EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

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Cadê o inconsciente que estava aqui?

admin Artigos 21 março 2024
teoPor  Fabiana Tessaro -  Uma nova estrutura do aparelho psíquico nos é apresentada por Freud em 1923. Uma de suas maiores obras metapsicologicas, é em o “Eu e o ID” que a noção de inconsciente se dissolve, não se tratando mais de um lugar e sim de uma qualidade,um status de uma ideia. O modelo topográfico do aparelho psíquico que fora dividido entre inconsciente, pré-consciente e consciente, já não era suficiente para explicar determinados fenômenos da clínica.  Havia algo além disso...  O inconsciente não poderia ser um único local na psique, havia outros tipos “continua certo que todo reprimido é inconsciente, mas nem todo inconsciente é também reprimido” (Freud, 1923). O Eu do sujeito até então inteiramente conectado ao consciente, tinha um que de inconsciente também. O inconsciente do Eu exercia efeitos tal como o reprimido e demandava trabalho específico para torná-lo consciente. Foi a prática e a observação clínica que o conduziu a segunda tópica, a psique agora é dividida entre Eu, ID e Super EU. Essas três instancias se interagem, se conversam, se conflituam entre si. Para qualificar o ID, nossa instancia psíquica mais primitiva, Freud se inspira no conceito de isso de Georg Groddeck, um algo psíquico estranho, inquietante e inconsciente. O Eu é um grande mediador entre as exigências e pulsões do ID, o mundo externo e o Super Eu, esse senhor conservador, severo e cheio de exigências. Freud iniciou seu percurso na psicanálise no final do sec. XIX e a partir dessa obra datada de 1923 toda sua teoria precisou ser revista. Apesar de seus erros e acertos, a trajetória e o legado de Freud são incontestavelmente dignos de admiração e respeito. 

O caso Dora - Ponto cego

admin Artigos 20 março 2024
Por Fernanda Borges Hisaba -  O ano é 1900.Freud havia migrado definitivamente para o campo da psicologia e estava sedimentando e expandindo seus conhecimentos; tinha grandes expectativas a respeito da publicação de sua “Obra do Século”, a Interpretação dos Sonhos. Trazia angústias também, remanescentes da rejeição pública e contundente que experimentara quando da apresentação de sua Teoria da Sedução para seu ilustrado público. Suas ideias inicialmente causaram repudia, enquanto a base de sua teoria não se sustentava. Ele precisou rever a aplicabilidade de suas teorias e, posteriormente, de sua técnica. Quando Freud atende Dora, sua técnica necessitava de reparos, de aprimoramento; carecia de experiência de vida.  Suas convicções, no entanto, estavam bem estabelecidas. Dora não somente se encaixava nelas, como trazia um material rico cuja interpretação poderia ser facilmente demonstrável, com grande chance de sucesso terapêutico e acadêmico. Freud se pautava em seus conhecimentos teóricos, observações de seus pacientes, trabalhava com hipóteses e tornava-se em objeto de suas próprias indagações. Em busca do inconsciente descobriu e nos trouxe os sonhos, e os relacionou em sua origem com os sintomas de seus doentes, e vislumbrou então uma forma de utilizar o material capturado durante a interpretações dos sonhos do paciente para pensar seu sofrimento, desvendar suas resistências e comunica-las ao paciente. Vislumbrou outro caminho para a tão arduamente aspirada cura; queria aplica-lo. Dora, uma adolescente confiada pelo pai aos cuidados de Freud, dispunha de todo o material que povoava a mente do analista naquele momento. Trazia sonhos ao setting e trazia sintomas histéricos, consistia em oportunidade para que Freud pudesse mais uma vez comprovar suas teorias. Freud se ocupou em desvendar os mistérios de Dora, guiado por suas demandas pessoais. Falhou ao não disponibilizar a escuta analítica como posteriormente postula. A atenção equiflutuante e livre de expectativas, a escuta sem restrições, não seriam seu norte nesse caso. Falhou em não se atentar ao fato de que o momento psíquico do indivíduo em tratamento pode não ser favorável à exposição àquele material provindo do Inconsciente e apontado pelo médico, que irá então falhar em seu intuito pois seus apontamentos não serão adequadamente percebidos e utilizados pelo paciente, e que esta exposição abrupta e deficiente em delicadeza do conteúdo que deveria estar reprimido não é livre de consequências. Freud, entusiasmado e mantendo como principal foco a análise dos sonhos trazidos por Dora, cria hábeis interpretações, possibilidades dotadas de atributos de material reprimido que poderiam realmente estar corretos já que coerentes, mas interpretações às quais o doente se manifesta de forma contrária, podendo corresponder a uma resistência em aceitar a existência de tal conteúdo ideativo; para Freud, esta seria a única possibilidade, pois postula como dogmática a interpretação do analista, sempre correta, independente da reação do paciente diante dela.   Ele percebe a existência de um desejo projetado pela paciente em sua figura, e apressa-se em dizer que não se deve ceder a esse desejo. Discorre sobre a necessidade da análise em transcorrer em abstinência, porém não se abstém dos sentimentos por Dora despertados em sua pessoa. Não se abstém de sua hostilidade e se ressente do fato de sua paciente não acolher como verdades suas interpretações. De fato, percebe a existência da transferência. Não percebe talvez o uso que poderia fazer desta descoberta. *Após 11 semanas do início do tratamento, Dora o interrompe sem maiores explicações. De sua fala – “quem como eu desperta os demônios mais malignos com que se pode lutar, demônios que habitam não totalmente domesticados no íntimo humano, deve estar preparado para sair ferido nessa contenda” – é possível inferir em Freud uma percepção de que sentimentos serão despertados em seus pacientes, e estes serão vividos na figura do analista, que necessariamente será “afetado” nesse processo, e desenvolverá o que ele chamou depois de contratransferência. Confessa a Ernest Jones “há uma grande dificuldade, se não uma impossibilidade, em reconhecer os verdadeiros processos psíquicos da própria pessoa”. Posteriormente, Freud passa a se dedicar a sistematizar e normatizar, de certa forma, a prática analítica. Passa a publicar, nos anos seguintes, suas recomendações aos seus discípulos. O confronto das ideias desenvolvidas nestes pequenos manuais de conduta com o desenvolvimento da análise de Dora nos faz perceber o quão pouco uso Freud fizera até aquele momento de suas próprias regras. É possível que a inexperiência no manejo desta recém-desenvolvida técnica tenha ocasionado algumas dificuldades. É factível que Freud tenha apreendido algo no manejo da clínica através dessa vivência, e que tenha gerado material que posteriormente fora inserido em suas sistematizações. O provável, no entanto, é que as expectativas de cura, as ambições profissionais, a obsessão em parecer impecável diante de seus colegas, tenham se tornado o foco principal deste tratamento, mobilizando Freud em direção contrária a seus próprios apontamentos, funcionando como um grande ponto cego na condução deste processo.  

