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Retornar, Repetir, Posicionar

Retornar, Repetir, Posicionar

Por Rodrigo Lopes Barreto - 

Pegar uma ideia e vê-la por diversos ângulos, até mesmo do avesso, me causa uma ambiguidade que se mostrou muito frequente durante minha formação psicanalítica. Se por um lado observar algo de vários vértices me tranquiliza e me mostra um mundo de possibilidades, por outro, ser convidado a isso com conceitos psicanalíticos me causa pavor. Seria simples com um banquinho, eu me sento, coloco perto da cama como mesa lateral, sento-me no chão e uso como escrivaninha... posso até virá-lo de cabeça para baixo, pegar umas argolas e transformá-lo num brinquedo Com o banquinho deu certo! 

O conceito de Freud que mais me identifico é o retorno do recalcado. Fiquei particularmente fascinado nesse tema quando fui apresentado à repetição, em Lembrar, Repetir e Elaborar de 1914, o repetir é um movimento do retorno do recalcado. No texto Freud evolui a partir de sua ideia inicial que era fundamental preencher lacunas nas lembranças. Só trazendo os recalques à consciência é que seria possível superá-los e mudar, porém Freud percebe que o analisando nem sempre se lembra do que foi esquecido e recalcado, mas atua com aquilo, e o reproduz como algo que ele repete sem saber o que é, inclusive no fenômeno da transferência. O analisando repete ao invés de lembrar, colocando-se por diversas vezes em situações penosas, que parecem ter origem contemporânea, mas que são frutos de processos inconscientes. E o que teria esse poder? O que nunca poderia ser lembrado e se tornar acessível? No texto Análise Finita e Infinita, de 1937, Freud nos fala de uma herança arcaica, verdadeiros precipitados do desenvolvimento da humanidade. Para começar ocorrem embates entre pulsões num período muito inicial do desenvolvimento psíquico, onde o id e o ego são praticamente uma coisa só. Posteriormente temos que lidar com instintos libidinais direcionados aos pais e com a introversão da agressividade, a fim de permitir a vida em sociedade do indivíduo. A amnésia infantil acoberta muitos eventos essenciais no início da vida psíquica, e muitos deles são inacessíveis. Essa área intransponível na análise, que guarda instintos, pulsões e vivências muito primordiais da vida, seria a Rocha de Castração. Para os homens representa a angústia de perder o pênis, uma recusa da feminilidade e o pavor de adotar uma postura passiva diante de outro homem, para a mulher, está ligado à inveja do pênis, ao desejo por um falo que ela não quer renunciar. Apesar de intransponível essa área segue atuante no nosso inconsciente e pode retornar através de sintomas, repetições, chistes e sonhos. 

Quando pensamos pelo vértice kleiniano, não há conteúdo recalcado para retornar e se repetir. Para começar, Melanie Klein não pensa no desenvolvimento das fases da sexualidade infantil de forma linear (como Freud fazia), mas concomitante. Embora houvesse o predomínio das fases sádico-oral e sádico-anal, já havia atividade da fase fálica, mas seus impulsos só dominam a cena quando a criança atinge o auge da situação edipiana descrita por Freud. Pensemos no ambiente interno do bebê de poucos meses... temos sensações corpóreas, pulsão de morte, impulsos sádico orais e sádico-anais, complexo de Édipo e complexo de castração atuando, o que gera muita ansiedade no bebê num momento em que é impossível verbalizar o que se sente. O bebê kleiniano lida com dois tipos de ansiedade, a primeira delas é ansiedade esquizoparanóide, que se desenvolve principalmente nos três primeiros meses de vida e trata-se de um medo do aniquilamento e da morte, esse medo aparece já no nascimento e é revivida a cada frustração de suas necessidades corporais. A partir do segundo trimestre do primeiro ano de vida o bebê desenvolve a ansiedade depressiva, quando muda a forma como o bebê se relaciona com o objeto amado, e que vem acompanhada de intenso sentimento de culpa. Para dar conta da ansiedade o bebê faz uso de fantasias inconscientes, que são elaborações imaginativas de funções corpóreas. É no contexto das fantasias inconscientes que o bebê estabelece suas primeiras relações de objeto, e o primeiro objeto 

