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O Corpo que Sonha: Campo Incorporado e Reverie Somático na Clínica Psicanalítica

O Corpo que Sonha: Campo Incorporado e Reverie Somático na Clínica Psicanalítica

Por Pedro Castro

Uma reflexão epistemológica e técnica a partir da obra de Giuseppe Civitarese

Introdução: Para além da palavra

A psicanálise sempre reconheceu que a comunicação ultrapassa o verbal. Freud já nos alertava para a "outra cena" que se expressa nos sonhos, nos lapsos e nos sintomas. Contudo, foi com Bion e os desenvolvimentos da teoria de campo que pudemos avançar na compreensão de como o inconsciente se manifesta não apenas em representações imaginativas, mas também em sensações, afetos e ações que ocorrem no encontro analítico.

Giuseppe Civitarese, em seu artigo "Campo incorporado e reverie somático", propõe uma expansão radical do conceito de reverie: ela não se restringe a imagens e pensamentos oníricos, mas inclui sensações corporais, gestos e ações aparentemente banais do analista. Essas manifestações, longe de serem meros ruídos contratransferenciais ou enactments a serem evitados, constituem vias privilegiadas de acesso aos níveis mais arcaicos da experiência emocional - aqueles que ainda não alcançaram simbolização e que se inscrevem no que Civitarese chama de campo incorporado.

Este texto tem por objetivo apresentar os fundamentos epistemológicos dessa noção, diferenciá-la de concepções retificadoras e oferecer subsídios para sua utilização na clínica cotidiana. Para isso, partiremos das premissas da teoria de campo bioniana, examinaremos o estatuto do corpo como instrumento de conhecimento e ilustraremos, com exemplos clínicos, como o analista pode "sonhar no corpo" aquilo que o paciente ainda não pode sonhar.

1. O campo analítico como terceiro inconsciente

Antes de adentrarmos o conceito de reverie somático, é necessário situar o modelo de campo que o sustenta. Civitarese filia-se à tradição inaugurada por Bion e desenvolvida por autores como Ferro e Ogden, na qual o campo analítico é concebido como um terceiro inconsciente que emerge do encontro entre duas subjetividades. Não se trata de uma entidade metafísica, mas de um instrumento de observação que nos permite pensar os fenômenos clínicos como cocriações.

Nesse modelo, todo evento na análise - uma palavra, um silêncio, um gesto, uma sensação - é visto como expressão do campo, isto é, como resultante da interação inconsciente entre paciente e analista. A mente individual cede lugar a uma matriz relacional onde as fronteiras entre sujeito e objeto se tornam permeáveis. É nesse contexto que o corpo do analista deixa de ser um mero receptáculo de projeções e passa a ser compreendido como parte integrante do campo: um lugar de inscrição e transformação de experiências ainda não simbolizadas.

2. O que é reverie somático?

Tradicionalmente, a reverie designa a capacidade do analista de acolher e transformar, por meio de devaneios e imagens, as comunicações inconscientes do paciente. Civitarese propõe que essa capacidade se estende ao domínio do sensível: sensações corporais, impulsos motores, reações fisiológicas e até ações automáticas podem ser compreendidas como reveries em estado bruto.

Reverie somático é, pois, a manifestação corporal de um processo de transformação psíquica ainda incipiente. Quando o analista sente um aperto no peito, uma vontade de tapar os ouvidos, um impulso de se mexer na cadeira ou mesmo um gesto repetitivo como beber água em sincronia com o paciente, ele está, potencialmente, sonhando no corpo aquilo que o campo analítico está vivendo.

A diferença crucial entre reverie somático e enactment (entendido como atuação inconsciente) reside na atitude reflexiva posterior. O enactment tende a ser visto como uma falha técnica, uma repetição não elaborada. O reverie somático, por sua vez, é acolhido como dado clínico: a sensação ou ação é observada, interrogada e, posteriormente, interpretada à luz do campo. Não se trata de agir deliberadamente, mas de deixar-se afetar e, em seguida, despertar para o significado que essa afetação revela.

3. Epistemologia do corpo: o corpo como instrumento de conhecimento

Para que o reverie somático não seja confundido com uma comunicação mística ou com uma simples descarga emocional, é fundamental compreender seu estatuto epistemológico. Civitarese recorre à fenomenologia de Merleau-Ponty e à noção de intercorporalidade para fundamentar a ideia de que o corpo é, ele mesmo, um lugar de produção de sentido.

