EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

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Escola Britânica: psicanálise em expansão

admin Artigos 28 fevereiro 2024
Por Joseval Campos dos Santos -  A Escola Britânica de Psicanálise formou-se a partir do entendimento, elaboração e ampliação das diversas teorias já firmadas, configurando-se atualmente como uma das principais do mundo, Betty Joseph, Hanna Segal, Ester Bick, Irma Pick, Roger Money-Kyrle, construíram e ampliaram conceitos centrais na psicanálise, como o complexo de Édipo, identificação projetiva, transferência e contratransferência. Abaixo apresentarei breve resumo desses conceitos, elegendo um deles para discussão. Hanna Segal, sendo colaboradora de Melanie Klein, especialmente nos últimos anos, período de lapidação de sua teoria, resume como ninguém a obra Klainiana. Nesse módulo trabalhamos a posição depressiva e o desenvolvimento simbólico.  O ponto que me chamou mais a atenção nesses artigos foi a discussão da formação dos símbolos em pessoas “normais” e em psicóticos, pois para os primeiros os símbolos representam uma abstração usada como forma de comunicação, enquanto que para os psicóticos os símbolos são vivenciados como se fossem o objeto original Beth Joseph, vista como a grande analista em virtude de sua capacidade analítica profunda, capaz de extrair elementos profundos dos pacientes, seu trabalho mais significativo aborda a questão da contratransferência e a importância de identificação projetiva no setting. Dentre tantas questões importantes, a discussão sobre o aqui e agora na relação transferencial para buscar alcançar a mudança psíquica do paciente, mostrou-se bastante esclarecedora. Considerando a experiência emocional como essencial na relação transferencial/contratransferencial sendo capaz de produzir modificações psíquicas, esse movimento acontece em camadas que se sobrepõe, alterando sempre a condição psíquica anterior. Roger Money-Kyrle – Nesse autor aquilo que mais me chamou a atenção foi exatamente a discussão de que a contratransferência é afirma-se como um processo ativo do paciente em relação ao analista. Essa afirmação, por tabela induz também a pensar que a identificação projetiva é fundamental no processo de comunicação na contratransferência. Irma B. Pick – Essa autora também traz ao centro da discussão a questão da contratransferência e suas consequências na atividade clínica. Para ela existe uma troca de intimidade entre a posição esquizoparanóide/posição depressiva e a identificação projetiva. Esse jogo é importante para a compreensão da dimensão psíquica humana. Nessa discussão ela aborda, para mim, uma questão nova e fascinante que é a questão dos pacientes fronteiriços. Ela aponta uma questão interessante que traz alívio aos analistas, quando afirma que a contratransferência não se configura como um erro do analista, pois seria um meio de comunicação entre o par analítico. Edna O´Shaughnessy – Essa autora discute com desenvoltura esclarecedora a questão do lugar do Complexo de Édipo na psicanálise. Na discussão dos pacientes de difícil acesso em virtude da dificuldade de acesso ao Édipo do paciente, que é escondido em virtude do medo de destruição, pois esse Édipo seria a ultima possibilidade de aproximação e conexão com o outro.  Herbert Rosenfeld – Esse autor apresenta um trabalho corajoso e adentra num campo espinhoso e controverso da psicanálise – a questão do tratamento de pacientes psicóticos. Para tanto, ele apresente o conceito de Gangue narcisista, que seria o resultado da excessiva pulsão de morte que provoca a cisão do self, originando assim a Gangue Narcísica.

Contribuições psicanalíticas pós-kleinianos

admin Artigos 27 fevereiro 2024
Por Paula Carosio Saldanha -  Nesse artigo destaca-se a importância de cada Psicanalista estudado da escola Britânica e seus principais pontos teóricos.Hanna Segal: No artigo “Depressão no esquizofrênico” Hanna Segal vem nos mostrar que no desenvolvimento do Esquizofrênico, pode-se alcançar a posição depressiva, descrita por Melanie Klein. Ao sentir suas ansiedades depressivas o paciente projeta-as através da identificação projetiva. Para isso ocorrer é necessário o ego do bebê estar integrado para vivenciar uma relação de objeto total. Hanna Segal também diz que é importante colocar o esquizofrênico em contato com os sentimentos depressivos e desejos de reparação. Conforme a progressão da análise é comum ver a parte depressiva do ego do paciente projetada no analista. É de grande importância descobrir onde e em que circunstâncias a parte do ego capaz de sentir depressão foi projetada, e interpretar isto para o paciente. Já no artigo Notas sobre formação de símbolos Hanna Segal apresenta casos clínicos para exemplificar sua teoria sobre símbolos. Através de estudos do artigo de Jones chega a conclusão que quando um desejo, devido ao um conflito, tem que ser abandonado e reprimido, ele pode se expressar de modo simbólico, e o objeto de desejo a ser abandonado pode ser substituído por um símbolo. Essa simbolização pode ocorrer através de uma condensação, deslocamento ou sublimação. Hanna nos mostrou a equação simbólica que é a relação entre ego, objeto e símbolo. Essa equação simbólica é a base do pensamento concreto do esquizofrênico, pois este utiliza mecanismos de defesa como a identificação projetiva. Como partes do seu self são projetadas para um objeto e identificadas, seu self é confundido com objeto, portanto o símbolo, que é uma criação do ego, é confundido com o objeto que é simbolizado. Na posição depressiva, entendendo o objeto como um todo, os símbolos são sentidos como criações do ego e, portanto nunca completamente equacionados ao objeto original. O símbolo pode ser usado mais livremente, já que não é identificado com este. Aqui o símbolo é usado para superar a perda do objeto. Quando pensamos em caso clínico verificamos que essas oscilações entre posições são muito comuns nas sessões de psicanálise, como pude ver como ouvinte de supervisão. Entre risadas e choros, entre momentos e ódio e momentos de gratidão, momentos conexos e momentos desconexos.  Beth Joseph No artigo “O Paciente de difícil acesso” nos mostra um paciente de difícil acesso para o analista, onde sua personalidade é cindida. A personalidade divide-se em uma parte necessitada e outra não colaborativa dificultando o trabalho do analista. Esses pacientes aparentemente respondem rapidamente as interpretações, manipulam o analista. Partes de sua personalidade ficam indisponíveis podendo ocasionar confusão mental e apatia do analista. Beth diz que o analista deve, portanto tomar cuidado com as transferências não serem contaminadas. Esse tipo de pacientes faz muito uso de mecanismos esquizoides como a identificação projetiva, mesmo que possuam uma sofisticação verbal. Em seu artigo “A identificação Projetiva – Alguns Casos Clínicos”, Beth Joseph vem tratar da identificação projetiva, já descrita por Melanie Klein, porém ampliando seu conceito. Já sabemos que a identificação projetiva significa colocar partes do seu self para dentro do objeto. Esse artigo nos mostra que a identificação projetiva, a onipotência, a cisão e as ansiedades sempre se encontram juntas no individuo. O uso da identificação projetiva em excesso pode livrar o indivíduo do contato com sua própria mente. Temos como exemplo o caso C, onde a criança grita ao final da sessão como que uma descarga de energia mental e logo após fica apática. E o caso T, onde a identificação projetiva para equilibrar sua onipotência e narcisismo. Em esses dois casos a identificação projetiva é usada como defesas mais arcaicas típicas da posição esquizoide. O caso de N já mostra que faz uso de identificação projetiva, porém consegue ver a analista como uma pessoa inteira, com qualidades e defeitos. N usa defesas menos arcaicas, típicas da posição depressiva. No artigo “Transferência – Situação Total”, Beth Joseph trás a importância da noção das situações totais do paciente para a compreensão e utilização da transferência, deve incluir tudo o que o paciente traz para a relação. As relações objetais, fantasias, defesas, brincadeiras… tudo que o paciente diz e faz deve ser interpretado. A contratransferência agora pode ser utilizada como uma ferramenta essencial para o processo analítico. O artigo nos trás o exemplo do caso de N, onde Joseph nos mostra que podemos rastrear os conflitos e trazer de volta a vida dentro de uma relação, sentimentos que havia uma defesa, ou vivenciados rapidamente, podem ganhar raízes mais fortes na transferência. O exemplo com caso C mostra como a transferência pode ajudar a ver a organização psíquica do paciente. Joseph conclui nesse artigo que a transferência é uma relação viva onde há movimento e mudanças constantes. Os pacientes se comunicam com os analistas além de palavras e muitas vezes podem ser percebidas com a contratransferência. “A inveja na vida cotidiana”, para mim foi o artigo que me proporcionou maior entendimento sobre todo conceito de inveja. Beth Inicia o artigo nos trazendo o significado da palavra inveja, que seria uma mortificação, uma malevolência, um sofrimento as capacidades superiores dos outros. Informa que Freud nos trouxe o tema inveja quando dizia que a mulher tinha inveja do pênis. Melanie Klein amplia esse conceito e universalize o tema trazendo a relação mãe/ bebe como se fosse relação analista/paciente. O artigo trás também a questão da voracidade ligada à inveja, pois o indivíduo quer arrancar do outro sem culpa. Diferencia a cobiça, que seria querer o que o outo tem, da inveja em si que visa destruir o que o outro tem. Esse sentimento de inveja faz com que não tenha gratidão o que dificulta aprender com o outro. Na prática psicanalista essa inveja aparece de várias formas no setting; o paciente não entende as interpretações do analista, ou pode passar a ter uma reação terapêutica negativa, ou ainda se auto interpretar, deixando o analista de fora. A idealização se torna um mecanismo contra a inveja, pois deixa a distância tão grande entre o indivíduo e o outro que acaba não tendo que se preocupar contra a inveja.  O oposto também ocorre, quando coloca o outro tão para baixo, sem capacidade alguma, que o indivíduo não precisa sentir inveja. Esse quadro pode ser confundido com Depressão, Insegurança, Síndrome do Pânico. Nos casos de supervisão é muito comum aparecer essa inveja, descrita por Beth, de várias maneiras nas sessões, como exemplo tenho um caso de supervisão; uma mulher de 35 anos, contadora, reclamava muito de seu irmão e seu marido. No decorrer da sessão demostra grande disputa com ambos. Ao analisar esse caso foi detectada grande inveja, pois a paciente demonstra querer destruir o outro e é perceptível a falta de gratidão. Beth Joseph nos diz em seu artigo “ Mudança Psíquica e processo analítico” que o Psiquismo tem um ponto de equilíbrio entre ansiedades e defesas, entra as posições depressivas e posições esquizoparanóides. Esse ponto de equilíbrio muda durante uma sessão, chamado de Shift. Beth vai nos dizer que o analista acompanhar essa mudança é importante, pois através da interpretação, essas mudanças do paciente passa a ser controladas pelo ego e se responsabiliza pelo o que esta acontecendo com ele. A partir disso suas projeções tendem a diminuir ocorrendo uma diminuição das fantasias. Essas mudanças podem ocorrer em cada sessão ou podem demorar semanas, meses e anos. Em “Relações de objetos na prática clínica” Beth vem dar a importância da interpretação. Através das projeções, introjeções, identificação projetiva ocorridas com o paciente, o analista, como receptor/ continente consiga em algum momento sair dessa relação como o terceiro edípico, virar apenas um observador e formular sua interpretação através do contexto geral. O analista ocupa um lugar na situação total que deve ser interpretado. Isso diferencia qualquer terapia de psicanálise  Roger MoneyRoger Money também teve grande contribuição quando trata de contratransferência. No artigo escrito “Contratransferência normal e alguns de seus desvios” relata que a contratransferência é o sentimento do paciente transferido ao analista e pode ser útil para as sessões de análise. A contratransferência normal quando o analista reconhece nele mesmo o conflito do paciente e através da empatia consegue interpretar, ou seja, é preocupado com o paciente sem envolver-se emocionalmente em seus conflitos. Possuem tendências reparadoras de interesse parental. A contratransferência não normal seria a patológica, o analista não consegue reconhecer e observar o conflito do paciente, portanto passa atuar na transferência. Partes do self quando na posição esquizoide se torna persecutória e como consequência teria uma contratransferência sádica. Quando se encontra na posição depressiva o analista passa a querer reparar onipotentemente seu paciente. O analista deve se alto conhecer suficiente para se identificar ou reconhecer esses aspectos no paciente. A contratransferência no setting, acredito hoje ser a principal ferramenta para o trabalho do analista, pois tudo o que o analista sente pelo paciente pode ser transformado em algo de extrema importância e resultar em grandes interpretações que colaboram muito para o desenvolvimento do paciente.  Irma PickIrma Pick escreve o artigo “Elaboração na Contratransferência” e levanta a questão sobre contratransferência normal e patológica. Ela afirma que a interpretação é um ato temido tanto pelo analista quanto para o paciente, pois é difícil se colocar na posição de observador. Deve-se acolher uma experiência e vivenciá-la através da empatia gera uma interpretação, portanto impossível não existir uma implicação emocional. Irma diz que existe para a intepretação da identificação projetiva entre paciente e analista, uma regressão e reconhecimento e que leva o paciente a uma posição depressiva. Diferencia uma resposta contratransferência de uma interpretação. Na interpretação deve-se formular uma resposta de uma maneira ética, porem colocando o paciente junto ao analista. Traz-nos também que o par analítico pode usar varias maneiras de se protegerem, exemplos quando o paciente se coloca no lugar de pai e mãe e o analista no lugar de filho, quando o analista se torna onisciente, quando ambos negam conhecimentos desagradáveis ou ainda podem se proteger das pulsões sádicas e suas defesas.  Edna O´ShaughnessyEm “O complexo de Édipo Invisível”, Edna informa que o Complexo de édipo nunca foi tão importante quanto os psicanalistas acreditavam. Acredita que ocorre uma cisão na personalidade onde o núcleo do édipo e castração vira um pedaço do self que precisa ser protegido. Isso é um acontecimento importante, pois, seria uma antidote contra o narcisismo e é o que faz a ligação ao outro. Acredita que o Édipo arcaico de Melanie Klein ajuda a entender o complexo de Édipo hoje. E sentimentos sentidos hoje; como exclusão, separação, estar só na presença do outro, cisão sexual, tem origem no Édipo arcaico. Edna nos informa que esses sentimentos sempre estiveram presentes no paciente e caso o analista não consiga enxergar de forma clara está na presença do Édipo Invisível. Esse édipo estaria esperando uma oportunidade para aparecer.  Herbert RosenfeltRosenfeld no artigo “Uma abordagem clínica para a teoria psicanalítica” elabora uma organização narcísica, onde mostra que alguns processos de pulsões de vida e de morte são separados ou ainda não chegam a serem fundidas, diferentemente de como Freud nos dizia. Essas pulsões de morte livres no sistema formam um self, onde pequenos selves são formados do grande Self (organização narcísica). Essa organização narcísica vai estabelecer uma relação patológica com o Self Libidinal (ligado às pulsões de vida), podendo subjugá-lo, ameaçá-lo e ainda jogá-lo para o meio ambiente através da identificação projetiva. Todo esse movimento dá vazão para a inveja, ganhando também uma organização, um self próprio, pois a organização narcísica é uma defesa contra o medo da dependência. Concluo esse trabalho afirmando ser de suma importância os estudos de todos os psicanalistas da escola Britânica, pois cada um deles possui algo a acrescentar das teorias já estudadas. A inveja, transferência, contratransferência, identificação projetiva, relações de objetos, o édipo invisível, todos os temas abordos são bastante enriquecedor para a prática psicanalítica.

