelo par terapêutico, real e palpável.   Desta forma, cai por terra a teoria do trauma sexual real que, salvo exceções, se constituía em uma fantasia do próprio paciente formada durante seu desenvolvimento sexual, e que posteriormente reemergia na consciência do mesmo como sintoma histérico. O reconhecimento deste equívoco permite a Freud reformular, em 1906, suas teorias a respeito do papel da sexualidade na etiologia das neuroses.

A riqueza da teoria kleiniana a partir do olhar do bebê

admin Artigos 03 março 2024
Por Márcia Velo Barros -  Ler os textos de Melanie Klein ... é impossível não brilhar os olhos com tremenda genialidade da psicanalista de crianças que, de forma sensível, consegue captar as simbologias das brincadeiras, dos desenhos, e das comunicações orais, visuais, etc. Penso que ler Klein é aprender sobre o misterioso e curioso mundo infantil da criança. Mas esses textos também possibilitam abrir o leque para pensar o infantil no adulto, pensar, e ajudar a ver, a criança que existe dentro de nós e de cada paciente adulto que atendemos. Os adultos carregam para a vida toda carga de experiências, fantasias e afetos que foram vivenciados na infância. Klein traz, em sua teoria, esse olhar, partindo do nascimento e dos primeiros contatos do bebezinho com o mundo externo, que, assim, vai criando seu mundo interno, povoado de anjos e demônios, que o protegem, acalantam, mas também amedrontam. E isso se mantém. E quando cresce, o adulto (re) vive tais afetos e fantasias em outras experiências, trazendo para atualidade toda vivência inicial. Como é brilhante essa teoria! Ela nos mostra como os primeiros anos de vida (principalmente o primeiro) são importantes e dominantes em nossas vidas mentais. E assim acontece a historinha do bebê: Meu primeiro contato com o externo – um seio – que me alimenta e, por isso, me apresenta o afeto do amor. Um objeto que mais parece uma parte de mim do que algo externo, que entendo como criação própria, que entendo como autossatisfação. Até olhar mais em volta e perceber, com o tempo, que esse seio não está presente sempre que necessito. Essa experiência me apresenta o afeto do ódio. Então, que poder é esse que eu imaginava que tinha? Não é magico não! Tem alguém que surge com esse tal seio e me alimenta – tem uma mãe. Mas as vezes ela falta. Isso dói! E choro, choro, choro, até recebê-lo. Mas é só assim que percebo que suporto a espera e não morro por isso. Assim vou percebendo que essa mãe, que também não é parte nem criação minha, é um outro objeto do qual dependo e sem o qual não sobreviveria. Vivo com essa mãe amores e dores. Ela me frustra também. Ela tem a vida dela e não pode estar sempre presente. E tem um pai (que eu descobri um tempinho depois) que colabora com essa separação, pois é ele com quem ela faz par. E eu estou de fora! Tenho que buscar meus pares, meus iguais, meu mundo... E assim vou tentando crescer e amadurecer esses difíceis afetos. Ora amo, ora odeio, percebo esses objetos externos como bode expiatórios de minhas frustrações, de meus dissabores, até que vou entendo que são os mesmos objetos que eu também amo. Como amo e odeio o mesmo objeto? É, parece estranho ne?! Mas é assim! Conforme vamos conseguindo integrar esses objetos dentro de nós e construir um mundo interno povoado de mais amores que ódios, vamos aceitando as falhas, nossas e dos outros. Nossa! Outros! Descobri isso então! Existem outros! Que não são eu. Outros com os quais vou me relacionando, vivenciando e aprendendo novos afetos além do amor e do ódio. Sinto inveja, sentimento de perseguição, depois de culpa, desamparo, tristeza, etc. Até que entendo que consigo suportar sentir tudo isso e nem por isso saio destruindo tudo e todos. Uma porque não conseguiria e outra porque prefiro manter esses “outros” perto