do bebê é o seio materno. Na ansiedade esquizoparanóide o medo da morte e dependência é tão grande que para se defender o bebê realiza a cisão do objeto em seio bom (que lhe dá alimento), e seio mau (que lhe deixa com fome), despertando ataques sádicos e canibalescos para incorporar o que é bom e destruir o que é mau, progressivamente esses ataques se estendem do seio para todo o corpo da mãe. Esse processo é acompanhado da cisão do ego arcaico, e da mesma forma que o bebê pode introjetar (incorporar) fragmentos do objeto, ele pode projetar fragmentos de si no objeto, tanto para controlar, como para destruir. A ansiedade depressiva começa quando o bebê percebe que esse objeto é um só, e sente a necessidade de reparar o objeto amado que foi danificado por seus desejos destrutivos, daí vem a culpa e a necessidade de repará-lo. 

As fantasias inconscientes são fundamentais para o bebê organizar essa ansiedade e as relações com o objeto, daí vem o conceito de posição. Para Klein, não importam as relações libidinais e o que foi recalcado, e sim a posição que esse ego arcaico se coloca, se relaciona e reage à ansiedade e ao objeto. Para superar a posição esquizo paranoide é necessário que o ego vá controlando a ansiedade através da cisão, introjeção, projeção e outros mecanismos de defesa do ego arcaico. Quanto mais o bebê controlar a ansiedade persecutória, menor será a intensidade da cisão, permitindo uma progressiva sintetização do objeto, do ego e dos sentimentos dirigidos ao objeto. O caminho da integração tende a acontecer se o amor pelo objeto superar as tendências destrutivas (a tendência à integração seria uma ação da pulsão de vida). A diminuição dos mecanismos esquizoides leva o bebê à posição depressiva. É importante lembrar que a mudança de posição não é definitiva, elas se alternam, e a tendência é que aos poucos a posição depressiva domine o cenário. 

Na posição depressiva o ego segue se integrando e a relação com o mundo externo se acentua. As fantasias inconscientes ficam mais elaboradas, o bebê expressa maior variedade de interesses e aprimora a capacidade não verbal de se comunicar e de expressar emoções. Como dito anteriormente, a integração do objeto gera ansiedade depressiva, vindo a culpa e a necessidade de reparar o objeto amado. Essa culpa é vivenciada como um luto pelo dano causado ao objeto. Para superar o luto, a ansiedade depressiva e a necessidade de reparação entram em ação os mecanismos de defesa maníacos. O self faz uso da regressão (o ego recusa o amor ao objeto, o que novamente eleva a ansiedade persecutória), cisão (agora entre objeto vivo não danificado e objeto danificado ou ameaçado), introjeção, projeção e sentimentos de onipotência. Com o aumento da tolerância à ansiedade o bebê progressivamente elabora a posição depressiva, aumentando a compreensão do mundo externo, aproximando a imagem dos objetos à realidade (mãe, pai e outros objetos), introjetando um mundo melhor e plausível (dessa forma ajudando a organizar o superego), e desenvolvendo um ego que assimila melhor o superego. 

O bebê passa inicialmente pela posição esquizoparanóide e depois pela posição depressiva, e oscilará entre elas a partir daí, com mais intensidade em uma ou em outra. Nada retorna do recalcado, mas o indivíduo adulto em situações de ansiedade volta a vivenciar essas posições que ocupou no início da vida. Eu gosto de pensar nas posições kleinianas como um jogo de xadrez em  3D, com tabuleiros em diversas alturas, alguns desses tabuleiros são internos, outros externos e as peças oscilando entre as casas, e entre tabuleiros, por vezes se projetando para fora, por vezes se internalizando. 

Seriam possíveis outros vértices? Sim, psicanaliticamente ainda não consigo pensar em outros, mas resolvi acrescentar outras possibilidades aqui. Para uma entidade religiosa ou mística não há retorno de recalcado, e sim um demônio ou um espírito, que se apossou da pessoa e a faz repetir o que não deveria. Para uma mãe o filho está apenas repetindo o que aprendeu com fulano, de quem nunca gostou, e que desvirtuou seu filho que até então era um santo. Para um pai dos anos 80 o que importa é que não vão repetir o jogo entre XV de Piracicaba e Bragantino pela Copa dos Bandeirantes... Filho, repete a pergunta para a sua mãe!