Teoria e prática aplicados a um caso clínico de toxicomania

admin Artigos 27 fevereiro 2024
Por José Eduardo Fávaro -  Um paciente (homem, 43 anos, dependente químico) chega ao consultório sorridente, após 19 dias sem fazer uso da cocaína, sem apresentar agitação, pupilas dilatadas ou agressividade... e que são condizentes com sua aparência, conduta e verbalização. Conta que está frequentando as reuniões da igreja e de um curso para adictos e está determinado a parar o seu vício. Tem um discurso firme e repete seguidas vezes que quer deixar de usar a droga. A analista se engaja neste comprometimento e lhe informa que está feliz em saber da sua decisão, mas que os passos da “Roda da Dependência e Mudança” são muito difíceis de serem seguidos e que precisam de muita força e dedicação. E pergunta ao paciente se ele conhece todos esses passos. Há uma pequena conversa entre ambos sobre o assunto [...] Segundo a analista, o paciente demonstra muita ansiedade durante a análise. Sua fala, apesar de sempre repetir que está decidido a parar o uso da droga, demonstra períodos de indecisão, incertezas, insegurança e desequilíbrio, postos-chaves para o processo de elaboração como um todo. O paciente também conta que tem dificuldades de relacionamento com outras pessoas; que é muito agressivo e de gênio forte e dominador; que não aceita opiniões diferentes das suas; que prefere ficar isolado a ir a festas e lugares de badalações. Sente-se pouco amado e acha que as pessoas o desprezam por seu jeito isolado e pouco comunicativo. A analista continua dando suporte a estes momentos depressivos com uso de termos muito técnicos, explicando que ele precisa de um “colo e carinho de mãe”... que ele precisa muito do “seio da mãe”, já que isto lhe foi negado na infância e agora ele quer possuir à força, pois lhe foi negado... Que ele usa a cocaína como um objeto transicional- ou uma chupeta- pois, quando lhe falta algo (ou seja, o leite ou o seio representando o amor da mãe), ele vai buscar este conforto nas drogas [...] e continua fazendo estas analogias técnicas para confortar a ansiedade transferida pelo paciente. O paciente, por sua vez, se diz muito teimoso e quer tudo como do seu jeito. Descreve algumas passagens cotidianas, deixando claro a interferência da droga no processo cognitivo e tomada de suas decisões, dificultando o relacionamento com o outro. Nos relatos feitos, é possível observar que as decisões erradas, algumas vezes precipitadas e exageradas devido a presença da droga, produzem resultados desastrosos e que mais tarde geram certo remorso e arrependimento no paciente, fazendo com que esta dor insuportável o leve novamente ao uso da droga como mecanismo de defesa, num ciclo interminável... Assim termina a sessão. Através da transcrição deste material e tão somente daquilo que se pode observar e detectar do que teria ocorrido dentro do setting, evitando ao máximo sair deste lugar, tentarei traçar alguns paralelos com os artigos estudados dos autores da escola pós-Kleiniana, citando suas semelhanças e/ou divergências, em termos de transferência e contratransferência que podem ter ocorrido entre analista-paciente. Ao começar a falar de todo o processo de recuperação de adictos, “A Roda da Dependência e Mudança”, a analista pode ter despertado no paciente uma ansiedade depressiva, inconsciente e, como uma defesa do ego, o paciente passa a se proteger desta ansiedade transferindo estes sentimentos para a própria analista, através da projeção, fazendo-se de coitado, vítima, dizendo-se mal-amado... querendo reparar a tudo e a todos. Percebemos que ele repete muitas vezes que está melhorando, que quer “sair desta”, que quer “se curar”- típicos da reparação depressiva, que, a meu ver, podem ser um resultado da própria interpretação da analista. Baseado na Ansiedade Depressiva na Esquizofrenia de Hanna Segal (1956). Embora NA sessão não tenha aparecido nenhum indício de uma parte do SELF não-colaborativa ou sabotadora, gostaria de apontar a importância deste ponto na análise deste paciente especificamente, já que no caso de adictos, há um índice muito grande de falso SELF trabalhando para ocultar ou enganar o analista, no discurso de que “tudo está bem”. É importante encontrar um modo de entrar em contato com o verdadeiro SELF, deixando o paciente falar mais, e através da livre associação, sem quebras em seu desenvolvimento. A meu ver, no discurso e desenvolvimento da fala, o paciente não nos fornece fatos concretos de que está realmente melhor (exceto pelas condições físicas que apenas a analista pode perceber visualmente). O discurso é ainda muito carregado de dúvidas, insegurança, varia muito de posições PS-PD, demonstrando-se pouco integrado. Os constantes cortes e intervenções na livre associação não nos permitem melhor avaliação do verdadeiro SELF, que a meu ver, é uma questão-chave nos casos de adicção. Para isso baseio-me no artigo “Paciente de difícil acesso de Betty Joseph (1975). A maneira como a analista tenta resolver o problema do paciente, dando-lhe conselhos e informações técnicas, demonstra uma contratransferência que mexe com ela própria: o seu próprio sofrimento em pensar ser uma adicta e estar envolvida no mundo das drogas. A situação total, os fatos cotidianos transferidos pelo paciente são imediatamente incorporados e identificados pela analista. Instala-se na sessão um conluio de angústias e fortes emoções, onde a analista “deseja” o tempo todo confortar e diminuir o sofrimento do paciente, através de seu discurso de mestre. Situação Total de Betty Joseph (1985). O paciente, ao relatar que tem relacionamento muito difícil, que não se sente amado, que é isolado e por isso faz uso das drogas, parece estar usando-se de um subterfúgio de “coitadinho”, ou de alguém digno de pena, a quem a analista deve cuidar e proteger. Ao utiliza-se deste mecanismo de defesa, o paciente estaria idealizando uma analista “todo-poderosa”, onipotente, onisciente e colocando-se numa posição de pouca valia e inferiorizado, revelando uma profunda inveja inconsciente; um desejo de possuir suas habilidades e seu conhecimento; de estar na sua posição. Ela teria tudo e ele nada... E ainda mais: como sabemos, pela transferência, ele estaria usando a analista como o objeto de transferência do seu amor pela mãe; da inveja da mãe. Baseado em “A Inveja Cotidiana”, de Betty Joseph (1985). O paciente chega ao consultório sorridente, 19 dias após deixar o uso da cocaína [...], demonstrando estar em um ponto de Equilíbrio Emocional. Minutos mais tarde, durante sua associação livre, começa a relatar que está preocupado, não sabe se vai conseguir, que está ansioso com o que vai acontecer etc, etc, revelando contrariedade. Nitidamente mudando novamente da depressiva para a posição esquizoparanóide. Nos casos de adicção, sabemos que há um medo muito grande de mudança e portanto, os shifts devem ocorrer inúmeras vezes até que o processo analítico tenha (se tiver), um avanço na mudança psíquica. “Shifts e Processo Psicanalítico” de Betty Joseph (1986). Relações de Objeto na Prática Clínica - Betty Joseph (1988): de acordo com este texto, Betty Joseph nos ensina que o analista em sua comunicação com o paciente acaba introjetando objetos de identificação, alimentando seu próprio ego. O analista, contudo, deve ser capaz de: controlar e conter as projeções feitas pelo paciente; saber que elas existem apenas em fantasia e não devem afetar emocionalmente o analista. No caso em questão, não é possível saber se o relato é uma fantasia ou fato real. Mas podemos dizer com certeza que a transferência afetou emocionalmente a analista, que tentou confortar emocionalmente o paciente com palavras de carinho, aceitando as projeções feitas por ele, de sofredor, coitado, etc. Havendo uma identificação dela com ele e não uma “posição de observadora e de terceira pessoa”. Nota-se também que houve perda da neutralidade benevolente, onde o analista estaria apenas preocupado com o bem-estar de seu paciente sem se envolver emocionalmente em seus conflitos. Houve tendência a funções reparadora e parental, de acordo com o texto de Roger Money-Kyrle (1955) - Contratransferência normal e seus desvios. No trabalho de Irma Pick (1985) - Elaboração na contratransferência, aprendemos que a elaboração é algo que se teme pois é extremamente doloroso, tanto para o analista quanto para o paciente. No caso de adictos, é preciso verificar se o discurso condiz com os atos do paciente e se não há um falso SELF atuando. Também é preciso que a analista se mantenha mais neutra, permitindo uma melhor livre associação, sem discursos técnicos, tentando explicar os fatos nem confortando o paciente em momentos depressivos. Há indícios de que na contratransferência, por identificação, a analista participe de um conluio com o paciente, dividindo experiências emocionais. Do texto de Edna o´Shaugnessy (1987) - O complexo de Édipo invisível: se analisarmos a fundo as questões emocionais do paciente, talvez possamos encontrar indícios de um complexo de Édipo mal resolvido, muito arcaico, do tipo explorado por Edna em seu artigo de 1987. O paciente, ao relatar difícil relacionamento com os outros, muita agressividade, pode estar escondendo uma inveja e dependência a serem estudados mais a fundo. Na minha opinião, como futuro analista, optaria por este caminho: trabalhar esta pulsão de vida recalcada, isolada em sua concha narcísica, estabelecendo aos poucos a possibilidade de relacionamentos estáveis com o outro e o mundo externo, impossíveis no Édipo arcaico criado em sua fantasia onde a existência de um terceiro tornou-se impossível. A hipótese seria que, o difícil convívio social e o isolamento, reforçados pela pulsão de morte (ódio e inveja), quebrando a relação entre o indivíduo e o mundo externo, seria reforçado e recompensado pelo uso da droga –a libido é dirigida a si mesmo. No entanto, esta libido reinvestida em si mesmo e recalcada, acabaria criando tensões tão fortes no interior do próprio corpo que, em algum momento precisaria romper a barreira da concha narcísica e buscar o prazer pelo objeto externo. Porém, a total falta de manejo com os objetos externos (dado o seu tipo de relação narcísica) acabaria gerando mais angústias e frustração no ciclo vicioso.

Autores pós-kleinianos

admin Artigos 26 fevereiro 2024
Por Júnior Grings -  Hanna Segal: Depressão no esquizofrênico e notas sobre a formação de símbolos - Muitas vezes se forma um depressivo dentro da posição Esquizoparanóide, através das interpretações das ansiedades persecutórias e suas defesas. Com isso os esquizofrênicos têm acesso à posição depressiva, esse acesso é cíclico e temporário, e que com o decorrer da análise esses ciclos tendem a ser maiores e mais duradores. Contudo esse núcleo pode ser projetado para o analista via identificação projetiva. A partir daí o analista pode formular interpretações através da contratransferência.  Outro ponto de destaque neste artigo são as formas de interpretação. A autora na posição esquizoparanóide utiliza objetos parciais e na posição depressiva utiliza objetos totais. O vazio do paciente pode ser insuportável para o analista, e este pode falar simplesmente para acabar com esse silencio. Destaque também para o fato da Hanna Segal não dialoga com o paciente, ela apenas informa o paciente. Assim com ela não interfere no setting, é uma maneira de informar ao paciente que aconteça o acontecer ela no final vai estar ali.  Já na questão dos símbolos, a autora descreve que símbolo substitui o objeto para o sujeito, todavia, algumas vezes não existe uma clara separação entre sujeito e objeto, e essa separação só pode ser feita quando ansiedades persecutórias forem trabalhadas e sentimentos de inveja superados. Sem essa separação (sujeito e objeto) o símbolo irá se confundir com o objeto e não estar no lugar dele, com isso o símbolo ficará concreto. Deixando claro o papel da identificação projetiva. Betty Joseph - Identificação Projetiva, Paciente de Difícil Acesso, Transferência e Situação Total, A Inveja na Vida Cotidiana, Mudança Psíquica e Processo Psicanalítico e Relações de Objetos na Prática da Clínica A identificação projetiva faz parte de uma estrutura. Existe um ponto de equilíbrio nas defesas do ego, onipotência, cisão, idealização identificação projetiva. E mexer com uma dessas estruturas é mexer com todas as estruturas. A identificação projetiva faz parte de um sistema de defesa arcaico, contra a inveja e dependência, tentando apagar a diferença entre o Eu e o Outro. Nessa perspectiva o paciente pode dissolver a interpretação do analista e forma outra interpretação, uma interpretação própria, assim anulando o analista e tirando sua importância. Todas são defesas impiedosas em relação com o objeto. Algumas defesas menos arcaicas com o par Eu-Tu bem estabelecidos. Essas defesas podem levar o analista ao desespero ou desesperança, levando a uma mudança da analise.   O paciente de difícil acesso tem duas personalidades, uma necessitada (self 1) e outra não colaborativa ou sabotadora (self2). Quando essas partes da personalidade ficam indisponíveis gera uma confusão mental no analista ou uma apatia, com isso o analista não consegue acessar ao paciente. Outra característica é da personalidade não colaborativa é que o paciente fica tentando manipular o analista. Podendo então o analista estar falando sobre o paciente e não ao paciente, ou buscando de forma intelectual esclarecer questões emocionais. O que Betty chamou de intelectualização.  Outra forma de manipular é tudo ficar muito fácil durante a sessão, não existe trabalho analítico sem conflito. O uso que o paciente faz da situação clinica. Um pseudo atendimento, uma perversão do trabalho analítico. Por isso devemos buscar a personalidade necessitada através do trabalho analítico.  Tudo que o paciente diz e faz pode ser analisado. A interpretação é algo dinâmico que busca mudança no psiquismo. Com isso devemos ficar atentos as mudanças no consultório. Betty não interpreta o passado se essa interpretação não puder mudar o presente. Uma das formas de manifestação da inveja é a voracidade, arrancar o que o outro tem de bom sem se arrepender. Junto com a voracidade tem a velocidade, fazendo link com adição e drogas, pois, tem respostas rápidas de sensações satisfatórias. Um paradoxo com a questão da dependência.  O invejoso não pode expressar gratidão, não pode aprender com o outro, ele não intende o analista, tem reação terapêutica negativa, auto interpretação. Outro mecanismo da inveja é a idealização, quanto maior a diferença menor a minha preocupação com a inveja, algo tão bom não pode ser invejado, como algo tão ruim também não pode. Podendo assim confundir com depressão.  Devemos acompanhar as mudanças do ponto de equilíbrio entre os pontos de equilíbrios da posição esquizoparanóide e posição depressiva. No inícios elas são aleatórias, fora do controle do ego. Mas com as interpretações as mudanças podem ser controladas pelo Ego, uma responsabilização do individuo com as suas mudanças. Aí o analista precisa encontrar a parte do ego que pode se responsabilizar pelas mudanças, e para essa parte dirigir a interpretação, diminuindo as suas projeções.  A aceitação da realidade é através da projeção e introjeção. Diferente da identificação projetiva que faz borrar a relação do Eu-Outro. O analista é o receptor-mor de todas as projeções. E precisa se incluir na interpretação.  Roger Money-Kyrle - Contratransferência Normal e Alguns DesviosA contratransferência normal é quando o paciente transfere via Identificação Projetiva parte do seu self, e via empatia o analista Re-conhece e interpreta essa I.P. para o paciente. Já a contratransferência patológica é quando o analista se identifica com a I.P. e não consegue ficar como observador, passando a atuar e não a interpretar a transferência. Exemplo disso é o Analista enxergar o paciente como objeto persecutório, com contratransferência sádica. Ou então uma reparação onipotente. Também o analista ocupar o lugar do Pai/mãe do paciente. Fracasso também pode estar presente, com um profundo sentimento de culpa e num extremo o analista fazendo identificação projetiva do seu próprio self.   Irma Brenman Pick - Elaboração na ContratransferênciaA interpretação é temida tanto pelo paciente quanto pelo analista, seja ela normal ou patológica. Pois, não é fácil se colocar como observador. Não podemos acolher experiência no setting sem vive-la. Existe uma regressão do paciente na Identificação projetiva, e só há interpretação se houver um reconhecimento, aí o paciente é levado a posição depressiva. Interpretar é estar num lugar ético, porque a interpretação pode ser cruel. O que pode acontecer também é um conluio dentro da analise para se protegerem, ambos (analista e paciente) podem negar conhecimentos desagradáveis.  Edna O’Shaughnessy - Complexo de Édipo Invisível Quando alguns autores começaram a pregar o fim do Complexo de Édipo e Castração, Edna salientou que não foi o fim da importância, e sim que o Complexo de Édipo e Teoria da Castração nunca foram tão importantes. Existe uma cisão da personalidade, onde o self onde está o núcleo do Édipo e Castração, seria o antidoto contra o narcisismo. Existem alguns sentimentos tem origem no Édipo: Exclusão, separação, estar só na presença do outro, cisão sexual, enfim sentimentos relacionados a angustia.  Herbert Rosenfeld - Uma Abordagem Clínica para a Teoria das Pulsões de Vida e de Morte A pulsão de morte livre no sistema psíquico (desfundida) vai desenvolver um Self, ou selfs e dentro deste self podem existir outros selfs, e algum pode ter uma organização narcísica, ou uma gangue. Ao qual estabelece uma relação libidinal. Podem acontecer sabotagens, ameaças a este self, ser até totalmente subjugado ou reação terapêutica negativa. Baseados todas em promessas de plenitude ou de ameaças. Seria uma organização da inveja, ou um self com vida própria.