de mim de tão bons que são. Certo que, não vou mentir, as vezes busco controlar esses “outros” em minha fantasia, com medo de ser punido, por sentir ódio quando eles me frustram. Também tenho minhas fragilidades, poxa vida!! Mas a realidade é uma grande amiga e vem me dizer que não preciso sofrer com essas coisas, pois ela, de certa forma, vive me dizendo que “fantasmas não existem”. Eu que os crio. Isso me dá um baita alivio e assim consigo me desenvolver mais um pouquinho. Ainda sou pequenino, estou completando meu primeiro ano, mas tenho certeza que essas experiências difíceis, assim como, logicamente, as boas, vão me acompanham e guiar meu futuro. E quando sofrer novamente, lá na frente, posso (re) viver dentro de mim a fé de que tenho nesses “outros” bons que me acompanham aqui dentro, mesmo que eu os perca lá fora. Assim fala o bebê. E a partir daí o adulto continua sua história. De frustrações e realizações. De possibilidade e perdas. De amores e dores. E Melanie Klein mostra em seus riquíssimos textos, através de suas experiências psicanalíticas com “bebês” crianças e “bebês” adultos, como o mundo interno vai se criando em meio a tantas turbulências e conquistas, e, por isso mesmo, é que consegue amadurecer até aproximar o quanto possível as realidades, externa e interna, e, dessa forma, ir elaborando as perdas e ganhando vida real. Aquela “grande amiga” realidade que o bebê nos apresentou logo acima.

Histeria: da antiguidade ao século XIX

admin Artigos 02 março 2024
Por Thaís Jamyle P. D. Cavalcante -  Mesmo nos dias de hoje a histeria é uma palavra largamente usada e pouco conhecida. Ninguém sabe muito bem como defini-la, e não só os leigos. Parece que, desde que ela começou a se manifestar entre nós, define-se justamente pela sua falta de definição. A histeria começou a ser documentada no século IV a.C., com Hipócrates. A origem da doença é atribuída ao útero, que também lhe empresta seu nome (hystera, "útero" em grego). Daí concluímos que ela é, desde o começo, atrelada à condição feminina. E estudada pelos homens. E esses dois fatos influenciarão, pelos próximos séculos, a classificação e o tratamento da histeria. Partindo da concepção de Platão de que a mulher é uma criatura mais animal do que divina, atribui-se ao útero uma curiosa independência: ele é considerado um pequeno animal com vontade própria que pode se deslocar dentro do corpo. E dependendo do lugar do corpo onde o "animalzinho" se aloja e do órgão que ele sufoca, temos um sintoma histérico:os desmaios, a catalepsia, a falta de ar. Mais à frente, na Roma Antiga, os médicos Soranos e Galeno observam que a histeria se manifesta especialmente entre mulheres que passam por abstinência sexual. Galeno entende, portanto, que a falta de sexo leva a uma retenção do "esperma feminino", uma substância que, acumulada, pode envenenar o corpo, afetar os humores. O tratamento é claro: a atividade sexual regular. Essa ideia se fixará por muitos séculos, ora se escondendo, ora retornando com muita força. Na Idade Média esses conceitos médicos são esquecidos, e a histérica é vista simplesmente como uma mulher dominada pelo demônio. O exorcismo – ou, no caso das condenadas por bruxaria, a sentença de morte – é a solução. O Diabo se associam, então, à histeria: como ele, a doença é enganadora e se apresenta sob várias máscaras. A natureza confusa da histeria foi por muito tempo objeto de atenção dos padres. Mas a partir do século XVII os médicos retomam seu domínio sobre a discussão. Muitas ideias da Antiguidade são recuperadas depois da tradução de obras gregas feitas após a Renascença. Uma delas é a concepção de que vapores circulam no interior do corpo humano. Não mais pelas artérias, como se acreditava antes da descoberta do funcionamento da circulação sanguínea, mas pelos