Freud - o Sherlock Holmes das neuroses

admin Artigos 19 março 2024
Por Patrícia de Pádua Castro -  Um “crime” ocultado pelo autor, um detetive obcecado em buscar os vestígios a partir dos efeitos para as causas, empregando a sua incrível habilidade de observação e dedução tem a capacidade de desvendar casos aparentemente insolúveis e revelar todo o mistério envolvido. Poderia ser essa a sinopse de um filme ou um livro de Sherlock Holmes, ou ainda, a descrição da prática analítica de Freud relatada em um de seus casos clínicos: O caso Dora.  Essa comparação pode até soar como uma crítica injusta (ou um elogio exacerbado) dirigida ao Dr. Sigmund Freud, mas a justificativa é baseada no fato de sua prática analítica se contrapor com algumas de suas recomendações dirigidas aos jovens psicanalistas, publicadas a partir de 1904 [1905] com o artigo O método psicanalítico Freudiano. A publicação deste artigo ocasionou a primeira apresentação sobre a técnica psicanalítica e suas especificidades e deu início a uma série de outros artigos que trouxeram à luz mais esclarecimentos, indicações, contraindicações e recomendações técnicas para exercício do método psicanalítico. Analisar a técnica freudiana a partir do “Caso Dora” apresenta uma dificuldade já de início, visto que Freud relata não ter exposto detalhes da técnica, sendo essa revelada apenas em uns poucos lugares. Seu interesse era uma análise teórica do caso, objetivando mostrar a determinação dos sintomas a partir da semelhança entre a técnica de interpretação dos sonhos e a técnica psicanalítica e reafirmar a sexualidade infantil com a estrutura íntima da neurose. Vale ressaltar que a publicação do “Caso Dora” se deu no ano de 1905, mas a análise da paciente ocorreu em 1899, neste período Freud publicou A interpretação dos sonhos (1900), e também em 1905 publicou Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, trazendo explicitamente a sexualidade infantil como a etiologia das neuroses. Com isso faz-se a primeira indagação: Será que Freud conseguiu separar a condução do trabalho analítico da sua pesquisa teórica? Num primeiro momento pode-se dizer que sim, uma vez que ele aborda no texto os cuidados que tomou para conservar o sigilo do tratamento e de ter redigido a história clínica a partir das suas lembranças sobre o caso e somente após o fim do tratamento, indo de encontro com duas de suas recomendações técnicas: não fazer anotações de grandes extensões nas sessões, e não abordar um caso cientificamente enquanto o tratamento não estiver concluído [i], ambos os cuidados são necessários para manter uma atenção equiflutuante durante a escuta analítica. Porém objetivos tão claros e ambiciosos acerca da publicação do caso, podem suscitar dúvidas, uma vez que no trabalho analítico pesquisa e tratamento coincidem, mas as técnicas de ambos divergem. Na pesquisa científica há elaboração de hipóteses e sua verificação para a construção do conhecimento o que prejudica o tratamento, pois nesse deve-se ter uma escuta aprimorada, sem expectativas, sem inclinações, não selecionar e não fixar a atenção intencionalmente, “(...) os casos que mais têm sucesso são aqueles em que procedemos quase sem intenção, nos surpreendendo com cada mudança de rumo e com o que nos defrontamos sempre desarmados e sem preconcepções”i. Em vários momentos, Freud dá indícios de saber os pontos de partida (sintomas) e chegada (sexualidade infantil), e apenas era necessário escolher a trilha (material da análise) que iria percorrer para concluir o trajeto. Na descrição do caso clínico, Freud relata que o pai de Dora foi quem o procurou, depois dela ter deixado uma suposta carta de despedida, que a paciente estava impelida pelo pai a fazer o tratamento, e que ela também adquirira o costume de desdenhar dos médicos que lhe prestavam auxílio. Neste ponto faz-se duas considerações importantes, a primeiro que a busca de auxílio não deve ser imposta, tem que partir do próprio paciente, talvez seja essa a condição primordial para que seja possível estabelecer e manter o tratamento psicanalítico, no qual “[...] não pode ser aplicado em pessoas que não se sintam impelidas à terapia por si próprias através de seu sofrimento, mas que se submetem a ela apenas por uma imposição de seus parentes” [ii]. Estabelecida essa primeira condição, a aparente expectativa do paciente (crédula ou desconfiada) perante o tratamento, diferentemente da técnica de sugestão, não são tidas como facilitadoras ou empecilhos para a condução do tratamento, uma vez que as resistências internas na qual fundam as neuroses são o verdadeiro desafio a ser superado. O início do tratamento se deu com o pedido para que a paciente lhe contasse a sua história e falasse de sua doença. No artigo “Sobre o início do tratamento (1913)”, Freud amplia dizendo que o material inicial para o tratamento pode ser a história de vida, da doença, das lembranças da infância, desde que seja relatado tudo o que vem à mente, sem críticas, sem rechaçar nenhuma ocorrência, mesmo que lhe seja desagradável. Nesse ponto não se deve preocupar em obter uma narrativa sistemática, pois as lacunas e o esquecimento são ocasionados pela resistência e “cada pedacinho da história depois terá de ser contado de novo, e só nessas repetições surgirão os acréscimos que revelarão os contextos relevantes, desconhecidos do paciente” [iii]. Essa repetição não se dá só em palavras, mas principalmente por meio de atos, o paciente substitui o lembrar pelo repetir, sob influência da resistência passa a atuar, trazendo à tona a fonte do material recalcado e reproduzindo os sintomas durante o tratamento. Essa atuação muda a percepção da doença como um assunto histórico e traz ela para o presente, como algo real e atual. E Dora repetiu. Repetiu comportamento de pessoas de sua relação, manifestações e simulações de doenças, atos vingativos e sonhos... E essas repetições se deram também na relação transferencial com Freud!   Freud a princípio diz não ter percebido a transferência e que “a parte mais difícil do trabalho técnico não esteve em consideração” [iv], mas ele a percebeu e chegou até mesmo a comunicá-la. Na análise do primeiro sonho, Freud relacionou o cheiro de fumo com o pai de Dora, Sr. K e consigo, todos fumantes. Foi ainda mais longe ao ligar essa impressão de Dora de sentir o cheiro de fumo ao acordar, com uma frase que usava com a paciente na análise “onde há fumaça, há fogo”, e até chegou a mencionar a possibilidade de ela ter ansiado por um beijo do Sr. K, e também pelo seu. Dora rejeitou essa interpretação.  Freud pareceu comunicar suas interpretações sem ter aguardado que a paciente se aproximasse do material recalcado, dando a impressão de estar despejando sobre Dora suas suposições e teorias, o que acabou por não diminuir, ou até mesmo intensificar, a resistência da paciente. A partir dessa rejeição, Freud não se ocupou mais em lhe dar esclarecimentos acerca da relação transferencial, deixou esse manejo em segundo plano.  Ele prosseguiu com a análise dos dois sonhos trazidos por Dora e assumiu no posfácio que não foi capaz de dominar a transferência devido à intenção e interesse que ele tinha em trabalhar com o material patogênico. Sim, Freud já havia deixado explícito esse interesse quando justificou a publicação do caso clínico. Ele esmiuçou cada ponto dos sonhos trazidos por Dora, criando uma trama bem elaborada da história clínica, onde cada pedaço do sonho teve sua ligação e importância na construção da história, e sua tarefa foi interligar estes pontos para que tudo fizesse sentido. Diante deste cenário não foi difícil para Freud manter a sua postura de abstinência, recusando dar a Dora o que ela desejava: amor. Em contrapartida, Dora ao perceber a falta de interesse do médico à sua pessoa também recusava dar-lhe as informações que ele tanto almejava. Cabe aqui mais algumas indagações: Como Freud sentia-se em relação a isso? E em relação à Dora? Ou seja, pensando no âmbito da contra-transferência, Dora foi capaz de despertar quais sentimentos em Freud? Embora Freud não debruce nessa questão ao relatar o caso, há alguns indícios sobre esses sentimentos, ele chegou a mencionar que a paciente adquiriu um “comportamento insuportável“ ao se identificar com a mãe, em outro momento quando Dora põe fim ao tratamento ele faz menção aos seus impulsos de vingança e crueldade “demonstrando em sua própria pessoa a impotência e incapacidade do médico” [iv], e também quando após o término do tratamento ela o procura novamente para uma conversa, ele, intimamente, promete perdoá-la por tê-lo privado “da satisfação de livrá-la mais profundamente dos seus males” [iv.] No domínio da contra-transferência Freud esteve sob desvantagem por nunca ter se submetido à análise pessoal e nem os seus casos à supervisão clínica. Talvez essa série de condições, a motivação (ou não motivação) da paciente ao tratamento, as expectativas do analista em relação à possibilidade de o caso poder contribuir para comprovar suas teorias, a maneira que se deram o manejo das relações transferencial e contra-transferencial podem ter convergido e contribuído para uma análise fragmentada. Visto que, nesta época, Freud já havia publicado alguns artigos objetivando explicar sobre a técnica analítica, e que diferentemente da teoria, a técnica não sofreria modificações ao longo do tempo, não se pode então dizer que ele não sabia o que estava fazendo. Provavelmente valia correr o risco e ignorar algumas de usas recomendações em prol de “algo maior” e, tomando as suas próprias palavras “quem, como eu, desperta os piores demônios que, imperfeitamente domados, habitam o peito humano, a fim de combatê-los, tem de estar preparado para não sair ileso dessa luta”iv, e isso é “elementar meu caro Watson”.  [i] Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912)[ii] Sobre psicoterapia (1905[1904])[iii] Sobre o início do tratamento (1913)[iv] Análise fragmentária de uma histeria – “O caso Dora” (1905[1901])

A escuta psicanalítica e um lugar para a dor

admin Artigos 18 março 2024
Por Alba Tengnom -  “Suave é a dor que fala. A grande dor é silenciosa.”(Sêneca)  O sofrimento psíquico sempre esteve, para mim, relacionado à compreensão intelectual. Conhecer minhas próprias dores e as de outros dependia inteiramente de racionalização e interpretação a partir de teorias e técnicas consolidadas. As emoções pareciam até mesmo estar ausentes desse processo de conhecimento. Em minhas idealizações, o tratamento psicanalítico tinha como objetivo central a compreensão de perturbações psíquicas apoiada nos campos teórico e técnico da Psicanálise, que parecia oferecer um caminho seguro para atingir essa compreensão. Ao iniciar o Curso de Formação em Psicanálise da EPP, várias de minhas preconcepções foram questionadas. A ideia de “cura” foi aos poucos desconstruída para abrir espaço para o conceito de tratamento psicanalítico em intensos debates nos encontros de teoria e técnica, em que meus colegas apresentaram uma leitura que tendia à pluralidade de destinos do tratamento clínico. Em nossos encontros sempre muito interativos, em que não faltaram boas ideias e uma intensa troca de experiências e impressões, compreendi que um dos objetivos fundamentais do tratamento psicanalítico é fazer falar o sofrimento inconsciente que carregamos na forma do que ficou emudecido, sem expressão, sem representação e, desse modo, aproximar-se do sofrimento através do diálogo interno e promover uma alteração na consciência por intermédio do remanejamento de investimentos libidinais. O tratamento psicanalítico propõe também restaurar a capacidade de amar e trabalhar, manter relações afetivas e sexuais de qualidade, reconhecer as próprias limitações, sem exigir do outro o que ele ou ela não pode oferecer, e não oferecer ao outro o que não se é capaz de dar. O desenvolvimento da capacidade de sublimar, redirecionando as pulsões, além de capacitar para a vida, diante da aceitação e distinção da realidade e do possível são horizontes do tratamento psicanalítico. Um caminho que se abre para o desenvolvimento de capacidades cognitivas necessárias para exercer uma profissão, viver de modo harmonioso, lutar por interesses e ideais, viver com mais intensidade. A Psicanálise busca ainda ampliar a inteligibilidade e a consciência sobre nossos problemas e os dos outros, bem como renomear experiências, permitindo assumir como sujeitos a vivência de sentimentos e ressignificar experiências emocionais. Seria como retomar parte da nossa narrativa de vida tendo agora um novo fio condutor que permite observar e dar sentido a essas experiências. O reconhecimento de forças dinâmicas inconscientes que nos impedem de integrar nossos afetos e conhecer sua profundidade, também chamadas de defesas, que militam contra a evolução emocional do sujeito, e a própria dissolução dessas forças, são as tarefas mais importantes do desenvolvimento psíquico almejado pelo tratamento psicanalítico. Para que isso tenha a chance de acontecer, o cuidado volta-se para a recuperação de conexões perdidas ou bloqueadas entre as diversas redes afetivas que se organizaram durante a vida, criando um ambiente interno para o aprofundamento emocional contínuo. Somos estimulados a nos responsabilizar pelo que somos, comprometendo-nos com nossas relações emocionais. A Psicanálise contemporânea preocupa-se sobretudo com o modo como pensamos, em vez de somente interpretar o conteúdo dos pensamentos em si mesmos. O propósito fundamental aqui é nos fazer evoluir de um estado psíquico em que não conhecemos muito bem nossos sentimentos e comportamentos e somos tomados por eles, para outro estado em que nos tornamos capazes de contextualizá-los, entendendo quais são e como estão relacionados. Ser capaz de contextualizar a raiva, por exemplo, e entender em que situação ela ocorre e que outros sentimentos estão envolvidos exige mais do que coletar fatos passados, torna necessário observar padrões afetivos e atitudes e refletir sobre eles. Por meio da escuta atenta e consciente do psicanalista busca-se criar um ambiente que acolha e permita a investigação, a elaboração e a superação de resistências com foco na reconstrução de ligações afetivas importantes necessárias para o aprofundamento da vida emocional do sujeito. No entanto, como sugere a epígrafe de Sêneca, nem tudo o que é doloroso ou patogênico pode ser lembrado ou expresso em palavras. A dimensão inconsciente do sofrimento torna-se inaudível por esconder-se na repetição de comportamentos defensivos, na superficialização de emoções, na negação de afetos, no silêncio. A escuta como instrumento clínico tornou-se cada vez mais complexa, à medida que teoria e técnica agregaram novos conceitos e desdobramentos. O paciente precisa ser ouvido de diversas maneiras em sua expressão e naquilo que omite. A partir de ideias inovadoras de Melanie Klein, como identificação projetiva e posição que, ao mesmo tempo, consideram e revolucionam as propostas freudianas de escuta, passou-se também a ouvir simultaneamente angústias, defesas e relações de objeto. Outra evolução importante na escuta psicanalítica ocorre com as ideias de Bion sobre ouvir efetivamente o paciente a partir da contratransferência como instrumento clínico, ainda que isso ocorra em uma dimensão inconsciente. “Os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro o que me impressiona” nos diz Clarice Lispector em A Hora da Estrela. A escuta poética, que desde sempre parece ter estendido uma ponte entre a Psicanálise e o acolhimento da fala do sujeito, está presente na forma como psicanalista e paciente escutam a si mesmos. A linguagem poética, carregada de insólitas e inesperadas correlações entre imagens, sons e ideias restitui ao leitor, psicanalista e paciente, um mundo de afetos e experiências, estranhamento e beleza. O encontro do intelecto e das emoções do poeta com o mundo reverbera o que há de estrangeiro e familiar em todos nós. Por meio da escuta do mundo na linguagem altamente simbólica da poesia e da arte em geral é possível ouvir as ressonâncias de nosso próprio sofrimento e ressignificar a maneira como expressamos vontades e sentimentos. A poesia em seu sentido mais amplo pode transformar a visão de mundo ao ser escutada cuidadosamente em suas estratégias de linguagem, rastros deixados pelo autor que traduzem relações de afeto em palavras. Atualmente, reconhece-se o valor e as limitações de diversas estratégias de escuta psicanalítica. Há na interpretação um pouco da escuta de sonhos, trilhas associativas na associação livre, estados afetivos, atitudes e comportamentos. A Psicanálise destina-se a nomear o que somos, e somos muitas coisas em permanente transformação. Conhecer e acolher nossos sentimentos mais profundos parece ser para mim, neste momento, após um diálogo que promete ser permanente com meus colegas, a proposta fundamental do tratamento psicanalítico e um caminho para pensar e desenvolver nossas relações de intimidade, criando em nós uma espécie de espaço interno maior, um lugar em que nossas dores tenham voz e sejam reconhecidas, de algum modo, como parte do que nos faz humanos.

