Por Rodrigo Lopes Barreto -
Boa noite! Tudo bem? Eu sou Wanderley Coutinho, sejam bem-vindos ao meu programa de entrevistas. Há muito eu ansiava por essa entrevista, se considerarmos Freud uma espécie de Madonna, ela seria a Britney Spears da psicanálise... Hoje eu recebo Melanie Klein! Melanie Klein- Boa noite Sr. Wanderley, se você se refere ao legado e à forma como ‘apavoramos horrores’ em nosso ofício... aceito a comparação com a moça que dança com facas, aliás... de quem eu adoraria ter sido analista, basta lembrar que ela começou ainda criança na indústria do entretenimento.
- Wanderley Coutinho- Falando em ofício, porque você odiava a Anna Freud? (Melanie Klein faz cara de contrariada)
- Melanie Klein- Sério isso? Anna Freud e eu discordávamos de forma acadêmica, como duas psicanalistas respeitadas por seus pares. Se vossa intenção é reduzir nossa rivalidade a uma briga de meninas que falam mal da roupa da outra eu não vejo o porquê continuarmos com essa entrevista. Além do mais, não é possível falar da nossa discordância sem analisarmos da obra do pai dela.
- Wanderley Coutinho- Peço desculpas! (Wanderley fica vermelho de vergonha) A intenção era saber da discordância acadêmica. Prossiga por favor...
- Melanie Klein- Não pareceu! Pois bem Sr. WC, na falta de uma pergunta adequada começarei falando de algumas diferenças conceituais. Para o Sr. Freud, o Ego se desenvolvia a partir da relação do Id com o meio externo, para mim, o bebê já nasce com um Ego frágil e primitivo, que se vê diante de um ambiente interno caótico e um meio externo hostil, e que precisa lidar com a ansiedade desde o início.
- Wanderley Coutinho- Como se desenvolve essa ansiedade?
- Melanie Klein - Habemus pergunta! Finalmente! Eu dividi a ansiedade que se manifesta nos primeiros anos de vida em dois grupos. A primeira delas é ansiedade esquizoparanóide, que se desenvolve principalmente nos três primeiros meses de vida e tem caráter persecutório. Essa ansiedade provém de um medo do aniquilamento e da morte, e pode vir de fontes internas (pulsão de morte) e externas. A fonte inicial da ansiedade persecutória é o nascimento, que é percebido como um grande perigo ao Ego bem no início do seu desenvolvimento, esse perigo também aparece quando o bebê experimenta a frustração de suas necessidades corporais. Posteriormente o bebê desenvolve a ansiedade depressiva, que predomina a partir da metade do primeiro ano de vida, a ansiedade vem de uma percepção de perigo para o objeto, e vem acompanhada de intenso sentimento de culpa.
- Wanderley Coutinho- Diferente da ansiedade freudiana?
- Melanie Klein- Exatamente. Para o Sr. Freud a ansiedade (ou angústia) era gerada pelo Ego, como forma de reagir a impulsos instintuais do Id, gerando desprazer e causando a repressão desse impulso instintual. Para mim a ansiedade é precoce, arcaica, e afeta profundamente as relações com o objeto, e o primeiro objeto do bebê é o seio materno. Na ansiedade esquizoparanóide o medo da morte e dependência é tão grande que o bebê precisa realizar a cisão do objeto para se defender. Por exemplo, o seio bom que lhe dá alimento, e o seio mau que lhe deixa com fome, despertando desejos sádicos e canibalescos, para incorporar o que é bom e destruir o que é mau. Na ansiedade depressiva, o bebê percebe que esse objeto é um só, ele integra o objeto, os aspectos bons, maus, amorosos e odiosos se aproximam. O bebê sente a necessidade de reparar o objeto amado que foi danificado por seus desejos destrutivos, gerando a culpa. Lembrando que temos um Ego arcaico lidando com essas ansiedades... Um Ego frágil que se alterna entre tendências à integração e despedaçamento, juntamente com seu objeto amado/odiado. Por fim, reparem que tudo isso se passa em um momento que o bebê ainda não desenvolveu a linguagem, pensem na intensidade das sensações corpóreas vivenciadas...
- Wanderley Coutinho- Estou pensando aqui... se o seio materno foi o primeiro objeto... Qual o impacto do desmame?
- Melanie Klein- Alegro-me que minhas ideais estão fazendo o senhor pensar... O desmame representa a perda do primeiro objeto amado, o seio da mãe. Não só do objeto externo, mas também do objeto introjetado, ele crê que essa perda é devida a seu ódio, agressividade e voracidade, ou seja, sente culpa, percebe a ansiedade depressiva operando? O bebê vivencia esse luto e tenta superá-lo. Na vida adulta, esses processos arcaicos são revividos quando o luto ocorre novamente.
- Wanderley Coutinho- Que pesado, e logo no primeiro ano de vida... Imagina aos cinco ou seis anos quando se somar o complexo de castração e o complexo de Édipo!
