Por Francisco César Pereira Retrão - Freud como médico e pesquisador da sua época, tinha sede pela investigação focada no que estava além dos sintomas físicos das doenças. Diante disso lançou mão de investigações relacionadas a uma inquietação: os sintomas perceptíveis em consultório têm uma gênese que não é “visível” a olho nu. A comunicação preliminar faz parte de uma obra de estudos que visa investigar essa gênese, versa sobre histeria e para muitos ela inaugura a psicanálise. Nessa comunicação a parte teórica foi elaborada por Breuer e a parte técnica por Freud. A tese principal desta comunicação afirma: o sintoma é um trauma ocorrido no passado que se manifesta no presente através dos sintomas e que sua gênese está geralmente na infância. A ligação entre os dois não é de causa e efeito, mas algo mais profundo chamado por eles de ligação onírica. Para tentar “visualizar” essa gênese – Freud - começou a compreender que era na vida psíquica que estava a razão do desenvolvimento dos sintomas histéricos. Fez então uma primeira constatação (a partir da hipnose e do método catártico): nos fenômenos da histeria há sempre uma experiência muito forte no âmbito afetivo-sexual de quase todos os sujeitos de modo que toda histeria seria consequência de um trauma psíquico. Esta histeria se dá por uma série de impressões afetivas baseadas em um histórico de sofrimentos. Freud então entende nesse primeiro momento: - “Na histeria terei que lidar com a atuação dos traumas psíquicos”. Os sintomas advindos desses traumas não se apresentam com uma transparência suficiente em todos os casos impossibilitando determinar facilmente o sintoma pelo trauma psíquico. A anorexia e o vômito são exceções nessa tópica, segundo a análise feita por Freud ao identificar facilmente os traumas que causavam esses dois sintomas. O questionamento feito nessa questão é: como um trauma gerado no passado se transforma em um sintoma? Como algo insignificante em uma pessoa poderia em outra causar um trauma? Quando ocorreu o trauma a pessoa não teve a opção de reagir adequadamente à situação desagradável ou não tinha a tinha maturidade humana suficiente para suportar a situação vivida por isso houve a instalação do trauma. Freud na prática terapêutica foi vislumbrando um caminho de cura intitulado “escoamento do afeto” comprovando o seguinte: o paciente ao expressar verbalmente o afeto violento atualizando a vivência daquele momento do passado com todas as emoções envolvidas (raiva, repulsa, indignação) uma vez mais - ao falar sobre ele - o sintoma crônico desaparece desse momento em diante. A terapia aqui é o meio facilitador e propiciador dessa ab-reação. Ela poderá ocorrer também com o paciente sob hipnose ao reviver no presente a situação traumática, fazendo ele reagir com a expressão de toda emoção. O que é muito melhor e efetivo do que a sugestão direta. A energia psíquica envolvida na vivência desagradável versa sobre quando alguma coisa fica estrangulada e essa energia fica aprisionada, se movimentando dentro dessa segunda consciência e a partir dali vai se manifestar em um momento posterior como sintoma. Nesse sentido o sintoma é a lembrança de um trauma, razão pela qual os pacientes histéricos sofrem de reminiscências. Por exemplo uma empregada doméstica que é insultada pela sua patroa e por medo de perder o emprego não revida o insulto. A energia da raiva fica guardada e depois pode se transformar em um trauma ao reprimir essa lembrança, aparecendo em momento posterior da vida, o sintoma. Para que isso não aconteça a empregada poderia em outra ocasião dizer à sua patroa “as do fim” (como se diz aqui no Ceará) como resposta pelo insulto recebido e não reagido. O mecanismo psíquico sadio tem meios de lidar com o afeto gerador de um trauma psíquico. O que ele faz? Evoca ideias contraditórias como a de seu valor, de que é amado por outras pessoas e a má índole daquele que lhe ofende. Isso ajuda a reduzir o impacto do afeto causado pelo insulto ocasionando a diminuição da sua intensidade até que não haja mais lembrança que influencie negativamente. No que diz respeito à causa da histeria - Freud – fala da ocorrência da incompatibilidade explicitando o seguinte: o paciente tem uma experiência afetiva tão forte que é incompatível com sua capacidade de assimilação que ele decide esquecer, então reprime. Essa experiência está diretamente ligada a sensações sexuais vividas realmente ou a fantasias que invadiram suas “descobertas sexuais”. Freud acredita que a representação sexual recalcada é substituída na consciência pela obsessão. Os abusos sexuais sofridos na pequena infância mesmo que a criança não tenha ainda desenvolvimento sexual, são a causa principal da histeria - segundo Freud – o que se dá pela passividade sexual durante o período pré-sexual. Destarte a etiologia específica da histeria é a sexualidade. Formula a partir dessa realidade a teoria da sedução acreditando piamente que todos os pacientes histéricos foram abusados, seduzidos sexualmente na infância, quer seja por uma pessoa mais velha ou por um irmão mais velho. Mas sempre foi algo real que aconteceu na compreensão do paciente. Percebo que o equívoco cometido aqui por Freud está no fato de que o pressuposto estava errado, o fato também de acreditar na fala do paciente como se o material trazido havia acontecido de verdade não percebendo que haveria uma realidade que ele só descobrirá depois (fantasia) e que mesmo sob hipnose os pacientes mentiam. Sua capacidade de julgamento nesse âmbito ainda estava incipiente e por não entender o que era o inconsciente não podia “prever” certas reações. Percebe-se até aqui uma relação muito estreita na história da histeria e na teoria da sedução, pois em ambas havia a crença de que toda histérica teria sido abusada na infância e de que o relato estava baseado em um fato real. A premissa comum é de cunho sexual. Freud percebe então nas diversas experiências que a fala não estava relacionada sempre a um fato. O que lhe faz imaginar uma realidade que ainda não sabe qual é e na qual se deparou com o limite de não conseguir alcançar as causas mais profundas do sofrimento dos seus pacientes. Vai viver depois um processo de superação da teoria da sedução compreendendo que no relato dos pacientes há muita fantasia. Encaminhar-se-ão outras descobertas.
