Desenvolvimentos Teóricos -
O Grupo Pavese nasce fisicamente em 2005, por iniciativa de Antonino Ferro, que reúne ao seu redor um grupo de seus alunos provenientes de várias partes da Itália e residentes em Pavia, já membros da Sociedade Psicanalítica Italiana, da Associação Psicanalítica Internacional e, naquele momento, ainda associados ao Centro Milanês de Psicanálise. O grupo começou a se reunir à noite no consultório de Ferro, inicialmente discutindo exclusivamente sessões de análise.
Cada um, em sua própria individualidade, mas também por meio de frequentes intercâmbios com aqueles que viriam a se tornar integrantes do Grupo Pavese, já havia, há vários anos, adotado e estudado a teoria de Wilfred Ruprecht Bion, que chegou à Itália graças a Francesco Corrao, que, em diversas ocasiões, durante os anos 1970, havia convidado Bion a Roma para seminários, promovendo seu pensamento.
O trabalho de Ferro e Bezoari (1989), “Escuta, interpretação e funções transformadoras no diálogo analítico”, representa a síntese de múltiplas influências que, de diferentes vertentes, estavam desenvolvendo teorias sob uma perspectiva de Campo Bipessoal, sobretudo os cônjuges Willy Baranger e Madeleine Baranger, que, com essa proposta, abandonam a visão unipessoal de Freud, ou ainda Robert Langs (1978), que enfatiza o movimento em espiral do diálogo analítico.
Em particular, o trabalho de Ferro e Bezoari tem o mérito de estabelecer um vínculo claro entre as contribuições dos Baranger e de Bion e, sobretudo, marca o nascimento da Teoria do Campo Analítico de vertente pavese, que se torna objeto de estudo e desenvolvimento do grupo.
O grupo percebe que, nos três livros de Bion — Transformações (1965), Second Thoughts, ao qual acrescentou os Comentários (1967), e Atenção e Interpretação (1970) —, além da trilogia Memória do Futuro (1975), Bion promove mudanças que permitem definir um primeiro período de Bion, mais kleiniano em suas obras anteriores, e um segundo Bion, no qual emergem conceitos e uma linguagem completamente novos, que se afastam da metapsicologia freudiana e kleiniana, construindo sua própria arquitetura metapsicológica.
Isso começa por uma concepção diferente do inconsciente: ele deixa de ser um recipiente do reprimido que deve ser desvelado e passa a ser um inconsciente que se cria continuamente na relação, com o objetivo de desenvolver a capacidade de sonhar os próprios impasses emocionais.
O grupo decide seguir esses segundos desenvolvimentos, que sente serem mais coerentes com uma maneira de trabalhar na qual está se reconhecendo.
Se a teoria do Campo Bipessoal dos Baranger está mais fundamentada no conceito de Fantasma, de identificação projetiva e no conceito de Bastião, os trabalhos do segundo Bion procuram um Campo mais relacionado à teoria das Transformações, na qual a identificação projetiva não possui mais apenas um valor patológico, mas assume um caráter mais relacional e comunicativo.
Dessa perspectiva nascerão os conceitos de Continente e Continente/Conteúdo, com seus grafos, ♀ e ♀↔♂, mas sobretudo o conceito de O, como a coisa em si, que não pode ser conhecida diretamente.
A essa visão, o Grupo Pavese acrescenta, ao longo do tempo, uma teoria do personagem como vetor de emoções à espera de transformações, com importantes consequências para a técnica e inaugurando uma Teoria do Campo pós-bioniana.
Os desenvolvimentos mais recentes caminham para a afirmação de um vértice do NÓS, isto é, para considerar virtualmente todo acontecimento da análise como uma cocriação, definindo uma “ontologia do NÓS” e uma psicanálise ontológica, em vez de epistemológica, bem como uma absoluta corresponsabilidade, no plano inconsciente, pelos acontecimentos da análise entre analista e paciente.
Com isso, afasta-se do modelo bipessoal Eu/Tu e adota-se uma matriz intersubjetiva (Kurt Lewin, Husserl, Merleau-Ponty), na qual o objeto de investigação é o ENTRE, o Campo — pensando, por exemplo, no vaso de Rubin.
Nesse contexto, ganha interesse o estudo de sua meteorologia, de seu clima e da consideração da dupla como um grupo, com seus pressupostos básicos, que constituem o O do Campo.
