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Desvendando o "Estado de Mente de Fé" de Bion

Desvendando o "Estado de Mente de Fé" de Bion

Por Mauro Costa - 

Como assim, sem memória?

 Para muitos psicanalistas, o primeiro contato com as ideias de Wilfred Bion pode ser resumido na pergunta intrigante: "Como assim, sem memória?".

Se essa pergunta não ecoou na sua cabeça, talvez com um leve tom de pânico e uma sobrancelha arqueada, ao se deparar com Wilfred Bion, parabéns, você é uma raridade ou talvez já tenha feito uso do "tetra fármaco" bioniano sem perceber.

Longe de construir um castelo de teorias rígidas, Bion dedicou-se a pensar no psicanalista, oferecendo um conjunto de ideias para refinar e ampliar nossa capacidade de realizar a tarefa analítica.

No cerne de sua obra está o que ele denominou "Estado de Mente de Fé do Analista". Este estado é sintetizado em uma recomendação que, à primeira vista, pode soar como um mantra ou um "tetra fármaco" desafiador: o analista deve buscar atuar na sessão sem memória, sem desejo, sem compreensão e sem evidência dos sentidos.

Mas por que abrir mão de faculdades mentais tão essenciais?

A reação inicial a essa proposta é, frequentemente, de estranhamento, costuma ser uma mistura de "não entendi patavina" com "esse sujeito só pode estar de brincadeira". Afinal, memória, desejo e compreensão são considerados pilares da nossa cognição e interação com o mundo. A sugestão de Bion de suspender essas faculdades parece contraintuitiva, quase ilógica.

Por conta disso, alguns psicanalistas, sejamos honestos, arquivam Bion na gaveta do "complicado demais, deixa pra lá" ou até acham a ideia... hilária. E tudo bem, rir é o primeiro passo para não chorar de desespero ou de epifania, a linha aqui é tênue.

Para começar a decifrar esse estado de mente de fé, é crucial saber que Bion é cirúrgico no uso da linguagem. Aqui ele usa essas palavras como um contrabandista de significados, ou seja, emprega termos técnicos, disfarçados de palavras do dia a dia.

Então, não se trata de induzir amnésia, apatia ou uma recusa em pensar. Pelo contrário, essas recomendações devem ser compreendidas como uma disciplina mental ativa, um ideal a ser buscado, e não uma descrição literal de um estado a ser permanentemente alcançado. 

O objetivo principal desse "Estado de Mente de Fé" é criar as condições para que o analista possa entrar em contato com o desconhecido – o que Bion chama de "O" – e, assim, favorecer transformações autênticas no paciente. Trata-se de uma aproximação mais intuitiva e menos saturada pela razão e pelo conhecimento prévio.

Vamos explorar o significado técnico de cada componente dessa recomendação, diferenciando-o da interpretação literal:

Sem Memória:
Não significa esquecer o paciente, sua história ou os fundamentos teóricos. Não é um estado de amnésia.
Significa, tecnicamente, suspender o apego à memória como um registro fiel e imutável do passado. Evitar usar a memória para prever o futuro de forma determinística ou para explicar o presente de maneira causal e fechada. O objetivo é abrir-se à singularidade do momento presente da sessão, permitindo que novas configurações e compreensões surjam, em vez de encaixar o paciente em narrativas pré- oncebidas.

Sem Desejo:
Não significa falta de interesse, de investimento libidinal no trabalho ou de compromisso com o paciente. Não é ser apático e também não é para virar um vegetal desinteressado ou torcer secretamente para o paciente faltar.
Significa, tecnicamente, ser capaz de suspender desejos específicos que podem obstruir a escuta genuína. Isso inclui o desejo de "curar" de forma diretiva, de "ajudar" segundo as próprias concepções do analista, de "ser um bom analista" e ter isso reconhecido, de "ter sucesso" ou qualquer outro anseio que possa direcionar o processo analítico para longe do que emerge autenticamente do paciente. É renunciar a controlar ou direcionar o processo terapêutico.

Sem Compreensão:
Não significa ser ignorante, estúpido ou abdicar da capacidade de pensar. Também não se trata de desligar o cérebro, abraçar a ignorância ou responder "sei lá" para tudo, embora, às vezes, um "sei lá" honesto seja melhor que uma certeza fabricada.
Significa, tecnicamente, suspender a ânsia por uma compreensão imediata e fechada. É resistir à tentação de encaixar rapidamente o material do paciente em teorias conhecidas ou de formular explicações conclusivas de forma prematura. Trata-se de tolerar a incerteza e o nãosaber, permitindo que uma compreensão mais profunda, original e construída no encontro possa emergir ao longo do tempo.

Sem Evidência dos Sentidos, ou melhor, "Com Evidência Mínima dos Sentidos":
Não se trata de negar a percepção sensorial ou ignorar o que se vê e ouve. Não é para tapar os ouvidos e fechar os olhos. Bion não estava sugerindo uma sessão de privação sensorial digna de um retiro espiritual radical.
Significa, tecnicamente, desvalorizar a percepção sensorial como a fonte primária ou única da "verdade" na sessão. É confiar menos no que é literalmente observado ou ouvido e mais na intuição e na percepção da experiência emocional subjacente – aquela que muitas vezes não
é diretamente observável pelos sentidos, mas que se manifesta nos afetos e na atmosfera da sessão.

Vale ressaltar, que é fundamental reafirmar: o "Estado de Mente de Fé" não é um estado definitivo ou um fim a ser alcançado de forma estática. Ele exige um "exercício ativo de renúncia disciplinada" das ferramentas que, embora úteis na vida cotidiana, como a memória causal, o desejo de controle, a busca por compreensão rápida e a confiança primária nos sentidos; podem saturar o campo analítico.

Por fim, adotar essa postura bioniana se traduz em envidar um esforço constante, manter uma direção. Aqueles que se dispõem a explorar esse "mantra" embarcam em uma jornada corajosa, muitas vezes com mais dúvidas do que certezas, mas isso também pode ser encarrado como um convite potente para uma escuta mais profunda e, quem sabe, uma prática analítica menos previsível e muito mais viva.