Por Dulce Scalzilli - Freud, em sua primeira publicação, em Viena, 1893, formula algumas teorias sobre a histeria, depois de começar a tratar mulheres histéricas, a partir da influência de Charcot, quando trabalhou com este na Salpêtrière, em Paris. Ainda com um discurso onde fazia muito uso de termos médicos, porém com genialidade, Freud mantinha uma comunidade médica atenta aos seus estudos e conclusões, apesar desta ser incrédula a respeito de seus métodos terapêuticos. Precisava manter seus colegas atentos e, ao mesmo tempo, ele mesmo percebia estar se afastando da Medicina e seguindo por outros caminhos, ainda desconhecidos, mas para um lugar do qual ela não faria parte, a não ser para identificar uma doença orgânica e tratá-la de acordo com os protocolos médicos. Freud começa a utilizar-se da hipnose para tratar seus pacientes, método do qual se apoderou do colega Breuer. O método consistia em colocar o paciente sob hipnose, indagar sobre a origem de algum sintoma, quando este teria surgido pela primeira vez e qual a conexão deste com sua vida presente. A memória que, em vigília era inacessível, retornava quando em estado hipnótico. Seguindo a linha de raciocínio de Charcot, que dizia que os sintomas histéricos estavam associados a um trauma físico, Freud amplia esse entendimento, analisando vários pacientes, e deduz que há uma semelhança entre os sintomas da histeria traumática (Charcot) e a histeria não traumática, comum. Com a diferença que, na última, existia uma série de afetos (dor, medo, terror) operantes no trauma, ou seja, o trauma seria psíquico e não mecânico. Freud percebe que, por sugestão do analista/médico, durante a hipnose, ao lembrar do momento em que o sintoma se instaurou pela primeira vez, este momento guardava, geralmente, um afeto muito forte e a respeito do qual não teria acontecido uma reação adequada, ficando este sentimento recalcado no inconsciente. Ao lembrar do episódio e ter a respeito dele a reação recalcada, com a intensidade adequada, uma “ab-reação”, ocorreria uma “catarse”, os sintomas desapareceriam e o paciente estaria “curado”. Também descobre que a hipnose não é uma unanimidade, uma vez que nem todas as pessoas podiam ser hipnotizadas, por não o desejarem ou por resistências internas, inconscientes. Começa a utilizar-se de outras formas de tratamento, como a imposição das mãos e a solicitar que o paciente falasse o que lembrava a respeito do surgimento de determinado sintoma ao sentir a pressão de sua mão na testa. Até que, uma paciente, Anna O., lhe sugere que a deixe falar livremente. Observa então que as lembranças, as falas deixadas acontecerem de forma livre, o que viesse à consciência, mesmo que parecesse não ter nada a ver com os sintomas e/ou conteúdos de sua análise, se revelaram mais verdadeiras por virem do paciente e não por sugestão do analista e, dessa forma, muito mais libertadoras. Assim, através dessas observações, conclui que pacientes histéricos sofrem de Traumas Psíquicos não ab-reagidos, e sua cura viria através do Método Catártico. A catarse reconduz o sintoma físico para o campo psíquico e resolve a contradição quando o afeto é descarregado por meio da fala. Ocorre a conversão de uma representação em um sintoma no corpo. Nesta apresentação Freud acredita poder sustentar que existe uma divisão da consciência histérica. Ou o paciente tem condições psíquicas para a conversão, ou existe uma divisão da consciência histérica, transformando os afetos recalcados não “ab-reagidos” em obsessões (ligadas ao pensamento) ou em fobias (dirigidas a um objeto). Para Freud, a etiologia da histeria teria seu fundamento em traumas psíquicos ligados especificamente à sexualidade, principalmente em mulheres e, durante muito tempo, não abriu mão desta conclusão. No decorrer de seus tratamentos, de repente, se depara com vários casos em que teriam ocorrido abusos sexuais na tenra infância, antes da puberdade. Esses pacientes teriam sido seduzidos por pai, mãe, irmão/irmã mais velho, primo, prima, professores, babás. E que estes supostos abusos/seduções geravam traumas psíquicos, cujos sintomas se traduziam numa neurose histérica, formulando assim a Teoria da Sedução. Porém, alertado pela quantidade de casos relatados, começa a questionar essas lembranças. E, numa análise mais profunda e num processo investigativo dos casos, à exaustão, descobre que tais lembranças não seriam de fatos reais, apenas “pareciam” reais, onde pudesse ter havido um desejo ou fantasia não condizente com a vida real do paciente e por isso, o sentimento gerado por essa fantasia ficou registrado na sua memória inconsciente. Durante a hipnose, aquele desejo assumia uma forma real, como se tivesse ocorrido de verdade. Ou, outras vezes, fora do estado hipnótico, era até inventado, talvez no desejo inconsciente de que aquela “fantasia” tivesse ocorrido realmente. E então se dá conta do equívoco da sua Teoria da Sedução. A principal relação entre este “engano” de Freud e os já ocorridos anteriormente na história da histeria seria o fato de que todos os profissionais (médicos) envolvidos no tratamento das pacientes histéricas acreditaram que os relatos obtidos através da hipnose seriam verdadeiros. Freud postula então que seus pacientes não tinham memórias de abusos sexuais sofridos na infância, mas um conflito psíquico inconsciente, gerado por um desejo inconsciente (fantasia), e esse sim, seria o principal causador da neurose histérica. Esta descoberta teria resolvido o problema da Teoria da Sedução. Pois as fantasias relatadas como fatos reais dão a Freud elementos para sustentar que o fantasiado era tão importante como se tivesse ocorrido. Tratava-se de uma realidade psíquica, sentida e trazida como real a partir da sua memória.
Por Silvio Ribeiro da Silva - A tese principal associada à comunicação preliminar está ligada a como os teóricos, Freud e Breuer, entendiam ser o sintoma presente algo ligado a um trauma acontecido no passado. Para eles, o trauma encontrava sua origem na infância. É curioso pensar que eles entendiam ser a relação entre o trauma e o sintoma algo não diretivo, ou seja, um não era necessariamente consequência do outro. A teoria da hipnose era colocada em prática no tratamento proposto pelos dois. O objetivo da hipnose era resgatar na memória do paciente as lembranças esquecidas. Na hipnose, buscava-se fazer com que o paciente se lembrasse do trauma e reagisse a ele com o uso das palavras, colocando, no presente, a emoção, a fim de expurgar, através da catarse, aquela emoção ‘ácida’ mal resolvida no passado. Outra teoria associada é a da ab-reação, a qual consiste no seguinte: uma pessoa é tratada com grosseria e falta de respeito por outra em escala superior; pelo fato de o agressor ser superior, a pessoa não pode revidar (o não revide seria o gerador do trauma, a ser manifestado como sintoma posteriormente); a ab-reação ocorreria se o agredido revidasse de alguma forma a agressão sofrida (jogando café no rosto do agressor, por exemplo). O recalque seria outro aspecto relevante para o sintoma segundo Freud e Breuer. Emoções (afetos) recalcados (engolidos) podem se manifestar futuramente como sintomas de algo marcante do passado e não ab-reagido. Para Freud, a sexualidade é a etiologia da histeria. Sobre isso, ele indicava o que a hipnose e a catarse, métodos até então em uso, buscavam alcançar. Começava a tomar mais força a tese de que o enunciado do paciente não era tão importante sem a presença da enunciação (o que leva à produção de um enunciado. Pode-se associar isso ao que o próprio Freud chamava de ‘exploração arqueológica’ do caso relatado pelo paciente). O Freud psicanalista surgia a partir do interesse pelo enigma por trás dos relatos do paciente. Ganhava força o desejo de Freud pela investigação das causas por trás das doenças. Nesse sentido, o sintoma presente no paciente pode ser interpretado pelo analista como restos de momentos psíquicos passados não resolvidos (não ab-reagidos) e que se manifestam na consciência, trazendo por trás um arcabouço psíquico vinculado a um quadro patológico qualquer, manifestado, no caso da histeria, como sintoma somático. Cabe ressaltar que, para Freud, tudo isto tinha como pontapé inicial uma experiência sexual infantil oriunda de um contexto de sedução feita por um adulto (ainda não havia indicação sobre o lugar do desejo e da fantasia nisso tudo). Assim, o tratamento analítico consistia em fazer associações entre os dizeres do paciente, em busca do momento inicial gerador do quadro