"Mistérios da carne" e das psicopatologias – neurose e perversão

admin Artigos 17 março 2024
Por Patrícia de Pádua Castro -  O filme “Mistérios da carne” relata a história de dois jovens, Brian Lackey e Neil McComick, que jogavam em um mesmo time de baseball e aos 8 anos de idade foram abusados sexualmente pelo o seu treinador. A história aborda como essa experiência vivenciada na infância influenciou na personalidade de ambos os jovens de maneiras distintas e a busca de ambos para tentar compreendê-la. Para auxiliar nessa compreensão é necessário fazer um pequeno recorte das condições estruturais da família de ambas as crianças. Brian mora com o pai, mãe e irmã mais velha. O pai aparenta ser rígido com o filho, distante, chegando a referir que o filho é “um banana” e não aparenta ter paciência e compreensão quando Brian, após um episódio traumático, começa a urinar na cama, apresentar desmaios, convulsões e sangramento nasal. Na adolescência, Brian passa a evitar contato com o pai, que já está separado da mãe, e mesmo a responsabilizá-lo pelo o que lhe acontecera na infância, embora esse acontecimento seja um mistério para ambos. Já a mãe é retratada como superprotetora, retirando-o do babasell após o incidente em que Brian é encontrado escondido no porão e com o nariz sangrando. E na adolescência continua a exercer controle em relação aos horários, alimentação e com quem Brian se relaciona, inclusive demonstrando certo desconforto quando Brian começa a se aproximar de uma mulher mais velha que ele, Avalyn. No caso de Niel, ele mora apenas com a mãe e não há referência sobre o pai. A mãe tem uma vida sexual intensa, com diferentes parceiros e aparentemente não se preocupa em esconder isso do filho, trabalha muito, negligenciando cuidados ao filho, embora demonstre afeto por ele, e em muitas situações confia Niel aos cuidados do técnico de baseball. O filme inicia com a narrativa de Brian abordando um desaparecimento de cinco horas da sua memória, onde é encontrado no porão de sua casa, com o nariz sangrando e se recorda apenas do momento em que começou a chover durante o jogo de baseball. A partir deste momento Brian começa a urinar na cama, a sofrer de apagões, convulsões e ter sangramento nasal. Como tentativa de buscar uma resposta para preencher essa lacuna da memória, Brian fantasia ter sido abduzido por OVNIS e acredita ser esse o motivo de parte de sua memória ter sido apagada, passa então, a ter obsessão por esse assunto. A história da abdução é reforçada por meio de sonhos onde ele tem flashes de uma figura grande e destorcida se aproximando dele, tocando-o enquanto ele está deitado em uma superfície dura. Brian desenvolve uma personalidade introvertida, tímida e não aparenta ter interesse por assuntos relacionados a sexo, sendo descrito por Preston como “estranhamente assexuado”. No filme essa repulsa sexual de Brian é mostrada em dois outros momentos, o primeiro em que Avalyn faz uma investida sobre ele tentando retirar-lhe a roupa, o que faz Brian expulsá-la de seu quarto e evitar posterior contato com ela. E quando ele mostra seus desenhos para Preston, no qual ele ilustra um ET parcialmente despido, com a cueca cobrindo as suas genitálias, e usando tênis de baseball, provavelmente fazendo uma referência, mesmo que inconsciente, ao abuso sexual que lhe ocorrerá na infância. Essa “assexualidade” de Brian pode ser explicada pela sua intensa repressão sexual e forte resistências ao instinto sexual como, por exemplo, na forma de pudor, vergonha, nojo. Em seus estudos sobre histeria, Freud já considerava a energia do instinto sexual como única e constante fonte de energia da neurose, uma fonte numerosa de oportunidades para o surgimento de representações incompatíveis, ou seja, uma fonte para formação de sintomas histéricos. Onde há enorme necessidade sexual há também exacerbada rejeição da sexualidade, funcionando como forças opostas e esse conflito não resolvido buscam uma expressão adequada, convertendo os impulsos libidinais em sintomas histéricos. Niel descreve, nas primeiras cenas do filme, a admiração que sentiu pelo treinador de baseball, comparando a sua beleza com a de um deus e relata que só havia visto tal beleza nas fotos dos bombeiros em revistas que a sua mãe possuía. Isso remete a uma questão levantada nos Três ensaios da sexualidade sobre a bissexualidade inata, em que todos estão predispostos a sentir atração por homem e mulher. Na infância essa bissexualidade pode se manifestar por meio da admiração dos atributos do corpo de pessoas do mesmo sexo e na identificação com essas pessoas, porém a escolha do objeto sexual virá a se definir somente mais tarde. A partir deste impacto inicial Niel faz de tudo para atrair a atenção do seu técnico e se empenha para agradá-lo e deixá-lo feliz, tornando-se então o melhor jogador do time. O técnico aproveita dessa idolatria do garoto e também de sua carência afetiva, uma vez que ele fica a maior parte do tempo sozinho, para seduzi-lo e manter relações sexuais com ele. Os atos sexuais consistiam em beijos, masturbação, sexo oral e às vezes o técnico pedia para que a criança inserisse o braço em seu orifício anal. Esse contato sexual precoce com um adulto influenciou mais tarde no seu comportamento sexual quanto à meta e possivelmente também em relação ao objeto, embora em relação a esse último não exista uma conclusão única e satisfatória para a causa da inversão. Nos Três ensaios da sexualidade, Freud quebra paradigmas mostrando que há uma sexualidade infantil e que a criança é sexualmente polimórfica, perversa e egoísta, ou seja, é capaz de buscar prazer de múltiplas formas, de maneira autoerótica e uma vez que as zonas genitais não estão suficientemente desenvolvidas para assumirem o seu papel predominante, utilizam de outras partes do corpo denominadas zonas erógenas (mucosa da boca, ânus, principalmente) para buscar satisfação por meio de estimulação. Nesta fase a criança não encontra barreiras psíquicas bem estabelecidas, como nojo, vergonha e moral, para inibir o comportamento polimorficamente perverso, uma vez que é considerado como meta sexual normal o encontro entre o pênis e a vagina, sendo qualquer desvio em relação a essa meta uma perversão. Mas depois de determinado período de atividade sexual infantil, a criança entra em um período de latência, onde essa pulsão sexual é direcionada para outros fins e inicia-se o desenvolvimento de outras áreas da vida da criança. A interrupção do período de latência, e o reaparecimento da atividade sexual podem ocorrer tanto por motivos internos quanto externos, como no caso do filme, devido à sedução. No caso do Niel, as frequentes excitações das zonas genitais causaram a sensação de satisfação e obrigatoriedade de renová-la por meio da masturbação e possivelmente a fixação na perversão. Essa necessidade de descarga da tensão sexual fica evidente na cena do filme no qual ele vê a mãe praticando sexo oral no namorado e se masturba assistindo ao ato, a ponto de ejacular pela primeira vez e querer compartilhar o feito com o técnico. No período de latência há uma interrupção da atividade sexual e a criança deixa de direcionar a atenção apenas para si e passa a aprender a se relacionar com o outro, a desenvolver empatia e amor e a sua interrupção pode trazer consequências como o não desenvolvimento dessas faculdades. No filme isso pode ser observado na descrição de Niel pelos amigos como sedutor, frio, egocêntrico e sem coração. Segundo o modelo teórico proposto por Freud, experiências emocionais vivenciadas inicialmente como prazer e depois sentidas como desprazer e, portanto insuportáveis para consciência sofrem repressão e tornam-se inconscientes, sendo para esse autor, a sexualidade infantil é a fonte do conteúdo recalcado. Mesmo que essas lembranças da atividade sexual infantil permaneçam esquecidas, isso não significa que foram apagadas, pois segundo Freud “as emoções não expressas nunca morrem" Elas são enterradas vivas e saem de piores formas mais tarde”, ou seja, esse desejo recalcado vai se tornar novamente consciente, mas de uma maneira transformada, expresso, por exemplos, por meio dos sintomas neuróticos, sonhos e na transferência. No caso das duas crianças devido às diferenças nas suas estruturas psíquicas, educação, etc., esse retorno do recalcado é manifestado de maneiras distintas. No caso de Brian as barreiras psíquicas como a vergonha e a moral parecem terem sido mais bem estabelecidas na infância e como consequência esses impulsos sexuais sofreram repressão. Porém essa descarga da energia sexual recalcada aparece no filme de duas maneiras, por meio dos sonhos e pelos sintomas histéricos. Na psicanálise, o sonho é a realização de um desejo que se encontra reprimido e para que esse desejo se manifeste na consciência é necessário que o conteúdo recalcado seja “modificado”. Para tanto o aparelho psíquico utiliza de recursos como condensação e deslocamento para driblar a censura imposta pela resistência. Essa realização do desejo no ato de sonhar faz com que se evite a satisfação real, conservando a integridade moral do sonhador, ou nas palavras de Platão “O homem virtuoso se contenta em sonhar, enquanto o homem perverso realmente o faz”. Na perversão as zonas erógenas possuem uma significação especificamente sexual, como no caso da boca e do ânus. Já nas psiconeuroses as zonas erógenas e histerógenas exibem as mesmas características, embora sejam mais difíceis de reconhecer, sendo a manifestação dos sintomas como uma atividade sexual dos neuróticos. No filme quando Brian estava em alguma situação que o remetia à ocorrência passada de excitação na zona erógena, sofrida no abuso, ele tinha convulsões e sangramento no nariz. Na histeria, a soma de excitação é convertida em sintoma, ou seja, a dor psíquica é convertida em dor física. Essa conversão é custeada por afetos recém-vividos de um lado, por exemplo, quando ele insere a mão dentro do gado mutilado, e por afetos recordados de outro, quando ele inseriu a mão dentro do ânus do treinador, surgindo os sintomas, no caso de Brian as convulsões e sangramento nasal. A escolha” da região do corpo no qual se estabelecerá a conversão é baseada no menor gasto de energia psíquica do aparelho mental e neste caso ocorre preferencialmente por meio de uma ligação associativa. No dia que ocorreu o abuso, Brian foi encontrado com o nariz sangrando, embora ele não recorde, esse sangramento foi devido a um desmaio no qual ele bateu o rosto no chão e machucou o nariz. Logo, por ligação associativa, toda vez que ele se aproxima das lembranças recalcadas surge os sintomas histéricos como sangramento nasal e convulsões. Já no caso de Niel, o filme retrata a necessidade de repetição, ou seja, a transferência de uma situação passada esquecida que é revivida e repetida no momento presente, como por exemplo, a preferência em se relacionar sexualmente com homens mais velhos, remetendo a imago do treinador. No desenvolvimento infantil, o não desenvolvimento das faculdades relacionadas com a compaixão oferece o perigo de que os instintos de crueldade se associem com os erógenos, podendo tornar-se indissolúveis posteriormente. Essa situação é retratada no filme quando, ainda na infância, o personagem sequestra um garoto com certo grau de demência e coloca fogos de artifícios em sua boca, após o ato, Niel masturba e faz sexo oral no garoto numa tentativa de não ser delatado, assim como o treinador havia feito com ele. Na adolescência esses sintomas continuam a se manifestar por meio do seu comportamento rebelde, agressivo, transgressor e autodestruitivo, como no caso da prostituição, onde ele busca reviver a satisfação sexual infantil, principalmente pelo sexo oral, a qualquer custo e se colocando em situações de risco de morte. Embora as duas crianças tenham “sentido” de maneiras diferentes essa situação e desenvolvido processos psíquicos distintos como uma tentativa de processar o que lhes ocorrera, a jornada de ambas convergem para um ponto, que é buscar preencher um vazio, uma falta. Niel relata que essa relação com o treinador ocorreu durante todo o verão e que um dia o treinador simplesmente desapareceu e ele não teve mais notícias. A partir desse momento Niel inicia uma tentativa de preencher o vazio deixado pelo treinador, buscando reviver esse amor, esse sentir-se especial que ele vivenciara na relação com o treinador. Já a busca de Brian está relacionada em preencher as lacunas deixadas em sua memória, a compreender o que lhe havia acontecido de modo que ele desejava dormir e ter outros sonhos além daqueles que o atormentavam. No final do filme os dois jovens se reencontram no mesmo local onde foram seduzidos e Niel relata a Brian os acontecimentos ocorridos naquele dia, enquanto as lacunas da memória de Brian começam a ser preenchidas, o relatar faz com que a imagem “idealizada” do treinador comece a esvanecer, levando-o a uma melhor compreensão do ato ocorrido, despertando um desejo de voltar ao tempo e desfazer o passado, deixando o mundo para trás. O filme Mistérios da carne chama a atenção para o entendimento de cada indivíduo como um universo à parte, onde é impossível generalizar sobre a forma de reagir, experimentar e de sentir do ser humano. Embora existam modelos teóricos que buscam explicar o funcionamento psíquico não há uma generalização, pois cada experiência emocional é única, é individual, mesmo quando vivenciadas em situações semelhantes. Durante o desenvolvimento de suas teorias Freud empregou muito o conceito de forças opositoras, elementos antagônicos como as ideias de passivo e ativo, prazer e desprazer, inversão de afetos: amor e ódio, forças repressoras e retorno do recalcado, etc.. O filme retrata bem um desses pares de opostos levantados por Freud nos Três Ensaios da Sexualidade onde ele diz que “a neurose é o negativo da perversão”.___________Direção: Gregg Araki Plataforma: Prime Video

