Por Emanuelle Duarte -
Havia uma casa no alto de uma rua silenciosa. Não era uma casa comum: os corredores pareciam mudar de lugar conforme o humor dos moradores, os espelhos devolviam expressões ligeiramente atrasadas, e à noite era possível ouvir passos vindos de quartos vazios, como se os desejos andassem sozinhos depois que todos dormiam. Nessa casa, viviam duas crianças: Orfeu e Eurídice.
Orfeu acreditava que a mãe continha a luz do mundo. Quando ela atravessava a cozinha pela manhã, o sol parecia segui-la pelas paredes. O menino a observava com aquele amor absoluto que só as crianças possuem: amor sem medida, sem distância, sem lei. Queria sentar-se ao lado dela à mesa, dormir ao seu lado nos dias de chuva, monopolizar lhe os olhos. O pai, Augusto, era uma figura estranha para Orfeu. Às vezes admirável, às vezes ameaçadora. Havia noites em que o menino observava o pai entrar no quarto da mãe e sentia algo difícil de nomear: uma mistura de ciúme, raiva e perda. Como se alguém lhe roubasse, silenciosamente, um território invisível.
Então, começaram os sonhos. Sonhava que estava diante de uma porta dourada, mas o pai segurava a maçaneta e dizia:
— Aqui não.
Orfeu acordava inquieto. Não compreendia por que aquele não ecoava tanto dentro dele. Certa tarde, ao quebrar sem querer um relógio do pai, ouviu Augusto ralhar com severidade incomum. Nada de extraordinário fora dito, mas o menino sentiu um medo ancestral percorrê-lo. Pela primeira vez, percebeu que existiam limites; que havia uma força diante da qual seu desejo não bastava. Naquela noite, ficou em silêncio durante o jantar.
Depois disso, começou lentamente a imitar o pai: ajeitava a manga da camisa como ele, repetia certas palavras, tentava andar com a mesma firmeza. O rival transformava-se, pouco a pouco, em modelo. Sem saber, Orfeu fazia nascer dentro de si uma nova instância: um juiz interno, severo e admirado ao mesmo tempo. A voz do pai já não vinha apenas de fora, começava a morar nele.
Enquanto isso, Eurídice caminhava por outra margem do mesmo rio. Na infância, sua mãe era o universo inteiro. Eurídice penteava os cabelos diante do espelho tentando reproduzir seus gestos. Sentia-se parte dela, como se fossem continuação uma da outra. Mas um dia, ao brincar com os meninos da rua, percebeu algo que não soube compreender. Voltou para casa silenciosa, olhando o próprio corpo com estranhamento. Havia descoberto a diferença.
A mãe, antes continente absoluto, pareceu-lhe de repente insuficiente. Incompleta. E Eurídice, sem compreender exatamente o porquê, começou a afastar-se dela com pequenas hostilidades delicadas: recusava colo, fechava a porta do quarto, respondia secamente. Foi então que voltou os olhos para o pai. Augusto, agora, parecia-lhe detentor de algo misterioso, algo ligado ao poder, à autoridade, à inteireza imaginária que a menina julgava não possuir. Eurídice passou a buscá-lo pela casa, sentava-se perto dele enquanto lia jornal, ria excessivamente de suas piadas sem graça.
À noite, sonhava com jardins proibidos. Em um desses sonhos, caminhava por um bosque onde todas as árvores tinham frutos dourados, exceto uma árvore seca no centro do terreno. Ao aproximar-se dela, ouvia uma voz sussurrar:
— Nem toda falta pode ser preenchida.
Eurídice despertava angustiada. Com o tempo, começou também a se identificar com a mãe, mas já não da forma fusional da infância. Agora, havia distância, rivalidade, semelhança e perda misturadas numa mesma matéria afetiva. A mãe deixava de ser extensão do corpo; tornava-se enigma.
As duas crianças cresciam sem perceber que dentro delas existia uma casa ainda maior que aquela em que moravam. No porão desta casa interior, pulsavam desejos indomáveis. Nos corredores, o eu tentava manter certa ordem, equilibrando medos, vontades e exigências do mundo. E no sótão, às vezes sombrio, às vezes majestoso, instalava-se lentamente uma voz feita de proibições, ideais e culpa.
O desejo.
O Eu.
A proibição.
Mas as crianças não conheciam esses nomes. Conheciam apenas os sintomas. Orfeu começou a roer as unhas até ferir os dedos. Eurídice passou a inventar histórias antes de dormir, histórias em que princesas desapareciam dentro de espelhos. Porque aquilo que não pode ser vivido diretamente retorna disfarçado. O desejo, quando impedido de falar claramente, aprende a usar máscaras.
Anos depois, já adultos, Orfeu e Eurídice não se lembrariam dessas cenas infantis. A memória apagaria detalhes, mudaria rostos, confundiria datas. Ainda assim, algo permaneceria. Orfeu apaixonava-se sempre por mulheres diante das quais precisava disputar lugar: mulheres indisponíveis, excessivamente admiradas, quase inalcançáveis. Sem perceber, repetia o antigo movimento infantil de desejar aquilo que parecia pertencer a outro homem. Em cada amor, havia novamente um rival invisível, uma interdição silenciosa e a esperança impossível de voltar a ocupar, sozinho, o centro do afeto.
Eurídice, por sua vez, buscava homens cuja presença carregava autoridade, proteção e distância. Amava aqueles que pareciam prometer reconhecimento absoluto, mas que permaneciam emocionalmente inacessíveis, como se o amor precisasse conservar certa ausência para continuar existindo. Em cada escolha amorosa reaparecia, disfarçada, a antiga tentativa de recuperar no outro aquilo que um dia julgara perdido. E ambos carregavam, sem plena consciência, os vestígios daquele primeiro drama infantil: a descoberta de que o desejo nasce precisamente daquilo que não pode ser inteiramente possuído.
Talvez seja isso que Sigmund Freud tenha compreendido com espantosa lucidez: o ser humano não nasce pronto para o amor, para a lei ou para si mesmo. Ele se constrói atravessando interdições, fantasias, identificações e faltas.
A infância, afinal, nunca termina completamente. Ela apenas aprende a vestir roupas adultas.