A história do sujeito não desaparece, mas permanece em segundo plano, com a finalidade de criar um espaço no qual o onírico possa se desenvolver mais amplamente.
O analista, com seu Eu, permanece sempre como o garantidor do processo analítico.
Basta pensar na famosa citação de Donald Woods Winnicott, “não existe um bebê, não existe uma mãe”, com a qual ele apreende a dimensão do crescimento mental somente e exclusivamente dentro de uma relação, como no modelo mãe/bebê.
De maneira autorizada, Otto Friedmann Kernberg (2011), Anthony Elliott e Jeffrey Prager (2016) e Stephen Seligman (2017) incluíram a Teoria do Campo Analítico entre as principais correntes da psicanálise contemporânea.
Otto Friedmann Kernberg (2011, p. 8), em “Divergências na psicanálise contemporânea”, afirma que: “Os desenvolvimentos mais significativos dentro do amplo espectro da teoria psicanalítica dizem respeito […] à abordagem neobioniana, de um lado, e à abordagem relacional, de outro. A primeira ampliou sua esfera de influência no contexto europeu, sobretudo na Itália e, em certa medida, também na América Latina, por impulso dos trabalhos de Antonino Ferro.”
Logo, no grupo, surge a necessidade de dar voz às ideias que estavam emergindo, com a publicação, em 2007, do primeiro volume, “Sonhar a análise: desenvolvimentos clínicos do pensamento de Wilfred Ruprecht Bion”.
Seguiram-se outros três livros coletivos, todos traduzidos para diferentes idiomas, além da produção científica individual dos integrantes.
Também foram publicados outros volumes nos quais aparecem trabalhos dos membros do grupo juntamente com outros analistas de diferentes orientações teóricas, como “Contenho Multidões”, Atos do décimo aniversário do Centro Psicanalítico de Pavia (2023), com prefácio de Howard Levine e posfácio de Jay Greenberg.
Ao longo dos mais de trinta anos seguintes, quem principalmente desenvolve a Teoria do Campo Analítico é Ferro, juntamente com o grupo de alunos de Pavia.
A intenção inicial era aprofundar a reflexão sobre o novo paradigma teórico do Campo, por meio do qual se chegou à Teoria do Campo Analítico pós-bioniana.
É importante destacar que foi do Grupo Pavese que surgiu a ideia e o estímulo para que todos os analistas de Pavia fundassem, em 2011, um Centro Psicanalítico de Pavia, que hoje conta com mais de 60 membros, não apenas de Pavia.
É preciso esclarecer que o Grupo Pavese se constitui como um componente externo ao Centro, com sua própria especificidade teórica e de estudo, enriquecendo a multiplicidade teórica do Centro Psicanalítico de Pavia.
A atualidade do grupo é hoje representada por aqueles que, autenticamente, continuam, juntamente com suas próprias linhas pessoais de desenvolvimento, uma reflexão sobre o paradigma do Campo e fazem dele seu atual modelo de trabalho.
Os membros atuais são:
Antonino Ferro, Giuseppe Civitarese, Maurizio Collovà, Fulvio Mazzacane, Elena Molinari, aos quais se juntaram, em 2014, Mauro Manica e Violet Pietrantonio.
Desde sempre, embora não esteja concretamente presente no grupo, Michele Bezoari possui, para todos nós, um importante valor como referência teórica no que diz respeito à teoria do Campo e não apenas a ela, sendo certamente um refinado teórico da psicanálise.
No modelo bioniano, enfatiza-se a maneira de conceber o inconsciente como função psicanalítica da mente, a importância do pensamento onírico da vigília, e o percurso analítico concebido como expansão da capacidade de sentir, pensar e sonhar.
O modelo de Campo conduz a uma escolha forte: considerar o percurso psicanalítico como bipessoal e a construção das interpretações como fruto de uma escrita a quatro mãos.
Fundamental para a construção do modelo onírico pós-bioniano de Campo foi a hibridização com alguns conceitos provenientes da narratologia, sobretudo a teoria do personagem e a leitura do sonho, mas também de toda comunicação do paciente como uma “obra aberta” (Umberto Eco, 1960).
Um breve resumo do percurso do Grupo Pavese
Um breve resumo de parte do percurso realizado pelo Grupo Pavese pode ser feito retomando os temas dos quatro livros publicados.