Diga-me com o que sonhas e eu te direi o que desejas

admin Artigos 16 março 2024
Por Patrícia de Pádua Castro -  O sonho sob a ótica psicanalítica é a realização de um desejo que se encontra reprimido, recalcado. O material utilizado para a formação do sonho encontra-se no inconsciente, no pensamento inconsciente, onírico, e é composto pelo recalcado - conteúdo insuportável à consciência - e também pelo não recalcado, que são as reminiscências do dia-a-dia, lembranças de lugares, pessoas, leituras, entre outros. Os sonhos assim como os sintomas das neuroses resultam da formação de compromisso entre duas forças psíquicas opositoras, as representações recalcadas, que buscam o seu retorno à consciência (retorno do recalcado), e as recalcadoras, que concedem um afrouxamento da defesa. Para que o sonho manifeste na consciência é necessário que o conteúdo recalcado seja “modificado” e é nisso que consiste o trabalho dos sonhos de condensação, deslocamento, representações e elaboração secundária. Para compreender o trabalho da condensação é necessário reconhecer que os sonhos são curtos e lacônicos quando comparados ao pensamento onírico. Ou seja, o conteúdo inconsciente é muito mais vasto do que aquele que foi manifestado nos sonhos e a lembrança dos sonhos é incompleta, fragmentada. Na condensação tem-se uma única imagem psíquica com várias cadeias associativas o que faz com que ocorra uma diminuição da energia psíquica. Uma analogia que pode ser tomada para compreender o trabalho da condensação na formação de uma única imagem representando várias cadeias associativas é o “Disco de Newton”, onde a cor branca obtida ao girar o disco é a representação única de outras sete cores, sem significar que a primeira seja um resumo das demais. Já a diminuição da energia psíquica pode ser comparada com o que ocorre na condensação química da água, no qual a transformação das moléculas no estado de vapor para o estado líquido proporciona uma redução do volume ocupado pelas moléculas e a diminuição da energia cinética e da entropia do sistema. Essas analogias ilustram que no trabalho de condensação não há um afastamento dos elementos empregados na construção do sonho com aqueles ocupados nos pensamentos oníricos. O mesmo não pode ser dito em relação ao trabalho de deslocamento. Para escapar da censura imposta pela resistência, o sonho se serve do deslocamento das intensidades psíquicas que promove uma mudança de um padrão representativo de fácil reconhecimento, para um padrão que preserve poucas características do representado inicialmente. Dessa maneira há uma distorção desse desejo inconsciente e como consequência, o conteúdo do sonho não se assemelha mais ao núcleo do sonho, ou seja, a seu conteúdo recalcado. A escolha dos elementos representativos – imagem ou palavra - que participarão da formação do sonho é baseada em dois fatores, o valor psíquico que está associado ao  elemento e a capacidade de empregar determinações múltiplas ao elemento, sendo que na impossibilidade de atender aos dois, o último é preferível ao primeiro. Isso porque a produção desses elementos representativos demanda muito esforço, havendo, portanto, uma economia de energia psíquica quando se empregam elementos representativos de múltiplas direções, aqueles nos quais é possível determinar mais de um sentido para o elemento. Quando uma imagem psíquica de um objeto externo ou interno (no caso imaginado) está associada a um afeto tem-se uma representação. No sonho, afeto e material da representação podem parecer incompatíveis e contrastantes. Primeiramente pelo fato do material da representação ter passado pelo trabalho do deslocamento e também, devido à liberdade que o trabalho do sonho possui em desligar os afetos do material da representação que o gerou e associá-lo a outros materiais representativos. Durante o trabalho dos sonhos os afetos podem sofrer supressão, subtração e inversão por influência da censura, porém, ainda assim, são os componentes que menos sofrem essa influência. Por isso, mais que descobrir as modificações sofridas pelos materiais representativos no processo onírico é importante compreender e trabalhar os afetos a eles associados, uma vez que os afetos mantêm, geralmente, a sua qualidade inalterada de acordo com o desejo recalcado e não com o seu disfarce. O trabalho do sonho é exaustivo mediante o número de condições necessárias para satisfazer a censura e produzir o seu resultado final, o sonho. Inicialmente, como já foi exposto, o conteúdo latente passa pela elaboração primária, condensação e deslocamento, antes de seguir o caminho rumo à consciência. Porém “a censura que nunca está inteiramente adormecida” ao perceber que algo indevido lhe escapou ao cuidado, entra em ação mais uma vez a fim de promover a elaboração secundária do conteúdo onírico. Tal reelaboração do material, pelo pensamento de vigília parcialmente desperto, é realizada com o intuito de preencher lacunas e absurdos presentes nos sonhos e apresentá-lo de forma inteligível e coerente. Com isso, o sonho poderá ser lembrado em vigília sem gerar nenhum desconforto aparente, perdendo a importância e deixado para o esquecimento, porque o conteúdo reprimido foi ocultado pela remodelação. Findado todos esses processos de elaboração primária e secundária o conteúdo manifesto não se aproxima mais do conteúdo inconsciente. Desvendar o conteúdo do sonho em si não é o objetivo do trabalho analítico, pois o sonho relatado é oriundo de uma ação consciente do sonhador e a consciência não é o objeto de estudo da psicanálise. No trabalho analítico, a escuta do sonho deve ser entendida como um produto da livre associação, no qual a liberdade ao falar do analisando dá voz ao inconsciente que se manifesta por detrás desta fala.

