Por Juliana Macedo Malassise -
Imperfeição, caos. O puerpério é sinônimo de desafio, exaustão, solidão. Meu Self foi dilacerado frente a um amor infinito, vulnerável, dependente. A vontade de desistir, de aquietar, a pulsão de morte, encontra o paradoxo de ser responsável pela sobrevivência do outro. Do outro que é você. O outro que inspira todos os dias. Que ergue, que dá forças, que transforma. Sou suficientemente boa? Não sei. A maternidade é sinônimo de insuficiência, de erros. E neste cenário, sugerido por Winnicott, onde o pai é genitor, a mãe contemporânea estará sempre distante do que sugere este conceito psicanalítico. Afinal o suficientemente boa, descrito nos textos, é milimetricamente dosado por Winnicott, é utópico.
Treino é treino, jogo é jogo. O aprendizado na maternidade acontece no convívio, no fazer. Cada bebê, cada criança, é um indivíduo completo e repleto de particularidades. Em cada mês do desenvolvimento humano, os desafios mudam. A agressividade primária do bebê onipotente, que testa seu ambiente e suas condições de sobrevivência é cruéis com quem cuida. A mãe se sente fora da zona de conforto, ruim, incapaz. A autoestima baixa, o superego exaltado, vem do julgamento social, das imposições, das múltiplas jornadas, da perfeição sugerida pelas redes sociais e pelos livros. Se antes ser uma mãe suficientemente boa bastava, hoje a mulher deve ser suficientemente profissional, suficientemente bonita, suficientemente jovem. As cobranças não acabam. Elas controlam o poder feminino apagado pela sobrecarga. A mulher é coroada como a principal responsável pelo equilíbrio do ambiente favorável, no qual a família está estabelecida. Sua coroa é sua prisão. E enquanto isso o patriarcado reina. Neste cenário onde só a mãe cuida, me pergunto: quem cuida da mãe?
O que é ser normal? O que é uma família normal? O que é um ambiente favorável? Muitos padrões e estereótipos errôneos podem surgir da “normalidade” sugerida por Winnicott, é necessário discernimento. Quando elaboramos sobre políticas públicas que devem garantir os direitos da criança e do adolescente, e refletimos a diferença que um bom ambiente pode trazer para o desenvolvimento, cognição e vida psíquica infantil, os conceitos de “ambiente favorável” e já ampliando o vértice “a família suficientemente boa” são úteis. No entanto, como mãe, é normal temer uma leitura literal que reduza a parentalidade moderna novamente a responsabilidade da mulher. Convido os leitores de Winnicott, ao lerem a palavra “mãe”, refletirem na busca de conceitos mais amplos que se encaixem à sua realidade e dinâmica familiar. E convido as mães, ao lerem Winnicott, a repensarem sua culpa inevitável vinda da leitura. Seu amor incondicional e a demonstração através da vivência com seus filhos, é sua principal arma para a saúde física e mental destas crianças. A perfeição está longe de ser a resposta, já que segundo o próprio Winnicott, a falha gradual materna faz parte da formação da autonomia, da individualidade e do Self real e autêntico que renuncia a onipotência.
No meu maternar me contento com a insuficiência, com o erro. Com o amparo e a solidariedade a mim mesma, e aos meus defeitos como mãe e como pessoa. Admiro meu Self que se desespera buscando outros pilares além da maternidade, e que grita por uma sociedade que não despeje na mulher e na mãe toda a responsabilidade pelo cuidado familiar. A mãe suficientemente boa, e o ambiente favorável devem ser parte da realidade viva, e a realidade é composta de defeitos. Defeitos que integram e formam a nossa identidade real, o Self verdadeiro.
