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As Babás

As Babás

Por Rodrigo Lopes Barreto -

Boa tarde! Quero agradecer a todos que compareceram neste evento na Praça Buenos Ayres, realizado em parceria com o Sindicato das Babás de Higienópolis! Nossa instituição psicanalítica sempre adotou uma postura subversiva e ousada, mas dessa vez nos superamos com uma ideia muito radical... Oneida Cerqueira e Inês Garros estudaram em nossa instituição por dez meses, foram inicialmente introduzidas aos conceitos freudianos e depois passaram a estudar minuciosamente a obra de Melanie Klein. Com vocês os relatos de Oneida Cerqueira e Inês Garros, respectivamente as babás de Dick e Erna!

Boa tarde a todos! Meu nome é Oneida, fui babá do Dick, e por vezes me sentia transparente. Dick era uma criança absolutamente irresponsiva, com atraso na linguagem e incapaz de se fixar e estabelecer laços, era assim com sua mãe e babás prévias, e foi assim comigo logo que comecei a tomar conta dele. Ele foi diagnosticado como esquizofrenia pela Sra. Melanie Klein. Interessante que mesmo antes de estudar a obra da Sra. Klein um evento me chamou a atenção, certa vez flagrei Dick em atividade masturbatória e o repreendi, ele ficou nitidamente desconfortável, mas após o ocorrido paradoxalmente aumentou seu grau de interações comigo. Hoje posso dizer, minha repreensão causou ansiedade nele e o permitiu elaborar algum afeto. É esquisito pensar na ansiedade como o prenúncio de um afeto, mas assim ocorre, e esse é o ponto chave na avaliação do Dick, uma grande dificuldade na elaboração da posição esquizoparanóide.

A ansiedade da posição esquizoparanóide vem do medo persecutório pelo mundo externo e de uma grande dependência em relação ao primeiro objeto de afeto, o seio materno. Durante esse período ocorre o auge do sadismo inato do bebê, que quer destruir quem pode lhe fazer mal e devorar e se apossar do que lhe faz bem para se tornar mais independente. Através da cisão e outros mecanismos de defesa, o bebê consegue aos poucos que os sentimentos bons em relação ao objeto predominem e progressivamente comece a integrar seu objeto, paralelamente desenvolvendo seu ego e alcançando a posição depressiva. É importante notar que vivenciar o sadismo e a ansiedade é necessário para superar a posição esquizoparanóide. O sadismo inato de Dick era tão grande que seu frágil ego não o tolerou, e ele desenvolveu um mecanismo de defesa que o fazia fugir da ansiedade e do sadismo, inibindo seu desenvolvimento. O sadismo de Dick era inibido de tal forma que me lembro de sua dificuldade para mastigar alimentos, que em última análise era uma aversão a causar dano. Dessa incapacidade de tolerar a ansiedade e o sadismo vinha sua dificuldade de desenvolver relações, quando o repreendi (no episódio da masturbação) provavelmente eu desencadeei algum grau de ansiedade nele, houve alguma elaboração que o levou a ampliar suas relações comigo. A defesa excessiva e precoce de Dick contra o sadismo causa dificuldade de relação com a realidade e a vida de fantasia, bloqueando a investigação sádica em relação à mãe e ao mundo externo, suspendendo a formação de relações simbólicas com os objetos, retraindo e gerando falta de ansiedade e afeto.

O tratamento que ele fez com a Sra. Melanie Klein foi fundamental, lembro que no começo ele era indiferente a mim quando ia deixá-lo ou buscá-lo nas sessões, e depois passou a chorar ou ficar feliz ao me ver. Em seu trabalho psicanalítico Melanie Klein progressivamente reativou a ansiedade em Dick, lhe fornecendo informações e dando um ‘banho’ de palavras, que o ajudou a estruturar um arcabouço simbólico para elaborar a posição esquizoparanóide. Através do brincar o mundo das fantasias inconscientes pôde se desenvolver, e buscar símbolos para aliviar experiencias penosas. Quando Dick elaborava o conflito e a perseguição do/ao objeto primário via fantasias, ele pôde buscar novos relacionamentos livres de conflitos com os objetos simbólicos. No caso Dick, os símbolos que inicialmente surgiram no processo analítico foram trens e estações ferroviárias. Também me marcou muito o momento em que Dick disse ‘Pobre Sra. Klein’, ao vê-la com resíduos de lápis no colo. Esse evento indica que Dick, além da incapacidade de tolerar a ansiedade também havia desenvolvido uma empatia prematura. Sugerindo também uma dificuldade com relação à posição depressiva, que de certa forma foi ‘antecipada’. Ouso dizer que ele se sentia culpado, e sabemos que a culpa é um elemento que aparece na posição depressiva. Dick desenvolveu uma identificação prematura e exagerada com o objeto (mãe). A Sra. Melanie Klein associava essa culpa a uma antecipação da fase genital, em um momento que o sadismo oral, posteriormente associado ao sadismo anal, deveriam predominar. Essa identificação e culpa prematura fizeram com que ele desenvolvesse uma defesa muito precoce contra o sadismo. Seu ego parou de se desenvolver, a vida de fantasia deixou de estabelecer relação com a realidade e a formação de símbolos foi prejudicada.