nervos. E esses vapores seriam influenciados pela fermentação produzida pelo corpo, afetando diretamente a saúde: os fermentos do esperma (feminino ou masculino), portanto, liberariam os vapores histéricos. E com um detalhe importante: apenas os vapores femininos chegariam ao cérebro, o que explicaria a ocorrência da histeria entre as mulheres. Essa teoria, portanto, tira do útero a sua exclusividade como causador da doença e traz um novo "personagem" para o palco: o cérebro. A crença nos vapores e espíritos animais viciados que circulam pelo corpo cai por terra conforme avançam os conhecimentos da anatomia humana. No século XVIII, a origem das "doenças dos nervos" se fixa no cérebro. E Franz Anton Mesmer, médico alemão, mexe com a imaginação da Europa ao apresentar os poderes do "magnetismo animal". A ideia é que Mesmer possuía em seu corpo um magnetismo especial, oriundo de sua conexão com os ritmos da natureza, do universo. Portador e transmissor desse magnetismo, declarava-se capaz de alterar estados histéricos ao tocar as doentes. Paradis, sua paciente mais famosa, teria mesmo se curado de sua cegueira (fato desmentido pelas pessoas próximas à moça). Fazia sessões coletivas de cura, onde várias pessoas entravam em crise, mas uma crise que supostamente tirava o mal de seus corpos, que desafogava suas sensações acumuladas. O magnetismo caiu em descrédito até meados do século XIX, quando o britânico James Braid recupera a técnica e a renomeia "hipnose", divulgando-a por meio de sua obra, publicada em 1843. Além de estar ao alcance de todos, ele observa o poder de sugestão que o hipnotizador tem sobre o hipnotizado. A comunidade médica não demora muito para testar a hipnose em pacientes histéricos. Constatam, com assombro, que os sintomas podem sumir sob efeito hipnótico ou que novos sintomas simplesmente aparecem mediante sugestão. Quando o paciente acorda, no entanto, todo o efeito se desfaz. Não há qualquer avanço em direção à cura. Portanto, a hipnose serve apenas para confirmar o caráter enganador da histeria e de suas manifestações, para constatar que pouco se avançou desde a Grécia Antiga. Por mais algumas décadas, a histeria ficará relegada às periferias dos manicômios, incompreendida. As pacientes são jogadas na mesma ala dos epiléticos. Ninguém sabe o que fazer com elas. Somente Charcot, encarregado dessa ala um tanto marginalizada no grande hospital dos alienados de Paris, a Salpetrière, enfrentará o problema de frente e mudará de vez a história da histeria.

Boas experiências em meios psicanalíticos

admin Artigos 01 março 2024
Por Márcia Velo Barros -  Não só de atendimentos vive um psicanalista. Não só numa poltrona atrás de um divã, ouvindo seus analisandos e interpretando. O psicanalista também precisa de ajuda. Como tudo e todos, também temos nossos pontos cegos. E nada melhor que uma boa troca de experiências com colegas psicanalistas para (re) pensarmos nossa prática, buscarmos novas teorias e (re) vermos as já vistas. Sempre há espaço para o novo. É assim que sinto quando me encontro com meus colegas psicanalistas em seminários clínicos. Seminários clínicos são experiências riquíssimas nas quais podemos trazer casos clínicos para estudo, assim como conhecer outros nunca experimentados pessoalmente, e trocar ideias sem fim. Nessas experiências que já passei posso relatar que pude (re) pensar a teoria ligada à prática, constantemente. Essa é uma das grandes riquezas da Psicanálise: Sempre encontramos, num caso, num texto, numa teoria, algo que em outro momento nos passou despercebido, algo que desviou, por inúmeros motivos, de nossa consciência, mas que, em vínculos de troca, nos quais, como não poderia deixar de ser, também ouvimos bastante, podemos trazer de volta, questionar e pensar. Um processo muito próximo da