A construção do perverso e do neurótico no filme Mistérios da Carne

admin Artigos 15 março 2024
Por Helenice da Conceição C. Lopes -  A história desenvolve-se em torno de 2 meninos Brian Lackey e Neil McComick que passaram pela mesma experiência de abuso infantil, mas cada um “processou” essa experiência de formas diferentes: Brian Lackey não consegue lembrar-se e Neil McComick não consegue esquecer. Em um processo de busca de Brian, o reencontrar-se com Nil, possibilita que se ajudem a ressignificar o abuso pelo qual passaram juntos. Tendo como base a teoria psicanalítica Freudiana, a apresentação inicial do filme na triangulação das duas crianças abusadas e seu treinador pedófilo, quase nos faz sucumbir ao primeiro erro reconhecido por Freud no desenvolver de seu trabalho sobre a Psicogenese das Neuroses, a manifestação histérica na vida adulta como resultante de um processo de sedução ocorrido nos primeiros anos da infância. Porém, assim como no processo de evolução da psicanálise Freudiana, no filme vamos tomando conhecimento da complexidade de uma possível estruturação da libido humana. Vemos que os dois meninos de 8 anos abusados, segundo Os três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, estão no período de latência, período após a fase fálica (em torno dos 5 anos) e anterior a puberdade e que ambos tem a triangulação do Édipo não tão estruturados: pai - mãe - criança. A vértice pai de Neil McComick é constantemente alterado pelos inúmeros namorados de sua Mãe, namorados esses que em seus olhos de criança já desperta-lhe a observação sensual, apresentando até mesmo uma disputa pelo objeto comum com sua mãe. A falta da presença fixa da figura paterna na infância de Nill é facilmente preenchida pela dedicação e atenção que o treinador lhe oferece, desenvolvida através de jogos de sedução para consumação do abuso. No filme, a perversão do treinador em ser possuído pela criança, provoca o comportamento perverso que Nil desenvolve em sua adolescência, não aprofundando vínculos afetivos e nos sintoma característico de sua neurose obsessiva de relacionar-se com homens mais velhos, sempre procurando reencontrar o afeto que imaginava ter recebido de seu treinador na infância. Para Brian Lackey, vemos a construção do comportamento neurótico através das lembranças recalcadas resultantes do abuso sofrido. Os sintomas em Brian apresentam-se através da sangramento nasal inconscientemente provocado, como forma de retorno ao desmaio após ao abuso sofrido, a enurese noturna associado a excitação sexual proibida e provocada pelo abuso , o ódio ao pai que não era presente em sua infância, e posteriormente a sublimação desenvolvida na crença de extraterrestres e abdução, presentes em seus sonhos e como uma forma condensada de apresentar-se a figura do pai substituído pelo treinador e deslocada para a figura do extra terrestre, pai que não foi de sua escolha e que não possuía entendimento dentro de seu universo infantil; e a abdução como a condensação do abuso sofrido. Enquanto Nil faz seu processo de busca através do comportamento perverso presente em suas relações de prostituição, Brian vive sua busca através da sublimação na crença em extraterrestre, forma de condensação pela qual seu inconsciente encontrou, mesmo que em processo de busca ele nunca reencontrar-se com a figura central de seu trauma. O reencontro entre Brian e Nil possibilitou a reconstrução do momento compartilhado por ambos, através das lembranças nítidas do perverso Nil e sua vivência de afeto com neurótico Brian que buscava sair de seu estado neurótico quase alucinatório. Brian consegue entender seus sonhos e reconstruir suas lembranças e Nil entende que nunca foi amado como acreditou ser pelo treinador e toma consciência da decrepitude de suas vidas. A experiência da análise do filme foi perturbadora para mim, pois objetificar a dor de duas crianças que passaram por abuso e enquadrá-las no modelo psicanalítico Freudiano a fim de reconhecer os possíveis fatores motivadores de suas neuroses, mostrou-me que o modelo pode nos auxiliar enquanto psicanalistas no entendimento dos sintomas, mas não responde aos caminhos a serem tomados para acolher a dor do paciente e apresentar-lhe a decrepitude da existência humana sem amplificar os sintomas.___________Direção: Gregg Araki Plataforma: Prime Video

Um sonho impossível

admin Artigos 14 março 2024
Por Fernanda B. Hisaba -  O conteúdo recalcado em nosso inconsciente busca, a todo momento, fazer-se sabido, tornar-se explícito e acessível, de tal forma que, descarregado, possa reduzir a quantidade de energia que nos afeta. O reprimido retorna, via de regra mascarado, nos chistes, nos atos falhos, na transferência, nos sintomas e nos sonhos. O reprimido retorna, via de regra mascarado, nos chistes, nos atos falhos, na transferência, nos sintomas e nos sonhos. Através da transferência, o analisando torna presente o trauma ocorrido no passado, o revive no ambiente terapêutico usando a figura do psicanalista para tal. Explicita seus afetos e desejos reprimidos. A transferência torna-se, desta forma, mecanismo fundamental através do qual o analista entra em contato com o conteúdo representacional que retorna do inconsciente do analisando. Os sintomas, seguindo o mesmo processo regressivo que se dá na formação dos sonhos, obedecem a uma formação de compromisso entre as forças represadas no inconsciente e as resistências impostas pela censura, que procura manter desconhecidos os desejos que o paciente procura realizar. Para manifestar o resultado deste acordo, o paciente irá se valer de um elo enfraquecido presente em seu organismo, como um tornozelo torcido, um joelho comprometido por um reumatismo, um estômago sensível, um terror a ele incutido na infância. Através dos sonhos, o homem busca a satisfação de um desejo reprimido, satisfação essa que ocorre sempre no tempo presente, e que se torna possível através do movimento regressivo que traz o conteúdo alojado no pré-consciente e inconsciente de volta ao sistema perceptivo, sensorial. Os pensamentos oníricos, que expressam o reprimido, as ideias intoleráveis ao nosso consciente, são “manipulados” extensamente pela censura para que possam emergir de forma tal que não sejam reconhecidos e prontamente reenviados ao inconsciente. Ao trabalho realizado pela censura sobre os pensamentos oníricos denominamos trabalho dos sonhos. Estes seriam a condensação, o deslocamento, a transposição dos afetos e a elaboração secundária. Assim, um desejo reprimido que procura se realizar faz o papel de força propulsora no desencadeamento dos sonhos. Arma-se de pensamentos oníricos, fragmentos de imagens mnêmicas, reminiscências presentes no pré-consciente, associa-se a um afeto em trânsito e, moldado pelas resistências através dos trabalhos dos sonhos, emerge na consciência, disfarçado, em tempo presente, transmutado em alucinação. Muitas pessoas a serem representadas unem-se em uma só. Fragmentos de palavras condensam-se e emergem sob a forma de uma outra palavra, desconhecida. Forma-se um “condeslocafeto secundário”, que compõe o conteúdo do sonho, através do trabalho da condensação. Múltiplas cadeias associativas são representadas em uma única, sobre determinada, que resume, em um conteúdo relativamente curto, o extenso material que constitui a fonte de um único sonho. Dessa forma, o trabalho da condensação satisfaz a necessidade de conduzir ao consciente uma enorme quantidade de informações em um ínfimo intervalo de tempo e espaço. Porém, não satisfeita com o disfarce precário oferecido pelo trabalho da condensação, a censura impõe mais uma barreira. Através do deslocamento, o intolerável desejo de “matar o papai”, que é o provedor, que trabalha no campo e manuseia uma enxada, transforma-se em “queimar a colheita”. Talvez, aquela pessoa que, pelo trabalho da condensação, chama-se “Flanetecelo” e tem o meu nariz, os olhos do meu irmão, a voz da minha mãe e anda como meu tio, ateie fogo ao trigo. E o trigo, que me lembra cevada, me possibilitará celebrar, à beira da fogueira, tomando cerveja e dando risadas. O intenso afeto associado ao desejo de morte liga-se à ideia da celebração, destituída do pesaroso significado relacionado ao desejo primário, permitindo que eu alegremente inale a fumaça da cremação; desta forma, posso dar “descarga” a essa imensa quantidade de energia que me exauria, e que, provinda do inconsciente, incessantemente me torturava. Ainda é possível que, submetido à elaboração secundária, crie um contexto, e o sonho que contarei em minha sessão de psicanálise começará com um convite para um luau no interior. E haverá violão tocando “Pra não dizer que não falei das flores”; comeremos batata-doce (que estava na maionese que fiz no jantar) assada na fogueira e um cachorro meio ébrio apagará com xixi as últimas brasas, tristes remanescentes de uma vida infeliz... Aliás, provavelmente me esquecerei de tudo isso, e contarei que me lembro de ter dançado ao redor de uma fogueira ontem à noite, e me encontro exausta pelo intenso trabalho do sonho e estupefata com seu parco volume. E um odor de crematório me trará uma estranha sensação de paz. Conhecer o trabalho dos sonhos permite ao psicanalista vislumbrar uma porta de acesso ao universo reprimido do sonhador. Assim, pode-se dar início ao árduo trabalho investigativo do par terapêutico que, em última instância, procura alívio através da descarga de um quantum de energia represada no inconsciente deste sonhador.  

Tecendo a clínica psicanalítica: o percurso freudiano da hipnose à associação livre