atual, aflitivo para o paciente, associando isso tudo a uma experiência sexual precoce. Junto com Breuer, Freud desenvolvia seu trabalho acoplado à teoria da sedução. Para Freud, como já dito, a sexualidade é a causa da histeria. Essa histeria viria como resposta sintomática a um afeto gerado por conta de uma sedução, que levou a um caso de abuso sexual na infância, sofrida pelo paciente, seja por um cuidador, seja por outra pessoa mais velha, seja por alguém próximo, também já vítima de abuso sexual. Tempos depois de dizer isso, o próprio Freud admitiu que foi um equívoco de sua parte, ou seja, seus pacientes não sofreram efetivo abuso sexual, mas, sim, viveram uma experiência sexual fantasiosa. Freud, então, reorganiza sua teoria: anteriormente, havia um trauma no passado, o qual se manifestava como um sintoma; a partir de então, o que existe é uma fantasia sobre o que aconteceu nesta infância. Por mais que a fantasia não seja algo concreto, ela não poderia ser absolutamente descartada, já que está, de algum modo, conectada ao quadro histérico, constituindo, assim, parte da enunciação do paciente (o gerador do enunciado produzido por ele na associação livre). A fantasia acabava tendo um papel estruturante para a realidade factual, de certo modo facilitando o acesso ao mundo real. O equívoco de Freud em relação à teoria da sedução deve ter ocorrido pela, até então, ausência de sua parte de uma maior reflexão a respeito do que acontecia durante o processo de análise com o paciente. Analisando sua trajetória profissional, percebe-se que houve momentos em que, após uma reflexão mais detida, ele acabou por abandonar um processo terapêutico em uso e adotar outro. Assim, ele parte da hipnose (feita com o paciente fora de si) e começa o método da associação livre (com o paciente fora de hipnose). A pessoa hipnotizada relatava fatos de sua vida passada, mas não se lembrava deles quando retornava do momento de transe. Assim, Freud deve ter percebido que não fazia muito sentido ter acesso àqueles dados, já que a pessoa não se lembrava do que havia acontecido depois do transe. Logo, o que fazer com aquilo? De modo semelhante, ao refletir sobre a questão da sedução, apresentada pelos pacientes, ele deve ter ido concluindo que era muito estranho um número tão grande de pessoas ter sido vítima de sedução. Um dos motivos dessa conclusão pode ter sido o fato de, dentre outros aspectos, os pacientes irem dizendo a ele que as considerações feitas acerca de seu caso não se encaixavam na verdade dos fatos. Se não se encaixavam, é porque havia alguma peça errada naquele quebra-cabeça. Possivelmente, a peça errada era a fantasia do paciente, tratada até então como verdade factual. Como já dito, a fantasia era um importante elemento, mas deveria ser tratada como uma estratégia para a execução (montagem) do quebra-cabeça, não como uma peça desse quebra-cabeça. Ao longo de seu processo de construção como analista, houve alguns equívocos de Freud, os quais podem ser associados a outros cometidos na história da histeria. No caso da histeria, os estudos a seu respeito remetem a Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o Pai da Medicina, na Grécia Antiga. Séculos depois, quando Freud desperta seu interesse pelo tema, muito já havia ocorrido e, certamente, houve muitas modificações no que diz respeito à teoria. A tentativa incessante de descobrir a causa real de um mal acaba por conduzir a caminhos equivocados pelo fato de que ocorrem mudanças nos fatos nem sempre acompanhadas pelo interessado por aquilo. A ‘substituição’ da ideia de sedução pela tese da fantasia resolveria os problemas daquela, por mais que posteriormente tenham surgido alguns pontos de vista bem contundentes de que abandonar a teoria da sedução tenha sido uma atitude covarde da parte dele, ou até mesmo um meio de autopromoção e aceitação, considerando a reação negativa da comunidade científica da época para a teoria da sedução. A fantasia de algum modo está contida na sedução.
Por Alan Araújo da Costa - Analisar o trabalho terapêutico desenvolvido por Freud no caso Dora sempre será bastante curioso. Se passando no início da estruturação da técnica psicanalítica, logo após abandonar a hipnose e começando a utilizar a livre associação, percebemos com riqueza de detalhes o desenvolvimento do seu trabalho como terapeuta, os seus deslizes e a base da ideia daquilo que viria a se tornar a técnica clínica da psicanálise. Logo no prefácio, Freud esclarece que não foi possível chegar até a meta fixada, pois a paciente abandonou antes que chegassem nela. Essa questão da expectativa dele em relação ao atendimento de Dora me leva a refletir sobre a tal meta fixada, sobre quem estipulou, se era algo combinado, e principalmente qual a relação de um ponto em um tratamento analítico. Essas questões, assim como o texto por si só, mostram que Freud vivia em função de buscar um espaço para sua teoria, de “fixar” a psicanálise no meio do corpo médico, e o quanto ele pecou em não se desprender disso, tanto que posteriormente em outras obras ele estabelece que o terapeuta deve manter a neutralidade dentro do setting analítico, o que é algo que não encontramos ao ler o caso Dora. Outro importante conceito da técnica que posso destacar é a abstinência do terapeuta, dado que deixou suas expectativas serem levadas durante à análise, ou melhor dizendo o “planejamento” do caso. Nessa época Freud já havia abandonado a hipnose, o tratamento sugestivo, e tinha recém adotado o método da livre associação, pois via como sendo uma técnica essencial para combater as forças da resistência. No entanto, na tentativa de estabelecer a livre associação vemos um Freud ainda muito ligado com a técnica da sugestão, pois na tentativa de ouvir o paciente ele acabava voltando sua atenção para si próprio e para seus conteúdos. Isso mostra o desuso da atenção que ele mencionaria posteriormente, que deveria permanecer de forma flutuante a fim de que não se fixasse a nenhum conteúdo específico, estando aberto para as questões que o paciente livre associaria. Uma forma de pensar sobre os desusos da técnica psicanalítica no caso Dora pode ser vista no contexto em que ele se encontrava, logo após ter desenvolvido a interpretação dos sonhos ele se confrontava com a necessidade de mostrar (para si) seus conceitos na clínica, e como resultado disso vemos uma incessante procura para tentar provar a teoria, deixando ocupado o espaço da atenção que escutaria os conteúdos do paciente. O método investigativo de Freud o fez pecar também em trabalhar a transferência dentro deste caso. É possível observar que ele já iniciava o atendimento com suas próprias respostas, tendo apenas o trabalho de encaixá-las na história da paciente. A transferência tem um peso impar para o funcionamento da análise, e olhar um trabalho terapêutico realizado por um psicanalista que ignora tal fator pode ser considerado (o que ele mesmo chamou de) selvageria. O caso Dora me leva a acreditar que poderia não ter sido denominado de tal maneira, pois a paciente Dora foi a última a ser analisada nesse meio. Nos atendimentos, Freud colocava suas próprias premissas, e fundamentos no meio da relação terapêutica, o que leva a compreender a sua ilusão de estar analisando Dora, e que na verdade estava (inconscientemente) analisando a si próprio e sua teoria. Vale destacar da mesma forma a postura do terapeuta diante da sintomatologia da paciente neurose, no qual Freud demonstrava voltar sua atenção para a eliminação dos sintomas, representando estar procurando uma cura, o que é incompreensível ao ponto de vista psicanalítico acerca do tratamento. A psicanálise não dá o que o paciente quer, dá o que ele precisa. Não existe essa relação médico-paciente dentro da análise. De acordo com o texto de 1910 sobre a psicanalise selvagem podemos refletir que tais atitudes causam mais danos a própria psicanálise do que ao doente. Esse texto ao ser analisado de forma crítica parece ser sido escrito por ele ao olhar suas posturas diante da técnica clínica, mesmo que seja de forma inconsciente, que ao recomendar para os médicos ele também estivesse si incluindo. Dessa forma, vemos uma prática ainda engatinhando na época do caso Dora. Juntamente com isso, também vemos um Freud carregando suas incertezas em relação à teoria e o tratamento psicanalítico, e que olhando de forma positiva serviu para que posteriormente reajustasse pontos importantes e solidificasse o tratamento dentro do contexto cultural no qual se encontrava.