Sua vez Inês!

Boa tarde! Meu nome é Inês e fui babá da Erna, uma criança muito difícil, que sofria de insônia, medos, comportamentos obsessivos (movimentos repetitivos, masturbação obsessiva, chupar dedos...) e por vezes alternava entre uma atitude amorosa e hostil dirigida à mãe. Ela recebeu o diagnóstico de neurose obsessiva pela Sra. Klein, que a acompanhou por mais de quinhentas sessões. Hoje compreendo que a Erna oscilava entre a posição esquizoparanóide e a posição depressiva, ora atacando os objetos, ora sentindo medo e culpa por danificar o objeto. A meu ver o desenvolvimento do comportamento obsessivo de Erna está relacionado à sua dificuldade de elaborar a posição depressiva. Lembramos que na posição depressiva o bebê realiza a integração do objeto (seio/mãe), e percebe que o objeto bom e o objeto mau são o mesmo. O bebê teme que o objeto amado tenha sido danificado por seus desejos destrutivos, surge a culpa e a necessidade de repará-lo. A neurose obsessiva funcionava como um mecanismo de defesa contra a ansiedade depressiva. Lembrei que Erna desenvolveu hábitos de higiene de forma precoce, eis aqui um exemplo que através do controle rígido de algumas funções ela tentava reparar seus objetos danificados e aplacar sua culpa. A Sra. Klein também percebeu a voracidade em Erna na forma como bebia água da torneira ou comia peixes imaginários enquanto brincava. E onde tem ansiedade depressiva, culpa e voracidade... tem inveja!

Para a Sra. Klein, o processo do desmame inicia o conflito edipiano, juntando o desejo de incorporar o pênis do pai e os sentimentos de inveja e ódio pela mãe. A inveja revelou-se o ponto central da neurose de Erna. Creio que a primeira vez que a figura da inveja aparece na análise de Erna é quando ela realiza brincadeiras na qual um terceiro individuo chega em uma casa ocupada por um homem e uma mulher... e um deles tem que ser expulso! A inveja é inicialmente direcionada ao seio que tem capacidade de nutrir, mas posteriormente a inveja se baseia na fantasia sexual arcaica da criança em que, ao manter relações sexuais com o pai, a mãe incorpora e retém o pênis dele. A Sra. Klein acreditada que a observação da relação sexual entre os pais precipitou a neurose de Erna, acredito que essa observação não precisa ser literal, mas pode ter ocorrido no campo da fantasia, o que intensificou bastante seu sentimento de frustração e inveja com relação a eles, além de elevar seus impulsos sádicos. É como se Erna dissesse: Eles obtinham gratificação sexual e me deixaram de fora!

Mas não podemos esquecer da posição esquizoparanóide no caso Erna, afinal, um dos mecanismos de defesa mais comuns da posição depressiva é a regressão. Quando os sentimentos de culpa e ansiedade depressiva são muto intensos, o ego recusa o amor ao objeto e lança mão de mecanismos arcaicos para aumentar a ansiedade persecutória. Eis a figura da mãe cruel que Erna desempenhou diversas vezes em suas sessões, a Sra. Klein observou que Erna projetava suas fantasias agressivas e sádicas no mundo externo. Esses impulsos sádicos eram primordialmente direcionados à mãe, querendo devorar o seio da mãe, e junto dele o pênis do pai, bebês e quaisquer outros objetos que pudessem estar no corpo da mãe. Toda essa agressividade de Erna contra o corpo da mãe se expressava no medo que tinha que sua mãe fizesse o mesmo com ela. Na fantasia de Erna a mãe era a mulher ladra (referida na sessão) que tiraria tudo de dentro dela. Para a Sra. Klein, esse medo arcaico da menina seria o equivalente da ansiedade de castração nos meninos. Era isso que eu tinha para falar, obrigada!

Nossa instituição e o Sindicato gostariam de agradecer muito Inês e Oneida pelo empenho e contribuição valiosa que deram à nossa iniciativa. Vocês ganharão uma bolsa de estudos para completar sua formação em psicanálise. Haja visto o sucesso deste projeto ele será mantido, e as próximas convidadas serão as babás de Donald Trump e Vladimir Putin. Nos vemos em breve!