Por Juliana Macedo Malassise -
Vivo em uma armadura oca de submissão, um falso Self. Habito um corpo, um modo de vida, adaptado à realidade. Uso uma máscara que me defende, aceito regras sociais. Meu verdadeiro Self teme à aniquilação. Teme que sua verdade seja insuficiente, seja real demais para ser suportada pelo mundo. Meu prazer é reprimido, não tenho vitalidade ou autenticidade, apenas sou o que esperam de mim. Sou um fracasso existencial.
Não sou patológica, sou apenas falsa. Deprimida, ansiosa, perdida. No entanto, tenho uma vida polida, sou amável. A sociedade se agrada com as minhas boas maneiras, com o meu progresso profissional, com a forma como conduzo minha família, com as minhas defesas. Assim sobrevivo. Meu intelecto é a sede desta dissociação. Minha intensa atividade mental causa uma existência psicossomática. Meu falso Self é tão hábil que simula esta integração frente à realidade. Minha casca engana a todos. Aparentemente sou um indivíduo autêntico, com Self seguro de si e de suas vontades. Mas as aparências enganam. O mundo interno, a psique, o inconsciente são infinitos. E sua profundidade muitas vezes esconde a verdade.
Um dia escrevi no braço “be your best self”. Esta ideia é o começo de uma busca por integração. A construção de um Self real, que represente a mim mesma. Na análise Winnicottiana de ambiente favorável, este processo me leva a uma regressão e dependência severa. Preciso reviver expectativas e necessidades da infância. Da fase na qual meu Self era dependente, frágil. No analista vejo uma mãe que é, um espelho que me reflete, que constitui base para minha autodescoberta. Vivo uma ilusão criativa, um brincar que me estimula. Um equilíbrio entre prazer verdadeiro e realidade.
A análise me leva a ressignificar a ideia do que é o “best” pro meu Self verdadeiro. Afinal este “best self” escrito no braço há anos era idealizado, performático, cheio de externo, mas vazio internamente. “Be your best self”? Ou simplesmente ser… “just be”. O “ser antes de tudo” proposto por Winnicott. O “ser” do elemento feminino puro, do Self real. Que é, antes de fazer. E que faz de forma criativa, autêntica, verdadeira. Que vive o mundo externo de forma real e espontânea, através de sua liberdade, identidade, individualidade. Que sabe o que é, e sobretudo escolhe todos os dias viver seu ser.