Por Camila Ferreira de Avila - ... O pulso ainda pulsa - Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisiaToxoplasmose, sarampo, esquizofreniaUlcera, trombose, coqueluche, hipocondriaSífilis, ciúmes, asma, cleptomaniaO corpo ainda é pouco...(O pulso - Marcelo Fromer / Antonio Bellotto / Arnaldo Filho) O que te faz pulsar? O que te faz viver? Que energia conduz nossa vida? Sigmund Freud trouxe para a Psicanálise o conceito de Pulsão. De forma bem genérica podemos compreender como aquilo que nos instiga, que nos leva a alguma direção ou ação. Mas ao contrario de um pensamento behaviorista para o comportamento humano baseado em estimulo/resposta, a pulsão não é representada por um estímulo externo e sim um estímulo interno, não vem do ambiente. Seria então esse estímulo interno o que compreendemos por instinto? Neste sentido, podemos pensar que o instinto é o que nos faz pulsar, estando ligado à preservação da espécie, estaríamos marcados geneticamente. Portanto, o instinto é filogenético, independe de aprendizagem. Mas Freud traz a ideia de Pulsão como algo diferente de Instinto, visto que a pulsão é um estímulo para a psique. A função da pulsão é fazer o aparelho psíquico funcionar. Pense neste constructo como algo entre o somático e o psíquico. É ontogenético, do próprio individuo. Freud inicia o conceito de Pulsão em 1905 quando escreve “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, mas é em 1915 no texto “As pulsões e suas vicissitudes” que se debruça com mais afinco a esta formulação. O conceito de Pulsão é fundamental para a clínica psicanalítica. Aspectos relativos à força, ao ímpeto, ao impacto são introduzidos na dimensão psíquica. Sendo assim, a pulsão seria a pressão ou força que nos impele para um objetivo. Não podemos esquecer que tal pressão é interna, portanto, impossível fugir desse estímulo interno. Agora imagine uma pressão constante, a pulsão é da ordem de uma força constante. É a força que nos faz ser o que somos em uma perspectiva constante. Somos instigados o tempo todo por essa força. Mas qual objetivo ou meta dessa força? A força que nos pressiona constantemente e da qual é impossível fugir tem como meta a obtenção de prazer, a satisfação. A pulsão tem sempre uma fonte corporal, provocando uma erotização, fazendo dessa forma com que Freud pensasse a sexualidade de uma maneira bem diferente, para além do genital. A sexualidade humana não estaria baseada em instintos como nos animais, e sim na pulsão. Organizando as ideias iniciais, a pulsão é uma energia que alimenta e pressiona a psique. Tem uma fonte corporal, portanto, está entre o corpo e a psique. De uma força constante e impossível de se fugir visto que trata-se de um estímulo interno e que tem como meta a satisfação. Além dessas características, inclua-se o direcionamento para um objeto. Características da pulsão: energia constante, busca pelo prazer e é dirigida para um objeto. O objeto é aquilo que nos desperta o desejo, aquilo que nos atrai, é aquele pelo qual a pulsão alcança sua meta. A pulsão se coloca entre nós e o objeto do desejo, ou objeto que causa o desejo. A pulsão e o objeto tem uma conexão, mas uma conexão de uma ordem que não está pronta, não é ditada pela natureza, é estabelecida, montada, é própria de cada indivíduo. Sendo um conceito ontológico, o que cada um faz com essa força constante é diferente. Exige um trabalho psíquico. O que fazer com essa pressão é algo que se apresenta para nós o tempo todo. Cada um tem que se haver com essa força, tal trabalho pode ocorrer através dos sintomas, da sexualidade, da escolha do objeto. Freud destaca que os destinos da pulsão seriam o narcisismo, a repressão, a sublimação e a reversão no contrário (ambivalência). O narcisismo é um dos destinos da pulsão. Nesta situação, o objeto da pulsão torna-se o próprio eu. Freud dividiu o narcisismo em dois tipos: narcisismo primário e narcisismo secundário. No narcisismo primário (pode também ser compreendido como uma fase do desenvolvimento) não existe objeto externo para se relacionar (autoerotismo). Já no narcisismo secundário, há uma relação com outros objetos, mas a libido retorna para o próprio sujeito. Abandona o mundo externo, retira a libido do mundo externo. A repressão faz um trabalho de retirar, expulsar da consciência conteúdos desagradáveis. Tem como objetivo evitar o desprazer. A essência deste mecanismo, portanto, é rejeitar e manter tais conteúdos afastados da consciência. O conteúdo recalcado pode retornar de algumas formas como, por exemplo: nos sonhos, na transferência, nos sintomas e ato falho. Na sublimação, outra vicissitude da pulsão, um novo destino é dado aos desejos. Desejos que não podem ser manifestos em função das regras sociais, censuras, moral, religiosidade, são transformados em algo socialmente aceito. Há uma dessexualização da libido. Freud também assinala a reversão no contrário. Esta reversão pode acontecer com a inversão do conteúdo, transformação do amor em ódio ou na conversão da atividade em passividade: sadismo/masoquismo, exibicionismo/voyeurismo. Por fim, o que fica explicitado neste momento é que a pulsão sempre encontra um caminho. Nossa psique é desejante e busca o prazer, o pulso sempre pulsa, algo nos impulsiona para a vida. Mesmo com a sífilis, o ciúmes, a asma e a cleptomania essa força não diminui. Mesmo que corpo ainda seja pouco, o pulso ainda pulsa e a pulsão segue seu curso.
Por Camila Ferreira de Avila - “Este histórico de apenas três meses é abarcável e memoriável; mas seus resultados permaneceram incompletos em mais de um ponto de vista.... Desse modo, posso oferecer aqui apenas um fragmento de uma análise”. (Freud, 1905) “Bruchstuck einer Hysterie-Analyse” em Alemão, “Fragmento da análise de um caso de histeria” em português ou simplesmente o “O caso Dora”. Sempre me intrigou as escolhas dos nomes fictícios dos pacientes de Freud. Por que ele teria escolhido o nome “Dora” para Ida Bauer? A pesquisa etimológica do nome Dora resultou em alguns achados, nome de origem grega que significa presente ou dádiva (dôron). Fico imaginando quais foram os motivos pelo qual Freud escolheu este e não outro nome feminino, existiram motivos inconscientes para atribuir a Dora este status de presente ou dádiva? Existem escolhas que não são influenciadas pelo inconsciente? Para Freud com certeza não. Ainda sobre o nome Dora, a palavra pode ter outros significados como, por exemplo, na Botânica, dora (Sorghum dora) é uma angiosperma (tem a capacidade de produzir flores e frutos), da família das gramíneas, sorgo -apesar de pouco utilizado no Brasil para o consumo humano, mas é o quinto cereal mais importante do mundo, muito consumido na África. Mas entre a Grécia e a África, o que esperar de Dora? O que teria levado Sigmund Freud a publicar e se expor no âmbito científico através de um caso de insucesso? Para aqueles que não tiveram a oportunidade ainda de ler “O caso Dora” não espere encontrar um relato de sucesso total, ao contrário, será a leitura de um Freud que por vezes contradiz seus achados, mais focado em construir uma teoria do que ajudar a sua paciente. Mesmo com erros e descuidos Freud não apenas escolheu publicar o caso (Dora foi atendida em 1900, Freud escreveu o artigo em 1901 e publicou em 1905), como escolheu também um nome com significado de presente. Imagino então que Freud compreendia que Dora era uma mistura de dôron (presente) com Sorghum dora, com capacidade de produzir flores e frutos e que após transformações poderia alimentar a teoria Psicanalítica. Clarice Lispector tem uma frase que diz: “passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente”, e é nesta