Identificação projetiva - alguns aspectos clínicos

admin Artigos 26 fevereiro 2024
Por Luana Menezes Guedes -  É dominada pela necessidade do bebê de afastar ansiedades e impulsos, através da cisão do objeto - originalmente a mãe, bem como do self, da projeção dessas partes escindidas para dentro de um objeto, que é então sentido como, ou identificado como - essas partes escindida, o que colore a percepção que o bebê tem do objeto e sua subsequente introjeção. Ela examinou os múltiplos objetivos dos diferentes tipos de identificação projetiva, como por exemplo o de escindir e se livrar de partes indesejada do self que causam ansiedade ou dor, o de projetar o self ou partes do self para dentro de um objeto, para dominá-lo e controlá-lo e assim evitar qualquer sentimento de separação, o de penetrar em um objeto para apoderar-se de suas capacidades, o de invadir, a fim de danificar ou destruir o objeto.  À medida que o indivíduo se desenvolve, seja através do desenvolvimento normal ou de tratamento analítico, essas projeções diminuem, ele se torna mais capaz de tolerar sua ambivalência, seu amor, seu ódio e sua dependência dos objetos. Ele se move em direção a posição depressiva. Esse processo pode ser facilitado na infância se a criança tiver um ambiente que a apoie, se a mãe for capaz de tolerar e conter as projeções da criança e, intuitivamente, compreender e tolerar seus sentimentos.  Nas suas formas iniciais, a identificação projetiva não tem consideração pelo objeto e, na verdade, frequentemente ela é anti-consideração, quando se destina a dominar, independentemente do custo para o objeto.  A identidade projetiva pode ter a impressão, de fantasia, armadilha ou claustrofóbico.  Identifiquei em um paciente três ou quatro diferentes aspectos: o ataque a mente do analista, uma espécie de invasão total, como no fragmento de sonho que acabei de relatar, uma invasão mais parcial e a usurpação de aspectos ou capacidade do analista e finalmente, o depósito de partes do self, particularmente partes inferiores, dentro do analista.  A INVEJA NA VIDA COTIDIANA - Betty JosephA inveja envolve basicamente duas pessoas, a inveja que a outra pessoa possui, ou suas capacidades, conquistas, qualidades pessoais etc. em maior ou menor grau, uma qualidade espoliadora, ou pelo menos hostilidade para com as boas capacidades da outra pessoa. Mas na inveja a esfoliação se faz por ódio, e parece não haver nenhuma circunstância atenuante.  A inveja está ligada à voracidade de obter algo, desconsiderando o custo para essa pessoa de quem ela quer esse algo e reconhece que há algo de bom a ser obtido, algo que ela possa tomar posse, de forma que se torne parte de si própria.  O indivíduo invejoso não consegue elogiar ou valorizar nada em outro indivíduo, mas só acha dúvidas e encontra sempre uma razão para duvidar da outra pessoa ou derrubá-la.  A pessoa invejosa pode espoliar literalmente, injuriando, danificando ou ferindo outra pessoa ou suas posses, ou pode espoliar por meio de injúrias psicológicas, ferindo os atributos ou conquistas de outra pessoa, por meio de críticas ou provocações. Assim, a pessoa verdadeiramente invejosa não pode tolerar que  algo de bom lhe seja dado por outra pessoa. Ela não pode usufruí-lo, reconhecerá de má vontade suas boas qualidades, seu valor, e será incapaz de experimentar e de expressar gratidão.  A pessoa realmente invejosa não pode aproveitar o vem de outra pessoa e não pode sentir gratidão, o que significa que sua capacidade de ter prazer e de amar sofre graves interferências. Nós sabemos que construímos nosso caráter colocando dentro de nós introjetando, nossas relações iniciais com nossos pais e figuras próximas de nossa infância de forma como experimentamos, e a maneira com que sentimos a nosso respeito está de acordo com o mundo que construímos e o nosso interior, nosso mundo interno. Se a inveja, qualquer que seja a razão, impede que o indivíduo construa relacionamentos bons, calorosos e confiáveis, todo o seu mundo interno, e portanto seu caráter, será influenciado e é provável que ele fique, de acordo com isso, inseguro.  Um modo de evitar a inveja excessiva é idealizar a pessoa que provoca.  Restringir contatos, evitar áreas que estimulem rivalidade e inveja, é outro modo importante de se defender contra a inveja, e um modo bastante familiar.  DEPRESSÃO NO ESQUIZOFRÊNICO - Hanna SegalO curso do desenvolvimento, os esquizofrênicos alcançam a posição depressiva e, sentindo-a intolerável, lidam com ela projetando as suas ansiedades depressivas. Isto só pode ser feito pela projeção de grande parte de seu ego para dentro de um objeto, isto é, por identificação projetiva. Parte do ego é escindida e projetada para dentro de um objeto, com consequente perda desta parte para o ego, bem como alteração na percepção do objeto.  No decurso do tratamento psicanalítico do esquizofrênico, é muito importante colocá-lo em contato com seus sentimentos depressivos e com o desejo de reparação que eles se originam. Á medida que o tratamento progride, e após alguma análise das ansiedades paranoides e dos processos de cisão e idealização, o paciente vem a sentir, cada vez mais frequentemente e por breves espaços de tempo, ansiedades depressivas. Ele geralmente procura livrar-se destas ansiedades através de identificação projetiva.  ELABORAÇÃO NA CONTRATRANSFERÊNCIA - Irma Brenman PickTemos três fatores a considerar: primeiro, a perturbação emocional do analista, pois ele pode ter que lidar com isto silenciosamente em si mesmo antes de poder tomar suficiente distância e estar livre para compreender os outros dois fatores; depois, o papel do paciente em ocasioná-la e finalmente, o efeito da perturbação emocional do analista sobre o paciente. A contratransferência está funcionando como um delicado aparelho receptor.  O processo de encarar e elaborar nossa própria experiência, tanto a de querer conhecer quanto a de temer o conhecimento (+K e -K, nos termos de Bion) facilita, creio eu, um contato mais profundo e mais empático com essas partes do paciente e com seus objetos internos. Se não somos capazes de levar em consideração, nossas próprias reações conflitivas, corremos o risco de atuar o que deveríamos interpretar, isto é, de sequestrarmos todas as boas qualidades e de projetarmos para dentro do outro, todo mal; podemos nos comportar como se fossemos capazes de enfrentar impunemente todos os acidentes ou vicissitudes da vida.  A projeção que o paciente faz para dentro do analista pode ser sentida por ambos como uma invasão indesejável, e toca em questões da vida mental nas quais as fronteiras entre o interno e o externo, a fantasia e a realidade, o self e o objeto, tornam-se problemática em vários níveis. No caso de pacientes suicidas, anoréticos ou histerias malignas, tais problemas de manejo podem ter implicações de vida e morte. É claro que nessas situações o paciente projeta maciçamente partes do self e objetos internos para dentro do analista, tais pacientes também provocam no analista a sensação de estar desemparado e à mercê do comportamento vingativo e explorador do paciente, enquanto este permanece impenetrável às necessidades do analista.  CONTRATRANSFERÊNCIA NORMAL E ALGUNS DE SEUS DESVIOS - Roger Money-KyrlePenso que a preocupação pelo bem-estar do paciente origina-se da fusão de duas outras tendências básicas: a reparadora, que contrabalança em todos nós a destrutividade latente, e a parental.  Ora para um pai, o filho representa, pelo menos a parte, um aspecto do self. E isto me parece importante. Pois é somente porque o analista pode reconhecer no paciente seu self inicial já analisado que ele pode analisar o paciente. Sua empatia e insight, distintos de seu conhecimento teórico, dependem deste tipo de identificação parcial. Na medida que o paciente deve representar os objetos danificados da própria fantasia inconsciente do analista, que estão ainda ameaçados pela agressão e precisam de cuidado e reparação.  Nosso superego é é amigável e de ajuda, podemos tolerar nossas próprias limitações sem sofrimento indevido, e aceitar a culpa, fiquemos emperrados com um paciente introjetado. Mas se o superego é severo, sensação de fracasso como expressão da culpa persecutória ou depressiva, o paciente projeta, como uma figura incompreensível no mundo externo.  O COMPLEXO DE ÉDIPO INVISÍVEL - Edna O'ShaughnessyLeon e o Sr. A pertencem a um grupo de pacientes cujo complexo de Édipo não é parte de um impulso normal do desenvolvimento, com desejo sexual e rivalidade, com ciúmes em primeiro plano. Para eles a percepção de um par edípico é forçada sobre eles, e isto porque há defesas que estão continuamente operante contra dano inicial ainda urgente. Esta percepção é quase intolerável e eles fazem uso de defesas adicionais para deixá-la e mantê-la invisível.  Acima de tudo, porque a identificação projetiva para dentro do objeto tornou-se sem modo de dar conta de relações perturbadas com seu objetivo original, a percepção de uma figura combinada expulsa-os de seu abrigo projetivo no interior do objeto.  Porque a falta ao paciente uma figura internalizada que pode conter e modificar este estado mental quase esmagador, ele sente-se só com uma carga psíquica intolerável e um caos iminente. Para aliviar sua psique e entrar novamente em seu objeto o paciente, em fantasias, insere-se no meio da figura combinada, separa o casal e projeta-se para dentro de um ou outro do par separado. Estas relações exclusivas, no entanto, diferem significativamente das relações pré-edípicas mais iniciais.  UMA ABORDAGEM CLINICA PARA A TEORIA PSICANALÍTICA DAS PULSÕES DE VIDA E DE MORTE: UMA INVESTIGAÇÃO DOS ASPECTOS AGRESSIVOS DO NARCISISMO - Herbert Rosenfeld  Freud enfatizou que a pulsão de morte ficava silenciosamente dirigindo o indivíduo para a morte, e que somente através da atividade da pulsão de vida é que esta força mortal era projetada para fora e aparecia sob a forma de impulsos destrutivos dirigidos contra objetos no mundo externo.  A teoria de Freud sobre o narcisismo primário tenha se baseado originalmente na ideia de que o indivíduo dirige seu libido para o self, e no narcisismo secundário, há uma retirada da libido do objeto para o self.  Abraham nos pacientes narcísicos psicóticos, ele assinalava a ativa superioridade e frieza do narcisista e interpretava a atitude agressiva negativa na transferência. Encontrou, nesses pacientes, o narcisismo mais pronunciado, e enfatizou a hostilidade e desconfiança escondidas por trás de uma aparente avidez em cooperar.  Reich enfatizou, ao contrário de Freud, que as atitudes narcísicas e os conflitos latentes do paciente, que incluem sentimentos negativos, podiam ser ativados e virem à tona na análise, e então trabalhados.  Melanie Klein em 1958 tinha observado em crianças pequenas uma luta constante entre uma irrefreável necessidade de destruir seus objetos e um desejo de preservar. Para se defender desta ansiedade, o ego primitivo usa dois processos: Parte da pulsão de morte é projetada para dentro do objeto externo, que assim se torna um perseguidor, enquanto a parte da pulsão de morte que é retirada no ego volta sua agressão contra o objeto perseguidor. Através dos aspectos negativos infantis, se deparou com a inveja primitiva. Na transferência isso se manifesta na necessidade do paciente de desvalorizar o trabalho analítico que achou útil.  TRANSFERÊNCIA: A SITUAÇÃO TOTAL - Betty JosephStrachey (1934) usando as descobertas de Melanie K. sobre a maneira pela qual projeção e introjeção constroem e colorem os objetos internos do indivíduo, mostrou que o que está sendo transferido não são, essencialmente, os objetos externos do passado da criança, mas os objetos internos, e que a maneira pela qual esses objetos são construídos nos ajuda a compreender como o processo analítico pode produzir mudança.  Muito de nossa compreensão da transferência surge através da nossa compreensão de como nossos pacientes agem sobre nós para que sintamos coisas pelo mais variados motivos: como eles tentam nos atrair para dentro de seus sistemas defensivos: como atuam act out inconscientemente conosco na transferência, tentando fazer com que atuemos com eles: como transmitem aspectos de seu mundo interior, desenvolvidos desde a infância, elaborados na vida infantil e adulta, experiência muitas vezes para além da utilização de palavras, que frequentemente só podemos apreender através dos sentimentos provocados em nós, através de nossa contratransferência, usada no sentido amplo da palavra, uma ferramenta essencial no processo analítico.  Se o analista luta realmente, nessas situações, para dar interpretação detalhada, então ela estará vivenciando o próprio sistema defensivo do paciente, dando um pseudo-sentido ao incompreensível, ao invés de tentar entrar em contato com a experiência da paciente de viver num mundo incompreensível.  O PACIENTE DE DIFÍCIL ACESSO - Betty JosephDesde o início no tratamento deste grupo de pacientes inacessíveis é que o que parece ser uma aliança chamado de compreensão é, na verdade, anti-compreensão. Se considerarmos nossa contratransferência, tudo parece um pouco fácil demais, agradável e sem conflitos, ou emergem sinais de conflitos, mas que de certo modo são rapidamente dissipados.  A parte paciente, do paciente permanece escindida, e é esta parte que parece mais imediatamente necessitar auxílio, ser mais infantil, mais dependente e vulnerável. Este tipo de cisão pode ser encontrado em diferentes tipos de paciente, e pode ser mantido por diferentes razões, relacionadas, por exemplo, a ansiedade inconsciente acerca de sentimentos infantis, ou sentimentos de dependência, rivalidade e inveja intensas, mas geralmente afastadas das figuras parentais, dificuldades relacionadas à separação, etc.  Em tais situações considero imperativo que o analista espere, trabalhe lentamente, suporte as críticas do paciente e evite quaisquer interpretações que possam sugerir que o problema está nas projeções da ansiedade do paciente. É importante mostrar, em primeiro lugar, o uso que o paciente fez do que ele acreditou estar correndo na mente do analista.  Quero agora considerar um outro método de se manter uma inacessibilidade, em que novamente a parte do ego que precisamos que trabalhe conosco fica escindida e, além disso, torna-se particularmente indisponível por ter projetada para dentro de objetos.  Tecnicamente, penso que primeiro passo é o analista estar ciente da identificação projetiva ocorrendo e estar disposto a suportá-lo o tempo suficiente para vivenciar a parte perdida do paciente. NOTAS SOBRE A FORMAÇÃO DE SÍMBOLOS - Hanna SegalA formação de símbolos é uma atividade do ego tentando lidar com as ansiedades mobilizadas pela sua relação com o objeto, primordialmente o medo de objetos maus e o medo da perda ou inacessibilidade dos objetos bons. Perturbações na relação do ego como objetos refletem-se em perturbações na formação de símbolos. Em particular, perturbações na diferenciação entre o ego o objeto levam a perturbações na diferenciação entre símbolo e o objeto simbolizado e, portanto, ao pensamento concreto característicos das psicoses. Não apenas o conteúdo próprio do símbolo, mas o próprio modo pelo qual os símbolos são formados e utilizados parecem-me refletir precisamente o estado de desenvolvimento do ego e seu modo de lidar com seus objetos.  O objeto do ego é a união total com o objeto ideal e a aniquilação total do objeto mau, assim como das partes más do self. O pensamento onipotente predomina e o sentido de realidade é intermitente e precário. O conceito de ausência, o ego se sente assaltado pela contraparte do objeto bom, o objeto ou objetos maus.  Os primeiros símbolos, no entanto, não são sentidos pelo ego como símbolos ou substitutos, mas como sendo o próprio objeto original. São tão diferentes dos símbolos formados mais tarde que penso merecem um nome próprio, equação simbólica.   MUDANÇA PSÍQUICA E PROCESSO PSICANALÍTICO - Betty JosephAssim, por exemplo, um paciente cujo equilíbrio depende em grande parte da manutenção de uma estrutura altamente narcísica será incapaz de deixar que o ajudemos adequadamente, ou de receber nossas interpretações, e por exemplo, tenderá a apropriar-se delas ou repeti-las de modo intelectual, ou mesmo alterá-las.  Em outro paciente, o método básico de manter o equilíbrio pode ser mais obviamente fóbico, defendendo-se da ansiedade por meio de várias evitações, de autolimitações e de defesa correlatas.  Portanto, são os movimentos e mudanças no momento a momento que estamos analisando o tempo todo, e esse é o material que esperamos que finalmente conduza á mudança psíquica positiva e duradoura.  Freud, "onde havia id, que haja ego", o que implica não apenas tornar os impulsos conscientes, mais torná-los também disponíveis para serem usados pelo ego, permanecendo sob seu controle.  O indivíduo, ou o bebê, tenta lidar com a ansiedade causada por sentimentos dolorosos ou conflitantes e com partes perturbadoras do self, escindindo-os e projetando-os para dentro de outros objetivos (pessoas), aliviando-se assim deles.  Que as mudanças numa sessão refletem as mudanças que ocorrem dentro do paciente, de modo constante em sua vida cotidiana, à medida que a ansiedade emerge, as defesas são mobilizadas, a imagem do analista se movimenta e o mundo interno se rearranja em conformidade com isso. É claro que as interpretações desempenham um papel de primeira ordem na estimulação dessa mudança, e não apenas porque proporcionam compreensão e insight. Elas frequentemente estimulam mudanças não da maneira que pretendíamos, nem do modo que pensávamos.  Freud, em seu trabalho sobre relações de objeto, descreveu os vários estágios que a criança atravessa no curso de seu desenvolvimento, mas apenas com o próprio self, o que descreveu como narcisismo primário.  Essa compreensão da identificação projetiva como operante desde o início da vida ilumina todo o tema do narcisismo e das relações de objeto narcísicas, abrindo assim a possibilidade de analisarmos mais plenamente essas condições. Klein pensava o narcisismo não como um estágio que precede as relações de objeto, mas como um estado para o qual o indivíduo se retira, no qual o self ou o corpo são sentidos como contendo um objeto idealizado, sendo então para esse self que o indivíduo se retira (1952a). A noção de identificação projetiva também confere uma nova dimensão à nossa compreensão do indivíduo que, como Freud descreveu, continua a amar," de acordo com o tipo narcísico*, o que ele próprio é, foi ou gostaria de ser". Em outras palavras, podemos ver agora que ele ama a outra pessoa porque projetou para dentro dela, em fantasia, partes de seu próprio self. A outra pessoa é então identificada a essas partes, e é isso que torna tão atraente para o indivíduo narcisista.