própria ideia de Psicanálise, não é?! Mas assim é a Psicanálise: possível onde houver possibilidade de vínculo. Portanto, com os seminários clínicos, temos a sorte e a chance de sermos questionados quanto ao nosso olhar e entendimento de cada ser humano que nos procura com suas angustias, dores, dissabores e amores. E assim, nos aproximamos de nossos pontos cegos diante do outro. É possível, nessas experiências, entender cada vez mais a teoria. Ver na prática, sentimentos tão presentes na teoria psicanalítica, ora integrados, ora fragmentados, (tais como amor, ódio, indiferença, inveja, insegurança, felicidade, satisfação, fragilidade, onipotência, vaidade, arrogância, insatisfação, etc.) à flor da pele. (Re) conhecemos nos casos apresentados, as histerias, as paranoias, a parte psicótica e neurótica da mente, as angústias obsessivas, as ansiedades depressivas e persecutórias, etc. Portanto, podemos, com a ajuda dos colegas, ver a teoria levantar dos livros e caminhar, criar vida, na forma dos seres humanos os quais temos a chance e a sorte de nos vincularmos: nossos analisandos. Com a ajuda dos colegas psicanalistas, podemos discernir o conteúdo manifesto no discurso do analisando de seu conteúdo latente, que em certos momentos podemos nos colocar cegos, e, com essa riqueza, é que temos a chance de avançarmos nas analises que nos propomos realizar. É como ter ajuda para entrar num sonho e sair dele transformado, é como ter ajuda para entrar e sair de um labirinto. Também com a ajuda dos seminários clínicos, podemos descobrir nossas partes não analisadas da mente e ter a chance de levá-las para nossa análise pessoal e desenvolvermos, se abertos para isso, emocional e profissionalmente. Essa riqueza toda da qual tento descrever brevemente (se é que isso é possível!!!), só é possível em vínculo. A brilhante Psicanálise demonstra isso, a todos nós que nos encorajamos vivê-la, através das relações que o psicanalista pode ter com o paciente, mas também com os colegas e com seu próprio analista. Vincularmos de todas essas formas é o que nos torna capaz de amadurecimento e transformações. De lidar com as frustrações e perdas da vida, (perdas reais, perdas de sonhos, de desejos, de ideais, etc.), assim como de poder e tentar colaborar com nossos colegas e com nossos analisandos. Parece um sonho, não é?! É que sou suspeita para dizer, pois amo o que faço, mas essa é uma vivência real e possível à todo psicanalista. 

Édipo, o complexo do qual nenhuma criança escapa

admin Artigos 29 fevereiro 2024
Por Fernanda Lima Luggeri -  O escritor e psicanalista Juan David Nasio, escreveu o seguinte contexto na página 40: "O supereu é instituído graças a um gesto psíquico surpreendente: o menino abandona os pais como objetos sexuais e os mantém como objetos de identificação. Uma vez que não pode mais tê-los como objetos de seu desejo, apropria-se deles como objetos do seu eu; na impossibilidade de tê-los como parceiros sexuais, promete inconscientemente ser como eles – em suas ambições, fraquezas e ideais". Pois bem, indo ao encontro desse estudo, pude penetrar juntamente com a paciente K., e em algumas sessões que me deram a possibilidade de aprofundar-me nesse assunto: OBJETO do seu EU em suas ambições, fraquezas e ideais. A fala quase incansável nas histórias de seu pai, a opção pela homossexualidade e os sentimentos de raiva do sexo masculino, como exemplo o ex-noivo, comecei a pensar, analisar e acreditar que essa mulher de 30 anos, pode ter sido inserida no complexo de Édipo dos meninos pelo menos para estudo de caso, maluquice minha, talvez com uma grande dose de fantasia, mas dessa forma compreendendo muitos fatores. Hoje, a visão com relação a figura masculina e de seu pai são um pouco diferente, talvez um pouco menos ansiosa e triste no setting. No inicio do mês de abril desse mesmo ano, obtive a chance de perceber a inveja pelo pai que esse "menino" possui. Essa é a identidade sexual de K., e ao meu ver ela se encaixa nos contextos dos meninos, tornando-a neurótica, dando origem à todos os seus sofrimentos. Essa inveja apareceu quando em uma sessão tentou arduamente destruir a especialização médica de seu pai, desqualificando-se os métodos arcaicos nas cirurgias, a inveja transformou em raiva e em choro.  