perspectiva, olhando Freud como um culpado inocente que podemos compreender a publicação do Caso Dora. Publicou o caso Dora entre “A interpretação dos sonhos” e os “Três ensaios da teoria da sexualidade”, usou o caso para fazer a ponte entre teoria e prática. Mas sempre com uma pontinha de culpa, acrescentando notas na publicação do caso por vários anos. A Psicanálise ainda era vista com descrença pela classe médica, Freud era alvo constante de críticas. No tratamento de Dora, pretendia demonstrar o uso de técnicas da psicanálise, bem como comprovar seus escritos sobre sexualidade infantil e histeria. Neste período a hipnose e o método catártico haviam sido abandonados enquanto técnicas psicanalíticas, Freud já fazia uso da associação livre. Sem a pretensão de trazer uma definição teórica fechada, a associação livre é uma técnica que consiste em que o paciente fale livremente sobre tudo que vier à sua mente. A ideia é reduzir as resistências no fluxo de pensamentos. Entretanto, percebe-se em várias situações descritas por Freud que ele direcionava as ideias de Dora ao encontro da construção de sua teoria (principalmente nos conteúdos ligados à sexualidade). Neste aspecto apesar de não contribuir com Dora conforme esperado, foi possível para Freud ampliar a ideia acerca da origem das patologias para além do que se imaginava anteriormente. Outro ponto abordado por ele foi o uso da interpretação dos sonhos nos atendimentos. Em destaque dois sonhos trazidos por Dora foram enredo de muitas sessões. Para Freud a interpretação dos sonhos seria um auxílio para trazer à tona conteúdos reprimidos ajudando na elucidação dos sintomas. A interpretação dos sonhos era análoga à interpretação dos sintomas. Freud buscou construir sua teoria baseado em seus casos clínicos. Utilizou o atendimento clínico para concretamente interpretar os sonhos da paciente, teoria e prática em uma relação de co-dependência. Paralelo ao seu objetivo inicial Freud começou a perceber o surgimento de uma dinâmica muito importante na relação médico/paciente denominada transferência. Freud atendeu Dora por apenas três meses, e emblematicamente, a paciente abandonou o tratamento em 31 de dezembro. A ideia de transferência pode ser compreendida como uma reedição de afetos do paciente na figura do terapeuta, por exemplo: a relação com a mãe, ou com o pai, ou com um namorado. Uma dinâmica que acontece, sobretudo, no tratamento psicanalítico. O paciente revive tais afetos com o analista. Tais afetos podem ser bons ou ruins. No caso de Dora, essa transferência foi negativa. Para Freud o abandono da paciente do tratamento aconteceu pois ele não interpretou a transferência, não houve um manejo adequado deste processo. Percebeu então o poder da transferência no sucesso ou fracasso do tratamento. O autor admite seu erro e aproveita deste mesmo erro para também justificar a publicação do caso destacando a importância e o cuidado que o psicanalista precisava ter com a relação médico/paciente. O encerramento prematuro do atendimento de Dora não possibilitou que Freud oferecesse resultados completos. Não conseguiu ajudar sua paciente, falhou. Em 1917 Freud escreve que “a transferência esta presente no paciente desde o começo do tratamento e, por algum tempo, é o mais poderoso móvel do seu progresso”. As críticas à publicação e as falhas de Freud na condução do caso são várias, se estendem até os dias atuais. Mas em nada diminui a genialidade de Freud inclusive fazendo sua mea-culpa. É certo que ficou incomodado com seus erros– justificado com tantas notas posteriores, mas acredito que os avanços, inclusive, com os não acertos, o conduziram na aceitação de ser um culpado inocente, cometeu erros na ânsia de acertar. “Você é livre para fazer suas escolhas, mas prisioneiro das consequências” (Pablo Neruda).
Por Jucimary Silveira - Começamos o ano de 2020 com os mesmos propósitos e promessas de todos os anos: de iniciar um ano melhor. O que não sabíamos era que seríamos pegos de surpresa por uma pandemia provocada por um simples vírus, nem tão simples assim, o Coronavírus, que já infectou mais de 7 milhões de pessoas no nosso planeta e ceifou a vida de mais de 400 mil. Por conta de tantos óbitos, além da angústia do não saber como e quando tudo isso vai acabar, muitas famílias têm vivido a dor da perda. Dor essa que parece ainda maior quando se dá de forma tão inesperada e nos mergulha na experiência do luto. Mas o que seria o luto? Do latim “luctus,us”: dor, mágoa, lástima. Do dicionário: profundo pesar causado pela morte de alguém. Sentimento gerado por perdas como separação, partidas ou rompimentos. De acordo com Freud em seu artigo Luto e Melancolia (1917[1915]) o luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido. Penso que, como se trata de uma reação, posso tentar fazer um link com Bion e dizer que o luto é uma experiência emocional, ou seja, é como eu vivo a emoção dor ao me deparar com uma perda; o que eu faço com ela e como eu consigo manejá-la emocionalmente. E qual a finalidade do luto? A realidade é dura conosco e nos apresenta o fato de que o ser amado não está mais ali para receber de forma concreta nosso amor, exigindo de nós que toda demonstração de afeto seja “suspensa”. É impossível dar aquele abraço, aquele beijo e até mesmo aquele simples oi através de um breve telefonema. Nenhum de nós abandona esses hábitos de carinho de bom grado; até porque o afeto está ali para ser entregue, ele preenche um espaço no peito que fica apertado e dói. Resistimos, não queremos aceitar, muitas vezes demoramos até mesmo para acreditar, choramos, e tudo isso é natural; afinal o que fazer com essa dor que rasga o peito? É preciso tempo para que estas demonstrações de afeto sejam “arquivadas”, no sentido de aceitarmos que não podemos mais entregá-las. Momentos de tristeza, lembranças acompanhadas de choro, e outras reações são todas comuns; porém, aos poucos, vamos encarando esses momentos, vamos dando conta dos nossos sentimentos e vamos nos resolvendo com eles, dando destino a eles; chega então, o momento em que restam apenas as lembranças, as boas lembranças. É quando a gente consegue olhar para os retratos e dar boas risadas, viajar no tempo e reviver as coisas boas ou engraçadas. E o luto fez o seu trabalho. Reagimos, conseguimos manejar a dor da perda e então podemos seguir com a nossa vida. E quanto tempo dura um luto? Podemos dizer que esta pergunta poderia ter infinitas respostas, porque depende de cada pessoa. Cada um de nós possui o que Bion nomeou de caráter inato da personalidade, é aquilo que não tem explicação em relação a uma pessoa. Talvez esse caráter inato seja o que determine o porquê de pessoas diferentes viverem de formas diferentes as mesmas situações. Por isso é muito importante prestarmos atenção em nossas emoções e percebermos se nosso luto se instalou. Será que esse processo de reagir a essa dor se instalou em mim? Ou será que eu estou negando esse sentimento, tentando fugir dele? De acordo com Bion, a experiência emocional, penosa, desencadeia esforço para fugir ao sofrimento ou modificá-la conforme os recursos da personalidade para tolerar a frustração. Assim, numa situação tão sensível de perda de um ente querido; numa mesma família, terão pessoas que passarão pelo luto e terão aquelas que evitarão essa reação e poderão entrar em estados mais profundos de dor, caindo em estados melancólicos, ou tentando fugir da realidade por outras vias. Viver o luto é preciso para podermos processar a ausência do ente querido e ressignificar seu novo modo de existir em nossas vidas. Que possamos, em breve, distribuir nosso carinho aos que ficaram conosco.
