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Opinião: O Que Freud Poderia Ter Feito a Mais

Opinião: O Que Freud Poderia Ter Feito a Mais

Por Celso Augusto Alberti - 

Este ensaio pede o reexame de todos os textos de Freud estudados até este momento, num total de 27 pela minha contagem, e que eu exprima minha opinião pessoal sobre o que ele poderia ter explorado, e não o fez, junto a 4 de seus pacientes: Elisabeth von R. (Ilona Weiss), Dora (Ida Bauer), o Homem dos Lobos (Sergei Pankejeff) e o Homem dos Ratos (Ernst Lanzer). Pede ainda que sejam citados os fatores que impediram Freud de fazê-lo.

A tarefa não é fácil e pode até ser que, por ser uma análise subjetiva, ela incorra em algum equívoco, mas vamos enfrentar o desafio. Para começar, creio que seria conveniente relembrar o motivo ou mote central do tratamento de cada um desses pacientes. Listo abaixo:

Elisabeth von R.: histeria, sobretudo com dores nas pernas e dificuldade para andar. O conflito principal liga-se ao choque entre dever familiar, luto, culpa e desejo amoroso recalcado.   

Dora: histeria em que o caso gira em torno de tosse nervosa, afonia e outros sintomas conversivos, articulados a um conflito afetivo-sexual 

Homem dos Ratos: neurose obsessiva cujo mote central é a combinação de obsessões, culpa, dúvida, medo de punição e ambivalência entre amor e ódio.  

Homem dos Lobos: neurose infantil, que começou como histeria de angústia, sob a forma de zoofobia, e depois assumiu feições de neurose obsessiva de conteúdo religioso.

Ao reler esses casos clínicos à luz dos textos técnicos e metapsicológicos estudados até aqui, muitos deles escritos posteriormente a esses tratamentos, é possível perceber que Freud descobriu muita coisa, mas talvez não tenha explorado tudo o que poderia ter sido clinicamente relevante. Isto não torna a sua obra menos importante, até porque temos que lembrar que Freud foi pioneiro na estruturação da psicanálise e os relatos de suas experiências possuem um caráter vivo e inaugural. É importante frisar que seus casos não são aplicações de uma técnica já pronta; ao contrário, a própria técnica foi sendo inventada, corrigida e aprofundada à medida que ele ia tratando os pacientes. Por isso, podemos sustentar que há, sim, áreas decisivas que poderiam ter sido trabalhadas com maior desenvolvimento, mas que não o foram em razão de limites históricos, técnicos, clínicos e até pessoais do próprio Freud.

No caso de Elisabeth von R., vejo que Freud identificou o núcleo do conflito sem, contudo, explorar toda a sua complexidade subjetiva, e isso talvez porque ainda não dispusesse naquele momento de instrumentos suficientes para tal exploração. Ele percebeu e relatou a tensão entre dever, renúncia, culpa e desejo, mas pode ser que não tenha esgotado a análise. É pretensioso da minha parte, mas talvez ele pudesse ter trabalhado com mais profundidade o ganho secundário do sintoma, a ambivalência afetiva diante dos vínculos familiares e a transferência. Outro ponto importante a lembrar é que este caso pertence a uma fase inicial da psicanálise, mais focada na busca pelo conteúdo patogênico recalcado e menos orientada ao acompanhamento sistemático das resistências que emergem na relação analítica. Freud já intuía o conflito, mas ainda não possuía a técnica posterior que lhe permitiria sustentar por mais tempo o trabalho de elaboração.

No caso Dora, essa limitação já não é tão notória e vemos uma maior capacidade interpretativa. Freud percebeu a rede de desejos, ciúmes, identificações e deslocamentos que organizavam a posição da paciente. No entanto, a meu ver, a transferência não foi suficientemente trabalhada. Não quero dizer com isso que Freud a ignorasse, porque isso seria injusto. O que me parece é que ele ainda não a manejava com a centralidade que ela ganharia mais tarde em seus textos técnicos. Dora não apenas recordava ou relatava; ela reagia, interrompia, se afastava e recolocava na relação com Freud algo do que vivia com as figuras centrais de sua história. A raiva, a decepção, o sentimento de ter sido usada e não escutada, tudo isso poderia ter sido objeto de um trabalho mais prolongado. Somado a isso, tenho a impressão de que o próprio envolvimento pessoal de Freud com a trama (o que mais tarde chamaríamos de contratransferência) pode ter turvado sua percepção, impedindo-o de notar como seus próprios valores e expectativas influenciavam a condução do caso. Mais ainda, a ligação de Dora com a Sra. K. talvez pudesse ter sido explorada de forma mais processual, dando maior atenção ao tempo necessário para que a paciente reconhecesse seus investimentos afetivos. O fato de a análise ter sido interrompida precocemente foi decisivo, e isso por si só já ajuda a entender por que certas dimensões do caso ficaram menos trabalhadas.