admin Artigos 13 março 2024
Por Alba Tengnom -  “Cinza, caro amigo, é toda teoria e verde a dourada árvore do saber” (Mefistófeles, em Fausto de Goethe). Sem o saber clínico construído ao longo da experiência de trabalho de análise de inúmeros pacientes, não seria possível a Freud desenvolver as concepções teóricas psicanalíticas. Teoria e técnica são complementares e se constroem mutuamente na obra freudiana. Porém, enquanto a teoria ganhava visibilidade e estivesse de certo modo estabelecida, o procedimento terapêutico ainda lutava para obter reconhecimento. O desenvolvimento da técnica da associação livre, regra fundamental da Psicanálise se dá de maneira gradual a partir do distanciamento de Freud em relação às técnicas hipnótica, sugestiva e catártica. Somente a partir de sua autoanálise e da experiência clínica Freud foi capaz de formular e aprimorar pouco a pouco a técnica psicanalítica, possibilitando o acesso ao material recalcado e revelando ao paciente parte de seu inconsciente. Na técnica hipnótica utilizada inicialmente por Charcot e outros neurologistas no século XIX, o médico induzia o paciente mediante diferentes recursos, como o movimento de um objeto de modo pendular, a uma condição próxima ao sono. O doente em estado de passividade psíquica atendia aos comandos do hipnotizador para que narrasse fatos que não seria capaz de recordar em estado de vigília. O médico exercia, desse modo, grande poder sobre as ações corporais e o psiquismo do doente. A técnica sugestiva era aplicada juntamente com a hipnose: o paciente era levado ao estado hipnótico e o médico sugeria que o sintoma desaparecesse, o que geralmente ocorria temporariamente. O mérito do método hipnótico está na diferenciação dos doentes histéricos de outros doentes, e na descrição de sintomas, mecanismo e diagnóstico de uma doença até aquele momento ignorada como psicopatologia e considerada uma dissimulação. Influenciado por Charcot no início de sua prática clínica, Freud também utilizou a técnica hipnótica sugestiva, mas pouco a pouco foi mesclando-a com outras técnicas, ao perceber sua utilidade para investigar as origens do trauma. No entanto, foram diversos os entraves encontrados por Freud ao aplicar a hipnose, um deles o fato de que nem todos os pacientes eram hipnotizáveis. Havia também a limitação da hipnose em vencer as resistências do paciente, já que a técnica apenas as suspendia temporariamente e não permitia observá-las para investigar as causas do adoecimento por meio da rememoração dos traumas. Sem uma investigação das causas da doença, os sintomas reapareciam. Em seu texto Sobre a Psicoterapia, de 1905 [1904], Freud aponta uma diferença fundamental entre as técnicas sugestivas e o método psicanalítico inspirando-se na comparação que faz Leonardo Da Vinci entre as artes da pintura e escultura. Per via di porre seria o modo de operar da sugestão hipnótica, que não se interessa em investigar a origem e significado dos sintomas, e à semelhança da pintura que apenas acrescenta tinta a um quadro, introduz uma sugestão que busca se sobrepor à ideia patogênica. Per via di levare seria, por outro lado, o modo de atuar do método psicanalítico que, tal como o ato de esculpir em pedra, em vez de acrescentar algo, procura retirar, extrair, fazer aflorar a expressão e a gênese dos sintomas e do contexto psíquico que levou à patologia. A chamada técnica catártica, utilizada para fins terapêuticos pela primeira vez por Joseph Breuer, também foi utilizada por Freud e descrita conjuntamente por ambos em Estudos sobre a Histeria. Diferentemente da hipnose, a técnica consistia em evocar lembranças associadas ao trauma, trazendo à consciência elementos inconscientes. Baseava-se também na teoria do trauma psíquico, mas introduziu uma mudança na relação entre médico e paciente, pois, pela primeira vez, o paciente devia tomar a iniciativa de investigar seu passado, em vez de submeter-se às ordens do médico na sugestão hipnótica. Ainda que sob hipnose, o paciente era orientado a recordar do momento das primeiras manifestações da doença, bem como do contexto em que o sintoma foi produzido. Quando a cena traumática era revivida na sessão, o afeto ligado a essa lembrança era trazido à consciência e liberado por meio da expressão verbal, percurso que geralmente suprimia o sintoma. O procedimento catártico pressupunha, entretanto, que o paciente fosse hipnotizável e fundava-se na ampliação da consciência instaurada na hipnose. Embora a técnica ajudasse a trazer lembranças, pensamentos e impulsos que até então estavam fora da consciência, mostrou-se insuficiente quando as observações revelaram um quadro mais complexo da doença: não se tratava de uma única impressão traumática, mas de uma série de impressões de difícil identificação e solução que influíam na gênese dos sintomas. A partir da constatação de que grande parte dos pacientes neuróticos não era passível de ser hipnotizada, de um interesse maior na investigação das origens da doença e de um pedido direto de uma paciente para que ele a deixasse falar livremente sem fazer perguntas, Freud passa a aplicar mudanças técnicas no procedimento catártico, abandonando o recurso à hipnose e introduzindo gradualmente o método da associação livre. Conforme descrito em seu artigo O Método Psicanalítico de Freud, de 1904, ele atendia os pacientes acomodando-os confortavelmente em um divã, sem outras distrações, enquanto posicionava-se fora do campo visual dos pacientes, sentado em uma cadeira atrás deles. Diferentemente da técnica catártica, Freud não exigia que os pacientes fechassem os olhos, não os hipnotizava e evitava também qualquer contato e procedimento que pudessem lembrar a hipnose. A sessão transcorria como uma conversa entre duas pessoas “igualmente despertas”, sendo que uma delas não realizava esforços físicos nem recebia estímulos que pudessem desconcentrá-la de sua atividade anímica. A associação livre tornou-se a regra fundamental da técnica psicanalítica e, ao passo que excluía um material rico em lembranças e imaginação e uma ampliação da consciência comum às sessões de hipnose, possibilitava, por outro lado, a descoberta de um importante material de investigação: as ocorrências involuntárias dos doentes. Ao contrário do que acontecia nas sessões de hipnose, Freud pedia aos pacientes que falassem à vontade, passando de um assunto a outro, instruindo-lhes para que contassem tudo que lhes vinha à mente, mesmo que fosse algo aparentemente sem importância, sem sentido ou não relacionado ao assunto em questão. Pedia também que não excluíssem pensamentos ou ocorrências que parecessem vergonhosos ou embaraçosos. Durante suas investigações, Freud observou lacunas nas lembranças dos pacientes em relação à narrativa da doença, em razão de esquecimento de fatos e causas, confusões temporais, que deixavam as narrativas incompreensíveis. Essas amnésias eram para ele resultado de um processo de recalque motivado por sensações de mal-estar diante da resistência que há contra a reprodução dessas lembranças. No texto Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise, de 1912, Freud enumera várias recomendações sobre o método psicanalítico para ajudar os profissionais da área médica a manter o instrumental necessário a uma escuta precisa e fluente. Para ele, o analista deve tentar manter um estado de atenção que denominou de “atenção flutuante”, em que o terapeuta deve recordar dos relatos de cada paciente sem dar atenção diferenciada nem se fixar em nenhum conteúdo específico do discurso do paciente. Desse modo, o analista poderá suprimir pré-julgamentos conscientes e defesas, mantendo-se atento ao seu próprio inconsciente durante o processo de escuta. Lembrar tudo em igual medida constitui uma espécie de contrapartida necessária à exigência feita ao paciente para que conte tudo o que lhe vem à mente, sem criticar ou selecionar nada em particular. O objetivo seria manter as influências conscientes afastadas da capacidade de memorização para que apenas a “memória inconsciente” participe da sessão, o que pressupõe que o analista deve ouvir sem se preocupar se vai lembrar ou não. Freud também aconselha o analista a não tomar notas extensas durante a sessão, o que prejudicaria o estado de atenção flutuante, causando impressão negativa no analisando, além de ser outra forma de selecionar e fixar a atenção em algum elemento trazido pelo paciente. As notas tomadas para fins científicos também influenciariam o estado de atenção flutuante e devem ser feitas após a sessão, embora a qualidade de um relato colhido de tal modo seja questionada. A solução proposta por Freud é que os registros sejam trabalhados somente após o término da análise, caso contrário, é possível que o analista construa expectativas e planos que prejudiquem o tratamento. Freud convida o analista a observar o trabalho do cirurgião que deixa de lado seus afetos de modo a se concentrar em realizar a cirurgia da melhor forma possível. A ambição terapêutica, de “curar”, seria um sentimento perigoso que poderia expor o terapeuta às resistências do paciente e ao jogo de forças que justamente se pretende desarticular para que o tratamento tenha êxito. Certa posição de reserva e frieza favoreceria a vida emocional do analista e ofereceria melhor assistência ao analisando. Além disso, aconselha o analista a não se fixar em expectativas ou na ideia de reconhecimento ou retraimento perante as críticas, afetos que também prejudicariam o trabalho de análise. Ainda no mesmo texto, a importância da atenção flutuante do analista como contrapartida à regra fundamental da associação livre é reafirmada. Para ilustrar essa ideia, Freud faz uma analogia com a comunicação telefônica: as ondas sonoras emitidas são transformadas em oscilações elétricas pelo transmissor que, por sua vez, são revertidas em ondas sonoras pelo receptor. O analista funcionaria como receptor, posicionando seu inconsciente a partir da associação livre para sintonizar o inconsciente do analisando, reconstituindo as ocorrências trazidas por ele à sessão. Outra recomendação feita por Freud é que o analista não mantenha em si resistências que o impeçam de entrar em contato com o que seu inconsciente captou durante a sessão. As resistências funcionariam como outra forma de seleção e deformação do material trazido pelo paciente e, por esse motivo, recomenda que o analista também se submeta a uma análise a fim de conhecer seus complexos e resistências. Cada recalque não solucionado em si mesmo corresponderia a um ponto cego na percepção analítica do médico. A análise traz muitos benefícios aos analistas que a buscam sem a pressão da doença e com um propósito de examinar o oculto em si mesmos, nos diz Freud. O desprezo pela autoanálise traria consequências desastrosas: a dificuldade em compreender os pacientes e aprender com eles, o risco de trazer danos ao processo de análise do doente, a projeção de suas autopercepções na ciência, contribuindo para o descrédito da Psicanálise e induzindo outros inexperientes a equívocos semelhantes. O cuidado com a transferência é uma recomendação enfatizada por Freud: o analista deve evitar falar sobre sua vida íntima e seus conflitos interiores com o analisando, caso contrário, o paciente pode acabar relatando o que já sabe, sem propriamente revelar o inconsciente. Compartilhar afetos traria ainda mais dificuldades ao doente na superação de resistências e poderia criar uma tentativa de inversão na relação entre ele e o analista, estimulando o paciente a analisar o analista. O médico deve manter uma opacidade frente ao analisando, atuando mais ou menos como uma superfície espelhada, sem mostrar nada além daquilo que é mostrado a ele pelo paciente. Além disso, devem-se evitar as ambições pedagógicas, assim como afastar a ambição terapêutica, pois é necessário respeitar as limitações do doente, considerando como diretriz suas capacidades, em vez de levar em conta os desejos do analista em relação ao analisando. Uma última ressalva é sobre o engajamento intelectual do doente, que deve se concentrar na tarefa proposta pela regra psicanalítica da associação livre, e o médico não deve propor tarefas, como a leitura de textos sobre a Psicanálise, pois o analisando deve construir um percurso próprio dentro da análise, sem recorrer à intelectualização de suas experiências. O respeito à regra psicanalítica, e não o conhecimento teórico sobre a Psicanálise é o caminho que conduz à eficácia terapêutica. No texto Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria, publicado em 1905, conhecido como o relato do Caso Dora, Freud apresenta detalhadamente o uso da interpretação dos sonhos em um caso clínico, reafirma também a etiologia da sexualidade na causa das neuroses, além de antecipar ideias a respeito da sexualidade infantil. Esse caso clínico é emblemático em razão de sua importância para o desenvolvimento da Psicanálise. São apresentadas pela primeira vez ideias sobre o Complexo de Édipo e sua Dissolução, a Bissexualidade humana e o desenvolvimento do conceito de Transferência. Freud descreve de maneira mais amadurecida suas ideias psicanalíticas, além de apresentar resultados da interpretação de dois sonhos dentre outros fragmentos trazidos pela paciente que ele pretendeu proteger sob o pseudônimo de Dora. Parecia, no entanto, prever os tropeços que acompanhariam o caso ao afirmar “Quem, como eu, desperta os piores demônios que, perfeitamente domados, habitam o peito humano, a fim de combatê-los, tem de estar preparado para não sair ileso dessa luta”. (FREUD, 1904, p. 71) Freud deixa entrever no texto um distanciamento em relação às suas recomendações aos praticantes da Psicanálise. Em vários pontos de sua interpretação, é Freud quem realiza a livre associação em lugar da paciente, que é retratada como uma expectadora e ouvinte de suas conclusões. O médico aqui se torna muito ativo e mais “falante” do que a paciente, contrariando a regra fundamental, além de utilizar materiais de outras sessões na interpretação, conduta que ele mesmo já havia reprovado em suas recomendações aos médicos. Freud parece interessado em confirmar ideias que já postulara, como as causas da histeria na sexualidade (ou seja, na ausência de relações sexuais “normais”), além de demonstrar uma inclinação pessoal a respeito da homossexualidade, condenando-a a uma condição patológica. No posfácio do texto, Freud reconhece que se descuidara quanto à transferência, que falhara em perceber antecipadamente e que afirma ser o motivo da interrupção prematura do tratamento pela paciente. Entretanto, em uma afirmação positiva para o desenvolvimento da Psicanálise, Freud conclui nesse relato de caso que o tratamento psicanalítico é constituído da análise da transferência, fato que, dentre outros aspectos, diferencia a Psicanálise dos demais métodos terapêuticos. Obras Consultadas: ESCLAPES, Alexandre. O Caso Dora – Reveries #4. 2018. (46m40s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=BCM0G2moV5s>. Acesso em 8 de jan. 2019.  FREUD, Sigmund. 1856-1939 A interpretação dos sonhos / Sigmund Freud; tradução de Walderedo Ismael de Oliveira; Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.616 pp.  ––––––––––. Fragmentos da análise de um caso de histeria. (1905 [1901]) in: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. VII.  __________. (1904 [1903]) O método psicanalítico de Freud. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1989. ___________. (1910) Psicanálise “silvestre”. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1970.  ___________. (1912) Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XII, 2006.  __________. (1905 [1904]) sobre a psicoterapia. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1989.  ROUDINESCO, Elisabeth, Dicionário de psicanálise/Elisabeth Roudinesco, Michel Plon; tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da edição brasileira Marco Antonio Coutinho Jorge; Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