Por Fabiana Tessaro - Difícil não estar ansioso hoje em dia, eu digo isso porque a ansiedade faz parte do mundo contemporâneo. Somos cobrados a todo momento, temos que ser felizes, temos que ser bonitos, temos que ser magros, temos que ter dinheiro, dar resultados, ter sucesso, saúde, amor e por aí vai. A ansiedade tem a ver com controle, com a busca pela perfeição, com a responsabilidade, com o desejo de que nada pode dar errado, de não sofrermos frustrações, eu não posso errar, onipotência, como se fossemos capazes de controlar tudo isso. Agora se nós já convivíamos com a ansiedade, o que dizer sobre esse momento tão inédito, tão único, parece que estamos em um filme ou em uma dessas séries da Netflix, quando que nós imaginamos por uma pandemia? Que um vírus seria capaz de mobilizar o mundo? Que nos tiraria a liberdade de ir e vir, que nos impediria de conviver com a família, amigos, que nos paralisaria, privação! Demonstração de amor hoje em dia é não ter contato físico, para nós brasileiros, isso seria impensável. Estudos recentes mostram um crescimento considerável de casos de depressão e ansiedade. Estamos passando por uma crise sanitária, política e diante de todos esses acontecimentos como fica nossa saúde mental? Cada um de nós terá uma história diferente para contar, iremos atravessar esse mesmo momento de uma forma singular, ninguém é igual a ninguém, somos seres únicos. Mas o que é a ansiedade? A ansiedade é um afeto, é uma emoção que está presente em todos os seres vivos. Ansiedade se traduz em medo, ansiedade é um excesso de futuro, expectativa. Um animal também sente ansiedade, mas neste se dá uma descarga motora, ao avistar um perigo uma decisão deve ser tomada, fugir ou atacar. A ansiedade é um alerta, um aviso de perigo, alguma medida deve ser tomada. É um medo muito primitivo, o medo de não existir, o medo de ser aniquilado, o medo de morrer e isso é muito sofrido e angustiante. Para nós seres humanos a ansiedade ativa a função do pensar e quais são os pensamentos automáticos diante dessa situação atual: tragédia. Eu estava estabelecida, tinha minhas rotinas, eu tinha planos, com a construção simbólica de proteção estruturada, Deus, família, trabalho, dinheiro. De repente o chão se abre, um buraco, será que eu vou ter trabalho, até quando meu dinheiro vai durar, meu corpo, minhas roupas, minha imagem. Sim, eu vou me contaminar, alguém da minha família vai se contaminar, será que eu vou sobreviver? Se eu não for contaminado, eu vou passar fome, a comida vai acabar, crise social, crise política, o sistema de saúde vai colapsar, guerra, morte, caos. Se algum leitor aqui não se sentir ansioso, muito provavelmente ativou aí um mecanismo de defesa que julgo não ser o melhor, a negação. A ansiedade em algum grau, é positiva, pois se é um alerta, o que eu faço com isso aqui e agora, eu preciso me proteger, eu preciso fazer algo. E quando ela é patológica? Quando ela é muito intensa, quando ela dói no corpo, é um aperto no peito, falta de ar, palpitação, irritabilidade (eu vou matar meu marido ou minha mulher, eu não sei lidar com os meus filhos 24 horas por dia!). O corpo é tomado por cortisol e adrenalina e se prepara para o embate, mais oxigênio e sangue nos músculos, estou pronto para a guerra. Estamos lutando contra um inimigo invisível, uma ameaça constante, em potencial. Nos noticiários só se vê o caos, sim, minha mente e meu corpo se preparam para a guerra 24 horas por dia, e assim temos impulsos dos mais variados, como comer tudo o que aparecer pela frente, aumento do consumo de álcool, fazemos sem pensar, um pequeno prazer para apaziguar o sofrimento. Mas a notícia boa é que existem outras formas para lidarmos com isso. Se eu pudesse sugerir algo, eu diria, não censure suas emoções, não lute contra seus sentimentos com coisas do tipo, eu não posso sentir isso ou aquilo, se há angústia, o medo e a preocupação são reais. O que eu proponho aqui é “pensar o pensamento”, como dizia nosso grande mestre Wilfred Bion. Os pensamentos se apresentam, quando você menos espera, eles já estão lá instalados. Pensar o pensamento, de uma forma muito simplista, é ampliar o que se pensa, é considerar outras possibilidades. Suportar esse vazio, talvez pensar como tudo isso pode se tornar interessante, porque não existe possibilidade de não sairmos transformados, toda experiencia gera uma transformação, não existe receita, cada um terá que encontrar sua forma. É momento de nos responsabilizarmos, mas de uma forma amorosa, ter auto compaixão, respeitar o que se sente, nós não sabemos mesmo o que vai acontecer e algum dia alguém soube? Sustentar esse vazio do não saber e talvez, talvez usar isso como uma brecha para criar. Uma mente poluída não cria, só reage. Uma mente poluída, paralisa, não há espaço para pensar, é catastrófica. Nenhuma realização corresponde na sua totalidade com a expectativa, então usemos isso também para pensar quando antevemos uma tragédia, deixemos uma brecha para o acaso, para as surpresas boas que podem ocorrer no meio do caminho, uma vacina, um projeto que estava na gaveta, um amigo, um milagre. Que tal deixarmos uma pequena dose de realidade, do dia a dia, organizar nossa vida, se chegamos aqui é porque temos recursos dentro de nós para lidarmos com isso. Enquanto isso, leia aquele livro que ficou na estante esquecido, veja os filmes novamente que você tanto gosta, por que não? Converse com seus amigos, fale do que sente, está tudo bem, está tudo bem não ser perfeito (a propósito, isso existe?), está tudo bem fracassar!!!
Por Camila Ferreira de Avila - Reconheces Ceix, desventurada esposa, ou a morte modificou em demasia as minhas feições? Olha-me, vê-me, a sombra de teu marido, e não ele próprio. Tuas preces, Alcíone, de nada me valeram. Estou morto. (Ceix e Alcíone – as Alcíones) Na mitologia grega Morfeu (filho de Hipnos – personificação do sono) é considerado o Deus dos Sonhos, responsável por trazer aos mortais mensagens e profecias dos deuses. Desde tempos remotos os sonhos povoam a imaginação dos homens e despertam muita curiosidade. Por que sonhamos? O sonho é um presságio? Todos sonham? Sonhamos todos os dias? É um mecanismo para acessar a verdade? É uma abertura de comunicação com as almas em outra dimensão? Ou apenas um mecanismo neurológico? Como tudo que diz respeito ao funcionamento psíquico do homem as respostas podem ser afirmativas para tudo, afirmativas em parte, negativas no todo, mas a grande verdade é que depende! Depende de com que olhos analiso os sonhos: olhos científicos, neurofisiológicos, religiosos, psicológicos, psicanalíticos, psicóticos, freudianos. Infinitas possibilidades... A obra de Sigmund Freud “A interpretação dos sonhos” (1900) carrega nas entrelinhas muito mais do que as palavras lá impressas. Freud depositava nela uma esperança muito grande no impacto de seus escritos e o futuro da Psicanálise que ainda germinava como teoria e prática médica. Propositalmente ou não ao longo da obra o autor além de interpretar sonhos, construía a base da Psicanálise. Descreve a existência de um aparelho psíquico, a existência do inconsciente, e ainda, a maneira de acessar este inconsciente. Será que Morfeu apareceu nos sonhos de Freud trazendo profecias? Na história de Ceix e Alcíone, Morfeu voou silenciosamente pela escuridão até a cama de Alcíone e assumiu a forma de Ceix a pedido de Iris para trazer uma mensagem. Mas afinal o que os sonhos nos dizem? Lembre-se de que vamos olhar para este acontecimento psíquico através das lentes freudianas (interpretadas por mim neste momento) e nesta abordagem os sonhos representam a manifestação de desejos reprimidos, os desejos são sempre a motivação para sonhar. Acontecimentos misturam-se com afetos e fantasias, os sonhos não são lineares, são confusos e quanto mais pensamos e descrevemos o que foi sonhado mais distantes do sonho original permanecemos. Quando sonhamos o tal desejo que busca satisfação vem envolto em uma cortina de fumaça que mescla restos diurnos (coisas que vivemos