Revisitando o pensamento da Escola Inglesa de Psicanálise

admin Artigos 25 fevereiro 2024
Por Terezinha Cavalcante Feitosa -  Este trabalho resgata a concepção de diferente autores  da Escola Inglesa de Psicanálise a partir dos artigos de Hanna Segal (1955;1956); Betty Joseph (1975; 1987) Roger Money –Kyrle (1955); Irma Brenman Pick (1985); Edna O’ Shaughnessy (1987); Herbert Rosenfeld (1971). Esses autores resgatam conceitos trabalhados por Freud, Melaine Klein... ...Bion no que diz respeito  a identificação projetiva, posição depressiva no esquizofrênico e a relação deste com analista e, ainda, a formação dos símbolos discutidos por Segal; O trabalho de Joseph analisa o paciente de difícil acesso por meio da identificação projetiva e o conflito que se estabelece entre analista e analisado em virtude da dificuldade de compreensão; Money-Kyrle e Pick discutem contratransferência e a utilização desta pelo analista, inclusive  utilizando como mecanismo de defesa contra o analisado; Rosenfeld investiga as condições clinicas em que predomina impulsos agressivos examinando sua relação com a teoria de Freud das desfusão e fusão das pulsão de vida e morte, enquanto Shaughnessy analisa o complexo de Édipo a partir de dois pacientes que na sua interpretação, não parte de um impulso normal do desenvolvimento, ou seja, desprovido de desejo sexual e rivalidade, com ciúmes em primeiro plano. Os trabalhos desses autores apontam que o oficio de analista é uma tarefa extremamente difícil, inclusive com a possibilidade de interpretação inconsistente e/ou falseada o que pode gerar conflito tanto para o analisado quanto para o analista. Ressalto que o trabalho foi construído de acordo com a sequência das lições e não a imbricação teórica dos conceitos! 1. A utilização da identificação projetiva pelo esquizofrênico segundo Hanna Segal Hanna Segal (1956) inicia o artigo Depressão no Esquizofrênico argumentando que os esquizofrênicos no curso do desenvolvimento, alcançam a posição depressiva. Segundo ela, a posição depressiva para o esquizofrênico, é um processo insuportável e estes lidam com ela projetando suas ansiedades depressivas. A autora designa esse processo como identificação projetiva, por meio do qual uma parte do ego do esquizofrênico é excindida, isto é, fragmentada e projetada para dentro de um objeto. Nesse processo há perda de parte do ego bem como alteração na percepção do objeto. Assim no decorrer do tratamento psicanalítico do esquizofrênico, torna-se necessário colocá-lo em contato com seus sentimentos depressivos bem como com o desejo de reparação que deles se originam. Se o tratamento avança é comum o paciente sentir ansiedades depressivas e normalmente tenta se livrar delas por meio da identificação projetiva. Algumas vezes a parte depressiva do ego do paciente é deslocada para dentro do analista. Para conseguir isso o paciente pode recorrer a um manejo cuidadoso da situação analítica de provocar sentimentos depressivos no analista. Após a análise de casos esquizofrênicos a autora chega a conclusão de que a análise das ansiedades persecutória e das defesas esquizoides na transferência  leva a uma maior integração do ego e do objeto. Isso contribui para melhorar o estado de saúde do paciente o que leva a encarar a realidade, seus impulsos, seus sentimentos depressivos, a culpa e a necessidade de reparação, bem como fato de sua própria loucura. Para o esquizofrênico a culpa e o sofrimento são intoleráveis e, portanto,  os passos que o paciente tenha dado em direção a sanidade tem que ser revertido. O paciente projeta a parte deprimida para dentro do analista, isso constitui uma reação terapêutica negativa, pois a parte mais sadia do ego é perdida e o analista novamente se transforma em perseguidor uma vez que ele contém a parte deprimida do ego do paciente. A reação do analista é projetar esta depressão indesejada de volta para o paciente. Para controlar a reação terapêutica negativa e permitir o paciente recuperar, reter e fortalecer a parte sadia da personalidade, todo processo de emergência da depressão e sua projeção deve ser acompanhada com cuidado na transferência. Nesse sentido, pode-se presumir que ao está diante de um paciente esquizofrênico o analista deve ter o cuidado de elaborar mecanismos de defesa para se proteger do processo de identificação projetiva, elaborado meticulosamente pelo paciente. 2. A formação dos símbolos como mecanismos de integração da realidade Outro trabalho de Hanna Segal (1955) diz respeito a formação dos símbolos.  Ela inicia o trabalho afirmando que pacientes podem reagir de maneira diferente mesmo utilizando o mesmo símbolo para a mesma situação. Para reafirmar seu pensamento ela utiliza a experiência analítica de dois pacientes a cerca do instrumento violino. Nesse artigo a autora analisa algumas obras entre elas de Jones (1916).  Ao analisar a obra desse autor, ela afirma que quando um desejo, devido ao conflito, precisa ser abandonado e reprimido, ele pode se expressar de modo simbólico e o objeto do desejo que foi abandonado pode ser substituído por um símbolo. Segundo Segal o trabalho analítico posterior especificamente a analise de criança confirmou algumas das afirmações de Jones. Uma delas, de que  os primeiros interesses e impulsos das crianças são dirigidos para os corpos de seus pais e para o seu próprio corpo e, é a existência e impulsos no inconsciente que dá origem pela via da simbolização, a todos os outros interesses. Embora exista uma divergência nas formulações de Jones em relação a outros autores, Segal propõe que deveriam chamar de símbolos apenas aqueles substitutos que tomam lugar do objeto sem qualquer mudança de afeto. No entanto, ela afirma ainda, que há muitas vantagens em entender a definição para cobrir os símbolos utilizados na sublimação. Mesmo concordando com alguns pontos da teoria de Jones, Segal critica o fato do mesmo excluir a maior parte do que é chamado de símbolo pelas outras ciências bem como pela linguagem cotidiana. Para a autora do ponto de vista analítico, o interesse da criança pelo mundo externo é determinado por uma serie de deslocamentos, de afetos e interesses, a partir dos objetos iniciais para outros objetos continuamente. Ainda para discutir a formação dos símbolos Segal recorre as considerações de C. Morris (1938) cujo autor afirma que o processo de simbolização ocorre mediante uma relação entre três termos, isto é, uma relação entre a coisa simbolizada, a coisa que funciona como símbolo e uma pessoa para quem um representa o outro. Assim em termos psicológicos, para a autora, o simbolismo seria uma relação entre o ego, o objeto e o símbolo. A formação dos símbolos segundo Segal começa muito cedo, tão cedo quanto as relações de objetos, mas muda de caráter e função com as alterações no caráter das relações entre o ego e os objetos. Assim, se a simbolização é visto como uma relação entre três termos, os problemas da formação dos símbolos devem ser sempre examinado no contexto da relação do ego com seus objetos. Ao discorrer sobre as características das primeiras relações de objeto do bebê a partir da análise de Melaine Klein, Segal diz que o objeto é visto como sendo cindido num objeto idealmente bom e noutro totalmente mau. O objetivo do ego é a união total com o objeto ideal e a aniquilação total do objeto mau, assim como nas partes más dos self. Desse modo, o pensamento onipotente predomina e o sentido da realidade é intermitentemente precário. O conceito de ausência praticamente não existe. Sempre que o estado de união com o objeto ideal não é efetivado o que se vivência não é a ausência. Para a autora um dos mecanismos de defesa nesta fase é a identificação projetiva, posto que, o sujeito, em fantasia, projeta grande parte de se mesmo para dentro do objeto, que fica identificado como partes do self que se sente que ele contem. Da mesma forma objetos internos são projetados para fora e identificados como parte do mundo externo, que vem a representá-los. Nisso se constitui o inicio do processo de formação dos símbolos. Para a autora em tela os primeiros símbolos não são sentidos pelo ego como símbolos ou substitutos, mas como sendo o próprio objeto original. Segal considera tão diferentes dos símbolos formados mais tarde, que institui um novo conceito denominando todo o processo de equação simbólica. Para ela a equação simbólica entre o objeto original e o símbolo no mundo externo e interno é a base do pensamento concreto do esquizofrênico, em que substitutos para objetos originais, ou parte do self, podem ser utilizados bastante livremente, mas, como nos dois exemplos de pacientes esquizofrênicos mencionados pela autora, praticamente não são diferentes no pensamento.  Quando as equações simbólicas são formadas em relação a objetos maus, faz-se uma tentativa de lidar com elas como objeto original. Em certo estágio da análise - na medida em que o paciente adquire um certo grau de formação dos símbolos numa base de equações simbólicas, se alguma ansiedade é deslocada da pessoa de seu analista- sentido como objeto mau –para substitutos  no mundo externo. Diante disso, os numerosos perseguidores no mundo externo são tratados mediante a escotomização, ou seja, a rejeição inconsciente. Desse modo o desenvolvimento do ego e as mudanças na relação destes com seus objetos são graduais, e assim é também a mudança dos símbolos iniciais, denominado de equações simbólicas pela autora, até os símbolos plenamente formados na posição depressiva. Percebe-se que antes o objetivo era apossar-se totalmente do objeto, se este fosse sentido como bom; aniquilá-lo totalmente se este fosse sentido como mau. Ao reconhecer que os objetos maus e bons são um só, os objetivos pulsionais são modificados. O ego passa a se preocupar em salvar o objeto de sua agressão e possessividade o que implica em inibição dos objetivos pulsionais diretos, tanto agressivos como libidinais. Para Segal esse processo é importante para criação dos símbolos que adquirem novas funções alterando seu caráter! Os símbolos tornam-se necessário para deslocar a agressividade do objeto original e a culpa vivenciada em relação a ele é muito menor do que aquela devido a um ataque ao objeto original. Os símbolos são criados no mundo interno como mecanismo de restaurar, recriar, recapturar e possuir novamente o objeto original. Porém, de acordo com o sentido crescente de realidade, eles são vivenciados como criações do ego e nunca completamente equacionados ao objeto original. Na opinião de Segal a formação dos símbolos na posição depressiva necessita uma certa inibição dos objetos pulsionais diretos em relação aos objeto original, e assim se tornam disponíveis para sublimação. Os símbolos, criados internamente, podem ser reprojetados no mundo externo, dotando-o de significado simbólico. Assim. a capacidade de vivenciar a perda e o desejo de recriar o objeto dentro de si dá ao individuo uma liberdade inconsciente no uso dos símbolos. E como o símbolo é uma criação do sujeito ele pode ser livremente usado por ele, o que não ocorre com a equação simbólica. Na interpretação da autora se as ansiedades forem muito  intensas pode ocorrer em qualquer estágio do desenvolvimento uma regressão à posição esquizoparanóide. E o recurso a identificação projetiva como defesa contra a ansiedade. Desse modo símbolos que estavam funcionando como símbolos de sublimação revertem para equações simbólicas concretas cujo processo ocorre quando a identificação projetiva maciça, o ego novamente se confunde com o objeto, o símbolo se confunde com a coisa simbolizada transformando-se numa equação. Conforme Segal, na equação simbólica, o símbolo-substituto é sentido como sendo o objeto original. As propriedades próprias do substituto não são reconhecidas ou admitidas. A equação simbólica é usada para negar a ausência do objeto ideal ou controlar um objeto persecutório. A equação simbólica pertence aos primeiros estágios do desenvolvimento.  Quando o mecanismo de identificação projetiva é usado como defesa contra ansiedades depressivas, os símbolos já formados, que funcionam como símbolos, podem reverter a equações simbólicas. Concluindo, a autora se reporta ao significado da palavra símbolo: reunir, unir, integrar que segundo ela, a formação  destes é um processo continuo de união e integração do interno e do externo, do sujeito com o objeto, das experiências anteriores com as posteriores. Pode-se dizer então, que o passado, o presente e o futuro estão imbricados na constituição e formação dos símbolos cujo mecanismo proporciona a integração do sujeito na realidade.  3. O efeito da utilização intensa da identificação projetiva segundo Betty Joseph Betty Joseph (1987) ao se reportar ao conceito de identificação projetiva argumenta que quando este mecanismo é usado de forma intensa torna-se uma fantasia para individuo e pode ter um efeito poderoso sobre o receptor. A autora traz para o debate não a identificação projetiva propriamente dita, sua discussão gira em torno do poder onipotente da projeção e da identificação projetiva e suas fantasias, pois segundo ela, na medida que se originam numa constelação particular, e profundamente interligada, não podemos, em nosso pensamento, isolar a identificação projetiva da onipotência, da cisão e das ansiedades resultantes que a acompanham. Ao fazer essas considerações baseadas em Klein e Bion, Betty, Joseph propõe analisar algumas implicações do uso da identificação projetiva, bem como ilustrar diferentes aspectos desse processo por meio de dois pacientes, aparentemente fixado na posição esquizoparanóide e depois em um paciente que se movia em direção a posição depressiva. Para autora, em alguns casos, a identificação projetiva é usada tão maciçamente que dá-se a impressão que o paciente está em fantasia, projetando todo o seu self para dentro do seu objeto e desta forma sentir-se claustrofóbico.  Trata-se de um modo muito poderoso  e efetivo para livrar o individuo do contato com sua própria mente; as vezes a mente pode estar tão enfraquecida ou fragmentada por processos de cisão, ou ainda tão evacuada por identificação projetiva que o individuo parece vazio ou quase psicótico.  Segundo Joseph a identificação projetiva tem implicações técnicas. Por exemplo, se considerar que ela é apenas uma parte do equilíbrio onipotente estabelecido por cada individuo a seu próprio modo, qualquer interpretativa, por parte do analista, de localizar e devolver ao paciente parte do self deverá encontrar resistência de toda a personalidade, uma vez que é sentida como ameaça ao equilíbrio global bem como geradora de mais perturbação. Diante disso a identificação projetiva não pode ser vista isoladamente. 4. A interpretação da identificação projetiva no processo analítico de Betty Joseph Ao considerara a identificação projetiva como meio de comunicação Joseph (1987) recorre as afirmações Bion, quando diz que o individuo pode usar este mecanismo como método de comunicação, uma vez que o sujeito coloca partes indigestas de sua experiência e de seu mundo interno para dentro do objeto como forma de torná-los compreensíveis e de retornarem numa forma mais fácil de lidar.  Ao pensamento de Bion, Joseph acrescenta que a identificação projetiva é, por sua própria natureza, uma forma de comunicação, mesmo nos casos em que não é este o objeto ou a sua intenção. Por definição, identificação projetiva significa colocar partes do self para dentro de um objeto. A compreensão de Joseph sobre identificação projetiva está relacionada não apenas as interpretação das obras de Klein e Bion, mas também nas observações analíticas de seus pacientes. Ela destaca três exemplos analíticos do poder da identificação projetiva e a forma como esta operacionaliza de acordo com o caso. No primeiro caso, ela considera que o esvaziamento do paciente, quando este projeta para dentro do analista partes do self, torna-se eficaz uma vez que toda experiência de perda e que suas emoções concomitantes são extirpadas. Nesse aspecto o termo identificação projetiva descreve de forma mais viva e plena os processos envolvidos do que os termos mais frequentemente utilizados tais como “reversão” ou “projeção”. A autora acredita que o equilíbrio do analisado é mantido por meio da projeção de partes do self. No segundo caso a autora identifica vários tipos de identificação projetiva que pode operar em conjunto para sustentar um equilíbrio particular narcisista e onipotente. Esse tipo de equilíbrio é firmemente estruturado, extremamente difícil de ser influenciado analiticamente chegando a produzir ansiedades persecutórias. Além disso, levanta algumas questões sobre diferentes processos identificatórios, inclusive problemas relacionados ao próprio termo “identificação projetiva”. Para reafirmar seu pensamento relata um caso de análise de um professor que a meu ver tinha muitas ansiedades persecutórias. Ainda nesse caso a autora diz que a identificação opera com várias motivações diferentes e conduzindo a diferentes processos identificatórios, no entanto todos visam a manutenção do equilíbrio narcísico e onipotente. Ao analisar o paciente T a autora afirma que este se utilizava de dois tipos de identificação projetiva tais como a invasão da mente e usurpação dos conteúdos da analista bem como a projeção de parte do self ameaçado e invejoso para dentro dela. Neste sentido, são destacado três ou quatro aspectos da identificação projetiva tais como: o ataque a mente do analista; uma invasão parcial e a usurpação de aspectos ou capacidades do analista; e, o deposito de parte do self,  inferiores  dentro do analista. Para Joseph os dois últimos aspectos são mutuamente dependentes, mas levam a diferentes tipos de identificação. Numa delas o paciente ao se apossar, fica identificado com as capacidades idealizadas do analista. Na outra, é o analista que se torna identificado com as partes perdidas, projetadas do paciente. Vale ressaltar que os casos analisados, segundo ela foram um homem na posição  esquizoparanóide, uma criança fronteiriça e outro homem num  rígido estado onipotente e narcísico. Pode-se imaginar que a identificação projetiva é utilizada de acordo com as condições psíquicas em o paciente se encontra. 5. Natureza comunicativa da identificação projetiva Betty Joseph (1987) ao analisar a natureza da comunicação na identificação projetiva diz que esta coloca partes do self dentro do objeto, isto é, na transferência do pólo receptor das projeções e diante disso, desde que possamos sintonizar com elas, tem-se uma oportunidade de compreendê-las e compreender o que está ocorrendo.  Sendo assim, a identificação projetiva age como uma comunicação, e qualquer que seja a motivação, e á base para o uso positivo da contratransferência. Para ela é difícil esclarecer se, num dado momento, a identificação projetiva está primordialmente dirigida a comunicar um estado mental que não pode ser verbalizado pelo paciente ou se está dirigida a entrar e controlar ou atacar o analista, ou ainda se todos estes elementos estão ativos e precisam ser considerados. Suas afirmações estão fundamentada na análise que ela fez do paciente N, cuja natureza da identificação projetiva do analisado foi transformado em contratransferência pela analista que passou a explorar a capacidade de comunicação do paciente. Pode-se entender que no pólo mais primitivo e extremo da identificação projetiva está a tentativa de voltar para dentro de um objeto de se tornar indiferenciado e de mente, evitando toda a dor. O objeto pode ser valorizado e amado, às vezes ele pode conscientemente experimentar hostilidade em relação a isso e a ambivalência está presente. À medida que seu amor é liberado ele é capaz de introjetar e identificar-se com um objeto total valorizado e potente, e o efeito sobre seu caráter e sua potência é surpreendente. Nesse caso a identificação projetiva é de uma qualidade muito diferente dos outros analisados onde estão baseadas em forçar partes desesperadas do self para dentro de um objeto que em sua fantasia torna-se uma parte desesperada de si mesmo. No caso T, o analisado invadia a mente do analista e se apossava dos aspectos cindidos e idealizados deixando o objeto despojada e inferiorizada. N pode experimentar e valorizar como uma pessoa inteira, diferente e separada com as próprias qualidades do analista, e estas, o analisado pode introjetar e sentir-se fortalecido. Nesse sentido, presume-se que a comunicação é fator preponderante no processo de identificação projetiva, tanto por parte do paciente quanto por parte do analista, que pode se utilizar da contratransferência para compreender, se defender, penetrar de fato no universo do analisado! 