- Melanie Klein- Cinco ou seis? Bem se vê que o Sr. não se preparou para esta entrevista, desconhece o meu trabalho e está pensando no desenvolvimento das fases da sexualidade infantil de forma linear, como Freud fazia...
- Wanderley Coutinho- Achei que fosse discípula dele...
- Melanie Klein- Ah claro, uma mulher no século passado no máximo poderia ser discípula de um homem! Eu admiro seu legado e sou profunda conhecedora de sua obra, mas convenhamos, por vezes o Sr. Freud se portava como o dono da bola, expulsando de campo qualquer pessoa que o contrariasse. Até seu falecimento eu tinha que ser um pouco mais política ao expor minhas ideias, após sua morte pude mostrar meus conceitos e contrapontos a sua obra de forma mais assertiva.
- Wanderley Coutinho- Como você percebe a sexualidade infantil?
- Melanie Klein- Penso que as fases do desenvolvimento da sexualidade infantil ocorrem de forma concomitante. A fase oral, anal e fálica são entremeadas em diversos momentos, sem que seja necessário regressão como pregava o Sr. Freud. Essas fases se desenvolvem de forma espacial, associadas a um forte componente sádico. Imagine o grau de ansiedade gerada no pobre bebê!
- Wanderley Coutinho- Bem precoce, então o complexo de Édipo e o medo da castração...
- Melanie Klein- Já se manifestam no primeiro ano de vida, os impulsos fálicos acontecem concomitantemente com os impulsos sádico orais e sádico anais, e só dominam a cena quando a criança atinge o auge da situação edipiana descrita pelo Sr. Freud. Eles também atuam na gênese das ansiedades, tanto esquizoparanóides quanto depressivas. Por exemplo, para mim o medo da castração é uma fonte de ansiedade persecutória nos meninos, mas se mescla com a ansiedade depressiva. Se o menino for castrado ele não pode fertilizar uma mulher; e em última análise, não poderá fertilizar a mãe amada e reparar os danos causados a ela por seus impulsos sádicos. Já nas meninas, a ansiedade vem por temer que a mãe ataque seu corpo e remova seus órgãos internos, e pior, que arranque os seus bebês, medo fundamentalmente persecutório, somados à uma forte ansiedade depressiva pela destruição dos bebês (seus objetos amados) que estariam dentro dela.
- Wanderley Coutinho- Sem haver Superego?
- Melanie Klein- Errado! Para mim o bebê tem um Superego primitivo, de grande rigor sádico e que gera muita culpa. O superego primitivo se forma quando as fases sádico oral e sádico anal ainda são predominantes. Ele vem da agressividade nata do bebê, e não do complexo de Édipo, conforme o conceito freudiano.
- Wanderley Coutinho- Eu queria falar agora das suas internações e da relação com sua filha...
- Melanie Klein- Fofoquinhas? Não! Eu quero falar de fantasia. As fantasias inconscientes são fenômenos mentais de grande importância na vida psíquica. Para Freud as fantasias seriam a versão que as pessoas dão para fatos da sua vida, elas aparecem mais tardiamente, retomando e modificando algo do passado com o que não se podia lidar, ou seja, algo que foi recalcado. Incialmente ele liga a traumas, e posteriormente a versões de como se davam as relações primordiais na família (Édipo e castração). Sr. WC, leia ‘Bate-se Numa Criança’! Para mim, as fantasias inconscientes são elaborações imaginativas das funções corporais. Essas fantasias são muito precoces. Lembra da cisão do objeto que falei acima? É um mecanismo de defesa que faz uso da fantasia, visando atenuar as ansiedades. Observe também que na minha noção de fantasia novamente o contexto espacial aparece, na relação entre o que está dentro e fora, e na relação com o objeto. A partir dessa noção que posteriormente desenvolvi os conceitos de introjeção, projeção, posição depressiva e posição esquizoparanóide. Sr. WC, leia a minha obra!
- Wanderley Coutinho- Fala um pouquinho da Anna Freud para mim? Por favor!
- Melanie Klein- Ambas atuamos muito no campo da psicanálise infantil, acredito que minha principal discordância ao trabalho dela era o caráter didático infringido ao seu tratamento, buscando uma transferência positiva a todo custo e evitando a transferência negativa. Eu quero tudo! Só através da análise das transferências negativas e positivas que a ansiedade é reduzida na raiz.
- Wanderley Coutinho- E quais os objetivos do seu tratamento psicanalítico?
- Melanie Klein- Já em 1923 eu afirmava, cada vez que uma ansiedade era resolvida, a análise dava um grande passo adiante. Para chegar ao fim de uma análise é necessário checar se os conflitos e ansiedades vivenciados durante o primeiro ano de vida foram suficientemente analisados e elaborados. O objetivo principal do meu tratamento é a redução e modificação das ansiedades persecutórias e depressivas, desenvolvendo o ego do indivíduo e promovendo a capacidade de amar e de estabelecer relações de objeto.
- Wanderley Coutinho- Adorei! Vamos marcar outra entrevista para falar de introjeção, projeção, posição esquizoparanóide e posição depressiva?
- Melanie Klein- Não! Boa noite!