Na tradição fenomenológica, o corpo não é um objeto entre outros, mas a condição de possibilidade de toda experiência. É por meio dele que estamos no mundo e que nos relacionamos com os outros. Na clínica, isso implica que a comunicação entre analista e paciente se dá também em um nível pré-reflexivo, tônico e postural. Posturas, ritmos e sincronias motoras são formas de diálogo que precedem e sustentam a troca verbal.

Bion, por sua vez, nos oferece o conceito de sistema protomental, um estado indiferenciado em que emoções, sensações e pensamentos se confundem. É nesse registro que o reverie somático opera: o analista, ao sentir uma tensão muscular ou um cansaço súbito, está em contato com uma dimensão do campo que ainda não foi "digerida" pela função alfa. A sensação corporal é, assim, um elemento beta em busca de transformação.

Ao acolher essa sensação e tratá-la como um fenômeno do campo - e não como idiossincrasia pessoal - o analista inicia um processo de simbolização. O corpo "pensa" antes que a mente consciente elabore; cabe ao analista, num segundo momento, traduzir esse pensamento corporal em linguagem interpretativa.

4. Exemplos clínicos: o corpo em cena

Para ilustrar a aplicação do conceito, tomemos algumas vinhetas do próprio Civitarese, adaptadas para fins didáticos.

Exemplo 1: A voz que fere

Durante uma sessão, uma paciente utiliza repetidamente expressões de forte carga agressiva. O analista sente um desconforto físico crescente, como se as palavras "perfurassem" sua pele. Em determinado momento, percebe que está com os punhos cerrados e uma vontade quase incontrolável de interromper a sessão.

Em uma leitura tradicional, isso poderia ser visto como contratransferência reativa ou como falha na capacidade de continência. Pela ótica do reverie somático, o analista interroga: "O que meu corpo está me dizendo sobre o campo?". A sensação de ser perfurado aponta para a violência psíquica que a paciente viveu e que agora é encenada na relação. O corpo do analista sonha a dor que a paciente não pode simbolizar.

Após a sessão, ao refletir sobre sua reação, o analista percebe que a paciente testava se ele suportaria suas partes "sujas". A sensação corporal foi a primeira forma de contato com essa área cindida, permitindo que, mais tarde, uma interpretação pudesse ser construída.

Exemplo 2: A sincronia da água

Outro paciente, sempre pontual, traz uma garrafa de água e bebe um gole ao deitar-se no divã. O analista, sem pensar, repete o gesto no mesmo instante. Só depois de várias sessões notam essa sincronia e se pergunta sobre seu significado.

O gesto automático de beber água em espelho revela uma unissonância sensorial que precede qualquer diferenciação. O paciente, que se queixa de conversas vazias e superficiais, precisava, antes de tudo, de uma sintonia corporal básica - uma experiência de "ser um só corpo" - para que, posteriormente, pudesse emergir a palavra significativa. O analista, ao participar desse ritual sem planejamento, estava oferecendo, em ato, a base para a simbolização.

Exemplo 3: O toque que integra

Uma jovem paciente com histórico de autolesão, em meio a uma sessão, levanta-se e pede que a analista toque seus cabelos, para que sinta como são finos. A analista toca. O gesto, longe de ser uma invasão ou um acting out, é compreendido como uma tentativa de restabelecer a continuidade física com o objeto, condição necessária para a integração somatopsíquica.

A analista, posteriormente, reflete que sua mão, ao tocar, simbolizou o acolhimento que a paciente não pudera internalizar. O toque não foi uma intervenção técnica no sentido clássico, mas um reverie encarnado, uma resposta do campo a uma necessidade de unidade.

5. Como usar o reverie somático na prática clínica

A incorporação do reverie somático à técnica exige do analista uma mudança de vértice em relação à sua própria corporalidade. Em vez de tratar sensações e ações como ruídos a serem eliminados, o analista é convidado a:

• Cultivar a atenção ao próprio corpo durante as sessões, observando tensões, ritmos e impulsos, sem julgamento imediato.

• Interrogar a sensação como fenômeno do campo: "O que esta tensão, este cansaço, este gesto repetitivo pode estar me dizendo sobre o vínculo?".

