Por Bárbara Silvestre -
E se eu te dissesse que os sonhos que você tem enquanto dorme são realizações disfarçadas dos seus desejos mais profundos e reprimidos? Ainda, que tais sonhos são formações psíquicas significativas para o processo de autoconhecimento e não, fenômenos aleatórios e sem sentido. Talvez, você poderia rebater o meu argumento me relatando algum sonho aparentemente desconexo e solicitando a interpretação simbólica de tal sonho, ou até mesmo, questionar Morpheus, os oráculos, adivinhos religiosos a fim de encontrar qual a mensagem espiritual dos deuses por de trás daquele pesadelo? Se você for uma alma mais inclinada à ciência e os seus métodos científicos, poderá rebater a minha afirmação escoltado pelas mais diversas teorias neurocientíficas. Verdade seja dita, pouco importa a abordagem para se chegar à conclusão de que os sonhos são um mistério que intriga e movimenta a busca pelo seu conhecimento durante os séculos da civilização.
Nesta breve dissertação eu não pretendo te convencer desvendar os mais profundos segredos do ato de sonhar, nem te fazer abandonar os seus pontos de vista e predileções. Inclusive assumo, meu caro leitor, que exauri meses de estudo e reflexões para te contar o que vem a seguir nessas palavras e, ainda assim, não sei ao certo se alcancei um epílogo pessoal sobre o assunto. Mas eu sei de uma coisa. O que aprendi esses meses que passaram me abriram uma infinidade de novos caminhos para trilhar e conhecer. E sei, principalmente, que ainda que modestamente, um conhecimento só é significativamente válido quando é compartilhado. Por isso, hoje compartilho com você a visão de Freud sobre a Interpretação dos Sonhos.
Para o nosso teórico, os sonhos são uma via privilegiada para se ter acesso ao inconsciente e devem ser material para o processo de análise. Fugindo dos significados simbólicos universais e fixos na sua interpretação, Freud defende que a decodificação dos sonhos é um processo realizado pelo próprio sonhador a partir da associação livre das ideias no momento da análise que, com auxílio do psicanalista, pode descobrir como os elementos dos sonhos se conectam a sua própria história psíquica. Nesse sentindo, ao relatar o conteúdo manifesto do sonhos (isto é, a parte do sonho que é lembrada pela consciência e que, normalmente, se apresenta confusa, ilógica, simbólica e fragmentada) o sonhador pode alcançar o seu conteúdo latente (que diz respeito aos desejos recalcados e inconscientes que deram origem ao sonho). Por isso, a verdade por de trás do sonho só pode ser significada pelo próprio sonhador e sua história pessoal regressa.
Entretando, encontrar o significado do sonho é um trabalho árduo. Afinal, enquanto realização de desejos que são reprimidos, tende a dizer respeito a aspectos e predileções da vida psíquica do sujeito que são delicados, dolorosos, vergonhosos. E, como tal, estão recalcados no inconsciente, ansiando pelo não lembrar em sua totalidade. Por isso, os sonhos são formados por elaborações primárias que buscam satisfazer tais desejos reprimidos, mas de uma maneira disfarçada que seja prazerosa (e não traumática) ao sonhador. Ora, essa elaboração primária diz respeito ao processo psíquico de transformar os pensamentos latentes em um filme vivenciado durante o sonhar, realizando uma espécie de catarse cerceada pelos mecanismos de defesa, como o deslocamento e a condensação. Esses mecanismos contribuem para tornar os sonhos difíceis de decifrar, enigmáticos e aparentemente sem sentido, camuflando seus conteúdos latentes a fim de evitar que sejam identificados pela consciência. O deslocamento é o processo responsável por transferir a importância dos aspectos que aparecem no sonho, ou seja, os elementos que deveriam ser centrais no sonho por dizerem respeito aos desejos reprimidos, aparecem para a consciência do sonhador como meros detalhes insignificantes, enquanto o que não é importante por não dizer respeito ao conteúdo latente recebe todos os holofotes e atenção psíquica, se tornando um conteúdo manifesto. A condensação, por sua vez, é o mecanismo de defesa responsável por sobrepor, fundir e metaforizar os elementos dos sonhos em um único símbolo de difícil decifração para a consciência do sonhador, obscurecendo e confundindo o conteúdo latente. Ao acordar, o sonhador começa um processo de elaboração secundária. Isto é, a busca consciente pela organização lógica do sonho e seus possíveis significados. Nesse sentindo, o conteúdo latente que foi deslocado e condensado para enganar a consciência, é efetivamente protegido por tais mecanismos de defesa a partir da tentativa do sonhador em reorganizar os elementos do sonho de maneira racional mas, sem ter a consciência do que é latente.