concretamente naquele dia), com lembranças da infância, preocupações futuras, atividades próximas do sono, sensações fisiológicas e claramente fica muito confuso encontrar qual seria este desejo original que motivou aquele sonho. Freud compreendeu que tais desejos por algum motivo não podiam ser acessados tão facilmente pelo consciente e por isso vinham tão disfarçados. Acho que tudo isso é obra de Morfeu, o ser alado com a capacidade de adquirir várias formas confundindo os mortais. Para Freud os sonhos seriam a primeira grande manifestação do inconsciente, assim como os sintomas, atos falhos e a transferência na relação terapêutica. Tentando organizar parte das ideias do autor faz-se necessário compreender que no mecanismo dos sonhos um desejo real é retirado / reprimido da consciência e represado no inconsciente, e, para que não retorne tão facilmente para a consciência alguns mecanismos são acionados. Em “A interpretação dos sonhos” Freud denominou tais mecanismos de trabalho do sonho. Alguns destes trabalhos seriam: a condensação, o deslocamento, o afeto e a elaboração secundária. No sonho todo material psicológico é sintetizado, resumido. O sonho faz o trabalho de condensação. Ao relatar para alguém um sonho recorremos a explicações e interpretações mais pormenorizadas do que apareceu concretamente no sonho. A condensação traz várias representações em torno de um único representante. São cadeias associativas que se fundem em torno de outras cadeias associativas. Caso fosse possível assistir ao próprio sonho, não seria possível compreender todas as ideias ali contidas, precisam de interpretação. Em outro trabalho do sonho, o deslocamento, ocorre um processo de camuflagem, a representação original surge maquiada, mascarada, modifica as características e muda os padrões. O objeto casa não é a casa, o mar não é o mar. Por vezes o conteúdo mais importante aparece de forma muito sutil, enquanto conteúdos inúteis surgem cheios de detalhes. O conteúdo original do sonho (latente) torna-se cada vez mais disfarçado. O filho de Hipnos dormia em cama de ébano em uma gruta escura, rodeado de flores de dormideira com efeitos sedante e narcótico tal qual o Ópio. Estão os deuses nos inebriando tal qual a flor dormideira? Momentos em que a Psicanálise e os deuses gregos se misturam. Mas existe algo que não se modifica, o afeto. Este permanece inalterado, as emoções não se transformam. A intensidade do afeto sentido nos sonhos é a mesma dos estados de vigília. Podem se ligar a representações diferentes, mas continuam lá. Morfeu não consegue transformar o afeto, a dor de Alcíone com a descoberta durante os sonhos da morte de seu Ceix é intensa e avassaladora, quando desperta de seus sonhos a imensa dor permanece. “... Levanta-te! Dá-me lágrimas, dá-me lamentos, não me deixes descer ao Tártaro sem ser chorado” (Ceix e Alcíone – As Alcíones). Os trabalhos de condensação e deslocamento ocorrem ainda no inconsciente, já na consciência outro trabalho entra em ação: a elaboração secundária. A elaboração secundária está a trabalho da censura, preenche lacunas, organiza, tenta tornar o sonho mais coerente, compreensível e é claro modifica mais uma vez o desejo inicial. Faz-se importante compreender que o sonho manifesto (aquele que lembramos) é bem diferente do sonho latente, aquilo que é lembrado está carregado de simbolismos. A elaboração secundária, portanto, tem o papel de transformar o sonho latente em sonho manifesto. E assim, repentinamente termina este sonho, Morfeu retorna para sua gruta escura cercada de flores de dormideira. Na próxima noite outros cenários, outros personagens, mas cuidado, Quintana adverte: “Não desças os degraus do sonho para não despertar os monstros”. (Os degraus – Mario Quintana)
Por Fernanda Borges Hisaba - Nesta série de textos, publicados entre 1924 e 1940, Freud discute a relação do Ego com o Id e o Superego, instâncias que se definem em sua segunda tópica, seu modelo estrutural do ser humano. Como o ser humano se comporta diante do mundo? Somos todos iguais? Que possibilidades o Ego tem quando se defronta com a realidade? Como lida com os desejos do Id? E com as regras impostas pelo Superego? Quais as ansiedades geradas neste processo, como eu me estruturo e que mecanismos de defesa desenvolvo no meu caminhar? À luz da primeira tópica freudiana, um modelo topográfico, a psique seria constituída por uma Consciência, onde estariam localizados o sistema perceptivo, o sistema motor e a Censura, ou seja, meu contato com o mundo externo e interno e o controle que exerço sobre os impulsos inconscientes. Este Inconsciente seria formado, em sua quase totalidade, por desejos reprimidos oriundos do desenvolvimento sexual infantil. O acúmulo energético provocado por essas necessidades pulsionais seria gerador de uma enorme ansiedade; os desejos reprimidos estariam todo o tempo procurando satisfação na Consciência, e tentariam das mais diversas formas driblar a Censura para que, através desta satisfação, pudessem liberar um quantum de energia. Porém a Censura, vigilante e incansável, não o permite. Mas o aumento da pressão faz com que o Inconsciente encontre meios de “perfurar” essa barreira, e assim, através de recursos como o ato falho, o chiste, os sintomas, os sonhos e a transferência, podemos observar emergir na Consciência esses desejos, sempre fantasiados, de tal forma que os soldados censores não os identifiquem, não os percebam, permitam sua satisfação e não os reenviem prontamente de volta ao cárcere. Esse seria o modelo básico do funcionamento psíquico do ser humano, para um Freud no início de seus trabalhos. De acordo com este mesmo autor, nos estruturamos psiquicamente em três possíveis formas: a neurótica, a psicótica e a perversa. Vejamos então como cada um desses indivíduos se constitui dentro desta primeira tópica freudiana. Suponhamos o nascer de um desejo, cuja realização é intolerável à Consciência, posto que contrária às normas estabelecidas pela sociedade e àquela consciência moral por mim estabelecida. Uma vez consciente, este desejo é prontamente identificado como inimigo e, sob ordens da Censura, submetido ao processo de repressão, enviado ao Inconsciente, aquele lugar em mim onde os desejos não são extintos, porém persistem represando energia, como fonte de ansiedade. Esse desejo tentará retornar. Irá se estabelecer, assim, um compromisso entre o Inconsciente e a Censura, e este contrato permitirá que meu desejo emerja disfarçado, substituído em um elo enfraquecido do meu corpo por um sintoma. Assim, ao invés de dormir com meu pai, passo a claudicar. Sou um neurótico conforme a primeira tópica freudiana, sofrendo de uma histeria conversiva. O desejo reprimido continuará existindo, assim como a resistência à sua realização, o que sustentará a existência do sintoma. Posso, ainda, negar a realidade, sucumbir aos desejos inconscientes e viver em um mundo de fantasia, onde não percebo a existência de outros seres, reais, mas interajo com seres fantásticos que povoam meu Inconsciente. Como não percebo a realidade, minha consciência moral é constituída, também, por material vindo do inconsciente, e sou regido por suas leis. Sou um psicótico. Caso eu perceba a realidade, porém me negue a obedecer às leis da sociedade e ignore a existência de uma consciência moral à qual devo me submeter, irei ainda assim satisfazer meus desejos reprimidos, consciente do conflito mas não afetado por ele, serei um perverso. A partir da segunda década do século XX, Freud reformula seu modelo psíquico, e passa a identificar três novas instâncias que interagem entre si e constituem o ser humano, o Id, inconsciente, regido pelo princípio do Prazer, sede das pulsões, povoado por desejos reprimidos sempre buscando realização, o Superego, parcialmente consciente, formado pela introjeção das figuras parentais des-sexualizadas durante a dissolução do Complexo de Édipo e, portanto, representante da pulsão de morte, da Lei e moral, vigilante, punitivo, castrador, e o Ego, instância também