6. O problema da técnica relacionado ao paciente de difícil acesso Em um artigo publicado em 1975, Betty Joseph traz para o debate da psicanálise o paciente de difícil acesso. Este tipo de paciente é muito difícil de ser atingindo por meio de interpretações e por isso torna-se quase impossível oferecer-lhe compreensão emocional verdadeira. Estes pacientes possuem uma cisão dentro da personalidade em que parte do ego é mantida a distância do analista e do trabalho analítico. Esta cisão mantém uma parte do ego à parte como se esta fosse um observador da outra parte, entre analista e paciente. Isso impede que o analista tenha acesso a um contato verdadeiro. Diante disso torna-se necessário o analista utilizar-se de vários métodos de evitação e evasão. Noutras situações grandes partes do ego parecem desaparecer temporariamente da análise resultando em apatia ou extrema passividade (p.61-62). Segundo a autora, embora no campo da psicanálise seja enfatizado a importância de uma aliança terapêutica entre analista e paciente, no caso de pacientes inacessíveis esta aliança torna-se hostil o gera a anti-compreensão do paciente. Normalmente são pacientes cooperativos e prestativos que tendem responder rapidamente as interpretações ou discutir de modo muito sensato interpretações anteriores.  Para o analista, esta situação pode ser vista como uma análise em progresso e compreensão e até mesmo relatos de melhora. No entanto, há um sentimento vazio se considerar a contratransferência tudo parece fácil, agradável e sem conflitos ou então os conflitos são rapidamente dissipados. No trabalho com esse tipo de paciente pode-se destacar dois tipos de cisão do ego. O paciente fala de modo adulto, mas relaciona-se com o analista apenas como igual, ou aliado ligeiramente superior que procura ajudar o analista com sugestões, pequenas correções ou referencias à história pessoal. A impressão que se têm é que durante a analise se está falando de outra pessoa, é como se estivesse falando de um paciente, mas nunca ao paciente. Diante disso a parte paciente parece está fragmentada e, imediatamente, precisa de auxilio (p. 63-64). Para Joseph, este tipo de cisão pode ser encontrado em diferentes tipos de pacientes e pode ser mantido por diferentes razões, relacionadas a uma ansiedade inconsciente a cerca de sentimentos infantis, ou sentimentos da dependência, rivalidades, invejas intensas, mas geralmente afastadas das figuras parentais, dificuldades relacionadas à separação e etc.(p.64)   Para impedir que o analista entre em contato com qualquer coisa nova e desconhecida, ou seja, a parte que necessita de uma interpretação verdadeira, o paciente tenta manipular o analista a fazer interpretações falsas e inúteis. Nesse tipo de situação o analista deve se certificar de que cada passo seja esclarecido com o paciente em relação o material imediato, e não deixado no nível simbólico ou quase simbólico. Ao considerar esse tipo de problema a autora está salientando que a parte pseudo-cooperativa do paciente impede que a parte realmente necessitada entre em contato com o analista e que, se este for envolvido nisto, não pode realizar uma mudança em nossos pacientes porque não foi estabelecido contato com a parte que necessita de ser compreendido, como oposta a de adquirir compreensão. Assim, no que se refere ao paciente inacessível, torna-se necessário localizar a cisão do ego e esclarecer as atividades das diferentes partes. Em alguns destes pacientes uma parte do ego parece manter-se ao lado do resto da personalidade, observando minuciosamente o que está ocorrendo entre o analista e o resto do paciente, escutando o tom de voz do analista e sensível às mudanças fictícias. Em tais situações a autora propõe que o analista espere, trabalhe lentamente, suporte as críticas do paciente e evite quaisquer interpretações que possam sugerir que o problema está nas projeções da ansiedade do paciente. Estes pacientes para Joseph compreendem mal as interpretações, tomam as palavras fora do contexto e tentam perturbar e provocar o analista. Ela aponta  a importância da técnica no sentido do analista olhar não apenas para o conteúdo, mas também para o modo como surge o material. O comportamento do paciente e o movimento do material na sessão pode revelar quais as partes do ego que desaparecem e onde pode ser encontrados! Uma compreensão útil vem de uma interpretação de eventos que são imediatos.  Se a interpretação está muito distante da experiência real que está ocorrendo na sala, ela leva apenas a uma compreensão a uma compreensão verbal da teoria. Paciente com capacidade considerável de integração do ego e de boas relações com objetos totais podem as vezes ser capazes de integrar interpretações baseadas em aproximações de material anterior (p.65-.67).    Joseph enfatiza a importância da técnica afirmando que o analista não deve olhar apenas para o conteúdo mas também para o modo como surge o material. O comportamento do paciente e o movimento do material na sessão podem revelar quais partes do ego desapareceram e onde podem ser encontradas. Assim, para autora, em ambos os pacientes analisados, o contato com o mundo externo ou com a realidade interna, e a experiência de separação e relação com o objeto são em grande parte evitados, e os pacientes tornam-se temporariamente inacessíveis ao trabalho interpretativo ou a verdadeira compreensão. Alguns pontos técnicos são destacados pela autora entre os quais à natureza da situação transferencial. Para ela o analista só tem êxito se suas interpretações forem imediatas e diretas. Uma compreensão útil vem de uma interpretação de eventos imediatos. Se a interpretação estiver muito distante da experiência real que está ocorrendo na sala, ela leva apenas uma compreensão verbal da teoria (p. 68-75).  7. Os aspectos libidinais e destrutivos do narcisismo de acordo com Herbert Rosenfeld O trabalho de Herbert Rosenfeld (1971) discute os aspectos agressivos do narcisismo. Ele fundamenta sua discussão nos trabalhos de Freud, Melaine Klein entre outros e se propõe analisar os aspectos libidinais e destrutivos do narcisismo bem como esclarecer como surge as graves disfusões das pulsões de morte indicando os fatores  que contribuem para fusões normais e patológicas. Rosenfeld chama de fusão patológica os processos em que na mistura de impulsos libidinais destrutivas e negativas o poder dos impulsos destrutivos ficam muito reforçados, enquanto que na fusão normal a energia destrutiva fica mitigada ou neutralizada. O autor apresenta ainda a importância clinica da agressão desfundida e cindida na criação de obstáculo à análise tais como resistências crônicas  e reações terapêuticas negativas (p.247). Ao estudar o narcisismo em detalhes ele julga essencial diferenciar entre os aspectos libidinais e destrutivos do narcisismo. No que diz respeito ao aspecto libidinal pode-se ver que a supervalorização do self desempenha um papel central, baseado na idealização do self. Dessa forma, a idealização do self é sustentada por identificação projetivas e introjetivas onipotentes com objetos bons e suas qualidades. Assim, o narcisista sente que tudo que é valioso, relacionado a objetos externos e ao mundo exterior, faz parte dele ou é onipotentemente controlado por ele (p. 248). Se o narcisismo for considerado a partir do aspecto destrutivo, percebe-se que novamente a idealização do self ocupa um papel central, mas, nesse aspecto, trata-se da idealização das partes onipotentes e destrutivas. Estas partes se dirigem contra qualquer relação do objeto libidinal positiva e contra qualquer parte libidinal do self que tem necessidade de um objeto e que deseja depender dele. As partes onipotentes destrutivas do self podem permanecer disfarçadas ou ficarem silenciosas e excindidas. Isso dificulta a identificação de sua existência e dá a impressão de que não há nenhum relacionamento com o mundo externo. Segundo Rosenfeld elas exercem um efeito poderoso ao impedir as relações objetais dependentes e manter os objetos externos desvalorizados tornando-se responsável pela aparente indiferença do indivíduo narcisista, em relação aos objetos externos e ao mundo (p.250).  Rosenfeld afirma que embora coexista lado a lado, na maioria dos pacientes narcísicos aspectos libidinais e destrutivos, a violência dos impulsos destrutivos são diferenciados. Nos estados narcísicos em que predomina os aspectos libidinais, a destrutividade se torna aparente tão logo a idealização do self onipotente fica ameaçada pelo contato com um objeto que percebido como separado do self. Quando isso ocorre o paciente sente-se humilhado e desafiado pela revelação de que é o objeto externo que contem as qualidades valiosas que ele atribuía aos seus próprios poderes criativos. Observa-se durante a análise que quando diminuem os sentimentos de ressentimentos e vingança a inveja é conscientemente vivida, pois só então ele pode perceber o analista como uma pessoa externa e valiosa. Se predominam os aspectos destrutivos, a inveja é mais violenta e surge como desejo de destruir o analista, enquanto objeto que é a verdadeira fonte de vida e de coisas boas que levam o paciente à violentos impulsos autodestrutivos! Quando se trata de situação infantil, o paciente narcísico quer acreditar que deu a vida a si mesmo e é capaz de se alimentar e se cuidar. No entanto, ao se defrontar com a realidade de ser dependente do analista o paciente deseja morrer, negar o fato do seu nascimento e destruir seu progresso e insight analítico, representantes da criança dentro dele gerada pelo analista, que representa os pais. O paciente deseja desistir da análise atuando de maneira autodestrutiva destruindo seu sucesso profissional e as relações pessoais. Entre estes pacientes alguns se tornam suicidas e o desejo de morrer se expressa muito abertamente, sendo a morte idealizada como a solução de todos os problemas. Nesse sentido a pulsão de morte passa ser uma desfusão. Pode-se observar que este estado do paciente é provocado pela atividade das partes invejosas destrutivas do self que se tornam gravemente cindidas e desfusas do self  libidinal cuidadoso. Todo selffica identificado com o self destrutivo, que busca triunfar sobre a vida e a criatividade destruindo o self libidinal dependente. Existem Pacientes narcísicos em que os impulsos destrutivos desfusos parecem estar constantemente ativos e dominar toda sua personalidade e relações de objeto. Estes pacientes expressam seus sentimentos de uma forma levemente disfarçada desvalorizando o trabalho do analista com persistência e indiferença. Apresentam comportamento de desconfiança com uma desvalorização explicita. Com isso reafirmam sua superioridade sobre o analista, que representa vida e criatividade compreensão e satisfação. Eles ainda se sentem superiores ao serem capazes de controlar e esconder essas partes que desejam depender do analista como uma pessoa que pode ajudar. Se comportam como se perda de qualquer objeto de amor, inclusive o analista, os deixe indiferentes e até estimule uma sensação de trunfo. Às vezes, estes pacientes, sentem vergonha e alguma ansiedade persecutória, mais pouca culpa, pois pouco do self libidinal permaneceu vivo. Parece que estes pacientes lidam com a luta entre seus impulsos destrutivos e libidinais e tentam livrar-se do amor por seus objetos, matam seu self dependente e amoroso e identificam-se quase que inteiramente com a parte narcísica destrutiva do self, que lhe fornece uma sensação de superioridade e autoadmiração. Nota-se que o narcisismo destes pacientes às vezes são altamente organizados, semelhante uma quadrilha poderosa, comandada por um líder, que controla todos os membros para garantir que se apoiem  mutuamente  para fazer um trabalho criminoso destrutivo mais eficiente e poderoso. Porem, a organização narcísica além de aumentar a força do narcisismo destrutivo, tem o propósito defensivo de se manter no poder e assim garantir o status quo.  Percebe-se que o principal objetivo, parecer ser, impedir o enfraquecimento da organização e controlar os membros da quadrilha para que não desertem da organização destrutiva – juntando-se às partes positivas do self, nem deletam os segredos a polícia, o superego protetor, representado pelo analista que é capaz de salvar o paciente. Segundo a experiência do autor, essa organização narcísica não se dirige contra culpa e ansiedade, mas parece ter o propósito de manter a idealização e o poder superior do narcisismo destrutivo. Receber ajuda implica fraqueza e é sentido como uma coisa errada ou como um fracasso pela organização narcísica destrutiva, que abastece o paciente com seu senso de superioridade. Nesses casos, há a mais determinada resistência crônica à análise e só uma exposição muito detalhada do sistema possibilita algum progresso. Em muitos casos, os impulsos destrutivos estão ligados a perversões. Nessa situação, a aparente fusão das pulsões não enfraquece o poder das pulsões destrutivas, mas, aumentam o poder e a violência pela erotização da pulsão agressiva. Para Roselvet alguns pacientes narcísicos, as partes narcísicas destrutivas do self estão ligadas a uma estrutura ou organização psicótica que se cinde do resto da personalidade. Esta estrutura psicótica é como um mundo ou objeto delirante dentro qual partes de self tendem se recolher, que parece ser dominada por uma parte do self onipotente ou onisciente, extremamente cruel, que cria a noção de que dentro do objeto delirante há uma absoluta ausência de dor e por outro lado, liberdade para permitir qualquer atividade sádica. Toda estrutura psicótica encontra-se comprometida com a autossuficiência narcísica e dirigida apenas contra qualquer relação de objeto. Às vezes os impulsos destrutivos dentro desse modo delirante são extremamente cruéis, ameaçando de morte o resto do self para assegura seu poder: Ou aparecem disfarçados como onipotentes, benevolentes ou salvadores prometendo prover o paciente com soluções rápidas e ideais para todos os seus problemas. Na concepção do autor essas promessas têm a função de tornar o self normal do paciente dependente de seu self onipotente ou viciado nele, e atrair as partes sadias normais para sua estrutura delirante de forma aprisioná-las. Quando pacientes narcísicos fazem algum progresso e a formar alguma relação de dependência com a análise, ocorrem  graves reações terapêuticas negativas à medida que a parte psicótica narcísica  do self exerce seu poder de superioridade sobre a vida e o analista tentando atrair  o self dependente para um estado onírico onipotente e psicótico, o que faz com que o paciente perca o sentido de realidade e a capacidade de pensar. Pode existir o risco de um estado psicótico agudo se a parte dependente do paciente mais sadia de sua personalidade for persuadida a virar as costas para o mundo externo e entregar-se inteiramente ao domínio da estrutura delirante psicótica.  Pacientes dessa natureza pode desenvolver um agudo hipocondríaco medo da morte esmagador. Percebe-se que uma investigação detalhada do processo sugere que não estamos lidando com estado de desfusão e sim com uma fusão patológica. Neste estado narcísico de retraimento, a parte dependente sadia do paciente penetra no objeto delirante e ocorre uma identificação projetiva em que o self sadio perde sua identidade e fica dominado pelo processo destrutivo onipotente, sem nenhum poder para se opor a este último, nem para mitigá-lo enquanto durar a fusão patológica e, além disso, o poder do processo destrutivo extremamente nessa situação. Nesses casos,  segundo o autor, é necessário ajudar o paciente a encontrar e resgatar a parte sadia dependente do self de sua posição encurralada dentro da estrutura narcísica psicótica, pois é essa parte a ligação essencial da relação objetal positiva com o analista e o mundo. É importante ainda ajudar gradualmente o paciente a tornar-se consciente das partes separadas destrutivas onipotentes do self que controlam a organização psicótica, pois esta só é todo-poderosa enquanto estiver isolada. Na medida em que este processo é revelado fica claro que ele contém os impulsos invejosos destrutivos do self que se tornaram isolados e assim a onipotência fica desinflada e sua natureza infantil pode ser exposta, ou seja, o paciente torna-se consciente de que está sendo dominado por uma parte infantil onipotente de se mesmo, que não só empurra para direção à morte, mas também o infantiliza e impede de crescer, mantendo-o afastado de objetos que poderiam ajudá-los a crescer e desenvolver. 8. Aproximações conclusivas  Ao termino desde trabalho presumo que ainda, há muito para se aprender e apreender sobre e, em psicanálise cujo processo só pode se tornar possível por meio do estudo da literatura disponível e muita observação e interpretação, pois compreender a angustia das pessoas que procuram um analista não é tarefa fácil! A posição de afastamento do analista sugere que este faça uma leitura minuciosa de todas as atitudes do analisado a fim de compreender e levar estes a diminuir suas angustias. No entanto. Sabe que este às vezes  torna-se um processo lento e doloroso para ambos as partes.   Durante o estágio de supervisões pude constatar alguns relatos de pessoas que em virtudes de suas angustias estão fragilizadas e procurando encontrar uma forma de amenizar o sofrimento e as perturbações que os acompanham. Muitas dessas angustias interferem no trabalho, nos relacionamentos deixando as pessoas em alguns casos rejeitadas.  Dois casos me chamaram atenção na supervisão: um rapaz com medo extremado de dirigir, mesmo sendo habilitado, pois temia bater o carro e ser criticado pelos familiares, inclusive a mãe! E o caso de uma psicóloga angustiada com a relação dos pais, já idosos. No primeiro caso notava-se uma pessoa em o que processo de castração não havia ocorrido de maneira satisfatória gerando de certo modo uma ansiedade persecutória! No segundo caso, a paciente procura respostas para suas frustrações, insucesso nas relações  trazendo a relação dos pais para o seting. Nota-se uma pessoa, confusa com seus sentimentos, buscando na relação dos pais, a qual ela considerada ora boa, ora má, um subterfúgio para sua própria vida! Além do mais, uma de suas preocupações é o cuidar do pai, uma vez que a mãe, já em idade avançada, se recusa a atender os caprichos deste.  Percebe-se um sentimento de castração, visto que ela como psicóloga não consegue apaziguar o relacionamento dos pais! A perda do controle! Talvez em razão da divagação da moça trazendo na sua fala muitos elementos confusos poderia ser considerada como um paciente de difícil acesso! Portanto, considero que o aprofundamento dos conceitos discutidos por estes diferentes autores nos proporciona maior confiança no sentido de atuar no campo analítico.  9. Referencias bibliográficas JOSEPH, Beth. Identificação projetiva - alguns aspectos clínicos.  Artigo publicado em J. Sandler (ed.) Projection, Identification, Nova York; International Universities Press, 1987.   ______________O paciente de difícil acesso. Giovacchini (ed.) Tactics and Techniques in psychoanalytic Therapy, vol. 2: countertransferece, New York: Jason Aronson, 1975.  ROSENFELD  Herbert. Uma abordagem clinica para teoria psicanalítica das pulsões de vida e de morte: uma investigação dos aspectos agressivos do narcisismo. . Artigo publicado no International Journal of Psycho-Analysis 52: 169-78, 1971.  SEGAL, Hanna. Depressão no Esquizofrênico. Artigo publicado no International Journal of Psycho-Analysis 37: 339-43, 1956  ___________. Nota sobre a formação dos símbolos . Artigo publicado no International Journal of Psycho-Analysis 38: 391-7, 1955.