K., tem 30 anos, homossexual, reside na região sul de SP, médica,  tem três gatos. K., veio à sessão no intuito de "curar" suas discórdias, longas brigas e imensas mágoas com seu pai, entender a bebida que ele tomava, as mulheres que se envolvia extraconjugal, o jeito dele, segundo K., com muita soberba, entre outros comportamentos que repudiava, mesmo depois da vigésima sessão ainda luta com todas essas fantasias.    Na última sessão, mais preciso, no dia 16 de maio desse ano, K., perguntou-me: "porque minha namorada falou que sou como as pessoas da área médica: frios, arrogantes, soberbos e calculistas...?".Eu devolvi essa questão na forma de espelhamento. K., talvez começou a entender que executa os comportamentos semelhantes de seu pai e não admira muito esse caminho, mesmo assim, faz uma repetição de comportamentos, inconscientemente ser como seu pai. Isso, ser igual ao seu pai para possuir o corpo de minha mãe? Sim, será que é isso? Hoje, possui o corpo de outra mulher, com o mesmo nome K., será outro processo a estudar, um processo narcísico? Segundo os estudos de Juan David Nasio, no livro: "Édipo - O complexo do qual nenhuma criança escapa", pg. 18, num quadro explicativo ele descreveu o seguinte contexto: na reativação do Édipo na idade adulta podemos encontrar uma neurose comum e mórbida. Aqui, neste caso, podemos analisar essa morbidez quando K., deseja a morte de seu pai e é demonstrada a raiva na boca de K., durante as sessões, quando fala de seu pai, me lembrava os desejos mórbidos de "cortar" esse falo, de "cortar" a língua que escuta as "bobagens" do pai e também o contexto de possuir as relações com sua mãe, outras mulheres, sua profissão, bem como, a bebida entre outros. Uma certa vez, K., chegou à sessão com uma dose de whisky, um processo bem interessante, uma vez que enfatiza que detesta as bebedeiras de seu pai. Na profissão ambos são médicos, mas o pai tem a especialização em endocrinologia, e K., trabalha com outra especialização. No livro, o autor e mestre, Nasio menciona na dessexualização dos pais, a renúncia aos pais e a incorporação dos pais como objeto de identificação. Será esse ponto? Objeto de identificação? Acredito que sim, porque buscou a mesma profissão do pai e não apresenta a menor resiliência com seus pacientes no consultório. Outro ponto bem significante, que podemos observar, é a identidade sexual, por isso, que chego a mencionar que K., tem inveja do falo do pai, quer possuir o corpo da mãe, como não pode por ter medo da retaliação, ou talvez, até de um processo de castração, considerando que é mulher, procura em outra mulher esse gozo, em substituição à mãe. Por vezes, é claro e transparente, a busca excessiva de vencer esse pai internalizado nas sessões, porque corta a minha fala demonstrando quem domina as sessões, por ter este falo, grande falo imaginário. Hoje, está estudando a possibilidade de mudar de profissão, uma possível substituição pela medicina. Acredito interessante e de grande valia este estudo para falarmos do Édipo dos Meninos com a inserção de uma paciente homossexual. A sexualidade está no formato genital, como a vagina, pênis ou na identidade sexual?? por isso, acredito que podemos falar sim, de K., no Complexo de Édipo dos Meninos.  Ao leitor, desculpe a ousadia.
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