parcialmente consciente, regido pelo princípio da Realidade, meio de contato entre os mundos interno e externo, mediador entre os desejos do Id e as exigências do Superego, instância que deseja satisfazer a todos da melhor forma possível. A ansiedade desencadeada pelo conflito entre as instâncias psíquicas e a realidade é experimentada de forma diversa por cada um de nós, e as defesas que desenvolvemos frente a essas angústias nos define. A maioria de nós sente como intolerável a realização das pulsões libidinais; sentimos vergonha ou culpa ao “burlarmos” as leis impostas pela sociedade e por um severo Superego. Temos medo da rejeição, sofrida tanto por parte de nossos objetos de amor e desejo, como sofremos o medo da perda do amor do Superego. Enquanto neuróticos, sofremos a angústia da castração, e nos defendemos dessa perda através do recalque desses desejos proibidos. Nosso Ego tenta reprimir esses desejos, devolvendo-os ao Inconsciente assim que percebidos, rejeitamos os impulsos do Id e nos rendemos às exigências da realidade e do Superego. No entanto, o Id não se contenta com esse processo, e pressiona constantemente por ser satisfeito, o que resulta num fracasso da repressão, que irá transparecer através dos sintomas histéricos, dos pensamentos obsessivos ou das fobias. São manifestações da neurose resultante do conflito entre o Id e o Ego, que se coloca de acordo com as exigências da realidade e do Superego. Alguns de nós, no entanto, não suporta as limitações da realidade, geralmente percebida como gravemente contrária à sobrevida do Ego. Para estes, o conflito se dá entre o Ego, pressionado pelo Id, e a realidade, e é resolvido através da negação desta última. O psicótico rompe com a realidade, externa e psíquica, e em seu lugar projeta um novo contexto. Uma nova “realidade”, construída a partir do Id, não compartilhada, portanto de caráter alucinatório e delirante, e um Superego também constituído por esses elementos. A angústia é persecutória, e a defesa, projetiva. Um exemplo clássico seria o de uma mãe que perdeu seu filho recém-nascido, e embala uma boneca, a amamenta, educa, troca, “vive” em um mundo de fantasia constituído por uma nova “realidade”, com leis às quais obedece e princípios morais particulares. Para um terceiro e mais raro tipo, o conflito se dá entre os desejos do Id e as limitações impostas pelo Superego e pela realidade, e o Ego resolve esse conflito negando essas limitações, rejeitando a autoridade externa e do Superego. É o indivíduo perverso segundo o modelo estrutural freudiano. Em resumo, nascemos Id e nos constituímos em nosso contato com o mundo externo. A angústia do nascimento é o protótipo de nossas angústias futuras, e remete ao desamparo e ao medo da desintegração e da perda de amor. O Ego irá se estruturar nestas relações, sofrerá cisões e reintegrações, e cada um de nós obedecerá a um mestre preferencialmente, o que, segundo Freud, determinará diferentes tipos libidinais e conformações psíquicas.
Por Camila Ferreira de Avila - Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. (Não sei quantas almas tenho - Fernando Pessoa) Pensar os objetivos do tratamento psicanalítico não foi nada tranquilo neste momento. A princípio despertou-me uma insegurança tremenda, de que lugar (aqui compreendendo como perspectiva) eu devo falar sobre a Psicanálise? Falo de lugar porque ainda é muito novo o que germina em mim sobre o que é Psicanálise. Destacando uma frase do trecho do poema de Fernando Pessoa citado na epígrafe, ...“Continuamente me estranho.”, descreve meu maior sentir nesta nova etapa da vida. Compreender o fazer Psicanalítico envolve estranhamentos e mudanças. Como falar em tratamento de algo que não tem cura? Tratamos a doença ou a doença nos constitui como seres humanos? O inconsciente é patológico ou a patologia povoa o inconsciente? Tudo é patológico ou nada é patológico? Para onde caminha a Psicanálise? Quantas interrogações e que talvez não tenham ponto final. Pensando em lugares, de qual lugar devo pensar a Psicanálise? É possível a partir de um olhar científico? Como psicóloga de formação profissional inicial, estudei a Psicanálise em uma perspectiva acadêmica, considerando-a como uma das teorias fundantes da Psicologia científica. Nesta perspectiva a Psicanálise é uma ciência, ciência esta que estuda o inconsciente e suas relações com o comportamento humano. Sob esta ótica o tratamento psicanalítico teria como objetivo auxiliar o ser humano na compreensão de si mesmo objetivando sanar o sofrimento psíquico (a Psicanálise aqui sendo vista enquanto técnica). “Cada momento mudei.....” e comecei a formação em Psicanálise! Permito-me não seguir um protocolo e escrever livremente conforme as palavras me chegam. Espero que o leitor me perdoe, talvez fique confuso em alguns momentos. Prazer, estes são fragmentos e pedaços de um inconsciente (o meu). Pensando livremente sobre os novos conceitos e formas de interagir com a Psicanálise que venho vivendo só penso em: movimentos. A cada texto lido, a cada vídeo assistido, a cada encontro vivido, desconstruo meus conceitos, perco-me em mim mesma e tento reconstruir-me. Tarefa árdua tem me custado algumas sessões de análise. Afinal a ideia inicial de Psicanálise como método e técnica de tratamento buscando a cura do sofrimento psíquico, tão internalizada por mim, ao longo de muitos anos profissionais tem se desmanchado diariamente. Freud fez da Psicanálise sua vida e lutou bravamente para que a mesma fosse reconhecida, neste ponto entendo que ele buscou elevar a Psicanálise ao status de ciência para que suas ideias fossem difundidas mundialmente. Talvez agora compreenda que Freud não buscava uma ciência exata no seu sentido literal, mas um rigor científico (metodológico) para que a Psicanálise não se perdesse no tempo. Particularmente gosto muito de conhecer biografias de autores, escritores, cientistas e claro que Freud esteve entre minhas escolhas. Nestes primeiros encontros da EPP me reencontrei com as histórias de vida de Freud (resgatei lembranças da minha graduação em Psicologia e meus primeiros flertes com a Psicanálise) e tive a oportunidade de olhar Klein um pouco mais “olho no olho”, quebrando um pouco minha primeira impressão. Sempre achei muito difícil ler suas obras (ainda acho, mas talvez comecei a humanizá-la, contextualizá-la, e fez um pouco mais de sentido – mas é só o começo). Além de uma grata surpresa, ver e ouvir vídeos de palestras proferidas por Bion, confesso que foi amor a primeira vista. Todos eles estão aqui dentro de mim, aos poucos sendo apresentados e tornando-se um pouco mais íntimos do meu mundo psi. Olho a Psicanálise não mais como uma ciência que busca a cura para determinados sintomas, e sim, como uma possibilidade de se conhecer e expandir as possibilidades de viver (com ou sem sintomas). Uma maneira de dar sentido e significado à vida. Um constante (re)significar-se. A formação tem me proporcionado também uma possibilidade de expansão e ressignificação. Há alguns dias atrás ouvi um termo que preencheu parte da minha inquietude nestes primeiros passos da formação e talvez me angustiou sobremaneira de outro, “Capacidade negativa do analista”. Na oportunidade a palestrante referia-se a André Green e discorria sobre a dificuldade do analista lidar com o não saber. Este momento me remeteu a alguns encontros da EPP em que discutimos sobre o conceito de inconsciente e o papel da análise na cura de sintomas. Muito lentamente tento absorver e impregnar-me da ideia de trabalhar com o que não se sabe, sem uma reta de chegada, um trabalho apenas de início. Um movimento de começar e recomeçar a cada novo encontro com o paciente. Por fim, mas não encerrando o assunto, “Sem desejo sem memória” para a psicóloga até então é muito difícil de ser suportado. Ainda transito entre dois mundos Psi (Psicologia e Psicanálise), “Não sei quantas almas tenho”. Tento olhar como um processo de transição que não sei qual será o fim, “Nunca me vi nem acabei”. “De tanto ser só tenho alma”.