Nyx, Hypnos e Morfeu... Interpretando sonhos
Por Marcio Carvalho -
“Dorme, filho de Atreu, domador de cavalos, mas não dormem os conselhos de Zeus, que muito te ama. Manda-me ele, que do alto do Olimpo cuida de ti com benevolência, para dizer-te que deves armar imediatamente os fortes aqueus, pois agora poderá tomar a cidade dos troianos. Os imortais que habitam o Olimpo já não estão mais divididos em suas vontades. Hera conseguiu persuadi-los a todos. A sorte dos troianos está selada. Toma esta palavra a peito e não a esqueças.”
O trecho acima está contido nos versos 1 a 34 do Livro II da Ilíada de Homero. Nesta obra, Agamêmnon tem um sonho premonitório, mas enganoso, enviado por Zeus que desejava, na verdade, destruir os Aqueus, um dos principais povos da Grécia antiga.
Os estados oníricos, até bem próximo da obra magna de Freud, “A interpretação dos sonhos” de 1900, eram majoritariamente interpretados como uma mensagem externa, fosse ela sobrenatural, profética ou divina. Na antiguidade, vários foram os autores que conferiram aos sonhos tais qualificações. Heródoto, Historiador grego do século V a. C., atribuiu funções premonitórias e moralizantes aos sonhos dos Reis Xerxes, da Pérsia, e Creso, da Lídia, durante os seus confrontos pelo poder. Eurípedes, Ésquilo e Sófocles, poetas e – ou dramaturgos gregos interpretavam os sonhos como manifestações do além, geralmente agregando ao sonhado algum sentimento de culpa. No século II d.C., Cláudio Galeno, médico e filósofo de origem grega, liga os processos oníricos ao corpo e à saúde conferindo-lhes uma aura clínica. Santo Agostinho de Hipona em sua obra Confissões, do séc. IV, interpreta os sonhos como manifestações da alma, unindo-os à Deus e ao pecado. Já para Dante Alighieri, poeta florentino do século XIV, os sonhos seriam revelações místicas e espirituais, não devendo ser caracterizados
como fenômeno psíquico único. Em todas estas situações, conforme demonstrado, os estados oníricos eram interpretados como uma manifestação eminentemente heterônoma do ser humano.
É na idade das luzes ou “Iluminismo” que se iniciam as mudanças de pensamento que nos conduzem às interpretações atuais sobre a dinâmica dos sonhos. O momento pré-psicanalítico moderno onde o sonho começa a ser visto como uma representação psíquica, simbólica e pertencente ao mundo interior de cada indivíduo passa por Montaigne, Descartes, Voltaire, Diderot e muitos outros pensadores modernos. Cabem a Carl Gustav Carus, médico, anatomista, filósofo e pintor alemão, no entanto, as primeiras observações que revolucionariam a interpretação dos sonhos. Para Carus, a maior parte da atividade da alma seria inconsciente, sendo esta partição da mente humana a base da nossa vida psíquica. Nossos sonhos seriam uma expressão, pois, deste âmago profundo. Os processos oníricos deveriam ser considerados, desta forma, como símbolos da interioridade psíquica, representando janelas para o oculto. Por fim, o mesmo Carus afirmava que os sonhos utilizariam imagens oníricas, poéticas e simbólicas para a manifestação de conflitos, desejos e experiências do homem.
A visão de Freud era distinta daquela fornecida por Carus, pois, para o psicanalista austríaco, nos primórdios de suas observações, o inconsciente era um sistema estruturado de desejos reprimidos. Talvez por desejar firmar a psicanálise como uma ciência empírica da mente e não como uma parte da tradição médico-filosófica romântica ou idealista da Alemanha, Sigmund Freud tenha se afastado propositalmente de Carl Gustav Carus, considerando-o, assim, um filósofo especulativo. A identificação positiva de Freud se alinhava principalmente com Artemidoro de Daldos, escritor grego do século II d.C. que foi o primeiro a formular a hipótese de que os sonhos representavam uma linguagem simbólica natural sendo, desta forma, passíveis de decifração regular e sistemática. Freud escreveu: “Artemidoro é, a meu ver, de todos os autores antigos sobre sonhos, o único digno de interesse.” Aristóteles foi outro dos autores enaltecidos por Freud. Contrapondo-se ao psicanalista austríaco, Carl Jung, em sua obra “Tipos Psicológicos” de 1921, afirma, no entanto, que “A ideia de um inconsciente como fundamento da vida anímica teria sido expressa de forma clara e sistemática por Carl Gustav Carus.” O psicanalista suíço e ex-discípulo de Sigmund Freud – a ruptura ocorreu em 1913 – termina por dar o devido valor e reconhecer a real importância deste autor para o nosso melhor entendimento do aparelho psíquico humano.
