Por Rodrigo Lopes Barreto -
Olá, seguiróticos! Sou a Segunda Tópica e este é o meu podcast! Acredita que quase fomos censurados? Acharam que seguiróticos era a contração de seguidores eróticos, e não de seguidores neuróticos, gente... É podcast, não only fans! Pois ficarão ainda mais chocados, devido à enorme repercussão do último episódio resolvi continuar falando de mim, mas dessa vez sobre a sexualidade no contexto da Segunda Tópica Freudiana, um podcast proibidão! (A Segunda faz uma cara afrontosa). Novamente estou acompanhada do meu empresário, mentor e desenvolvedor, Sigmund Freud, que dispensa apresentações. Também temos conosco Inah Amaya, que está na metade da sua formação em psicanálise. Seja bem-vinda, amei seu nome, aposto que seus pais te colocaram no Colégio Waldorf! (Inah ri muito e consente com a cabeça). Vamos começar então. Tio Sig, conta pra gente, por que você só pensa naquilo?
Sigpsimund Freud- Aproveitando a censura quase sofrida Segunda, eu diria que todo neurótico tem algo de erótico, então a confusão não é injustificada. (a Segunda gargalha) A sexualidade, e em especial a sexualidade infantil permeia toda a nossa história psíquica e a psicopatologia na minha obra. O desfecho da sexualidade infantil ocorre ao redor dos 5 anos, com a dissolução do complexo de Édipo e o início do período de latência. O complexo de Édipo é o fenômeno central da vida sexual na primeira infância, e nos meus textos eu desenvolvo relações dele com o complexo de castração em meninos e meninas.
Segunda Tópica- Aproveita que o Senhor já tem fama de misógino e fala primeiro dos meninos...
(Freud abre os braços, faz uma cara triste e resignada, após uns instantes começa a falar...)
Sigmund Freud- Por exemplo, no menino o complexo de Édipo pode gerar satisfação ativa (menino toma o lugar do pai e se relaciona com a mãe) e passiva (menino substitui a mãe e se faz amar pelo pai), mas sua dissolução faz o menino experimentar dolorosas decepções. Quando o menino percebe o risco de castração, seu Eu narcísico o afasta do complexo de Édipo, a autoridade do pai é introjetada no Eu, e forma o Supereu. Agora, se não for totalmente solucionado, o complexo de Édipo fica reprimido no Id e tem uma ação patogênica.
Segunda Tópica- Quer dizer que no menino o complexo de Édipo precede o complexo de castração?
Sigmund Freud- Exatamente! Na fase fálica o menino passa a manifestar interesse pelos corpos e genitais dos outros, por vezes sendo repreendido por um adulto, o menino percebe essa desaprovação como uma ameaça de castração. Duas consequências surgem quando o menino enfim percebe a ausência do pênis em meninas. A primeira é ver as mulheres como inferiores, indignas e castradas, estabelecendo-se uma oposição entre falo (ativo) e castrado (passivo). A segunda é a realização que a castração é uma possibilidade, a ameaça se torna plausível e desperta o medo de que o mesmo aconteça com ele. No menino o complexo de Édipo sucumbe ao complexo de castração, ele não é reprimido, mas se desfaz. Já a menina, quando percebe que não tem um pênis, inicialmente acha que o clitóris é um pênis que não cresceu, se sente em desvantagem e nutre a dúvida se ele virá a crescer. Depois assume a castração.
Segunda Tópica- Segue daqui Inah...
Inah Amaya- Isso que o Sr. Freud começou a falar é muito interessante, nas meninas, o complexo de Édipo é posterior ao fenômeno da castração. Como a castração já está consolidada na menina, no momento da dissolução do complexo de édipo, o Supereu vem muito mais da educação e da intimidação externa que do medo da castração. Mais que isso, nas meninas o complexo de Édipo vai além do desejo de substituir a mãe, ela quer gerar um filho do pai. Ela pode ter sido castrada e perdido o pênis, mas este foi trocado por um bebê, posteriormente ela abandona essa ligação ao pai, por isso costuma se dizer que a menina não destrói o complexo de édipo, mas o abandona.
Segunda Tópica- Eu sinto que a sexualidade feminina foi muito renegada nos três ensaios de 1905, mas a partir dos anos 1920 recebe mais atenção. Vamos falar mais dela?
