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À procura de Freud, encontrei uma casa

À procura de Freud, encontrei uma casa

Por Karin C. Grabner -

Eu comecei lendo Freud procurando conceitos e terminei observando uma estrutura em construção e movimento. E acho que isso já responde muito sobre a forma como me aproximei não apenas de sua obra, mas também da própria ideia de processo psicanalítico. Se eu tivesse escrito este texto há seis meses, provavelmente teria abordado o que penso sobre objetivo psicanalítico de outra forma. Se o escrever daqui a cinco anos, talvez (espero que) responda outra coisa. Pois o que segue não é uma conclusão sobre Freud, mas a captura de um encontro específico entre sua obra e o momento em que me encontro. Talvez porque a psicanálise me ensine justamente isso: não existe leitura sem leitor. Não existe encontro com um texto que não seja também um encontro consigo mesmo. Por isso, mais do que me perguntar qual conceito de Freud mais me identifiquei, acabei me perguntando o que ficou de Freud em mim após um ano de leitura.

Seria mais rápido responder que a maior herança de Freud foi sua formulação do inconsciente. Papai não é papai à toa. Há algo de inevitável em se deixar capturar pela ideia de que não somos senhores em nossa própria casa. Mas, ao reler os ensaios que escrevi ao longo desse percurso, percebi que eu não estava perseguindo um conceito. Sempre estive perseguindo uma pergunta. E foi a metapsicologia (atravessada pelas minhas próprias metáforas arquitetônicas) que me permitiu enxergá-la.

Freud me ensinou a perguntar como o aparelho psíquico consegue manter alguma sustentação e continuidade apesar das tensões constantes entre pulsão, realidade, objeto e narcisismo. Mas talvez o que tenha permanecido em mim seja uma questão ligeiramente diferente: como tornar uma estrutura mais habitável sem a promessa de torná-la definitiva?

Em sua metapsicologia, os fenômenos psíquicos são compreendidos por diferentes perspectivas: dinâmica, econômica e tópica. A potência desse modelo está justamente em permitir que o sofrimento seja pensado para além de suas manifestações mais evidentes. Durante a leitura, porém, me vi acrescentando uma pergunta própria: e se houvesse uma quarta perspectiva? Uma perspectiva estrutural. Menos interessada em localizar conteúdos e mais preocupada em compreender como uma organização psíquica produz continuidade, acomoda tensões e permanece habitável apesar dos conflitos que a atravessam. Talvez minha formação em arquitetura tenha atravessado essa leitura. Não porque Freud ignore essa questão, mas porque sua obra me levou a retornar repetidamente para a ideia do psiquismo menos um sistema fechado e mais um canteiro de obras ainda em atividade.

Foi nos textos metapsicológicos que encontrei esse Freud: menos preocupado em oferecer respostas definitivas do que em compreender como o psiquismo se organiza, se transforma e encontra soluções para seus próprios impasses. Raramente me vejo perguntando o que um sintoma significa ou qual desejo inconsciente está em jogo. Volto repetidamente a outras questões: como isso se transforma? O que a análise constrói? Como uma estrutura continua funcionando apesar das tensões?

Minha compreensão inicial do objetivo da psicanálise passava principalmente pela interpretação: tornar visível aquilo que permanecia inconsciente. Com o passar das leituras, entretanto, essa ideia começou a se transformar. Sem abandonar essa dimensão, passei a enxergá-la menos como uma prática de revelação e mais como uma prática de transformação, cujo objetivo não é produzir uma vida sem conflitos, mas ampliar a capacidade de sustentá-los, elaborá-los e transformá-los. Talvez seja justamente aí que eu enxergue alguns dos desdobramentos mais importantes da obra freudiana para a psicopatologia: os sintomas deixam de aparecer apenas como falhas e passam a ser compreendidos como tentativas de solução encontradas pelo aparelho psíquico diante de conflitos que não puderam ser elaborados de outra forma. As psicopatologias deixam de ser apenas doenças da mente e passam a aparecer como modos particulares de organização e sustentação da vida psíquica, deslocando a pergunta de “o que está errado?” para “como esse sujeito encontrou uma forma possível de se organizar diante de seus conflitos?”.

Também carregava a expectativa de que a resolução das angústias marcaria uma espécie de conclusão do sofrer. Hoje me acompanha outra imagem: a de uma casa que treme sem desabar. Se meu jeito de me aproximar da vida psíquica é através do modelo de um canteiro de obras em atividade, então a técnica não pode prometer uma estrutura definitiva. É nessa imagem que reconheço tanto as possibilidades quanto os limites da técnica psicanalítica. Sua potência está em ampliar a capacidade de elaboração e tornar a estrutura mais habitável sem a promessa de torná-la definitiva.

Seu limite está em não poder eliminar aquilo que constitui a própria experiência humana: conflito, ambivalência, perda, falta e angústia. A análise não impede que a casa volte a tremer. O que ela pode oferecer é a descoberta de que nem todo tremor conduz ao colapso.

Talvez seja por isso que, entre tantos conceitos apresentados por Freud, tenha sido justamente o aparelho psíquico aquele com o qual mais me identifiquei. Há conceitos mais sedutores: a potência do inconsciente, a ruptura produzida pela sexualidade infantil, a engenhosidade do sintoma, a vertigem da pulsão de morte, a relevância da transferência, a dramaticidade constitutiva da condição humana dos conflitos psíquicos ou o mistério da relação que estabelecemos conosco mesmos do Narcisismo. Talvez o aparelho psíquico seja a escolha menos sedutora.  Mas entre todos eles, foi através dele que consegui observar a estrutura que tenta conter, organizar e colocar essas forças em movimento. Foi nele que encontrei uma forma de pensar. Não me debrucei pelos habitantes da casa. Me interessei pela própria casa.

Talvez essa tenha sido a herança mais importante que recebi de Freud: não a promessa de eliminar rachaduras, mas a possibilidade de escutá-las. E, ao escutá-las, construir uma casa mais ampla. Não uma casa terminada, mas uma casa habitável. Uma casa capaz de se mover sem que cada tremor anuncie ruína. Mais viva, mais verdadeira e, quem sabe, capaz de acolher também as histórias dos outros...