Notação, atenção e interpretação

admin Artigos 25 fevereiro 2024
Por Alê Esclapes -  A partir de três trabalhos de Freud (Projeto para uma psicologia cientifica, A interpretação dos sonhos, e Dois princípios do funcionamento mental), Bion explora os conceitos de notação e atenção. A notação seria uma palavra mais ligada a armazenamento de informações. Não gostaria nesse artigo de discutir as particularidades desse processo, mas gostaria de deixar claro o aspecto de armazenamento de uma informação que é possível a partir da percepção. Já a atenção é um ato intencional que visa utilizar o aparelho de percepção a fim de buscar algo. Esse algo pode se relacionar tanto ao mundo interno quanto ao mundo externo. Existe, portanto nesse movimento da atenção uma intenção, um desejo. É importante essa distinção, pois a notação, por si só não é fruto de um desejo, conquanto a atenção sempre o é. Aqui reside o fundamento de um importante artigo de Bion sobre memória e desejo. A memória é a atenção voltada as notações do passado, ou em outras palavras, a memória é fruto do desejo. Observe-se aqui que memória não tem uma função de arquivo, mas dinâmica. A partir desse posicionamento Bion coloca uma questão ética: pode o desejo do analista influir na análise? Cabe no enquadre aparecer outro desejo que não o do analisando? Daí a sua famosa indicação aos analistas: conduzir um tratamento sem desejo e sem memória. Memória aqui é o passado do desejo, ou em uma outra interpretação, nascem do mesmo impulso. Então, em que deveria residir a interpretação do analista? Em sua atenção? Em sua memória? Bion toma uma posição radical em relação ao tema: a interpretação deve residir sobre a notação, e não sobre a atenção ou memória. Inclui-se na memória toda a teoria que o analista dispõe sobre psicanálise, sendo que esta deve acontecer a cada sessão. Uma determinada teoria serve para explicar um determinado caso, uma determinada sessão, mas depois deve ser esquecida. Qualquer interpretação que contenha elementos teóricas, uma construção, esta contaminada com os desejos e a memória do analista. O linguajar comum, deve ter elementos suficientes para que se elabore uma interpretação baseada no que se nota no enquadre. Apesar de simples, essa questão da ética bioniana é um dos aspectos mais difíceis de sua técnica, uma vez que o analista precisa mais do que nunca estar focado no aqui e agora, imediato e mediato que ocorre entre analista e analisando, pois somente isso pode servir como elementos para notação. Exige-se uma presença do analista ao mesmo tempo que todo seu aparelho perceptual, incluindo-se aqui sua intuição, devem estar aberto para serem impressionados pelo analisando. Uma interpretação que não seja baseado nisso, não tem para Bion, valor terapêutico.

Sexualidade: um breve ensaio

admin Artigos 24 fevereiro 2024
Por Marcelo Moya -  E também aqui "há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos – nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade" S. Freud. O que a sexualidade teria a ver com cada um de nós? Como lidar com este tema que há séculos se arrasta cercado de contradições, encantos, desencantos e até de mistérios? O que sabemos e o que ainda podemos aprender sobre isso? Qual o lugar da sexualidade neste mundo contemporâneo de múltiplas faces? Ainda é um tabu ou porventura teria assumido dimensões perversas na civilização? O tema da sexualidade, mesmo com os avanços acerca de seu debate na sociedade moderna e dos resultados até agora alcançados principalmente em relação à sexualidade feminina e a homossexualidade, contudo, ainda se mantém paradoxal seja por sua amplitude, por sua abrangência ou por sua complexidade. Mas afinal, o que é sexualidade? O termo, que muitas vezes é confundido com o sexo propriamente dito ou limitado à genitalidade, é bastante amplo e com inúmeros fatores implícitos e subjetivos tais como o afeto, o contato, o gesto, os sentimentos, o desejo e o amor. Distante de uma definição absoluta, num senso comum podemos considerar a sexualidade como um conjunto de aspectos fisiológicos e simbólicos, de natureza orgânica e psíquica de uma pessoa. Tão cerceada pela ética ou pela moralidade, polêmica ou como objeto de investigação, a sexualidade é um assunto que sempre despertou interesse, haja vista que ela se encontra presente em todas as fases da vida, e sua influência abrange o ser humano como um todo desde o seu nascimento até a morte. Retratadas pelas mais variadas formas de expressão dos sentimentos humanos como por exemplo as artes e os relacionamentos interpessoais, o assunto da sexualidade ocupa na contemporaneidade um lugar de destaque, e sua relevância vem de encontro às permanentes lacunas da sociedade atual. Debruçar-se no estudo da sexualidade requer uma longa jornada, mas os primeiros passos dependem significativamente de pelo menos três fatores essenciais, a saber, compreender o lugar da sexualidade na história da civilização, passando por Freud com suas novas configurações sobre o tema e lançar um olhar atento e crítico para as grandes demandas de nosso mundo contemporâneo. “Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.”. Esta afirmação do filósofo e teólogo dinamarquês, Sören Kierkegaard (1813- 1855) justifica que a história da civilização está amplamente associada às vivências e expressões sexuais da espécie humana e associadas a fatores culturais, sociais, econômicos, éticos, morais e religiosos dentro de um contexto histórico. A sexualidade é construída historicamente desde as formas mais primitivas de vida, e foi evoluindo nos períodos posteriores da humanidade sustentando a obtenção de prazer e formação de modelos sociais como casamento e família, tendo principalmente na arte, um acervo documental de seu desenvolvimento. O filósofo e historiador Michel Foucault (1926-1984) justifica que a sexualidade é um dispositivo histórico como uma forma de experiência dinâmica dentro de uma cultura permeada de saberes, normas e subjetividades cujo objetivo é a expressão e experimentação do prazer. No entanto, foi na modernidade que a sexualidade assume novos traços na individualidade e subjetividade do sujeito. Ele também vai afirmar que a sexualidade não é o sexo e sim é um modo de ser que se incorpora a um corpo mediante as práticas dentro de uma realidade histórica, e que é ela é também resultado do sentido e do valor de cada um, de sua conduta, da série de deveres que adota, dos prazeres que conhece ou aos quais aspira, seus sentimentos, seus sonhos. Falar da sexualidade implicaria supor que,  ela assume, nas suas manifestações, formas historicamente singulares. Mas ao falar sobre sexualidade, torna-se imprescindível um percurso por Freud, sem o qual não seria possível ampliar horizontes e superar paradigmas herdados da própria história, pois foi a partir de Freud em seus estudos sobre o funcionamento das neuroses a  descoberta de que os desejos reprimidos estariam ligados a conflitos de natureza sexual dos primeiros anos de vida, e que isto seria determinante na estruturação da nossa personalidade, colocando definitivamente o tema da sexualidade no centro das principais discussões do psiquismo. Em sua obra Os Três Ensaios da Sexualidade (1905), Freud se lança a um minucioso estudo sobre os fatores sexuais ligados à etiologia das neuroses, abordando temas como a homossexualidade sob o ponto de vista da inversão sexual, bissexualidade, perversões, libido, sadismo, masoquismo, entre outros, considerando que os sintomas neuróticos surgem a partir de pulsões sexuais, chegando finalmente ao estudo da sexualidade infantil e suas respectivas fases libidinais, o que lhe custou, inclusive, um alto preço de seu prestígio até então. Em Complexo de Édipo e Castração, questões como o corpo, o desejo, as fantasias e o prazer se instalam no centro das discussões de Freud acerca sexualidade, sendo que é na criança edipiana, seja menino ou menina, as fantasias e angústias serão recalcadas emergindo a partir de então o sentimento de culpa e a moralidade, determinantes na constituição da identidade sexual do sujeito. No entanto, ao fim de suas investigações, Freud ao considerar que suas recentes descobertas acerca da sexualidade ainda eram insuficientes diante das demandas psíquicas do sofrimento humano, afirma: “E também aqui “há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos – nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade.”, deixando assim, uma porta aberta para investigações futuras e novas descobertas. Embora as obras de Freud estejam sempre entremeadas de um teor profundamente sexual, foi em suas obras sociológicas na aurora de sua vida como por exemplo Totem e Tabu, que temas como o incesto e a repressão sexual volta a se tornar central e determinante para descrever o sentido e a compreensão dos sintomas e sofrimentos da civilização humana no decorrer de seu desenvolvimento. E é a partir das concepções psicanalíticas de Freud que chegamos no contexto contemporâneo onde o conceito de sexualidade assume novos formatos, tendo na busca de prazer e descoberta das novas sensações o intuito de obter satisfação plena, deixando de se sujeitar apenas a fatores biológicos dos desejos do corpo, para se aliar às novas configurações sócio culturais da pós modernidade. O tema da sexualidade assumiu um lugar de destaque no mundo contemporâneo, se tornado objeto de debates, questionamentos e pesquisa. O indivíduo tem sido intensa e constantemente estimulado a buscar novas experiências de obtenção de prazer. Novos canais de estímulo sexual surgem a partir dos formatos midiáticos de exploração visual que alimentam, por exemplo, o culto e exposição do corpo, cenário notoriamente provocador de sensualidades. O contexto contemporâneo se tornou bastante apropriado para buscar novas reflexões acerca da compreensão e aceitação da sexualidade, seja de maneira individual ou coletiva, com objetivo de ajudar o sujeito a superar suas dúvidas e tabus, aprender a lidar de maneira saudável com os próprios desejos e sensações e de se evitar assim o surgimento ou aumento dos próprios conflitos de origem sexual, proporcionando o amadurecimento  da sociedade em torno dos temas mais latentes com a sexualidade feminina, a homossexualidade e a bissexualidade. Portanto, sexualidade é um tema que não se esgota e um diálogo com a história, com Freud e com o mundo moderno permite uma análise crítica e de reflexão acerca das novas formas do sujeito se relacionar consigo mesmo e com o outro a partir de seus desejos influenciados pelo narcisismo da pós modernidade. A sexualidade é um traço marcante da construção da identidade cultural. O sociólogo Gilberto Freyre (1900–1987), por exemplo, coloca o tema da sexualidade no centro da formação histórica e social do país, e afirma que a sexualidade contribuiu para a construção cultural ou seja, faz parte da própria essência do povo. Finalizando, certa vez haviam quatro filhos cuja mãe se chamava Afrodite, que representava as diversas formas de amar. Eram companheiros constantes da deusa, sempre retratados ao seu lado. O primeiro se chamava Eros, o deus do amor inconsequente, da união, da afinidade que inspira ou produz simpatia entre os seres, para os unir em outras procriações. O segundo, Anteros, oposto ao primeiro, era o deus da desilusão, da manipulação, do amor não-correspondido da antipatia, da aversão, que desune, separa, desagrega, o terceiro se chamava Himeros, o deus do desejo sexual e o último, Pothos, o deus das paixões. Mitos que nos apontam a força propulsora da sexualidade nas relações interpessoais e seu lugar essencial no desenvolvimento e valorização do ser humano. É por essa razão, entre tantas outras, que compreender a sexualidade é compreender a própria a vida. Como disse certa vez o romancista francês Boris Vian (1920-1959), “sexualmente, quer dizer, com a minha alma.”  Sugestões Bibliográficas: FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, volumes I e II. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988. FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Porto Alegre: L&PM Editores, 2012. LANGER, Maire. Maternidade e sexo. Porto Alegre: Artes médicas, 1986. NASIO, J.D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa.  Rio de Janeiro: Zahar, 2007. STEARNS, Peter. História da Sexualidade. São Paulo: Editora Contexto, 2010. 

O processo analítico à luz do pensamento tibetano sobre o viver e o morrer

admin Artigos 24 fevereiro 2024
Por Márcia Velo Barros -  Um dia desses, procurando algumas ideias na internet, me deparei com o intrigante texto “Autobiografia em Cinco Capítulos” de Sogyal Rinpoche2. Ele me chamou a atenção e, então, questionei-me o quanto ele se parece com o processo analítico.Aqui escrevo-o na integra: Biografia em Cinco Capítulos: Capítulo 1. Ando pela rua.Há um buraco fundo na calçada.Eu caio...Estou perdido... sem esperança.Não é culpa minha.Leva uma eternidade para encontrar a saída.  Capítulo 2. Ando pela mesma rua.Há um buraco fundo na calçada.Mas finjo não vê-lo.Caio nele de novo.Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.Mas não é culpa minha.Ainda assim leva um tempão para sair. Capítulo 3. Ando pela mesma rua.Há um buraco fundo na calçada.Vejo que ele ali está. Ainda assim caio... é um hábito.Meus olhos se abrem.Sei onde estou.É minha culpa.Saio imediatamente. Capítulo 4. Ando pela mesma rua.Há um buraco fundo na calçada.Dou a volta. Capítulo 5. Ando por outra rua. Pensa-se o processo analítico como aquele no qual é possível, dada a condição psíquica de cada analisando, uma aproximação do caminho que se segue, das expectativas que se tem quanto às realidades, externa e psíquica, para uma abertura à questionamentos e, como bem dizia Wilfred Bion, para uma possível transformação. Quanto mais abertos estivermos para uma intima aproximação de nossa verdade, e quanto mais sinceros pudermos ser conosco mesmos, mais teremos a chance de nos desenvolver psíquica e emocionalmente. Está aí um grande desafio, porém muito intrigante e curioso. A transformação humana não depende das pessoas à volta, não depende do analista, mas sim do próprio sujeito que é senhor em sua casa e livre para fazer as próprias escolhas, trilhar os caminhos que quiser e puder. O processo analítico, para se desenvolver, depende de que o analisando tome contato consigo mesmo para que possa perceber suas responsabilidades, questionar sua direção, seus pensamentos rígidos, suas expectativas e fantasias. Isso não é algo que o analista lhe entrega pronto, mas sim algo construído na relação analítica com cuidado pela dupla. Diante do texto podemos ver que conforme o sujeito aproxima o olhar para seu movimento repetitivo, pode questionar-se cada vez mais, pode responsabilizar-se por repetir na mesma dor de cair no (mesmo) buraco, até que possa ir buscando outras alternativas mais saudáveis, adaptando-se ao que a realidade impõe. O buraco ali é algo que ele não controla, é algo que ele não pode mudar, mas seu rumo sim, esse sim ele pode transformar. Deixar de repetir antigos hábitos destrutivos e dolorosos não é responsabilidade de ninguém mais que do próprio sujeito. Portanto, com um processo analítico o sujeito tem a chance de, questionando-se, tentar andar por outra rua, buscar outro caminho, novos horizontes, novo olhar, talvez mais leve, mais livre, e próprio. Não digo que seja algo poético e fácil. Não!! Ninguém nesse mundo tem condições de prometer o paraíso, mas é algo possível e transformador.