No primeiro livro produzido pelo grupo, em 2007, “Sonhar a análise” (Dreaming analysis), também traduzido para o espanhol (Soñar el análisis), o foco esteve nos desenvolvimentos clínicos do pensamento de Bion.
A importância do pensamento onírico da vigília e da reverie, as vicissitudes da relação continente-conteúdo, desde a avaliação da possibilidade de sustentação das emoções favorecida pelo enquadre analítico até a construção extrema de conteúdos-assassinos, e os sintomas que sinalizam a presença de núcleos hiperbeta são alguns dos temas abordados.
O segundo livro, de 2011, “Psicanálise em amarelo” (Psychoanalysis as a detective story), foi uma maneira de desenvolver de forma diferente o paradigma indiciário, que esteve na base do trabalho freudiano.
Do analista dotado de um saber enciclopédico que, com racionalidade científica, seguindo indícios, buscava interpretações resolutivas e a descoberta do culpado, chegou-se à descrição de um analista imerso no Campo, que procura digerir, juntamente com o paciente, as emoções e os pensamentos novos que o encontro analítico ativa.
Por meio dos momentos de emergência do Campo, o analista procura identificar o aspecto patológico que a situação psicanalítica coloca em cena naquele momento.
O analista está consciente de seus limites e de sua inevitável participação no adoecimento do Campo analítico e tem como objetivo a cura das inevitáveis doenças do Campo analítico, de modo que possa deixar para a dupla analítica e para o paciente uma memória imunológica.
Inevitavelmente, em uma situação como a descrita, emergirão aspectos mais humanos, e não apenas profissionais, que poderão constituir um recurso nos momentos em que o aspecto lúdico, o “talking as dreaming” (Thomas Ogden), permitir uma troca livre e criativa.
O analista se resigna a ter de reinventar um método analítico com cada paciente e a poder se tornar, dentro das turbulências do Campo, não apenas investigador, mas também culpado e vítima.
No terceiro livro, de 2013, “Psicanálise hoje”, traduzido para o inglês em 2018 com o título Contemporary Bionian Theory and Technique in Psychoanalysis, são abordados, a partir da perspectiva da Teoria Bion-Campo, os capítulos mais importantes da semiologia psicanalítica:
* enquadre;
* transferência e contratransferência;
* interpretação;
* o sonho e o onírico;
* as vicissitudes do percurso terapêutico;
* as variações na psicanálise da criança e do adolescente.
Os percursos dos diversos capítulos desenham uma evolução histórica, mas, com o auxílio de material clínico, delineiam uma psicanálise cujo objetivo não é o desvelamento, mas a expansão do inconsciente.
O olhar sobre os fundamentos da psicanálise tende a evidenciar sobretudo as descontinuidades em relação aos modelos mais clássicos. Isso tanto para ampliar a possibilidade de utilização do instrumento analítico em situações diferentes daquelas clássicas — tratamento de crianças e adolescentes, de pacientes psicóticos e borderline, psicanálise de grupos e em instituições — quanto para não perder a função de pesquisa que toda experiência analítica deve ter, transformando ambos os participantes.
Complementar a esse livro é o seguinte, “A clínica psicanalítica hoje” (Psychoanalytic Practice Today), que seria publicado em inglês em 2019 e é composto por duas partes.
Na primeira, são abordadas algumas categorias clínicas sob uma perspectiva de Campo, desvinculadas da nosografia tradicional:
* anorexia;
* fobia;
* obsessividade;
* depressão;
* transtorno borderline;
* paranoia;
* psicose.
Na segunda parte, são tratadas algumas emoções e sentimentos:
* abandono;
* exclusão;
* raiva;
* vergonha;
* ciúme;
* traição;
* desprezo;
* surpresa;
* tristeza.
A psicopatologia é concebida como a impossibilidade de sonhar a própria experiência emocional, e o Campo como o espaço no qual os sintomas podem encontrar desenvolvimentos por meio de narrativas em um clima onírico.
Os capítulos sobre as emoções procuram delinear uma espécie de semiologia afetiva do encontro analítico, partindo sempre da ideia de
que as emoções envolvem a dupla analítica e de que a difícil gestão de sua intensidade é o motor que impulsiona a mudança em análise.
O objetivo é desbloquear as emoções e os pensamentos ligados a elas, libertá-los da repetição e gerar novas histórias.