Webinário: "Seguir em frente e esquecer o passado" com os psicanalistas Ale Esclapes e Mauro Costa - 13/03/25 às 20hs

admin Aconteceu! 13 março 2024
 

Representações de diferentes formas de processamento da experiência de abuso sexual no filme Mistérios da Carne, de Gregg Araki

admin Artigos 12 março 2024
Por Ivana Ferigolo Melo -  O filme mistérios da carne (2004) expõe, a partir de uma narração marcada retrocessos no tempo cronológico, o período existencial de dois meninos de mais 15 anos que têm suas vidas intensamente marcadas por um acontecimento, por eles vivenciado, aos 8 anos de idade, período em que a criança, segundo Freud, encontra-se na fase de latência,  incorporando leis morais, desenvolvendo atividades intelectuais e artísticas, que têm por finalidade reprimir ou sublimar os impulsos sexuais que se manifestam de várias formas (polimorfismo) entre os 2 e 5 anos de idade. O acontecimento que ambos os meninos, um chamado Brian e outro Neil, experimentam aos 8 anos de idade e que lhes deixa marcas indeléveis em seus decursos existenciais é o abuso sexual que sofrem do técnico do time de beisebol em que jogam. Embora vítimas da mesma experiência, Brain e Nail processam de forma diferente o trauma sexual sofrido em suas infâncias, ou seja, apresentam uma formação de reação oposta para um mesmo fenômeno experimentado na fase de latência. Brian parece reprimir, recalcar, o ocorrido e o mecanismo utilizado por sua psique para afastar da consciência a experiência insuportável é o registro de uma amnésia de 5 horas de duração. Após a experiência sexual traumática, o pequeno Brian esquece o ocorrido, perde a consciência, acorda cinco horas depois no porão escuro de sua casa com o nariz sangrando e não consegue lembrar posteriormente o que lhe sucedera nesse interstício. A experiência insuportável à consciência, o recalcado, que Brian empurra para o inconsciente retorna à consciência em forma de sonho mediante dois processos (trabalhos do sonho): condensação e deslocamento. Pouco tempo após a traumática experiência, Brian, que conta com o afeto constante de sua mãe, está na sala vendo filme e visualiza um objeto que se desloca no céu, o qual, sendo estranho, desconhecido, soa como ameaça. Brian impressiona-se com o objeto e afirma ser um óvni. Após registrar essa visão impressionante, ele passa a sonhar constantemente com óvnis abduzindo-o e acorda muito alterado. Os óvnis recorrentes em seus sonhos têm olhos pretos enormes e mãos humanas, ou seja, correspondem a figuras originadas de um processo de condensação, em que várias cadeias representativas (olhos e mãos humanas, face e corpo de ETs) estão sintetizadas em uma única imagem. O fato de o óvni abduzi-lo, imprimir uma força sobre ele, dominá-lo, no sonho, traduz-se como um trabalho de deslocamento, que expressa a permanência da ideia (significante) de dominação, de força exercida pelo pedófilo, que, no sonho, é deslocada para o óvni, ou seja, atrelada a outra representação (óvni), a qual reúne, simbolicamente, um traço (significado) do pedófilo: a força, o poder de dominação. Percebe-se que, por reprimir, via ação da censura, a experiência traumática, Brian passa a registrar a angústia do trauma e que o conteúdo recalcado, uma vez que é inadmissível a sua consciência, retorna disfarçado, via condensação e deslocamento, pelo sonho, quando, segundo Freud, a atividade de vigília diminui, mas não cessa. Ou seja, o afeto, atrelado à representação do trauma sexual aparta-se dessa representação e associa-se à imagem do óvni (deslocamento) já modificado pelo trabalho de condensação. É possível concluir, assim, que, devido à censura, em virtude de Brian ter já, aos 8 anos, período de latência, introjetado regras morais e por contar com o afeto e cuidados constantes da mãe, ele rejeita completamente o acontecimento sexual, recalca-o, esquece-o, mas ele retorna angustiando-o no sonho e, também, em forma de transferência, determinando, assim, sua vida sexual. Brian não busca relações sexuais após a puberdade. Apresenta um comportamento assexuado. Quando Avalyn, outra personagem que tem interesse por óvnis, tenta uma relação sexual com ele, é rejeitada. A inadmissão de Brian ao ato de pedofilia sofrido na infância, como indica Freud, marca sua vida sexual na puberdade e na vida adulta, levando-o a rechaçar toda e qualquer atividade sexual e a preferir relações afetivas. Dessa forma, ele reedita tanto a relação que tem com a mãe, a figura que sempre lhe deu afeto e proteção, como o rechaço a qualquer tipo de relação sexual. Ou seja, Brian realiza transferências, ao longo da vida, tanto da relação afetiva com a mãe e como da rejeição de sua primeira e traumática experiência sexual. Angustiado com o retorno do recalcado via sonho e com o desconforto que a amnésia de 5 horas registrada após sofrer a pedofilia lhe causa, Brain lança-se em uma constante busca para saber o que lhe ocorreu naquele período em que perde a consciência. Sua meta ao longo do filme é tomar consciência do recalcado, do obscuro, da verdade inadmissível. Para tanto, empreende, na perspectiva de Freud, uma cruzada pelo conhecimento do conteúdo inconsciente que implica, se alcançado, o alívio, a cura. No final, parece atingir sua meta, pois consegue encontrar Neil (menino que sofria abusos do técnico de beisebol e que participa do abuso sofrido por Brian) e fazer com que ele lhe relate o ocorrido. Na casa do abusador, Brian, deitado no colo de Neil, escuta a narrativa com dor e visualizando o espaço onde tudo ocorrera, fator que aguça a memória. Ali, ele toma ciência do que não suportara, mas aguenta, mostra-se apto a conviver com o reprimido, vence a resistência, demonstrando, na perspectiva de Freud, a possibilidade de recolocar a energia, a libido, vinculada ao trauma a disposição da vida. Neil, conforme mencionado, processa a experiência sexual com o pedófilo de maneira muito diferente de Brian. Filho de uma mãe que não o acompanha, não lhe ampara afetivamente, não lhe dá limites, e sem contar com a presença do pai, ele parece encontrar no pedófilo o amparo, o afeto, a atenção que não dispunha em casa. Para seduzir Neil, o técnico de beisebol lhe oferece-lhe comida, atenção, brinquedos. Busca-o em casa para os jogos, serve-lhe lanche após as partidas, ou seja, cumpre o papel que a mãe de Neil não cumpre. Além disso, a mãe de Neil não demonstra pudores, mantém relações sexuais com namorados sem muitas reservas e Neil presencia, aos 8 anos de idades, tais relações, registrando excitações, que, nessa fase (fase de latência) deveriam, segundo Freud, adormecer ou ser canalizadas para outras atividades não sexuais (sublimação) pela ação da censura, oriunda tanto da condição orgânica do indivíduo que não consegue manter relações sexuais dentro da norma nessa idade como da introjeção de acepções morais, as quais costumam ser absorvidas, segundo Freud, no período dos 5 anos até a puberdade. Ao não contar com a presença repressora do pai, ao não passar pela castração, não introjetar regras morais e contar com pouca atenção e afeto da mãe, Neil, aos 8 anos, não ingressa no período de latência. Registra, consequentemente, a continuidade das excitações sexuais da fase fálica e carência de amparo, de afeto. Dessa forma, a experiência com o pedófilo não lhe causa dor. Fornece-lhe, pelo contrário, prazer (o prazer oriundo da satisfação do impulso, da tensão sexual) e proteção. Consequentemente, Neil vivencia experiências sexuais precoces e não as reprime, não as recalca. Carrega-as para o decorrer da vida em forma de sintoma, reeditando-as, incessantemente, desfrutando de relações sexuais perversas (fora da norma), as únicas que pode registar no período de latência, já que, segundo Freud, nessa fase, a criança, por uma condição orgânica (tamanho dos órgãos genitais, ausência de formação de material sexual), não conta com a possibilidade de realizar atos sexuais normais, mas somente de gozar do prazer de experiências perversas, sem fins reprodutivos. Neil reafirma, dessa forma, a tese de Freud presente na obra Três ensaios sobre a sexualidade: o pressuposto de que as experiências sexuais da infância exercem influência determinante no devir da vida sexual do indivíduo tanto na fase da puberdade como na adulta. Como a experiência sexual para Neil não fora negativa, mas satisfez seus impulsos sexuais fálicos que não passaram pela fase de latência, que não foram detidos, sublimados, além de ter vindo acompanhada de afeto e cuidado, ele, sintomaticamente, busca, de forma narcísica e perversa, a reedição dessa primeira relação. Procura tanto o prazer sexual perverso (fora da norma) como o afeto e a proteção que o pedófilo lhe proporcionara. Cresce sem limites, sem considerar o outro, mostra-se perverso e sádico, pretendendo, sempre, que os outros lhe satisfaçam de forma variada e plena. Ele mesmo afirma, no decorrer do filme, que se sentia protegido com o técnico. Neil vivencia um desiquilíbrio por excesso de libido sexual não sublimada, nem reprimida e, nas constantes relações sexuais que ele mantém na fase da puberdade e posteriormente, parece querer encontrar, também, proteção, recompensa. Por isso, faz do sexo uma profissão e do dinheiro a recompensa capaz de lhe trazer alguma segurança. Sua busca parece ser a conjunção do prazer sexual perverso, fora da norma com a proteção a segurança. Devido à diferença na forma como processam as mesmas experiências registradas na fase de latência, Brian e Neil apresentam estruturações psíquicas diferentes. Brian apresenta uma estrutura neurótica. A de Neil tende para uma condição perversa, sem travas morais, éticas. Nas palavras de Wendy, personagem que no filme é melhor amiga de Neil, ele (Neil) é perigoso, é um buraco profundo, vazio, não tem coração, não reserva lugar para o outro. A meta de Neil é o prazer e a proteção sem limites, a realização de transferências constantes da figura do pedófilo para outros, a reedição das perversas experiências sexuais vividas na infância. O que ele não encontra, porém, é a proteção, o cuidado, na reedição de sua experiência sexual primeira, o dinheiro não cumpre essa função e os outros, não são o técnico de beisebol, e, muitas vezes, agridem-no, tornando desprazerosas algumas de suas relações. Neil, devido ao excesso de pulsões e à vazão que dá a elas, registra um desiquilíbrio que lhe causa certa angústia: a angústia, o desconforto, oriundo do excesso de libido sexual. Parece que no final do filme ele se dá conta de que não se preenche e de como é esgotadora sua narcísica busca: é quando ele aceita um trabalho diferente do que realiza com a profissão garoto de programa, quando resolve contar para Brian o que aconteceu, demonstrando, também, certa consideração pelo outro. O filme Mistérios da carne expressa de forma clara e bem trabalhada a grande tese de Freud, aquela que sustenta serem as experiências sexuais da infância determinantes para transcurso da vida sexual na puberdade e na fase adulta. Explicita, ainda, que, em função da relação da criança com o pai e com a mãe e pela maneira como passa pelas fases infantis, como a fase fálica e a de latência, o ser humano poderá processar de forma diferente as experiências sexuais e, consequentemente, apresentar particularidades na estrutura psíquica bem como sintomas diversos. Trata-se de um filme muito rico em material para práticas de reconhecimento e compreensão da teoria Freudiana. Mostra, através de personagens com traços psíquicos e comportamentos opostos, a estruturação e o funcionamento da psique do indivíduo que Freud tentou descrever em duas grandes obras de seu amplo repertório teórico: A interpretação dos sonhos e Três ensaios sobre a sexualidade.___________Direção: Gregg Araki Plataforma: Prime Video