Para a psicanálise, o sonho não é um produto aleatório do nosso aparelho psíquico. São, na verdade, estruturas notoriamente complexas, enigmáticas, mas passíveis de interpretação, pois representam a realização disfarçada de um desejo inconsciente, repressões, traumas e ou conflitos que foram obrigados a escapar à consciência. É de William Shakespeare, em “A Tempestade”, a citação de que “Somos feitos da mesma matéria que os sonhos”. Sigmund Freud postulou que os sonhos devem ser considerados a via régia para o inconsciente, sobretudo porque nossas defesas e censuras encontram-se atenuadas durante o estado de adormecimento. A formação de um compromisso entre o desejo inconsciente e a censura imposta pelo Superego de um indivíduo será a base para a criação de uma estrutura onírica camuflada pelo forte emprego de imagens e símbolos. Nesta elaboração, podem ser aproveitados fragmentos do estado de vigília e memórias oriundas da nossa infância e juventude. A parte lembrada e narrada pelo sonhador, mais fresca ao acordar, representa seu conteúdo manifesto. Já os significados ocultos e os desejos inconscientes que deram origem ao sonho estarão contidos em uma partição onírica intitulada de conteúdo latente. A partir da primeira, buscaremos compreender a segunda através, principalmente, de uma análise paulatina e fragmentada por blocos e do uso da livre associação. Gáston Bachelard, filósofo francês, disse que “O sonho é o teatro onde o sonhador é ao mesmo tempo o palco, o ator, o diretor, o público e o crítico do espetáculo”. Adicionalmente, lembremo-nos que o sonho também opera como um guardião do sono, impedindo-nos de despertar.
Ninguém afirmou que a tarefa de desvendar os sonhos seria fácil. Mas também não se trata, por outro lado, da reedição do Mito de Sísifo e sua correlação com trabalhos repetitivos e impossíveis. Com o objetivo de driblar a censura psíquica que se opõe à manifestação das representações ligadas a um dado desejo, a mente humana lança mão de recursos para distorcer e disfarçar o impulso que determinou a formação do estado onírico.
Condensação, Deslocamento, Dramatização, Simbolização e Elaboração Secundária, são as principais escaramuças empregadas pelo nosso inconsciente para driblar as defesas internas contra a sua expressão. Antes de conceituarmos todos estes termos, no entanto, remarquemos que “Todos os sonhos têm o sonhador como centro. Os sonhos são absolutamente egoístas”, conforme afirmou Freud. Segue, a partir de agora, uma síntese dos principais trabalhos oníricos:
Trabalho do Sonho - Definição e Objetivo Principal
Condensação - Vários pensamentos ou desejos inconscientes se fundem em uma imagem ou elemento onírico.
Deslocamento - Transferência da carga afetiva ligada a um conteúdo relevante para um elemento de menor significância.
Dramatização - Pensamentos abstratos são convertidos em imagens sensoriais ou narrativas visuais, como cenas teatrais.
Simbolização - Transformação de desejos, traumas ou conflitos inconscientes em imagens ou ações simbólicas.
Elaboração Secundária - Conferência de ordem e aparência lógica ao conteúdo onírico.
Prezado leitor, realizemos juntos que o sentimento individual de plenitude pode ser encarado como uma verdadeira fantasia narcísica. O escritor argentino Jorge Luís Borges afirmou que não há um “Eu”, mas o cruzamento de infinitas histórias que o habitam. Ninguém se tornará iluminado imaginando figuras de luz, da mesma forma que a leitura de cardápios de restaurantes não será capaz de saciar a fome humana.
Como disse Lacan, “não há sujeito plenamente transparente a si mesmo”. Nossa consciência é um palco iluminado por um facho de luz rodeado de sombras e é numa destas secções opacas que reside o nosso inconsciente. Como sabemos, é atributo deste mesmo inconsciente querer sempre se manifestar, não obstante as ferramentas empregadas para que consiga alcançar tal objetivo. Sonhos representam, pois, instrumentos de menor resistência às emissões desta partição do nosso aparelho psíquico.
Parafraseando Jung, sonhos não mentem; são símbolos puros, vivos e genuínos da alma humana. São resultado de uma função mental que transforma elementos brutos das nossas experiências emocionais em pensamentos propositalmente desorganizados e confusos. É através deles que o inconsciente envia toda espécie de fantasias, seres estranhos, terrores e imagens ilusórias à mente humana.
Seu adequado entendimento depende, portanto, de nos tornarmos conscientes da nossa escuridão anímica. A poetisa Cecília Meireles postulou que havia aprendido com as primaveras a se deixar cortar para voltar sempre inteira, uma boa metáfora para simbolizar o ofício psicanalítico. Lembremos: somos uma pergunta. Somos feitos de palavras que não dissemos. Somos feitos e refeitos diária e continuamente.
Conhecemo-nos na medida em que nós nos destruímos. Sigamos, pois, alguns grandes aforismas da humanidade: o primeiro, pertencente à entrada do Oráculo de Delfos, Templo de Apolo, “Conhece-te a ti mesmo”; o segundo, de Friedrich Nietzsche em “Assim falava Zaratrusta” – “Torna-te quem tu és”. Deixe-se ser conduzido e mergulhe, pois, nas profundezas da sua mente, no seu próprio inconsciente. “Conhece-te ou te devoro”, diria a você, prezado leitor, a Esfinge de Tebas.
O último parágrafo contém citações adicionais de Clarice Lispector, Marguerite Duras, Virginia Woolf e Georges Bataille.