• Diferenciar o idiossincrático do campal: nem toda sensação é um reverie; algumas são pessoais e não dizem respeito ao paciente. A distinção se faz pela reflexão e, muitas vezes, pela supervisão.

• Permitir-se ser afetado, mas sem agir impulsivamente. O reverie somático não é um convite à atuação, mas à receptividade ativa.

• Traduzir em interpretação apenas após o "despertar", ou seja, depois de elaborar mentalmente a experiência. A interpretação pode ser verbal, mas também pode se manifestar em uma mudança de atitude, em um olhar, em um acolhimento silencioso.

É fundamental lembrar que o reverie somático não substitui a palavra, mas a prepara. Ele atua nos estratos mais profundos da comunicação, onde a linguagem ainda não chegou. Por isso, é especialmente valioso no trabalho com pacientes de difícil acesso, com grave comprometimento da capacidade simbólica.

6. Distinções necessárias: reverie somático, enactment e equação simbólica Para evitar mal-entendidos, Civitarese faz questão de diferenciar o reverie somático de outros conceitos.

Enactment: Geralmente entendido como uma atuação inconsciente que repete padrões patológicos e que, idealmente, deveria ser evitada ou analisada a posteriori. O reverie somático, por sua vez, é acolhido como fonte de conhecimento desde o início, mesmo que só possa ser compreendido depois.

Equação simbólica: Na equação simbólica, o símbolo é confundido com a coisa simbolizada (ex.: o paciente que diz "estou morrendo de medo" e age como se a morte fosse literal). No reverie somático, o corpo não é tomado como literalidade, mas como metáfora encarnada. A diferença está no despertar: a equação simbólica é um estado de não-sonho; o reverie é um sonho que, ao ser refletido, se torna símbolo.

Comunicação direta de inconsciente a inconsciente: Civitarese não postula nenhuma forma de telepatia ou transmissão energética. O corpo do analista registra o campo porque ambos os participantes estão imersos em uma mesma matriz relacional. É a intercorporalidade que explica essa ressonância, não uma comunicação extrassensorial.

7. Implicações éticas e técnicas

Acolher o reverie somático na clínica implica uma revisão da neutralidade clássica. O analista não é uma tábula rasa, mas um corpo vivo que participa da cena. Isso exige: Humildade para reconhecer que nem sempre compreendemos imediatamente o que sentimos.

Confiança no processo inconsciente, tanto do paciente quanto do próprio analista.

Capacidade de esperar antes de interpretar, permitindo que o sentido se desdobre.

Supervisão constante, para que o analista possa discriminar o que é seu e o que é do campo.

Além disso, o reverie somático nos lembra que o setting não é apenas um conjunto de regras formais, mas um campo vivo que respira. Pequenas violações - um encurtamento involuntário da sessão, um gesto inesperado - podem ser oportunidades preciosas de acesso ao que estava congelado. O importante é que, após a turbulência, o analista recupere a capacidade de pensar e de sonhar o ocorrido.

Conclusão: O corpo como lugar de sonho

A psicanálise sempre soube que o inconsciente se escreve no corpo. Dos sintomas conversivos de Freud às identificações projetivas de Klein, passando pelas psicossomatizações, o corpo nunca esteve ausente. No entanto, faltava-nos um modelo que integrasse a corporalidade do analista como instrumento de trabalho.

Civitarese, ao propor o conceito de reverie somático, oferece-nos uma ferramenta epistemológica e clínica de grande alcance. Ela nos permite:

• Observar o corpo do analista como parte do campo.

Transformar sensações em pensamentos.

Acolher níveis arcaicos de experiência sem reduzi-los à patologia.

Ampliar nossa capacidade de sonhar junto com o paciente.

Sonhar no corpo é, afinal, uma forma de estar presente na relação com toda a nossa humanidade. É reconhecer que, antes de sermos mentes que interpretam, somos corpos que sentem, que se movem, que tocam e que são tocados. E é nesse toque sensível que a psicanálise encontra, mais uma vez, sua potência transformadora.

Psicanalista Pedro Castro - Contato: (12) 99175-1787
Instituto Ékatus / Escola Paulista de Psicanálise

Referência:
Civitarese, G. (2021). Campo incorporado e reverie somático. In: Revista de Psicanálise.