Algumas considerações clínicas sobre os autores pós- kleinianos

admin Artigos 23 fevereiro 2024
Por Andreia Rodrigues dos Santos -  H. S. em seu trabalho demonstra que existem aspectos depressivos na esquizofrenia. Dentro da posição esquizoparanóide, pode haver um núcleo depressivo que é atingindo pelas interpretações das ansiedades persecutórias e seus mecanismos de defesa. O acesso a P.D. é momentâneo e cíclico. O núcleo depressivo muitas vezes é projetado via Identificação projetiva (I.P.) para o analista e é através da contratransferência produzida. E o analista através do uso da contratransferência vai ser capaz de formular suas interpretações. H. S. faz suas interpretações na P. S. = usando objetos parciais e P. D. usando objetos totais. Ela não discuti, ela informa o que ocorre, cobre o vazio fazendo uso concreto da palavra. Usa a fala como coisa em si, e não algo portador de um significado (cobre o vazio da sessão). Equação simbólica = não há separação entre o entre o sujeito e o objeto e há a I. P. – símbolo no lugar do objeto – formação de objetos na esquizofrenia. Beth Joseph diz que a I. P. é um mecanismo de defesa do Ego, resultado de uma estrutura ou faz parte de uma estrutura, Existe um ponto de equilíbrio nas defesas do Ego do ponto de vista Kleiniano, a saber: - a onipotência, -cisão (ou dissociação). – idealização, - I. P. . I.P. = Sistema de defesa contra inveja/dependência, tentativa de apagar a diferença entre o Eu e o outro (ataque ao outro), eu narcísico. Na I. P. há descarga, não há trabalho no pensar, é uma evacuação mental. São defesas impiedosas em relação ao objeto. Defesas menos arcaicas (P.D.) há par eu e tu bem estabelecido, dai a I. P. como comunicação. Na I. P. uma das consequências é o horror a diferença entre o eu o outro. Na clinica o analista é o receptor de todas essas projeções, analista não vai saber a diferença entre ele e o paciente, mas num determinado momento o que se espera é que o analista possa assumir o posição de observador (o terceiro Édipo) e sair da posição da identificação e poder olhar a situação apenas como observador e a partir desse lugar ele poderá formular a sua interpretação. Analista precisa nessas relações de objeto na pratica clinica, saber o que ele esta recebendo da I. P. , que lugar ele esta ocupando e poder a partir dai transformar esse conhecimento num interpretação para o paciente. Explico esse dois autores juntos para fazer uma abordagem teórica e clinica da contratransferência. Irma B. Pick = contratransferência e suas explicações clinicas – ela faz um levantamento de quadros sobre a contratransferência bem como suas implicações clinicas. O Inter jogo entre os modelos para o entendimento da mente (P. S. e P. D.) e a I. P. .Roger Money – Kyrle = Contratransferência : Roger divide com Paula Heimam o reconhecimento no meio psicanalítico de ter postulado o conceito de que a causa da contratransferência é um processo ativo do paciente em relação ao analista. Esse conceito foi fundamental para Bion colocar a I. P. como um processo de comunicação na contratransferência.Contratransferência normal: situação onde o paciente transfere para seu analista na I.P. partes excindidas de seu self que por uma propriedade chamada de empatia, esse analista re-conhece (nele mesmo) e interpreta a situação a seu paciente. Contratransferência patológica: sair da situação clinica como observador, ou seja, ele não consegue re-conhecer, ele não consegue ir para o lugar do observador, dai ele passa a atuar na transferência e não a interpretar a transferência. Isso acontece 1) Partes do analista na P. D. o analista se coloca no lugar daquele que vai reparar onipotentemente seu paciente e na P. S. a transferência tem caráter persecutório (analista vê o paciente como um objeto que o persegue, calunia (contratransferência sádica). 2) Analista no lugar de pai/mãe que impediria que o paciente possa elaborar a situação entre ele e seus objetos internos que representam seus pais. 3) Fracasso (sensação) diante do paciente, uma sensação de não melhora. Profundo sentimento de culpa gerada pelo superego analítico. O analista precisa fazer a I. P. de partes de seu próprio self, precisa dar conta de sua ansiedade. Analista precisa re-conhecer o que é dele e o que é do paciente = identifica, reconhece e interpreta. A interpretação, tanto para o paciente quanto para o analista é temida. Por isso é preciso ter ética e bom senso. Usar a I. P. com inteligência e saber suportar a angustia analítica do não saber. Edna vai falar de uma questão de uma cisão na personalidade onde partes do self onde está guardado o Édipo e Castração esta cindido e difundido contra tudo e todos (self) protegido. O núcleo do Complexo de Édipo é o que aproxima as pessoas – melhor antidoto contra o narcisismo puro e simples. Manter esse self é importante porque ele é uma esperança de se ligar ao outro. Alguns sentimentos continuam preservando na clinica e tem como raiz o édipo com : exclusão (angustia de exclusão) Separação (angustia de separação)Estar só na presença do outro ou do par edípicoCisão sexual Par edípico Pai/Mãe e filho = filho percebe que o pai e mãe formam um casal e fazem coisas das quais ele não participa e que essa atividade tem a ver com sexo e com formação de novos bebes; então o mundo dessa criança é separado em dois. Nesta posição nova ele esta excluído. Ele percebe que não pertence aquela geração – há a percepção da transgeracionalidade. Rosenfeid trabalha a questão de como a pulsão de morte pode a partir de um processo de cisão do self criar uma entidade clinica chamada de gangue narcisista. Organização narcísica – no ego e no ID, na formação do superego há uma defusão das pulsões de vida, do erotismo. Defusão: pulsão de vida e pulsão de morte são defundidas na formação do superego. Com a pulsão de morte livre no sistema, se desenvolve um self (selves – dentro de um self podem existir outros selfs), este self estabelece uma relação narcísica com o self libidinal (pulsão de vida). Uma das facetas da RTN é causada por essa organização narcísica que por meio de uma promessa de plenitude ou por meio de ameaças subjuga essa self libidinal de forma a atrapalhar o andamento da analise. Em uma analise, analista faz com que o individuo saia da sua organização (de seu narcisismo) e possa contemplar de uma vida onde existe um outro separado de si. Isso vai contra a organização narcísica que quer a dependência com esse outro. O reino da inveja que ganha uma organização – um self que pode se comunicar (um ser dentro de outro ser), que pode ter vida própria. Não há fusão da pulsão de vida com a pulsão de morte, dai uma parte da pulsão de morte acaba não sendo fundida com nenhum outro processo e esta parte não fundida começa a criar um self separado, chamado de gangue narcisista. Esse self subjuga o self libidinal e forma uma relação patológica enviando para o meio ambiente via I.P. – inveja ganha uma organização própria. A organização narcísica é uma defesa contra o sentimento de inveja que é o medo da dependência. A inveja( medo de depender de ) tende a eliminar qualquer relação objetal. O caso que apresento de onde eu tirei algumas conclusões seque abaixo, é um caso do aluno Marcos Campelli apresentado em supervisão. Paciente homem, 47 anos, vive sozinho. Teve um relacionamento, mas não chegou a casar-se. Separou-se e arrumou outra namorada 16 anos mais nova a qual, após separar-se, não consegue “tirar da cabeça”. Quando pequeno, viveu adotado por parentes e hoje vive de negócios deixados como herança. A: Boa tarde; o que temos para hoje? P: Nesta semana, acabei mandando um e-mail para ela [a ex-namorada]. Essa questão romântica, meio, sei lá, fora de hora... Eu sei o quanto ela não gosta, sei o quanto. ela.. Talvez seja uma coisa até chata e aborrecedora pra ela. E sei disso porque acontece comigo. Tem uma mulher que, não sei por que cargas d'água começou a tentar entrar em contato comigo. Eu fui muito polido no começo, bem delicado e educado com ela, e depois disse “olha, não tenho interesse nenhum”. E ela tem um relacionamento, tá namorando ou tá casada, eu nem quis saber direito, realmente não me interessou saber. E aí eu fiz esse paralelo entre essas duas situações. Eu vi o quanto esse tipo de interação chateia e aborrece, mesmo. Você ficar recebendo assim eventualmente “ó, bom, dia, não sei o quê, e tal...”. “Não é de ti que eu gostaria de receber bom dia”, não sei se é isso que me irrita ou se tem algum outro motivo, mas eu vejo que é uma interação forçada e insistente. Falei outro dia com certa veemência [com essa mulher], e pensei “ah, agora ela vai parar de insistir”. Mas agora ela retomou, a pouco tempo, começou a me procurar de novo. E aí eu faço esse paralelo, sei o quanto isso é irritante e chato. Por isso eu me sinto extremamente mal, pelo fato de eu ter mandado o e-mail, o fato de eu ter insistido e procurado a [ex-namorada] várias vezes, sabendo que ela não tinha vontade nenhuma disso. Eu não sei como me comportar. Um ano depois que tínhamos separado eu a procurei, ia com frequência na casa da mãe dela quando ela não estava, mas houve 2 ou 3 vezes que ela estava e não saiu do quarto, não interagiu comigo de forma alguma, daí remontei à isso de ela realmente não querer falar comigo, por isso que eu me sinto assim... Não a tenho encontrado, não a tenho visto. Às vezes a vejo em alguma foto. Na academia que frequento, ela também vai em outro horário, e eu sou amigo do dono e lá outro dia eles tiraram fotos e eu a vi nas fotos. Eu a bloqueei no FB, achei por bem já que ela havia me bloqueado. Quero crer que fiz isso por salvaguarda, quanto menos eu a vejo, menos eu sinto. E tenho tido algumas recaídas. Mas, a coisa tem seguido bem, eu creio, tem sido melhor, não tenho sofrido tanto quanto antes. Ah, aconteceu ontem À noite: vi uma notícia na TV, e comecei a chorar copiosamente, algo mexeu comigo e eu não sabia por quê. Era um caso de abandono, ou de criança, não lembro direito. Mas eu lembro que chorei copiosamente, de molhar o chão e ter que passar pano... Explosão de sentimento, mesmo. Não me lembro exatamente o que desencadeou, foi no Jornal Nacional. Seria bom se eu lembrasse com exatidão, mas, não lembro. A: Mas, foi num telejornal, então? P: Sim. E é difícil lidar com isso. A: E você se deixava afetar em situações semelhantes também enquanto namorava? P: Sim, mas... Acho que aí era sobre quando era notícia envolvendo morte e criança. A: Me parece que houve dois momentos importantes: um no qual você deu um “gelo” numa mulher que não tem interesse, e comparou seu sentimento em relação à essa mulher, com um sentimento que você acha que sua ex-namorada tem em relação à você – incômodo, chatice; e outro no qual, através de um veículo de informação, você recebeu uma informação a mais a respeito de si mesmo: “criança abandonada”.(Falou em seguida sobre gostar muito da ex por causa da aparência física, ele a considera muito bonita, mas no plano das ideias, não batem; e falou pedindo desculpas, disse que acha a mulher que ora o assedia muito feia, além de estar enrolada, e há outra mulher na academia com quem está estreitando algum relacionamento, com flertezinho, trocas de olhares, curtidas em FB, mas não consegue desgarrar-se do que sente pela ex, e ele mesmo confessa que vai “encontrar algum motivo para que isso não vá para frente porque gosto de gostar da ex”. Falou que conheceu uma Argentina via Internet, por quem encantou-se pela imagem, usou o termo “platônico”, interessaria conhecer mas mora a 110 quilômetros... Outra em Santa Catarina, mas interação foi muito formal e polida). A: Me parece que recursos para conhecer pessoas, não lhe falta? P: Sim. Mas ainda gosto da imagem corporal, física da [ex-namorada]. Quanto às outras, tem essa questão geográfica que me chateia. A: E esse e-mail que você escreveu, você teve retorno? (hipótese: você foi informado sobre o que sua ex-namorada pensa, ou você está fantasiando o que ela possa estar pensando, e sofre com essa fantasia?) 22:30 P: Escrevi anteontem. Não recebi retorno. A motivação primordial que me levou a escrever esse e-mail, na verdade, foi porque eu me lembrei de uma outra mulher com quem namorei na minha adolescência e com quem tive um breve encontro entre um ínterim no relacionamento com a [ex-namorada]. Então, escrevi um primeiro e-mail (para essa outra mulher), e acabei escrevendo um segundo e-mail para a [ex-namorada]. Eu gosto de escrever, de falar, de expressar alguma coisa, e não tenho para quem expressar isso. Mesmo que ela delete/exclua, ao menos enviei. E tem uma coisa que eu queria te perguntar: tem vários e-mails que eu escrevi para ela, o que que eu devo fazer com isso? A: Qual o ganho que você tem tido ao manter esses e-mails, e qual o ganho você terá ao apagá-los? P: eu os mantenho porque foram tão bem escritos, e de forma tão carinhosa... Me chateou muito quando apaguei fotos, eu me arrependo. Por isso que eu não quero deletar esses e-mails. Eu tinha uma pilha grande de cartas da época de adolescência e faculdade, e não sei por que cargas d'água eu as queimei. Não que isso me faça falta, mas eu gostaria de ter conservado.(Paciente em seguida mostrou tatuagem que fez com as iniciais de seu nome, duas das quais coincidem com o do nome da ex-namorada, no lado interno do calcanhar esquerdo. Hipótese: paciente gosta de quem é e vê gratificação nestas cartas e e-mails, e conservando essa “beleza” pode fortalecê-lo para próximos relacionamentos? Ou não consegue superar o luto?). 35 P: Eu não sinto que uso isso para me penitenciar. Eu me lembro muitas vezes do sufocamento que aqueles sentimentos me provocavam [quando escrevia cada carta]. Consigo ver aquilo como um alicerce para uma coisa melhor que aconteceu depois. Passou, foi suportado e transpus. Essas cartas ainda estão carregadas de sentimento forte, mas acho que com o tempo me ajudarão como as outras me ajudaram. Eu te perguntei se deveria descartá-los, mas, acho que na verdade eu quero mantê-las. Acho que as próprias sentenças que eu uso ao escrever, vejo uma identidade pessoal minha ali... Não é algo que escrevi num afã de momento, de desespero, são coisas que me orgulho de ter escrito. Antes eu tentava buscar um estilo mais coloquial, porque achava que o interlocutor pensasse ser muito rebuscada a forma que eu gosto de escrever, mas... Sabe, quando me separei da minha ex-esposa, seguimos nos comunicando por e-mail e telefone, então, escrevíamos muito. Eu não queria que ela passasse por constrangimento desnecessário. Mas, voltando à situação aqui, a [ex-namorada] tem uma tatuagem que diz “que céu poderá satisfazer teu desejo de céu?”. É um extrato de uma frase de Manuel Bandeira do poema “A Morte Absoluta”, eu até cogitei tatuar a mesma frase, mas... Achei que ela não gostasse desse “plágio”, ela pudesse sentir como uma ideia roubada, ou sei á o quê... E é um poema triste, fala sobre a gente sumir desaparecer de forma que ninguém mais se lembre da gente, e que me faz pensar. Daí tatuei as iniciais porque isso na verdade remete à ela.A: Teu desejo “de” céu, e não “do” céu, é isso? P: Isso. A: Humm, então, esse céu é indefinido. Por quê tem que ser um céu específico? Se esse céu está nublado, por quê não outros? P: É que eu queria um céu que me fizesse sentir o mesmo. Quando a vi pela primeira vez, não consegui olhar para mais ninguém, nem me lembro das pessoas que estavam perto. Foi desde o primeiro momento que tive só olhos para ela, eu não sabia o por quê, e eu sou extremamente tímido, mas tinha que ser ela... Eu acho chato e deprimente chegar e falar alguma besteira para abordar alguém, gosto da troca de olhares... O mesmo que sinto quando a vejo atravessando a rua, como na semana passada. Essa vontade grande, enorme de ir lá e abraçá-la, cobri-las de beijos... Aleluia ela não ter ido mais nos outros lugares que frequento, porque quando a vejo, esse desejo vem. Sei lá. Me sinto meio tarado... Mas não é tanto sexual quanto carinhosa, afetiva... E sempre foi assim. A: O impacto daquele sol radiante do primeiro momento ainda é profundo, mesmo que o tempo tenha mudado. P: E sinto que não vai mais acontecer. Por isso que busquei a terapia, queria aprender a lidar com isso. Já me ajudou bastante, tem coisas que eu não conseguia caminhar antes, e agradeço bastante por estar conseguindo passar melhor por este tipo de situação. A: Nosso tempo se esgotou. Você trouxe para a sessão de hoje que tem qualidades as quais considera que lhe são caras, nas quais você se reconhece, e que tem prazer ao expressá-las. Trouxe também que dispõe de meios para conhecer pessoas e fazer os seus testes. E você trouxe também que sente que vem fazendo progressos. Esses progressos, o que são? Seriam do tipo “deixei de sentir coisas”, ou do tipo “ainda sinto coisas, mas passei a escolher melhor o que fazer daquilo que sinto”? Nos vemos na semana que vem! O que conclui com a pouca pratica que possuo é que o paciente não consegue elaborar ligações afetivas sem que haja a possibilidade do abandono (ele precisa ser abandonado e trabalha para isso em seus relacionamentos – repetição). Como I.P. paciente chora ao ver passar na TV a historia da menina abandonada. Isso desperta nele o Édipo, do abandono da mãe. Ao mesmo tempo em que, ele não consegue abandonar as lembranças (e-mails) que tem de seus relacionamentos, pois esses reforçam o seu abandono.

Psicanálise e Zen-Budismo

admin Artigos 23 fevereiro 2024
Por Alê Esclapes -  O trabalho desenvolvido por Bion pode ser dividido em três ou quatro fazes, variando de acordo com o estudioso. Em uma primeira fase Bion vai de debruçar sobre as questões kleinianas de identificação projetiva e o pensamento esquizofrênico. Em uma segunda fase Bion mantém o seu objeto de estudo, mas muda o seu enfoque, se tornando mais “bioniano” que “kleiniano”, ainda que todos os elementos desse possam ser vislumbrados sem nenhuma dificuldade naquele. Uma tentativa de sistematização quase que matemática (o que lembra Lacan) da psicanálise é tentada por Bion.  Numa terceira fase, mais amadurecida e já ciente que essa tentativa não teria o sucesso pretendido, Bion vai abandonando lentamente o modelo matemático. Em uma quarta fase Bion se mostra mais “místico”, mais “holístico” em suas proposições. Não se deve aqui de forma alguma confundir o termo místico com modas e tendências da “nova era”. Bion vai encontrar algumas respostas a suas perguntas em São João da Cruz e Santa Edith Stein. Outro pensamento que sempre permeou o seu trabalho foi o pensamento Zen Budista, sendo nesse último que pretendo escrever, ou melhor dizendo, falar sobre onde podemos encontrar elementos Zen Budistas no pensamento de Bion. Os limites desses artigos se encontram primeiramente na não especialização do autor sobre Zen Budismo, tendo apenas estudos iniciais sobre o tema. O segundo se trata de identificar o que Bion queria dizer (sobre psicanálise) em sua última fase, que por ser mística, é motivo de diversas interpretações. Os artigos, portanto, são no máximo um exercício sobre as obras de Bion e do Zen Budismo, e não pretendem ser muito mais que isso. Nessa série de artigos será tratado um único texto do Zen Budismo – os preceitos budistas de acordo com Bodidharma ou Bodaidaruma, considerado o primeiro grande mestre do Zen budismo. Esse texto trata do juramento que o praticante faz para se tornar um “seguidor” oficial do Zen Budismo, ou “preceituado”. Em uma cerimônia especifica o praticante faz um juramento e recebe o seu nome budista. Maiores informações podem ser conseguidas no site do Zendo Brasil – www.zendobrasil.com.br . Segue abaixo o texto a ser trabalhado nessa série de artigos: Preceitos budistas de acordo com a escola Soto Zen do Japão. “Receber é transmitir,Transmitir é despertar,E despertar para a mente Buda,É o verdadeiro Jukai.” A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No eterno Darma, não surgir o ponto de vista da extinção,É chamado não matar. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma que não pode ser apanhado, não surgir o pensamento de ganho,É chamado não roubar. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma do não-apego, não surgir o ponto de vista do apego,É chamado não ser ganancioso. A natureza própria inconcebivelmente  maravilhosa,No inexplicável Darma, não expor uma palavra,É chamado não mentir. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma intrinsecamente puro, não surgir ignorância,É o chamado não ficar intoxicado. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma sem faltas, não falar sobre erros e faltas,É não falar sobre erros e faltas. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma da equinimidade, não falar do eu e dos outros,É chamado de não se rebaixar nem se elevar aos outros. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma genuíno que está em toda a parte, não pegar uma coisa,É chamado de não ser avarento. A natureza própria inconcebivelmente  maravilhosa,No Darma do não-eu, não conceber uma realidade do eu,É chamado de não ser dominado pela raiva. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,Não surgir a distinção de Budas e dos seres,É chamado não falar mal dos Três Tesouros. Bodaidaruma Daiossho(Tradução do texto em inglês de Maezumi Roshi pela Moja Coen Roshi).