Trilhas de Freud: da hipnose à psicanálise e sua aplicação no caso Dora

admin Artigos 11 março 2024
Por Ivana Ferigolo Melo -  Até chegar ao método psicanalítico, Freud trilhou outros percursos, utilizando-se de técnicas muito usadas por Charcot e Breuer. A hipnose, uma das primeiras técnicas manejadas por Freud (já utilizada por Charcot), consistia em colocar o paciente em estado de sono, de consciência reduzida ou amortecida, no intuito de exercer comando sobre ele, de induzi-lo, de sugerir-lhe ideias que, acreditava-se, substituiriam pensamentos patogênicos, impedindo-os de agir. Nesse método, que se efetivava, também, a partir da sugestão (de ideias, de comportamentos), ignora-se a origem das enfermidades, não há preocupação em desvelar e tratar a causa do sintoma, mas de neutralizá-lo mediante a impregnação, na psique do paciente, de registros mentais que tornariam ineficazes as ideias causantes da enfermidade. A eficácia da hipnose não ocorreria, portanto, sem a participação do método sugestivo, pois era por meio da sugestão, ou seja, da inserção de novas ideias (não patogênicas) na mente do paciente, que se buscava cura-lo. A técnica ou o método catártico, por sua vez, aposta que o alívio do sofrimento viria por outro caminho que não pela via de sugestão. É um método que consiste em levar o paciente a narrar em estado de baixa consciência ou consciente, sob certa sugestão ou indução do médico (como pressões na testa e palavras de estímulo para aguçar sua memória), as possíveis vivências causantes do sintoma, com o objetivo de fazer com que as energias represadas e atreladas a ideias patogênicas extravasem. O ponto central do método catártico consiste em conseguir o melhoramento do paciente a partir da expurgação (ab-reação), via narração, dos afetos vinculados a certas experiências, atrelados a algumas memórias, que foram represados, que não foram extravasados no ato de ocorrência dos fatos vividos, mas retidos. O propósito do método catártico seria aliviar o paciente por meio da liberação de intensidades represadas e vinculadas a memórias traumáticas. Nesse jogar para fora o represado, encontra-se a diferença entre o método catártico e o da sugestão via hipnose. Ao passo que o método catártico propõe a retirada da mente de energias represadas, o da sugestão hipnótica busca inserir na mente conteúdos, pensamentos, ideias. A psicanálise, emparentada no aspecto da narração ao método catártico corresponde a uma técnica que visa levar o paciente a relatar (não só experiências, mas também fantasias) em estado desperto, com sinceridade e liberdade de associação (livre associação), ou seja, evitando posicionamentos críticos, freios conscientes e encadeamento lógico, racional, tudo o que lhe vem à mente para tentar trazer o conteúdo inconsciente à consciência. A ideia que está na base dessa técnica não é a da cura por ab-reação, mas o conhecimento profundo de si, procedimento que pode ser muito desprazeroso ao paciente, uma vez o levaria a tomar consciência do inaceitável, daquilo que rejeitou, recalcou, reprimiu ou repudia. Para tentar nortear a atividade da psicanálise, em seu texto “Dez recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico, de 1912, Freud elabora e difunde orientações que vão dirigidas ao médico (analista), mas que dizem respeito, também, à postura esperada do paciente no tratamento psicanalítico. Defende que, durante a análise, cabe ao analista a adoção de uma atitude de atenção equiflutuante, ou seja, uma postura de deixar-se levar, sem condicionamento consciente, nem crítico, nem racional, nem moral, pelo relato do paciente, evitando, assim, concentrar-se em certos fragmentos do relato em detrimento de outros. Para Freud, tudo o que é narrado pelo paciente tem importância e, sendo assim, a performance mais adequada do analista é tentar acolher e recolher toda e qualquer informação, que, se não fazem sentido ou pareçam irrelevantes em dado momento, em outro, poderão mostrar-se de suma importância. A partir dessa perspectiva, Freud acrescenta que o analista deve evitar tanto fazer anotações diante do paciente como realizar longos apontamentos durante o tratamento, justamente para não desenvolver um trabalho de seleção do relatado, que pode resultar na eliminação de fragmentos importantes do narrado ou transmitir ao paciente a ideia de que certas questões são mais importantes que outras. O trabalho do analista, para Freud, deveria (embora isso seja muito complexo) assemelhar-se ao do cirurgião, deixando de lado a compaixão, os afetos, e se propondo escutar o paciente com certo distanciamento, para evitar expor-se ou ser influenciado por ele. Para isso, Freud ressalta que o analista deve estar bem analisado, no intuito de evitar que seus traumas também influenciem e realizem enfaticamente seleções nas escutas. A regra fundamental e mais relevante para o tratamento psicanalítico é a de que o paciente conte tudo, sem travas, e que o analista escute tudo sem realizar seleções, pois, o mais importante, o mais revelador, do relato, ou seja, aquilo que a escuta precisa capturar, em função das resistências, é o que é dito de forma ligeira, lacônica, distorcida, sem nexo, ou aquilo que, aos olhos do paciente, é tomado como irrelevante, descabido. O Material do sonho, nesse sentido, também deve ser considerado, pois seu combustível é o recalcado, ou seja, o desconhecido, aquilo que se procura desvelar na psicanalise. Como o material buscado pela psicanálise é o reprimido, outra recomendação importante realizada por Freud no texto acima mencionado é a de que o paciente deva desejar o tratamento, quere-lo de vontade própria, não por indução de familiares ou de pessoas próximas. Para que o relato e a escuta não sejam prejudicadas, Freud ressalta, como já mencionado, que é necessária a manutenção de um distanciamento entre analista e paciente e que o analista evite dar conselhos ao paciente, corrigir seu comportamento, influenciar suas decisões. A intimidade poderia prejudicar o processo de transferência, de repetição ou nova edição de impulsos e fantasias recorrentes no paciente, que, aos olhos de Freud, é muito importante no tratamento, uma vez que pode dar indícios de como o paciente age, de quais são suas motivações afetivas. No caso Dora, por exemplo, Freud indica, no prefácio, que busca embasar-se em suas recomendações para o tratamento psicanalítico e, de fato, sugere, em muitos momentos, aderir a elas. Afirma, no prefácio, que não anotou, a não ser o conteúdo dos sonhos, as informações referentes ao caso antes de o curto tratamento (que durou cerca de 3 meses) ser interrompido. Pelo relato do caso, percebe-se, ainda, que ele manteve certo distanciamento da paciente, não se envolveu emocionalmente e reuniu vastas informações que Dora fora lhe trazendo e que, a princípio, não teriam muito nexo, sobre as quais, ele, o analista, fora trabalhando, tentando encontrar conexões. No entanto, é possível perceber que ele não se atenta para três questões fundamentais de suas recomendações, as quais parecem influenciar na interrupção do tratamento. Freud deixa claro, no relato do caso, que não é Dora quem o procura, mas o pai que a leva até ele e que ela manifestava certo desdém pelos médicos. Assim, aceitando o caso, Freud burla uma das suas recomendações centrais: a de que o paciente deve decidir, com sinceridade, pelo tratamento. Sabemos, também, que Freud não realizou análise nem a realizava enquanto analisava pacientes e, no entanto, ele recomenda que todo o analista deva estar bem analisado. Além disso, Freud mesmo reconhece, no posfácio de O caso Dora, que ele não se atenta para ou não domina a tempo os primeiros sinais da transferência realizada por Dora. Após a interrupção do tratamento, quando relata o caso, ele manifesta ter clareza de que Dora dava indícios de estar substituindo o pai e o senhor K por ele (Freud), reeditando a relação dela com o pai e com o senhor K com Freud no setting, mas ele reconhece, com certo tom de lamento, que não capturou a transferência a tempo e deixa entrever que essa falha pode ter influenciado na interrupção do tratamento. Diante da desistência de Dora, Freud não a pressiona, a respeita, cumprindo a recomendação de que o analista não deve interferir nas decisões do paciente. É possível concluir, assim, que, no caso Dora, o grau de aderência de Freud às suas recomendações é regular, algumas são levadas em consideração, outras não.
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