Por Celso Augusto Alberti -
Em 1914, quando Freud escreveu Introdução ao narcisismo, ele ainda não havia sistematizado sua teoria pulsional da forma como faria em Pulsões e seus destinos e em O inconsciente, ambos de 1915. Mesmo assim, esse texto de 1914 ocupa um lugar muito importante na obra freudiana, porque nele aparecem de forma mais concentrada alguns problemas que já vinham sendo discutidos e que depois ganhariam maior desenvolvimento. Entre eles, está justamente a questão do narcisismo, que se torna central para pensar a formação do Eu, a distribuição da libido, as primeiras relações de objeto e, de modo mais amplo, a própria constituição do aparelho psíquico.
Para entendermos isso melhor, vale começar pela teoria das pulsões. Em Pulsões e seus destinos, Freud define a pulsão como algo que fica no limite entre o somático e o psíquico, não se tratando simplesmente de um estímulo do corpo, nem de uma ideia já pronta, mas de uma exigência de trabalho que parte do corpo e pressiona o psiquismo em busca de satisfação. Freud distingue nela 4 fatores que se interrelacionam: a fonte, a pressão, o alvo e o objeto. A fonte é o processo corporal de onde ela parte (nasce); a pressão é a força constante e insistente atuando no psiquismo; o alvo é sempre alguma forma de satisfação; e o objeto é aquilo (algo ou alguém) por meio do qual essa satisfação pode ser alcançada. Essa formulação permite compreender que a vida psíquica não nasce pronta e nem unificada, mas se forma sob a pressão de exigências pulsionais que pedem descarga, satisfação, transformação e representação.
Nesse ponto, em O inconsciente, Freud avança ao mostrar que o inconsciente não deve ser entendido apenas como aquilo que não está presente na consciência. Ele funciona como um sistema com características próprias, em que predominam os processos primários, o deslocamento, a condensação, a ausência de contradição, a atemporalidade e uma relação diferente com a realidade. Isso mostra que o aparelho psíquico não pode ser pensado como algo simples ou linear; ele vai se formando à medida que precisa dar algum destino às pulsões, organizar representações e lidar com tensões internas que não desaparecem por conta própria.
É justamente aí que Introdução ao narcisismo ganha importância maior. Freud afirma que o Eu não existe desde o começo como uma unidade pronta e essa é, para mim, uma das ideias mais importantes do texto. No início, não há um Eu já constituído que possa investir em si mesmo. O que existe são pulsões parciais, ligadas a zonas erógenas, funcionando de forma autoerótica, que encontram satisfação no próprio corpo sem que haja ainda uma unidade psíquica organizada. O narcisismo surge quando essa dispersão começa a se reunir em torno de uma imagem mais unificada do Eu. Em outras palavras, ele marca um momento importante da constituição subjetiva.
Essa passagem do autoerotismo ao narcisismo ajuda muito a pensar a formação do aparelho psíquico. No autoerotismo, a satisfação acontece no próprio corpo, mas isso não quer dizer independência real. Desde o início, o bebê depende de um outro para viver. A alimentação, o cuidado, o alívio da tensão e a própria experiência de satisfação passam por esse outro (exemplo: a mãe). É nesse ponto que as pulsões sexuais se apoiam nas funções de autoconservação e começam a aparecer os primeiros vínculos com o objeto. O objeto, então, não surge primeiro como algo amado em sentido pleno, mas como aquilo ou aquele por meio de quem a satisfação se torna possível.
Por isso, as primeiras relações de objeto não podem ser separadas da constituição do Eu. Num primeiro momento, o objeto vale por sua função satisfatória. Mas, pouco a pouco, com a repetição das experiências de presença e ausência, satisfação e frustração, ele vai ganhando consistência psíquica. É nesse movimento que começa a se estabelecer uma diferença entre dentro e fora, entre Eu e não Eu. O aparelho psíquico vai se formando justamente nesse trabalho de dar alguma organização a essas experiências e às tensões que delas decorrem.
Nesse contexto, o narcisismo deixa de ser entendido como simples amor-próprio, no sentido comum da palavra, e passa a ser visto como uma forma fundamental de investimento libidinal. Freud mostra que a libido pode se dirigir tanto aos objetos externos quanto ao próprio Eu. O chamado narcisismo primário corresponde ao momento em que o Eu em constituição se torna o principal alvo desse investimento. Isso é decisivo porque mostra que o Eu também pode ser objeto da libido. Já não se trata apenas de pulsões dispersas, mas de uma certa centralização libidinal em torno de uma unidade nascente.
Essa formulação tem consequências importantes. Antes disso, a oposição principal era entre pulsões do Eu e pulsões sexuais. Com a introdução do narcisismo, Freud percebe que o próprio Eu pode ser investido pela libido. Surge, então, a distinção entre libido do Eu e libido de objeto. Essa circulação é importante porque mostra que a relação com os objetos não elimina o investimento em si mesmo, e que o retorno da libido ao Eu também não apaga a importância dos objetos. Há, portanto, uma mobilidade constante, e é nela que a constituição subjetiva se deixa pensar.
Por isso, o narcisismo ocupa um lugar tão importante na formação do aparelho psíquico. Ele permite articular a dispersão pulsional inicial, a constituição do Eu e o surgimento das relações de objeto. Sem esse conceito, a passagem do autoerotismo para a escolha de objeto talvez ficasse menos compreensível. O narcisismo mostra que, antes de amar o objeto, o sujeito precisa se constituir como unidade investida. O outro só pode aparecer como objeto de investimento quando o Eu já começou, de algum modo, a se organizar.
Assim, para Freud, o narcisismo não deve ser entendido como um fechamento completo do sujeito sobre si mesmo. Ele é um momento necessário da constituição psíquica e é a partir dele que o Eu começa a se organizar, que a libido encontra um centro provisório e que o outro pode aparecer como objeto de amor, conflito, perda e investimento. Pensar o narcisismo, portanto, é também pensar como se formam o Eu, a economia libidinal e o próprio aparelho psíquico.
