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Um canteiro de obras chamado aparelho psíquico

Um canteiro de obras chamado aparelho psíquico

Por Karin C. Grabner - 

Realizar a leitura dos três artigos metapisicológicos em conjunto, foi como observar Freud desenhando uma estrutura enquanto ainda testava suas fundações. Menos um sistema fechado e mais de um canteiro de obra ainda em atividade.

Em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, o que aparece é quase uma cena inaugural: o aparelho psíquico ainda muito próximo de uma lógica imediata, regido pelo princípio do prazer, buscando alívio como quem abre saídas rápidas para não colapsar sob a pressão. Há algo de provisório nisso, como uma estrutura que ainda não suporta demora. A satisfação pode até ser alucinatória, como se bastasse imaginar para resolver. Mas a realidade não se deixa contornar tão facilmente. Ela entra como uma espécie de exigência estrutural: impõe limites, exige cálculo, pede adiamento. E o aparelho, então, se reorganiza. Não abandona o que era, mas passa a funcionar também de outro modo. A fantasia permanece, quase como um espaço interno onde a antiga lógica continua operando, silenciosa, mas ativa.

Quando chego em Os destinos da Pulsão, a sensação é de que Freud se aproxima ainda mais do que sustenta essa construção por baixo. A pulsão aparece ali como uma força contínua, sem pausa, que vem de dentro, e que, por isso, não pode ser evitada. Não há fuga possível. A reversão em seu oposto, o retorno ao próprio Eu, a repressão e a sublimação aparecem não como categorias rígidas, mas como caminhos que vão sendo abertos para que essa força encontre alguma forma de circulação. Ou seria mais como um rio? Um caminho único que contorna, não cessa, mas encontra seus desvios durante seu curso? 

Nesse movimento se instauram as primeiras relações objetais. O outro não aparece como dado, mas como algo que passa a existir psiquicamente na medida em que é investido. A libido sai, se dirige para fora, encontra algo, se liga. Mas não permanece ali por garantia. Pode retornar, se retrair, se redistribuir. O laço com o objeto depende dessa circulação, não de uma fixação definitiva. E isso abre uma questão que, para mim, fica em suspenso: o que acontece com aquilo que nunca chegou a encontrar um objeto? Permanece como resto, como tensão sem forma, ou sempre encontrará outras vias de se fazer presente?

É nesse ponto que Introdução ao narcisismo me parece me dar algumas pistas quando Freud traz um olhar para o lugar onde essa energia se deposita. A ideia de que a libido investe o próprio Eu, me parece, como se antes de qualquer abertura ao mundo, houvesse uma espécie de recolhimento. Como se toda a energia estivesse inicialmente concentrada no próprio núcleo da construção. O Eu não é apenas quem organiza, ele é também aquilo que recebe investimento. O aparelho deixa de ser apenas um funcionamento e passa a ter um ponto de referência. Ele é habitado.

Mesmo quando o sujeito se volta para o mundo, algo permanece voltado para si, como um centro que nunca se esvazia por completo. A pulsão insiste, e o aparelho psíquico responde redesenhando seus próprios limites. O que me leva a pensar: existe um equilíbrio possível? Ou estamos sempre lidando com uma estabilidade apenas momentânea, sempre à beira de se refazer? 

Se tento amarrar tudo isso, o que se forma não é exatamente uma teoria fechada, mas um campo em movimento. Um aparelho que se organiza entre prazer e realidade, atravessado por forças internas que não cessam, e sustentado por uma economia que distribui, recolhe e desloca investimentos o tempo todo.

Talvez seja por isso que não haja um ponto de chegada estável. O próprio sujeito não se fixa. Ele circula. Investe, retira, retorna. E a meu ver, é nesse movimento, mais do que em qualquer forma acabada, que o aparelho psíquico vai se constituindo.

Assim, mesmo antes de uma teoria pulsional formalizada, o que Freud esboça aqui, na minha leitura, é menos uma teoria acabada e mais uma lógica de constituição: um aparelho que se organiza entre exigências que não cessam, que precisa dar destino àquilo que o atravessa e que só encontra o outro na medida em que consegue investir para além de si. O narcisismo não aparece, então, como uma etapa a ser abandonada, mas como essa base silenciosa que sustenta (e ao mesmo tempo ameaça) toda possibilidade de ligação.