Assim, as implicações clínicas do processo de interpretação dos sonhos exigem do analista plena atenção as incongruências do conteúdo manifesto pelo analisado, buscando desconstruir a narrativa produzida pela elaboração secundária a partir da técnica da associação livre das ideias, tornando possível ao paciente ter acesso aos conteúdos latentes e desejos reprimidos que deram origem ao sonho.
É importante ressaltar, querido leitor, que A Interpretação dos Sonhos, de Freud, é mais do que uma obra que almeja desvendar os mistérios psíquicos dos sonhos. Leal à construção lógica e rigorosa de sua teoria psicanalítica, Freud demonstra aspectos análogos entre a maneira como os sonhos são formados na psiquê humana e o modo com que o inconsciente e os processos psíquicos operam. O consciente diz respeito aos conteúdos que o sujeito tem consciência, ou seja, o que ele compreende da realidade externa e sobre si mesmo. Os conteúdos que estão fora da consciência do indivíduo são divididos em outros dois processos psíquicos: o pré-consciente é responsável por armazenar os conteúdos sem grande carga afetiva, que podem facilmente emergir para a consciência ao receberem atenção do sujeito; por outro lado, o inconsciente desconsidera a realidade, dizendo respeito aos conteúdos que não tem acesso a consciência por manifestarem grande carga afetiva. O consciente e o pré-consciente estão inclusos na lógica temporal e operam de maneira progressiva, significando que, em um estado de vigília, as impressões são percebidas através do sistema perceptual do sujeito, que criam uma serie mnemônica e ganham acesso à motividade. O inconsciente e os processos oníricos são análogos porque não estão inclusos à lógica temporal e operam de maneira regressiva. Neste sentido, a energia psíquica flui por um sentido oposto ao dos pensamentos que possuem acesso à consciência. Nos sonhos, as series mnemônicas e os conteúdos latentes almejam romper o pré-consciente para terem acesso à motividade, entretanto, os mecanismos psíquicos de defesa retornam regressivamente esses conteúdos para o sistema perceptual do sujeito que constrói uma estória com enredo, imagens, sons e etc., podendo vivenciar sensações e experiências parecidas com o que poderia vivenciar se estivesse no estado de vigília e tivesse acesso a motividade. Ora, esse movimento regressivo é o movimento que a mente faz para dentro de si própria e, no que diz respeito ao inconsciente, encontramos os conteúdos recalcados sendo barrados pelas censuras e resistências do sujeito, a fim de evitar que tenham acesso a consciência.
Deste modo, Freud conclui que tanto os sonhos, quanto os sintomas neuróticos e até mesmo os processos de transferência são fenômenos que revelam um mesmo padrão psíquico: o confronto entre os conteúdos recalcados para o inconsciente e a censura do pré-consciente que almeja barrar o acesso à consciência. É nesta perspectiva que Freud reitera o processo terapêutico psicanalítico como sendo tornar consciente ao sujeito os seus conteúdos recalcados, para além dos fenômenos de suas possíveis manifestações.
Num primeiro momento, o diálogo interdisciplinar que brevemente tento semear nesta introdução pode parecer uma grande construções de linhas paralelas entre a psicanálise, os métodos neurocientíficos, os questionamentos filosóficos, as simbologias mitológicas e as crenças religiosas. Neste contexto, a busca pela interpretação dos sonhos
apenas comunga enquanto objeto de estudo e qualquer tentativa para além disso é incongruente em sua manifestação lógica. Entretanto, para os leitores que adquiriram a técnica de saber ler as entrelinhas, será perceptível o conteúdo aqui latente. Para além da interpretação dos sonhos, no que diz respeito aos mistérios de suas formações, há um ponto de convergência. Sejam realizações de desejos inconscientes, processos químicos, devaneios, revelações divinas ou, até mesmo, a nobre visita de Morpheus, é impossível desassociar o sonho do seu sonhador. Cada ato de sonhar é único e intransferível e manifesta particulares do seu ser criador. Em última instância, a interpretação dos sonhos é a busca pela interpretação do sonhador. É um processo de conhecimento do ser humano enquanto sujeito único. É, também, a ânsia pelo autoconhecimento. É a tentativa de observar o que se encontra por de trás do Véu de Ísis.