No Homem dos Ratos, vemos com clareza que Freud chegou a identificar a coexistência de amor e ódio, o peso da autoridade do pai e a lógica de punição que atravessa o caso. No entanto, poderia ter ido mais fundo na análise da relação entre obsessão, agressividade, culpa e submissão a uma instância crítica interna que mais tarde seria pensada sob a forma do supereu, (lembrando que esse conceito ainda nem havia sido postulado). Além disso, o aspecto repetitivo da neurose do paciente, que tinha a tendência de atuar seus conflitos em vez de apenas recordá-los, talvez pudesse ter sido explorado de forma mais ampla. Sou da opinião de que, mais uma vez, lhe faltou instrumento, e aqui uso “instrumento” no sentido de entendimento, formulação e postulação. Por outro lado, o caso antecipa aspectos que seriam formulados mais tarde em “Lembrar, repetir e perlaborar”, em que Freud postula que o paciente não entrega o passado de forma transparente, mas o repõe na cena analítica sob a forma de repetição. A partir daí, penso que, se já tivesse elaborado melhor esses temas, ele poderia ter trabalhado com mais profundidade a indecisão obsessiva, a erotização da punição e a função defensiva da dúvida como modos de evitar o desejo e paralisar a ação. O curioso é que, já de saída, no prólogo, o próprio Freud reconhece a enorme complexidade da neurose obsessiva e admite não ter conseguido expor o caso em sua totalidade. Esse reconhecimento mostra que ele já era lúcido quanto aos limites do caso e quanto ao fato de que nem tudo podia ser plenamente desenvolvido naquele momento.

Particularmente, para mim, o caso do Homem dos Lobos foi um texto difícil e, em certos momentos, um pouco desconexo, que me custou entender e juntar os pedaços mesmo com as conversas em classe. Ainda assim, arrisco apontar limitações sofridas por Freud. O que me parece ter sido menos explorado no caso foi a dependência, a passividade e o empobrecimento da vida psíquica para além da interpretação reconstruída na análise. Quem era o paciente? Um jovem aparentemente dócil, com dificuldade em transformar compreensão em mudança efetiva e que desenvolveu grande dependência do analista. Soma-se a isto o fato de Freud ter precisado trabalhar com o passado, de forma retrospectiva, muitos anos depois do adoecimento infantil, o que certamente introduziu distorções de memória e de reconstrução. Além disso, chamo a atenção para um esforço quase obstinado de Freud em confirmar a realidade da "cena primitiva", o que, a meu ver, acabou por “esconder” o sofrimento imediato do paciente. Ele conseguiu reconstituir a neurose infantil e a cena primitiva, mas ficou a impressão de que certos aspectos, quando vistos da posição subjetiva do paciente, escaparam à reconstrução. As características do jovem, descritas acima, devem ter gerado um campo clínico muito fértil que não foi explorado como poderia ter sido, talvez porque isso excedesse o enquadramento teórico disponível naquele momento. Por essas razões, na minha opinião, houve ali um limite estrutural na própria forma pela qual o caso poderia ser abordado.

Em todos os casos, as lacunas ou zonas menos exploradas se explicam por alguns fatores. O primeiro é o fator histórico incontornável: a técnica psicanalítica ainda estava em formação. Como já mencionei, Freud não começou com um método acabado. Ele chegou a seus conceitos centrais a partir dos impasses encontrados na clínica. O segundo é o fator clínico propriamente dito: os pacientes resistem, interrompem, ocultam, deslocam, repetem e dificultam a própria exposição integral do material. O terceiro é o fator ético e social: o próprio Freud declarou várias vezes que não podia dizer tudo, nem explorar publicamente todas as circunstâncias da vida de seus pacientes. Por fim, existe o fator teórico: em vários momentos, Freud privilegia a reconstrução etiológica, sexual e infantil do conflito, o que lhe permite descobertas decisivas, mas também o leva, às vezes, a deixar em segundo plano a experiência atual do vínculo, a temporalidade da elaboração e certas formas mais sutis de dependência e sofrimento psíquico.

Concluindo, entendo que Freud fez muito com os recursos teóricos e clínicos de que dispunha, mas os casos também mostram aquilo que ele ainda não podia desenvolver plenamente. Isso não reduz a importância de sua obra. Mostra, antes, que a psicanálise foi sendo construída a partir de seus próprios impasses.