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Entre Perder e Elaborar

Entre Perder e Elaborar

Por Karin C. Grabner - 

Eu poderia começar dizendo que o luto se relaciona à pulsão de vida na medida em que permite a retirada progressiva da libido do objeto perdido e seu reinvestimento no mundo, enquanto a melancolia indicaria um predomínio da pulsão de morte, visível na repetição, no esvaziamento e no retorno da agressividade ao próprio Eu. Contudo, por uma ironia do destino meio cruel, precisei ler Luto e Melancolia (1915), de Freud, na mesma semana enquanto tentava dar conta do meu próprio luto. Ler doeu. E viver o luto deslocou a teoria do lugar abstrato. A perda me revelou algo mais confuso, mais difuso e menos organizado do que a divisão simples entre pulsão de vida e pulsão de morte parece sugerir nos textos de Freud. No entanto, escrever este texto parece ter se imposto como destino dessa energia, uma tentativa de dar forma ao que insistia em não ter nome, uma pequena canalização, talvez, para não deixar tudo soterrado.

O que me atravessou não foi exatamente a morte do meu pai, mas o que veio junto. Ficou claro que o problema não era só perder alguém, era não ter onde colocar essa perda. Freud escreve sobre o luto como um trabalho, e isso deixou de soar como algo abstrato quando eu precisei sustentar esse processo no corpo. Foi como um processo de desmontagem. Não era mais sobre quem se perdeu, mas sobre o que se perdeu de mim. O objeto não foi embora por completo, ele se instalou com tudo o que não foi resolvido, tudo que era ambivalente, tudo que não encontrou destino.

Como se o sofrimento tivesse prazo, ainda me impuseram um limite: você tem três dias de licença para sofrer. E isso não veio só do trabalho. Alguns amigos e familiares não compreendiam por que depois de alguns dias eu ainda me recusava a sair da caverna. Como os instintos vão encontrar o mundo assim? Como o luto se inscreve numa cultura que exige performance continua? Um mundo onde a pulsão encontra exigências e ritmos? Os rituais, que deveriam oferecer bordas para a perda, rarearam. O sujeito ficou sozinho com o seu abismo. E quando falta esse apoio, o que acontece? Não há espaço para destino, e o que não se encontra fora retorna para dentro. 

A regra de ouro da contemporaneidade: a dor é fraqueza. A vida exige defesas maníacas, produtividade como antidoto, performance como contenção. Penso no que Walter Benjamin sugeriu ao associar o melancólico como um rebelde que denuncia a doença do sistema, ou Baudelaire, frente a uma estética que transforma dor em criação, mas isso não me convence totalmente. Há denúncia na melancolia, mas há também paralisação. A melancolia, como eu a vejo, não eleva, ela esvazia o impulso vital, pulveriza o ego. 

Foi aí que precisei mudar a pergunta. Em vez de tentar identificar qual pulsão estava em jogo, comecei a pensar em como as forças de ligação e de desligamento estavam se articulando (ou falhando em se articular) diante da perda.

Isso fica mais claro quando olho para o presente. Já reparou a frequência como algumas experiências têm chegado até nós sem tempo de elaboração? A mente, saturada, busca alívio. Às vezes, um alívio curioso: desligar. Para mim, a rolagem infinita da tela aparece como esse gesto. Não é distração, é repetição. Conteúdos entram sem digestão e o psiquismo tenta dar conta como pode. Surge algo da pulsão de morte, não como destruição direta, mas como insistência num movimento que não resolve. Uma tentativa de controlar o que não foi simbolizado. E o que acontece quando o objeto não é apenas relacional, mas social? Talvez isso explique uma série de deslocamentos contemporâneos. Há uma geração que abandona certos excessos e adota outros, troca a balada pelo café da manhã, o álcool pelo autocuidado. Saúde ou ideal introjetado? Liberdade ou novo tipo de vigilância? O olhar do outro não desapareceu, ele se sofisticou.

O objeto, aqui, já não é só uma pessoa. É imagem, estilo de vida, ideal. O que se introjeta não vem apenas das relações, mas de um fluxo contínuo de referências. Gente feliz, produtiva, ajustada. Isso não passa sem efeito. O ideal vira medida, e uma medida impossível. A agressividade retorna ao Eu. A melancolia, então, não surge apenas da perda de alguém, mas da impossibilidade de corresponder ao que se tornou interno. O desejo é reativado o tempo todo e nunca se satisfaz. O sujeito fica preso entre excitação e esvaziamento. Surge um paradoxo. A pessoa quer se sentir viva, ver beleza, rir, acompanhar o mundo, mas faz isso de forma passiva, sem sair do sofá. Tudo chega pronto, sem deslocamento, sem risco, sem vínculo. É uma vida em formato de consumo. Algo que até me lembrou o movimento Fort-Da de início, só que agora como repetição sem elaboração. 

A pulsão de vida está ali, no desejo e na busca de prazer, mas capturada num circuito que não transforma. A pulsão de morte aparece como repetição que esvazia, como desligamento que não encontra elaboração. Não como opostas, mas como forças que se enredam. Uma vitalidade anestesiada. 

No fim, talvez a relação entre pulsão de vida, pulsão de morte, luto e melancolia não faça sentido como oposição. Minha impressão é que ficamos mais expostos a estados melancólicos, não necessariamente como quadros clínicos clássicos, mas como modos de relação com o mundo em que a perda não encontra elaboração suficiente, seja pela cobrança da produtividade ou dos ideais inalcançáveis. Pensar essas categorias de pulsão separadamente me parece pouco útil. O que importa é como essas forças se combinam em cada situação. O desligamento vai acontecer, perdas são inevitáveis. A questão é o que se faz com isso. Quando há possibilidade de simbolizar, compartilhar e dar forma, o processo anda, mesmo que doa. E hoje talvez a pergunta mais honesta não seja qual pulsão está atuando, mas em que condições ainda é possível sofrer sem se desmontar inteiro.