Inah Amaya- Vamos sim! Na sexualidade feminina acontece a troca do sexo do objeto. Inicialmente, assim como nos meninos, a mãe é o primeiro objeto de amor, esse vínculo forte e intenso pode ir até os quatro anos de idade. Essa seria a primeira fase sexual da mulher, tem caráter masculino e é pré-edípica. Uma segunda fase sexual da mulher tem caráter feminino e edípico, coincidindo com a troca do sexo do objeto, ou seja, da mãe pelo pai.
Segunda Tópica- Babado, confusão e reviravolta... Adoro! Como acontece essa substituição?
Inah Amaya- O afastamento da mãe pela menina se dá por vários motivos. Para começar, o Sr. Freud inferiu há muito que a meta sexual seria a união do pênis com a vagina, portanto, todo amor sem meta estaria fadado à decepção. Há o ciúme dos rivais (irmãos), e o efeito do complexo da castração nas meninas, recriminando a mãe que não lhe deu um pênis. Muito interessante também é a questão da masturbação infantil na menina, o prazer começa através dos cuidados no banho, normalmente realizados pela mãe. Essa mesma mãe reprime e hostiliza quando a menina tenta reproduzir o ato masturbatório, a menina se ressente e afasta a mãe.
Sigmund Freud- Outro ponto interessante, para mim todo ser humano é bissexual em sua origem, mas na mulher essa bissexualidade é mais nítida. Veja a anatomia da mulher, a vagina representa as qualidades passivas e femininas e o clitóris as qualidades ativas e masculinas. Reparem, eu disse qua-li-da-des!
Segunda Tópica- Bem mais legal né? Inah, e essa história de inveja do pênis?
Inah Amaya- A inveja do pênis tem sua origem quando a menina vê o membro do menino. Ela sabe que não tem, mas que ter, e se sente incompleta. Eis a ferida narcísica das meninas, dolorosa, mas que propicia o desenvolvimento rumo à feminilidade. A menina passa a ter ciúme do pai e afrouxa sua relação com a mãe. Em última análise, a aceitação da castração leva ao complexo de Édipo.
Segunda Tópica- E se ela não aceitar a castração Tio Sig?
Sigmund Freud- Recusar a castração equivale a recusar a feminilidade e a passividade. Eu chamo isso de complexo da masculinidade da mulher. Se olharmos bem, ela ocorre de forma transitória em todas as meninas, mesmo que por um breve tempo, como consequência da inveja do pênis, o complexo é abandonado quando surge a ligação da menina com o pai. Se ao invés de ligação ocorrer uma identificação com o pai, o complexo da masculinidade da mulher pode persistir ou retornar, a menina se agarra à fantasia de ser homem, assume uma atitude desafiadora, rebelde e ativa, por vezes resultando na homossexualidade feminina.
Segunda Tópica- Momento passada de pano! Gente, dá um desconto para o Sr. Freud, isso foi escrito em 1925, obviamente aos olhos de hoje o conteúdo é misógino, mas se olharmos bem, ele foi um progressista, fora o olhar e cuidado às histéricas, renegadas pela medicina. O programa está quase acabando e o clima está muito pesado, e se a gente falasse de fetiche?
Inah Amaya- Vamos amenizar o clima falando de fetiche? (todos riem) Segundo o Sr. Freud, e novamente falando sobre homens (Freud dá um sorriso amarelo), o fetiche é um substituto para o falo da mãe. O menino se recusa a acreditar que a mãe tenha perdido o pênis. O fetiche sustenta essa recusa, e outro elemento ocupa o lugar e o interesse dirigido a esse membro, pode por exemplo, ser uma parte do corpo ou uma vestimenta específica. O fetiche é uma forma de trunfo e proteção contra a ameaça de castração.
Segunda Tópica- Amei! Queria agradecer nossos convidados, meus amados seguiróticos, e aproveito pra informar que essa é a última edição do podcast. (ahhhhhhhh, ecoa no estúdio).
Inah Amaya- Como assim, Segunda? Seu podcast é um sucesso!
Sigmund Freud- Conta logo a novidade Segunda! Se não eles vão ficar ansiosos e reprimir...
Segunda Tópica- Não fiquem tristes! Vem aí um novo projeto. Em dois meses vou para a tv aberta, onde comandarei meu reality show, A Casa dos Neuróticos! Dora e o Pequeno Hans já estão confirmados! Beijos em todos!