Uma breve abordagem sobre os autores pós-kleinianos

admin Artigos 22 fevereiro 2024
Por Yuri Moreira Avallone -  O objetivo deste trabalho é fazer uma leve abordagem do material trabalhado nos estudos sobre os Pós kleinianos, vamos tratar aqui apenas de partes dos artigos e não estes como um todo. Começando por Hanna Segal, dentro do artigo “Depressão no esquizofrênico”... ...ela nos traz entre outras abordagens uma que me chamou mais a atenção, Hanna Segal não interfere na sessão, não se envolve, fica sempre na sua posição de observadora, quer o paciente destrua seu consultório ou permaneça  calado, e é sobre esse silêncio que trataremos. Em alguns casos a fala do analista é levada pelo silêncio do paciente, esse silêncio algumas vezes causa na sessão um vazio, que pode parecer insuportável, e muitas vezes a fala do analista entra apenas para acabar com essa angústia. O analista deve suportar esse silêncio e o vazio trazido na sessão, pois esse vácuo pode ser no sentido de mostrar algo que está dentro do paciente, e quando é interrompido pelo analista impede que algo se manifeste.   Trouxe dois casos que pude presenciar como ouvinte de supervisão, dos quais não entrarei em detalhes além do necessário para exemplificar o conteúdo do artigo tratado acima. Vamos ao primeiro, na supervisão do dia 15/08/16 às 19:10 o colega M. C. trouxe o caso de uma jovem de poucas palavras que falava o mínimo e se calava, permanecendo um silêncio sepulcral no setting; o analista por sua vez não suportado esse silêncio acabou por dirigir a análise por intermédio de perguntas que levou a paciente por uma direção onde ele tinha o desejo de ajudar, aliviando assim sua angústia (do analista).  O caro colega por não suportar esse silêncio pôs a perder a livre associação. No segundo caso ocorrido na supervisão do dia 18/08/16 às 21:10, o colega L. foi convidado a falar e citou um caso em que o paciente falava muito pouco, tendo grandes intervalos de silêncio, o analista conseguiu suportar esse silêncio, controlou suas angústias de ter que falar algo para preencher o vazio criado na sessão. Ao terminar a sessão o paciente pediu para usar o banheiro, e quando saiu, em tom de riso falou ao analista, “ACABEI COM SEU SABONETE“, realmente ele tinha usado metade do frasco. O fato do colega ter suportado a angústia do silêncio mexeu com o paciente, na atitude de jogar o sabonete houve uma transferência. Continuando com Hanna Segal, vamos falar sobre o artigo “Equações simbólicas”, onde o símbolo tem aspecto concreto, porque ele não está no lugar de algo, ele é algo. Ela nos traz que em algum momento não há separação entre sujeito e objeto, o símbolo não pode ser tratado como algo que está no lugar do objeto, mas sim como o próprio objeto. Temos aqui a diferença entre concretude e simbolização; para trazer mais luz ao artigo, ela nos dá o exemplo de um paciente, que para ele, tocar violino é a mesma coisa que se masturbar. Isso é típico da posição esquizoparanóide, principalmente pelo uso da identificação projetiva; conforme o sujeito caminha para a posição depressiva essa concretude vai dando lugar a simbolização, havendo a separação do sujeito e objeto. Falaremos a seguir um pouco sobre os artigos de Betty Joseph, começando pelo artigo “Identificação Projetiva” ela nos diz que existe um ponto de equilíbrio nas diversas defesas do ego, a cisão, a idealização, a identificação projetiva. Se você mexer em um desses pontos acaba por mexer num todo, pode mexer na cisão e ter uma consequência no narcisismo e ou na onipotência e assim por diante. Neste artigo ela também nos traz que o paciente através da identificação projetiva envia para dentro do analista partes do self, atacando a própria percepção do outro, anulando o analista, não existe eu-outro e sim apena eu. Em seu artigo Betty Joseph nos traz um caso em que toda interpretação que fazia, o paciente dissolvia essa interpretação em pedaços, rearranjava da forma que lhe convinha e tomava essa interpretação como se fosse dele, como resultado disso em seu mundo de fantasia ele anula o analista, tirando-lhe toda a importância, isso é uma forte defesa contra a inveja. Ela também nos traz a identificação projetiva como comunicação do paciente para o analista, no caso do paciente N, durante uma sessão a analista começou a sentir desespero, e de repente toda a sessão mudou e houve progresso; esse desespero que sentiu não era dela e sim do paciente que estava lhe atacando com suas desesperanças, mas se ela não estivesse preparada para receber essa desesperança, se não soubesse o que fazer com essa desesperança, provavelmente fracassaria, é de extrema importância que o analista suporte essa dor, não entre em desespero e mantenha-se em sua posição. Entra aqui mais uma vez a importância do analista ser bem analisado, porque o analista mal analisado não vai conseguir separar o que é dele e o que é do outro e vai fracassar. Continuando com Betty Joseph no artigo “O paciente de difícil acesso”. Vou tentar conceituar aqui o paciente de difícil acesso,  este perfil de paciente sempre divide a personalidade em duas, uma chamada de necessitada, que é a que o analista deve procurar atingir com suas interpretações e está muito bem escondida nesse tipo de paciente, mas o analista vai ter que acessar para que a sessão tenha um bom desenvolvimento. A segunda parte da personalidade é chamada de não colaborativa que é a que o inconsciente apresenta ao analista para tentar sabotar a sessão, então temos no mesmo paciente o self 1 e o self 2, quando o segundo self está presente acaba gerando uma confusão mental no analista. Betty Joseph nos traz algumas situações de pacientes de difícil acesso. Uma das situações é quando a sessão aparentemente fica muito fácil, confortável para ambos, o analista deve ficar atento a isso porque não existe análise sem conflito, se isso estiver acontecendo podemos dizer que há um conluio entre ambos, quando está muito fácil estamos nos relacionando com uma parte não colaborativa do self. Betty nos traz a intelectualização da sessão, e o analista pode perceber que a sessão está intelectualizada quando está falando sobre o paciente e não ao paciente, a fala do analista segue num sentido que não está atingindo os sentimentos do paciente. Há também o paciente que sutilmente manipula a sessão chamando a atenção do analista para uma área que deseja, notei um essa situação num caso trazido para a supervisão pela colega M. S no dia 07/07/16 20:00, onde a paciente tentou seduzir a analista, lágrimas nos olhos, lamentos  levando-a para onde queria, a analista chegou a ficar penalizada com isso. Citei aqui apenas as que me chamaram mais atenção, mas existem outras situações em pacientes de difícil acesso.   “Transferência: a situação total” Betty Joseph. Neste artigo ela nos chama a atenção para a transferência como descreveu Melanie Klein em seu artigo “As origens da transferência” – “É minha experiência que, para se esclarecer os detalhes da transferência, é essencial que se pense em termos de situações totais transferidas para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações objetais.” A autora diz que na situação clínica o analista deve prestar atenção nas emoções revividas pelo paciente na transferência, para poder identificar o que se repete, e também deve ficar muito atento às suas próprias emoções na contratransferência, que podem indicar algo em relação aos sentimentos de seu paciente, ou seja, estar atento a situação total. Da supervisão vou trazer apena um comentário feito à analista pelo supervisor no dia 11/07/16 às 19:20 “ A pepita de ouro numa sessão é o que acontece entre analista e paciente.” Dando continuidade a Betty Joseph citaremos o artigo “A inveja na vida cotidiana”. A inveja envolve basicamente duas pessoas, e inveja-se o que a outra pessoa possui, suas qualidades, conquistas, capacidades. Neste artigo a autora vai nos chamar a atenção para o sentimento de inveja dentro da sessão. Dentro do setting, quando o paciente percebe que o analista pode ou o está ajudando, esse sentimento aparece, (porque a inveja tem horror a dependência) se manifesta de várias formas: destruir no outro o que eu não tenho, o paciente tenta fazer o analista acreditar que suas interpretações não significam nada, são inúteis, e que o analista não é bom e está ali a toa. Outra situação é a reação terapêutica negativa onde o paciente tende a piorar, porque piorando ele quer dizer que o analista não tem capacidade nenhuma. No caso trazido pelo colega L.R. na supervisão do dia 07/07/16 às 21:25, a paciente falava pelos cotovelos, tomando todo o tempo da sessão dando pouco espaço para o analista interpretar, e quando esse o fazia ela não acatava suas interpretações, a paciente demonstrou sentir angústia de castração, e tentou durante toda a seção mostrar para o analista que ele também é um castrado e que não pode ajuda-la. Vamos falar a seguir de Roger Money-Kyrle e Irma B. Pick sucessivamente; Roger Money trouxe o artigo de 1955 “Contratransferência normal e alguns de seus desvios” neste material Roger nos diz que “pois é somente porque o analista pode reconhecer no paciente seu self inicial já analisado que ele pode analisar o paciente” para ilustrar um pouco cito um uma questão trazida pelo supervisor na supervisão do dia 25/08/16, a colega A. R. comentou com o grupo que tem dificuldades para encontrar o que está por trás do discurso do paciente, dúvida que muitos dos colegas afirmaram ter, a explicação veio na forma de pergunta. “Qual o sabor da laranja?” Além de ser uma resposta muito subjetiva, o sujeito só vai reconhecer o sabor da laranja após ter provado uma; quer dizer, o analista só reconhecer a angústia do paciente se já a tiver conhecido. É de fundamental importância para o analista conduzir uma boa sessão que sua análise pessoal esteja em dia. Neste artigo vimos que na contratransferência normal, o paciente faz a identificação projetiva e o analista se identifica, mas consegue sair da situação clínica e ir para a situação de observador para poder interpretar essa transferência; na transferência patológica o analista fica preso na situação clínica e não consegue interpretar. Roger nos traz duas situações que complicam a vida do analista na sessão, em uma delas o analista fica preso na situação clínica e a contratransferência pode ser de cunho esquizoparanóide, onde ele acredita que o paciente o calúnia, o persegue e quer mostrar sua ignorância, ou depressivo onde o analista se coloca no lugar onipotente do reparador. A segunda situação que nos é trazida é a do fracasso, onde o analista se sente fracassado por uma não melhora de seu paciente. Contratransferência é tudo aquilo que é gerado ao analista pelo paciente, o analista tem que saber o que fazer com esse sentimento, tem que sair da identificação, reconhecer a transferência ou contratransferência e separar o que é dele e o que é do paciente. Na supervisão do dia 29/08/16  às 19:15 a colega M.T.S. trouxe um caso onde a paciente reclamava que os pais a oprimiam e manipulavam, casou-se para sair da casa dos pais mas o marido também a controlava, agora namora uma mulher que também a controla, a analista se identificou com a situação e se colocou como o falo para a paciente, não conseguiu sair e se colocar em posição de observadora, ficou presa na situação clínica. Continuando com a contratransferência patológica temos a seguir um artigo de Irma Brenman Pick  “Elaboração na contratransferência” 1985, o qual nos traz mais situações que ocorrem na clínica, Irmã compartilha da mesma opinião de Strachey que diz, “a interpretação é algo que tanto o paciente como o analista temem”. Ela também nos diz que a vivência no setting é necessária, e o analista não pode acolher essa vivência sem senti-la, vivencia-la, e é justamente aí que entra o temor, pois é difícil sair da situação clínica e se colocar na posição de observador, e quando consegue estar fora da situação clínica para fazer sua elaboração, tem que ter empatia para com seu paciente, não pode ser frio, e ela nos diz mais, que interpretar em determinadas situações poderia ser um pouco cruel, o analista precisa elaborar uma interpretação ética, onde se possa colocar junto ao paciente, demonstrando que se importa com ele, se compadece de seu sofrimento, mas com o devido cuidado do par analítico não formar um conluio para se proteger dentro da análise, por exemplo, ambos podem negar conhecimentos desagradáveis mas permanecerem numa situação confortável.  “O analista, como o paciente, deseja eliminar o desconforto bem como comunicar e partilhar experiências; são reações humanas comuns. Em partes, o analista tem um impulso de encorajar, e algo disso será expresso na interpretação. Isso pode variar desde uma indulgência implícita, acariciando o paciente com palavras, até respostas hostis ou distantes ou gélidas que parecem significar que a carência da experiência que o paciente lamenta não tem importância alguma; uma afirmação de que a experiência mecânica de objeto parcial é tudo o que é necessário.” Este trecho citado acima pode nos trazer mais esclarecimento. Entre os autores estudados temos Edna O’Shaughnessy com o artigo “O Complexo de Édipo invisível. Edna vai nos dizer que determinados pacientes demonstram não ter complexo de Édipo  e castração, parecendo assim sem importância, mas ao contrário do que demonstram esses complexos estão lá, muito bem escondidos, é um caso de cisão de personalidade, onde parte do self fica guardado, protegido, é um pedaço do self onde se encontram o núcleo do complexo de Édipo e castração.  Os kleinianos dizem que “sua abordagem quando o complexo de édipo é o que estou chamando de “invisível”, é a de que ele é assim não porque não seja importante, mas porque é tão importante, e sentido pelo paciente (por qualquer que sejam suas causas) como tão inegociável, que este se utiliza de meios psíquicos para faze-lo e mantê-lo invisível.” Isso acontece quando os primeiros estágios do complexo de Édipo e castração são alcançados após um desenvolvimento perturbado, que por algum motivo o sujeito não suportou essa descarga emocional, tendo passado por muita dor psíquica;  então para evitar um retorno desse desconforto sentido na situação edípica inicial o sujeito cindi esse núcleo do Édipo e o esconde muito bem, para que não possa ser encontrado. Vamos ilustrar um pouco mais esse tema, vamos voltar lá na infância do paciente:  A cena primária traz dois traumas principais, o primeiro é a estimulação além do limite em que o ego pode suportar, o segundo é que a cena primária exclui a criança, que até o momento acreditava ser o centro da casa, e em determinado instante percebe que o papai ea mamãe formam um casal, do qual ele não faz parte e que eles fazem sexo, o que nunca farão sexo com ele, além da exclusão o sujeito passa a invejar a figura do casal parental. O sujeito não apenas sente uma excitação além do suportado, que não consegue lidar como também se sente excluído, de fora, sozinho; e o sujeito prefere viver com determinados problemas, ao encarar novamente essa situação edípica que lhe traz demasiada dor. Vou citar aqui um caso trazido na supervisão do dia 25/08/16 às 19:00 pela colega M.S.A. que acredito possa ter algo relacionado a esse artigo, paciente homem com discurso muito narcísico onde diz fazer oque quer, do jeito que quer, quando quer, acredita que seus relacionamentos o atrapalham, são estorvos, “não quero abrir mão de mim só quero encontrar um relacionamento compatível”. Na discussão da sessão ficou na dúvida em que posição do Édipo ele se encontrava ou se havia Édipo. Para finalizar os Pós-Kleinianos estudados temos Herbert Rosenfeld com o artigo “Uma  abordagem clínica para a teoria psicanalítica das pulsões de vida e de morte: uma investigação dos aspectos agressivos do narcisismo”; o núcleo deste artigo é o conceito de organização narcísica. Organização narcísica é quando a pulsão de morte por um processo chamado fusão patológica (na fusão das pulsões a pulsão de morte sobressai de forma agressiva e violenta a pulsão de vida, enquanto que na fusão normal a energia destrutiva fica atenuada e neutralizada), um ou mais self que se formam dentro do self principal, como se tivessem vida própria esses selfs se juntam para sabotar o relacionamento EU – OUTRO e ficar em uma situação que a dependência possa ser evitada, temos casos gravíssimos em que o self principal é totalmente subjugado por essas organizações narcísicas, e como resultado o paciente parece alienado ao mundo, incapaz de pensar podendo assim perder o interesse pelo mundo externo e quer ficar só na cama, sente-se perdido. Na análise desse tipo de paciente encontramos hostilidade e desconfiança além de muita resistência e uma força que se defende a todo custo da cura e que está decidida a agarrar-se à doença e ao sofrimento. Segundo Rosenfeld quando esse paciente na clínica percebe a realidade e que de certa forma está dependendo das interpretações do analista, ele quer morrer, negar o fato de seu nascimento a depender do outro, e com certa frequência o paciente quer desistir da análise, começa agir de forma autodestrutiva no seu meio social e profissional em alguns casos podem tornar-se suicidas, preferem desaparecer no esquecimento ao invés de reconhecer sua dependência, a morte é idealizada como uma solução para todos os problemas. O autor nos diz que “No entanto, analiticamente podemos observar que o estado é provocado pela atividade das partes invejosas e destrutivas do self, que se tornam gravemente cindidas e difusas do self libidinal cuidadoso, que parece ter desaparecido. Todo o self fica temporariamente identificado com o self destrutivo, que busca pelos pais e pelo analista, destruindo o self libidinal dependente, vivido como a criança.” Organização narcísica é uma defesa contra a inveja, que é o medo da dependência. Como foi colocado no início, este texto trata-se de apenas uma abordagem parcial dos trabalhos desenvolvidos pelos autores citados.
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