Por Karen Rodrigues A. Chaves -
O inconsciente, a sexualidade, o princípio do prazer, a teoria das pulsões e a noção do aparelho psíquico já eram a base da técnica psicanalítica de Freud, quando ele percebeu que o aparelho psíquico era mais amplo do que se pensou inicialmente.
Freud sentiu a necessidade de aprofundar a teoria para poder explicar os fenômenos psíquicos que não conseguia com a primeira tópica. Surge então a segunda tópica.
Na primeira tópica o princípio do prazer era o recalque, e o objetivo era tornar consciente o inconsciente, com o prazer ligado a descarga, com um aparelho psíquico mecanicista e com o inconsciente muito ligado ao reprimido.
Quando ele instituiu a segunda tópica, já estava convencido do papel decisivo das pulsões de vida e de morte, por isso o objetivo passa a ser o de se ter controle das suas pulsões. É quando ele percebe a necessidade de rever a sua teoria pulsional diante de pacientes com traumas de guerra, nos quais não se encaixava mais a teoria na qual as pulsões buscavam apenas o prazer. Em Além do Princípio do Prazer (1920) ele traz a compulsão, a insistência no desprazer, o levando a rever sua teoria e modelo econômico.
Considerando a pulsão de vida - a busca pela satisfação e pela sobrevivência, e a pulsão de morte - o retorno ao inorgânico onde se tem o estágio zero de tensão, ele estabelece o modelo estrutural do aparelho psíquico, formado por 03 instâncias: Id, Ego e Superego. Essa divisão começou a ser apresentada em Além do Princípio do Prazer (1920) e ganhou corpo em O Ego e o Id (1923).
A segunda tópica não substituiu a primeira mas mostrou que a mente não pode ser vista como compartimentos, com fronteiras demarcadas; mas como instâncias não fixas e que podem atuar de forma simultânea junto ao Ego, ao Id ou ao Superego.
A partir da segunda tópica o inconsciente deixou de ser tratado como um lugar, como uma parte da mente, e sim, como instâncias e qualidades. Essas instâncias interagem entre si, gerando a dinâmica da psique. A palavra inconsciente então ganha contornos de adjetivo.
O Id, que seria a instância que corresponde aos desejos, instintos, sendo o nosso grande reservatório de pulsões e nossa versão mais primitiva, já que no início nosso comportamento é determinado por impulsos. Ele não está atrelado a nossa realidade e o que ele busca é a descarga dos impulsos de vida e de morte. Ele representa a nossa animalidade.
O Ego, a instância que estrutura a personalidade e equilibra a psique, tentando regular as pulsões do Id e as exigências do Superego. Ele é a parte do Id modificada pela realidade e por isso ele se esforça para colocar o princípio da realidade no lugar do princípio do prazer, e, apesar de ser a instância que se liga à consciência dominando a descarga de emoções no mundo externo, sua gênese está no inconsciente.
É constituído por identificações, traços dos outros que trazemos para dentro de nós, construindo nossa personalidade. Uma etapa do desenvolvimento que é fundamental para a construção do EGO é o narcisismo, tratado por Freud no texto "Uma Introdução ao Narcisismo (1914)". Nele o indivíduo se concentra em sua própria imagem e corpo, sendo vital para desenvolvimento do seu senso de identidade e autoestima. Gradualmente ele deve migrar para escolhas objetais, se desprendendo do narcisismo primário.
O Ego começa a nascer quando percebemos que é impossível viver querendo apenas satisfazer os nossos impulsos, e que a realidade impõe limites. Ele ganha substâncias nas relações com as pessoas que convivemos, trazendo o enriquecimento do Ego.
O Superego é a instância que se forma a partir do Ego e consiste nos valores morais e culturais, e para Freud representava um residual das nossas primeiras escolhas, uma marca do complexo de Édipo, daquilo que é proibido.
No interior do Ego algumas identificações, como as que fazemos com nossos pais e cuidadores, são tratadas de forma diferente por ele e ganham uma importância maior. São essas pessoas que nos corrigem quando erramos, que ficam decepcionados quando falhamos. Essa internalização de características dos pais ou cuidadores é o que Freud chamou de Superego. Essa importância especial coloca o Ego em posição de subserviência, de submissão a esse conjuntos de traços de identificação.
Para Freud, ele é um resíduo das 1ª escolhas objetais do Id, e quanto mais forte tiver sido o complexo de Édipo mais intenso será o domínio do Superego sobre o Ego, como uma consciência moral.
A segunda tópica nos trouxe importantes avanços quanto ao funcionamento do aparelho psíquico, e consequentemente nos objetivos do tratamento analítico.
Na primeira tópica se considerava a localização da circulação pulsional, sendo o conflito pensado como retraimento ou investimento da libido do Ego ou objetal, e a patologia nasceria dessas articulações.
Mas no modelo estrutural apresentado na segunda tópica, a patologia nasce de um conflito entre as instâncias Id, Ego e Superego. Ele passa a considerar uma articulação estrutural apoiada na ligação e no desligamento das pulsões, que circulariam entre as instâncias, onde as pulsões de vida e de morte não seriam contraditórias, mas sim, funcionam unidas.
Quanto ao esquecimento, na primeira tópica ele é visto como um mecanismo de defesa que faz com que aquilo que indesejável ou doloroso fique no inconsciente, como em um sistema mental separado, e assim não acessado pelo consciente. Já na segunda tópica, o inconsciente é o reservatório do conteúdo esquecido, sendo o núcleo do recalcado pertencente ao Complexo de Édipo e a castração, e como Freud chama da Rocha da Castração.
O processo de esquecimento como resultado da interação entre as 03 instâncias, Id, Ego e Superego, e como essas instâncias transitam entre o consciente e o inconsciente, o esquecimento pode ser o resultado do conflito entre elas.
A forma como essas instâncias se desenvolvem é decisiva para a formação da personalidade, e entender o funcionamento ajuda a compreender a origem dos sentimentos, da culpa e da censura.
Para um funcionamento psíquico saudável é necessário que o Ego seja forte, conectado com a realidade externa, para entender que pode relativizar os desejos do Id e as regras do Superego.
Um Ego fraco constitui uma predisposição à neurose pois teme não atender o Id e também não atender as exigências do Superego.
Por isso o objetivo da psicanálise passa a ser o de fortalecer o Ego para que o indivíduo adquira a segurança necessária para sua autonomia, possibilitando que consiga levar em conta a realidade sem com isso temer o Id e o Superego.
