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O Método Psicanalítico de Freud

O Método Psicanalítico de Freud

Por Celso Augusto Alberti -

Até este momento, pudemos definir o que é o esquecimento e como acontece; chegamos à definição do que é o inconsciente, como se forma e como é acessado; e redatamos sobre as primeiras formulações do tratamento psicanalítico. Agora, neste breve ensaio, vamos discorrer sobre o método psicanalítico proposto por Freud, numa compilação dos seus artigos técnicos.

Freud postulou que a psicanálise não é somente uma teoria sobre o funcionamento psíquico, mas um método clínico específico cujo objetivo é tornar conscientes os conteúdos inconscientes que produzem sofrimento, repetições e sintomas. Esse método se caracteriza pela prática rigorosa de investigação e elaboração psíquica, não com o propósito de suprimir diretamente o sintoma como um fenômeno isolado, mas intervir na dinâmica que o produz. Freud nos propõe que o tratamento deve alcançar as causas psíquicas inconscientes do conflito além dos seus efeitos aparentes.

O método tem como ponto de partida a ideia de que os sintomas neuróticos, os lapsos, os sonhos, as inibições e as repetições não são acontecimentos sem sentido. Ainda que de forma distorcida, eles expressam desejos, lembranças, fantasias e conflitos recalcados. Por isso, o objetivo do tratamento psicanalítico consiste em levar o paciente a reconhecer e elaborar aquilo que estava inconsciente, mas insistentemente atuante. Freud não concebe a cura como simples desaparecimento do sofrimento, mas como ampliação da capacidade do sujeito de lidar com as exigências pulsionais, com a realidade e com os conflitos internos. Em sua formulação, o tratamento busca fazer com que haja maior apropriação psíquica por parte do sujeito onde antes havia domínio do inconsciente recalcado.

Para atingir esse objetivo, Freud propõe um binômio técnico fundamental: a regra da associação livre e a atenção flutuante. Nos seus ensaios técnicos, ele postula que o paciente deve ser convidado a dizer tudo o que lhe vier à mente, sem seleção, censura ou preocupação com ordem, sentido, relevância ou decoro. Essa regra é essencial porque contorna a tendência de o consciente organizar o discurso de forma lógica e defensiva. Quando o paciente fala livremente, aparecem interrupções, hesitações, esquecimentos, mudanças bruscas de tema, repetições e associações aparentemente sem nexo, fuga das sessões, e é justamente aí que o analista encontra os indícios dos conflitos inconscientes. Dessa forma, o método psicanalítico funciona abrindo espaço para que o próprio inconsciente se manifeste por meio das falhas e deformações do discurso e comportamento.

Porém, o analista tem que cumprir sua parte. Se por um lado o paciente deve cumprir com a associação livre, o analista deve manter a atenção flutuante. Enquanto o paciente é orientado a dizer tudo o que lhe vier à mente, o analista deve escutar sem privilegiar antecipadamente nenhum elemento, evitando selecionar o material segundo suas próprias expectativas. É a partir dessa escuta, sustentada pelo material trazido pelo paciente, que a interpretação pode aparecer como uma intervenção importante. O analista procura reconhecer, por trás do conteúdo manifesto, os encadeamentos inconscientes que organizam os sintomas, fantasias e modos de sofrer. No entanto, a interpretação não funciona sozinha nem deve ser um ato arbitrário; ela deve ser construída a partir do próprio material do paciente, respeitando o tempo do tratamento e as resistências em jogo. O analista não apresenta uma verdade pronta vinda de fora, e sim ajuda o paciente a estabelecer ligações entre elementos dispersos de sua vida psíquica. O método não é operado por aconselhamento moral nem por sugestão, mas por uma escuta sustentada pela associação livre, pela atenção flutuante e, quando possível, por intervenções interpretativas apoiadas na própria experiência analítica.

Entretanto, Freud observa que o acesso ao inconsciente não ocorre de forma linear. O paciente não apenas ignora certos conteúdos; ele também se defende ativamente contra eles. Daí a importância decisiva do conceito de resistência. Em Recordar, repetir e perlaborar, Freud mostra que aquilo que foi recalcado tende a retornar não só como lembrança, mas como repetição. Objetivamente, o paciente não recorda o conflito; ele o revive, o encena e atua na relação com o analista e em sua própria conduta. Por isso, o tratamento não consiste simplesmente em “lembrar o passado”, mas em reconhecer, dentro do processo analítico, a maneira pela qual esse passado continua operando no presente. O método psicanalítico funciona justamente ao transformar a repetição inconsciente em material de análise.

É nesse ponto que a transferência se torna o instrumento clínico de grande importância. Em A Dinâmica da transferência e Observações sobre o amor transferencial, Freud demonstra que o paciente desloca para a figura do analista sentimentos, expectativas, temores e desejos originalmente ligados a figuras importantes da sua infância. A transferência não é um obstáculo acidental. Na verdade, é algo esperado e até necessário ao tratamento, porque abre caminho para tornar atual o conflito inconsciente. Aquilo que o paciente viveu em outras relações reaparece diante do analista com outra roupagem. Dessa forma, o método psicanalítico se vale desse fenômeno para tornar visível aquilo cuja tendência é manter-se oculto. A neurose comum do paciente é, por assim dizer, substituída por uma “neurose de transferência”, mais acessível ao trabalho clínico.

Importantíssimo ressaltar que o trabalho do analista consiste em sustentar essa situação sem satisfazer diretamente as demandas transferenciais nem recuar diante delas. Em Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, Freud é veemente em estabelecer que o analista deve manter essa atitude de atenção flutuante e preservar a reserva afetiva, evitando ocupar para o paciente um lugar de gratificação, autoridade moral ou direção prática da vida. Daí podemos dizer que o método analítico exige que o conflito apareça e possa ser elaborado, e não encoberto por consolo, conselho ou sugestão. O analista não deve substituir a atividade psíquica do paciente pela sua própria; mas favorecer as condições para que o paciente trabalhe psiquicamente.

Freud dá a esse trabalho o nome de perlaboração. Não basta interpretar uma vez para que o conflito desapareça. O paciente precisa atravessar repetidamente as resistências, voltar ao mesmo ponto sob diferentes formas, suportar os afetos penosos e integrar pouco a pouco aquilo que antes era recusado. A perlaboração é o processo pelo qual a interpretação deixa de ser uma compreensão apenas intelectual e se transforma em modificação efetiva da vida psíquica. É ela que permite ao sujeito ter conhecimento sobre seu conflito e reposicionar-se diante dele.

Concluindo, podemos sintetizar o método psicanalítico proposto por Freud como um processo clínico em que a associação livre do paciente e a atenção flutuante do analista sustentam o trabalho analítico, ao lado da análise das resistências, do manejo da transferência, da interpretação e da perlaboração, para tornar consciente o inconsciente e elaborar os conflitos recalcados. Seu objetivo terapêutico consiste em produzir uma transformação mais profunda da psiquê, na qual o sujeito deixe de ser conduzido por forças que desconhece e possa, em grande medida, ampliar sua liberdade interior antes contida por conteúdos que se impunham de forma estranha e compulsiva. Em seus artigos técnicos, Freud mostra com clareza que a psicanálise é um trabalho de verdade e elaboração, que busca fazer com que o sujeito possa reconhecer em si aquilo que antes o dominava sem que ele soubesse.